STF
decide pelo fim do amianto no Brasil. “Vitória das vítimas e entidades na luta
de décadas”, diz Fernanda Giannasi
O
Supremo Tribunal Federal (STF), por unanimidade de votos, decidiu nesta
sexta-feira (18/9) pela inconstitucionalidade da Lei 20.514/2019 (Lei Caiado)
que mantinha em funcionamento a mina de amianto da Sama/Eternit em Minaçu,
Goiás. A produção do amianto, altamente cancerígeno, chega ao fim, depois de
décadas de lutas e denúncias e processos na Justiça e um incontável número de
mortes e doentes. A decisão determina o fechamento da mina.
“Acabou
o nosso sofrimento. É a vitória da luta aguerrida e resiliente das vítimas do
amianto e das entidades unidas por esta causa”, comentou a auditora fiscal e
engenheira de Segurança do Trabalho civil Fernanda Giannasi, uma das fundadoras
da Associação Brasileira dos Expostos ao Amianto (ABREA), que recebeu vários
prêmios como o “Faz a Diferença”, do jornal O Globo, em 2017.
E
acrescentou: “Se por um lado comemoramos a sofrida vitória do banimento
definitivo do amianto, a fibra letal, por outro lado lamentamos as milhares de
vítimas, que tiveram suas vidas ceifadas pela irresponsabilidade das empresas
da imensa cadeia produtiva do mineral cancerígeno”.
Dia 18
de setembro de 2026, destacou Giannasi, “será lembrado para sempre como o dia
em que a Corte Suprema do país bateu finalmente o martelo numa situação
insustentável que se arrastava há 7 anos, referente a uma lei ilegal e imoral,
que permitia que o amianto proibido no Brasil desde 2017 fosse exportado para
países com menos regulações nas áreas de saúde, trabalho e meio ambiente,
especialmente para o continente asiático. Como tão bem disse o nosso brilhante
orador, Ruy Barbosa, o Águia de Haia, em sua icônica obra “Oração aos Moços”:
“Justiça atrasada não é justiça, senão injustiça qualificada e manifesta”.
“A
injustiça está perfeitamente comprovada na placa no “Memorial das Vítimas do
Amianto”, no centro de Osasco, com mais de 700 nomes de vítimas, que
continuarão a acontecer por, no mínimo mais 50 anos”.
O
minério estava sendo produzido na mina de Cana Brava, em Minaçu, a 490 km de
Goiânia. Conforme a imprensa tem divulgado, apenas no terceiro trimestre do ano
passado, a mineração gerou R$ 156 milhões em exportações.
A LUTA
TRANSFORMADA EM FILME
O novo
longa do premiado diretor de cinema e roteirista José Eduardo Belmonte terá a
atriz Grazi Massafera protagonizando a ativista Fernanda Giannasi, em suas mais
de três décadas de luta pelo banimento do cancerígeno amianto, o acolhimento às
vítimas, o amparo judicial e as ameaças de poderosos do setor. A notícia foi
revelada site “Oxentepipoca”.
De
acordo com a biografia disponível, o renomado cineasta Belmonte é conhecido por
filmes como Alemão (2014) e Alemão 2 (2022), Carcereiros – O Filme (2019),
Entre Idas e Vindas (2016), O Auto da Boa Mentira (2021), e mais recentemente O
Pastor e o Guerrilheiro (2023) e Quase Deserto (2024), abordando temas sociais
e políticos, com destaque para a experiência da imigração em sua obra mais
recente. Sua filmografia também inclui Se Nada Mais Der Certo (2008), premiado
em festivais, e curtas como Tepê (1999).
A trama
acompanha Giannasi, como engenheira, que entra para o serviço público durante a
ditadura militar no Brasil, informa o site, e descobre uma contaminação por
amianto, que muda a sua vida. Em reportagens para o BLOG, na época, ela falou
sobre “o silêncio epidemiológico reinante no país em função de diversos
mecanismos de invisibilidade social, tais como a inércia das instituições de
saúde, que não cumprem seu papel de vigilância, como previsto em nossa
legislação”, por exemplo.
O BLOG
entrevistou Fernanda Giannasi no ano passado.
LEIA A
ENTREVISTA:
• Quantas pessoas foram vitimadas pelo
amianto no Brasil? Há provas documentais sobre quantas pessoas morreram no
Brasil?
Fernanda: Um número preciso de vítimas do amianto no
Brasil ainda não foi possível de se obter.
• Por quê?
Fernanda:
Por conta de vários motivos: o silêncio
epidemiológico reinante no país em função de diversos mecanismos de
invisibilidade social, tais como a inércia das instituições de saúde, que não
cumprem seu papel de vigilância à saúde
dos expostos, como previsto em nossa legislação; pelos pactos estabelecidos
entre empresas e vítimas, através de acordos extrajudiciais (mais de três mil
instrumentos particulares de transação firmados pelas duas empresas líderes do
mercado de fibrocimento e da mineração), que remuneram parcimoniosamente o
silêncio das vítimas e de seus familiares pelas doenças adquiridas e por uma
nefasta liminar do Superior Tribunal de Justiça (STJ), que protegeu as empresas
até recentemente de não serem obrigadas a informar os dados de seus
trabalhadores expostos e os doentes para os órgãos de saúde.
• É um problema de grande subnotificação….
Fernanda:
Certamente, e outro agravante para esta subnotificação está no fato de que as
doenças relacionadas ao amianto são de grade latência, isto é, levam em média
de 20 até 60 anos para se manifestarem, quando em geral o trabalhador já está
retirado de seu local de trabalho. Os casos diagnosticados têm sido registrados
parcialmente tanto nos órgãos da Previdência Social como os da Saúde,
representando apenas a ponta de um imenso iceberg.
• Quantas estão em tratamento?
Fernanda:
Em todo o país, por onde se utilizou o amianto de maneira intensiva e sem
nenhum controle, diariamente nos deparamos com novos casos de doenças sendo
diagnosticadas, entre as quais a asbestose (fibrose pulmonar que endurece o
pulmão, tornando-o rígido – o chamado “pulmão de pedra”), diversos tipos de
cânceres, entre eles o de pulmão, laringe, aparelho digestório, ovário, túnica
vaginal e o mesotelioma, chamado o “câncer do amianto”, que atinge as membras
que envolvem o pulmão (pleura), a cavidade abdominal (peritônio) e o coração
(pericárdio). São centenas de casos em tratamento nas diversas estruturas do
Sistema Único de Saúde (SUS) e em entidades privadas para aqueles que
celebraram os acordos extrajudiciais.
• Há indenizações?
Fernanda:
Com a Emenda Constitucional 45, que atribuiu à Justiça do Trabalho o poder
decisório em processos de indenização por doenças adquiridas no e pelo
trabalho, os processos individuais das vítimas do amianto se tornaram mais
céleres. E, em geral, mais bem-sucedidos em relação ao que ocorria
anteriormente na esfera cível, em especial quanto aos valores de dano moral.
Nosso país ainda não goza de uma cultura judicial sobre as ações civis
públicas, coletivas ou também chamadas “class actions”, e se percebe uma certa
timidez nos julgamentos destes processos, diferentemente do que ocorre nas
ações individuais. Essas ações, depois da EC 45, têm indenizado de maneira mais
justa e rápida às vítimas e seus familiares.
• Onde estão localizadas as fábricas de
amianto no Brasil? Quantas pessoas trabalham nessas fábricas? Estão cientes do
perigo?
Fernanda:
Atualmente só a mineração de amianto, em Minaçu, continua a explorar a fibra
cancerígena. As demais fábricas substituíram esta matéria-prima
reconhecidamente nociva para a saúde dos seres humanos. Na mineração,
atualmente, trabalhavam cerca de 300 empregados diretamente contratados na mina
de Cana Brava, da Sama, em Minaçu, no Estado de Goiás. A cidade tem ainda uma
dependência econômica muito grande desta empresa, que é a maior atividade
produtiva do local, o que faz com que a população tenha estabelecido um pacto
de silêncio, negando fortemente a nocividade de sua principal riqueza local.
Inclusive se autointitula orgulhosamente de a “capital nacional do amianto”,
como podemos ver no pórtico de entrada da cidade. Outros equipamentos públicos
e privados de Minaçu têm a marca registrada do poderio econômico exercido pela
atividade de exploração do minério de amianto, como pode-se ver na decoração do
principal hotel da cidade, que tem o sugestivo nome de CRISOTILA (o amianto
branco explorado em Minaçu) Palace Hotel, e na porta do fórum, ambos ostentando
enormes pedras do minério in natura.
• O que as autoridades da saúde no Brasil
têm feito pelas vítimas do amianto? E as autoridades da segurança do trabalho?
Fernanda:
Muito pouco tem sido feito pelos órgãos de saúde e trabalho, em geral, no país,
com raríssimas e notórias exceções como a Fundacentro e INCOR em São Paulo e a
Fiocruz no Rio de Janeiro, que realizam os diagnósticos das doenças
relacionadas ao amianto dos ex-empregados expostos. As fiscalizações
praticamente estão paralisadas pelo desmonte de órgãos como o Ministério do
Trabalho, que carecem de profissionais qualificados para estas ações.
• Quando a luta pelo banimento começou no
Brasil? O que motivou essa luta?
Fernanda:
A luta pelo banimento no Brasil se iniciou mais efetivamente após o evento da
conferência das Nações Unidas (ONU), a UNCED, popularmente conhecida como a
Rio/92, onde tivemos a oportunidade de conhecer e interagir com movimentos
sociais internacionais na luta para a eliminação dos produtos tóxicos, os quais
incluíam o amianto, a tecnologia nuclear etc.
• Por que a senhora entrou nessa luta?
Fernanda:
Desde 1983, quando fui admitida em concurso público para a inspeção do
trabalho, em São Paulo, me dediquei a estudar e inspecionar empresas que
utilizavam produtos e tecnologias cancerígenas. Em 1985, criei com um colega
médico o GIA-Grupo Interinstitucional do Asbesto, outro nome para o amianto,
para fiscalizar as empresas usuárias do mineral cancerígeno. Isto, no momento
em que a Organização Internacional do Trabalho (OIT), ligada à ONU, discutia se
o amianto deveria ser proibido em todo o mundo ou permitido seu uso sob
restritas condições de segurança. Dali para frente, os enfrentamentos com a
indústria do amianto foram se sucedendo e se tornando cada vez mais acirrados,
nos diversos campos, pois enfrentamos um dos mais organizados e poderosos
lobbies industriais mundiais, comparado em importância e poderio ao do tabaco.
• A senhora ganhou o prêmio Faz a
Diferença de O GLOBO por sua atuação pelo banimento do amianto no Brasil e no
mundo. O que representou esse prêmio?
Fernanda:
A coroação de um esforço, inicialmente solitário, mas que foi ganhando adeptos
e se tornando numa luta coletiva ao longo desta jornada de 40 anos. O
prestigioso prêmio tornou a nossa batalha ainda mais visível e palatável para
uma grande parcela da sociedade brasileira. Uma grande honra tê-lo recebido
junto a tantas personalidades brilhantes deste país.
• No Brasil, quais os próximos passos para
acabar de vez com o amianto?
Fernanda:
O mais importante no momento é o julgamento pelo STF da inconstitucionalidade
da lei que permite a exploração do minério de amianto para fins de exportação.
O julgamento em curso porá um fim definitivo à exploração da fibra mortal, que
condena não somente os trabalhadores da mineração, transporte e nas atividades
portuárias em nosso país, como das populações em países importadores em
situação ainda mais vulneráveis socio-política-ambientalmente do que a
sociedade brasileira, constituindo-se numa prática cruel de duplo padrão ou
mesmo um crime de racismo ambiental.
Fonte:
Por Tania Malheiros, em Racismo Ambiental

Nenhum comentário:
Postar um comentário