A
lacuna socioambiental do petróleo na Margem Equatorial
Quais
são os riscos socioambientais da exploração de petróleo na Margem Equatorial,
região que abrange a costa da Amazônia e parte do litoral do Nordeste? Uma
avaliação ambiental estratégica poderia ajudar a dimensionar os impactos e
orientar políticas públicas. Até agora, porém, o Brasil não realizou esse tipo
de estudo abrangente para a região antes de avançar com a busca pelo
combustível fóssil.
O nome
técnico desse estudo é Avaliação Ambiental de Área Sedimentar (AAAS),
instrumento definido em 2012 por uma portaria dos ministérios do Meio Ambiente
e Mudança do Clima (MMA) e de Minas e Energia (MME). Seu objetivo é subsidiar o
planejamento da oferta de blocos para exploração de petróleo e gás natural,
classificando as áreas como aptas, não aptas e em moratória (aquelas que
necessitam de mais estudos).
A
Margem Equatorial, que reúne cinco bacias sedimentares no Oceano Atlântico e se
estende do Rio Grande do Norte ao Amapá, é considerada a nova fronteira
brasileira para a exploração do combustível fóssil. Entre essas bacias está a
Foz do Amazonas, onde a Petrobras anunciou, em agosto, ter encontrado indícios
de petróleo no bloco FZA-M-59 (ou bloco 59), cuja viabilidade comercial e
volume acumulado ainda estão sob análise.
Para o
professor Luis Enrique Sánchez, da Escola Politécnica da Universidade de São
Paulo (USP), é justamente em áreas de fronteira que uma avaliação desse tipo
poderia ter maior contribuição. O pesquisador foi um dos autores do estudo
Planejamento do setor de óleo e gás e avaliação ambiental de área sedimentar,
do Observatório do Clima, publicado em 2021.
"Claro
que tem um planejamento empresarial da Petrobras, mas não um planejamento
governamental que deveria ou poderia encontrar formas de conciliar eventual
desenvolvimento dessa atividade com a proteção de recursos naturais, de
recursos ambientais e das populações locais, principalmente dos mais
vulneráveis. Esse planejamento não há", diz Sánchez.
<><>
Foz do Amazonas é área prioritária
Sem
esse estudo mais amplo, a indicação de blocos exploratórios tem início na
Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP). Essas áreas
precisam passar por diversas etapas de avaliação antes de serem oferecidas em
leilão, incluindo uma Manifestação Conjunta do MMA e do MME e análise dos
editais pelo Tribunal de Contas da União (TCU).
A ANP
afirmou à DW que as manifestações conjuntas incorporam avaliações dos órgãos
ambientais e podem estabelecer restrições, condicionantes e orientações para as
áreas ofertadas. A agência também destacou que editais e contratos passam por
consulta e audiência públicas, abertas à participação da sociedade.
Embora
a manifestação conjunta esteja prevista na regulamentação, o MMA considera que
ela não substitui plenamente a AAAS, sobretudo em regiões ambientalmente
sensíveis e pouco conhecidas. "Por isso, a Bacia da Foz do Amazonas está
entre as áreas consideradas prioritárias pelo MMA para a realização desse
estudo, especialmente antes de novas ofertas de blocos na região", afirmou
o ministério à DW.
Na
avaliação do MMA, a ausência de uma AAAS reduz a capacidade de avaliar, de
forma integrada e em escala regional, os efeitos cumulativos e sinérgicos da
expansão da atividade petrolífera. "A avaliação permite considerar
conjuntamente fatores como biodiversidade, correntes marítimas, sensibilidade
da zona costeira, unidades de conservação, territórios indígenas e comunidades
tradicionais, pesca e capacidade de resposta a acidentes."
O MME
não respondeu aos questionamentos da DW.
<><>
Descobertas e produção
Mesmo
sem esse estudo, a busca por petróleo tem avançado na Margem Equatorial. Em
junho, a ANP indicou mais 86 blocos exploratórios para serem estudados na
região e que poderão ser oferecidos em leilões.
Parte
deles, inclusive, está localizada numa nova área brasileira reconhecida, em
2025, por um órgão ligado à Organização das Nações Unidas (ONU). O
reconhecimento garantiu ao Brasil o direito de explorar mais 360 mil km² na
região, um território semelhante ao da Alemanha.
Até
agora, 51 blocos já foram leiloados na Margem Equatorial, segundo dados da ANP
compilados pela DW, a maioria na Foz do Amazonas. No 6º ciclo da Oferta
Permanente de Concessão, em outubro, outros oito serão oferecidos na bacia do
Ceará. Além disso, 416 estão em fase de estudo.
Atualmente,
cinco campos de petróleo estão em fase de produção na Margem Equatorial, todos
na Bacia Potiguar. Apenas dois, no entanto, produziram petróleo neste ano, em
quantidades pequenas, segundo o Boletim Mensal da Produção de Petróleo e Gás
Natural.
São
operações mais antigas e em águas rasas – com lâmina d'água de até 25 metros.
Bem diferente, por exemplo, do bloco 59, na Foz do Amazonas, onde a Petrobras
perfura em águas ultraprofundas, com quase 3 mil metros de profundidade.
Gigantes
do setor, como as americanas Exxon Mobil e Chevron e a chinesa CNPC, têm
outorgas na região, mas é a Petrobras quem lidera a abertura da fronteira. A
companhia brasileira prevê um investimento de 7,1 bilhões de dólares na procura
de petróleo nos próximos cinco anos, sendo a perfuração de 15 poços na Margem
Equatorial.
Quanto
ao bloco 59, a Petrobras comunicou à DW que ainda não há prazo para determinar
o volume da acumulação e sua viabilidade comercial. Essa análise também passa
pela perfuração de outros três poços, cuja licença foi concedida pelo Ibama no
início de setembro.
Se a
Petrobras considerar o projeto comercialmente viável, ainda será necessário
passar por um novo processo de licenciamento ambiental no Ibama. As estimativas
para uma eventual produção variam de cinco a dez anos.
Essa
não é a primeira descoberta na Margem Equatorial da Petrobras. Em 2024, a
empresa anunciou ter encontrado petróleo em poços na bacia Potiguar, onde ainda
está fazendo estudos de avaliação.
A
reportagem perguntou à Petrobras como a empresa avalia a ausência de uma AAAS.
A empresa lembrou que, nos casos em que há necessidade, cabe aos ministérios do
Meio Ambiente e Mudança do Clima e de Minas e Energia realizar o estudo. Também
destacou que um parecer do Ibama reconheceu não haver embasamento legal para
cobrar a realização do estudo.
Em
parecer de 2024 durante o processo de licenciamento do bloco 59, analistas
ambientais do Ibama disseram que o estudo não era obrigatório, mas a falta dele
dificulta a análise: "Tal condição pode representar, portanto, um risco
não devidamente dimensionado para a biodiversidade, para os modos de vida de
comunidades indígenas e tradicionais e outras atividades econômicas já
estabelecidas. Trata-se, inclusive, de um risco desnecessário, visto que o
instrumento que daria segurança técnica para a adequada tomada de decisão já
está regulamentado em normativa própria há mais de dez anos, carecendo apenas
de execução."
<><>
Não é obrigatória, mas importante
"Eu
costumo dizer que a questão não é se a avaliação é obrigatória ou não, porque o
Supremo Tribunal Federal (STF) já disse que não é obrigatória. A questão é que
ela é importante. Não é uma questão jurídica, é uma questão técnica",
afirma Suely Araújo, ex-presidente do Ibama e coordenadora de políticas
públicas do Observatório do Clima.
Na sua
visão, o estudo avaliaria os impactos ambientais de forma agregada.
"Porque não dá para analisar cada um dos blocos, na verdade, das futuras
plataformas quando estiverem em operação, isoladamente. Você tem uma soma de
impactos ambientais. No licenciamento ambiental, você até analisa a conexão com
empreendimentos próximos. Mas não é a mesma coisa."
Araújo
questiona também a própria necessidade de explorar novas áreas de petróleo, já
que a queima de combustíveis fósseis é um dos principais causadores do
aquecimento global e das mudanças climáticas.
Segundo
o professor Luis Enrique Sánchez, da Universidade de São Paulo (USP), o estudo
poderia contribuir para decisões mais bem fundamentadas, informadas e
transparentes. Essa análise avaliaria, por exemplo, os riscos de vazamentos de
petróleo.
Mas há
outros impactos importantes na busca por petróleo na região. "Existem
impactos, consequências que são certas, e algumas já vêm sendo observadas. Eu
destacaria aquelas não lá no mar, não diretamente no mangue, mas nas áreas
terrestres que são necessárias para que possa haver a exploração e depois a
produção", avalia, citando a expansão urbana, falta de infraestrutura e
consequências para os povos mais vulneráveis, como os indígenas.
<><>
A questão do tempo
Apenas
duas AAAS tiveram seus estudos técnicos contratados no Brasil: um para a bacia
marítima de Sergipe-Alagoas/Jacuípe e outro para a bacia terrestre do Solimões.
Os estudos foram finalizados em 2020, mas o processo formal de conclusão ainda
não ocorreu.
Segundo
o MMA, esta etapa permanece pendente. "Os dois ministérios trabalham agora
na edição de uma norma que deverá aprovar formalmente as avaliações das bacias
de Sergipe-Alagoas/Jacuípe e do Solimões. O mesmo processo deverá aperfeiçoar a
governança das futuras AAAS, com maior clareza quanto a responsabilidades,
prazos, contratação dos estudos, participação pública e incorporação dos
resultados ao planejamento da oferta de áreas."
Um
eventual estudo na Margem Equatorial levaria, provavelmente, mais de três anos,
analisa Sánchez. O professor avalia, também, que a Foz do Amazonas, uma das
áreas de maior interesse exploratório, teria muitas áreas sem definição, ou
seja, em moratória, devido ao pouco conhecimento sobre a região. "Talvez
uma parte grande seja classificada como necessitando de estudos
adicionais."
• MPF volta a pedir a suspensão de licença
de petróleo na Foz do Amazonas para proteger povos e comunidades tradicionais
do Pará
O
Ministério Público Federal (MPF) pediu ao Tribunal Regional Federal da 1ª
Região (TRF1), nesta quinta-feira (17), a suspensão imediata da licença de
perfuração de petróleo concedida à Petrobras na Foz do Amazonas. O órgão
defende que a ação permaneça na Justiça Federal do Pará para garantir os
direitos de indígenas, quilombolas e pescadores artesanais que vivem na costa
paraense.
A
Justiça Federal no Pará havia decidido remeter o caso para a Justiça Federal no
Amapá sob o argumento de evitar decisões conflitantes. O MPF sustenta, no
entanto, que a competência é definida pelo local onde os danos acontecem. Como
toda a logística de navios, resíduos e suporte opera a partir do Pará, a
Justiça Federal no estado é quem deve analisar a causa.
Segundo
os procuradores da República, 17 municípios do Pará compõem a área de
influência do empreendimento. As embarcações de apoio saem do porto de Belém e
cruzam rotas tradicionais de subsistência, contornando o arquipélago do Marajó
e o litoral nordeste do estado.
<><>
Prejuízos em andamento
–
Famílias extrativistas e pescadores artesanais já relatam prejuízos diários
causados pela atividade. Os depoimentos apontam a destruição constante de redes
de pesca por grandes embarcações, o afugentamento de peixes pelo barulho e o
risco de acidentes marítimos. Para o Grupo de Apoio ao Núcleo Povos da
Floresta, do Campo e das Águas e Atuação Especializada Socioambiental
(Gapovoss) do MPF no Pará, não se trata de risco futuro, mas de danos concretos
em andamento.
O
recurso reforça que este processo não se confunde com as ações em curso no
Amapá. A ação no Pará não debate apenas a liberação de poços, mas foca na falta
de estudos socioeconômicos e na exclusão de povos e comunidades tradicionais
paraenses das decisões sobre a atividade.
Os
riscos reais às comunidades que dependem do rio para sobreviver também estão
registrados no documentário Território em Trânsito, apresentado no XII Fórum
Social Pan-Amazônico, no Equador, em agosto deste ano. Produção da Rede de
Trabalho Amazônico GTA em parceria com o Coletivo Pororoka, o filme apresenta
as preocupações dos pescadores artesanais do Marajó com o avanço da exploração
de petróleo na Foz do Amazonas, já que uma atividade desse tamanho tem
aumentado a pressão sobre um território que já enfrenta uma série de problemas
sociais e ambientais.
<><>
Pedido de medidas urgentes
– No
pedido ao TRF1, o órgão requer que as atividades no bloco marítimo FZA-M-59
fiquem suspensas até o cumprimento das seguintes medidas:
•
consulta prévia, livre e informada a todas as comunidades tradicionais da costa
do Pará, nos moldes da Convenção nº 169 da Organização Internacional do
Trabalho (OIT);
•
realização de estudo detalhado sobre a produção pesqueira local, para mensurar
a produção real e a renda das famílias;
•
elaboração de um plano de compensação financeira específico para a atividade
pesqueira artesanal; e
•
redelimitação da área de influência para incluir formalmente todos os
municípios paraenses impactados pela frota de apoio.
O MPF
alertou ainda que a exploração não é temporária nem rápida. Documentos oficiais
recentes mostram que a Petrobras pretende perfurar quatro poços marítimos no
bloco, mantendo operações contínuas até 2029.
Fonte:
DW Brasil/Procuradoria da República no Pará

Nenhum comentário:
Postar um comentário