segunda-feira, 21 de setembro de 2026

Solidão e isolamento social: quando a falta de vínculos também adoece o coração

Quando pensamos em prevenção cardiovascular, alguns fatores aparecem imediatamente: pressão alta, colesterol, diabetes, tabagismo, sedentarismo e obesidade. Nos últimos anos, porém, outro componente ganhou espaço na pesquisa e nas discussões de saúde pública: a qualidade das nossas relações sociais.

Solidão e isolamento social não são exatamente a mesma coisa. Uma pessoa pode morar sozinha, ter poucos contatos e não se sentir solitária. Outra pode estar cercada de colegas, familiares e centenas de contatos nas redes sociais e, ainda assim, experimentar solidão. O isolamento é uma condição mais objetiva, relacionada à quantidade e à frequência das relações; a solidão é a percepção de que os vínculos existentes não correspondem àqueles de que a pessoa gostaria ou necessitaria.

Essa diferença importa, mas os dois fenômenos têm sido associados a consequências para a saúde que vão além do bem-estar emocional.

<><> O coração também sente a falta de vínculos

Estudos observacionais e grandes revisões associam solidão e isolamento social a maior risco de doença cardiovascular, incluindo doença coronariana e acidente vascular cerebral, além de mortalidade prematura. Isso não significa que estar sozinho provoque diretamente um infarto, nem que seja possível atribuir uma doença cardíaca a uma única causa.

O risco cardiovascular é construído pela interação de muitos fatores. Nesse contexto, a desconexão social parece funcionar como mais uma peça desse conjunto.

Existem diferentes hipóteses para explicar essa relação. A solidão persistente pode representar uma situação de estresse crônico, com repercussões sobre sistemas hormonais e sobre o sistema nervoso autônomo. Alterações inflamatórias também vêm sendo investigadas.

Há ainda caminhos mais cotidianos. Pessoas socialmente isoladas podem apresentar pior qualidade do sono, menor atividade física, alimentação menos saudável ou maior dificuldade para aderir a tratamentos e procurar atendimento médico. Em alguém que já tem hipertensão, diabetes ou doença cardiovascular, a ausência de uma rede de apoio também pode dificultar o cuidado diário.

Portanto, provavelmente não existe um único mecanismo ligando solidão e coração. Há uma combinação de respostas biológicas, comportamentos e condições sociais que pode se acumular ao longo do tempo.

<><> Não é um problema apenas de idosos

É fácil associar solidão à velhice. Aposentadoria, viuvez, perda de amigos, limitações físicas e redução da mobilidade realmente podem diminuir os contatos sociais. Mas os dados mais recentes mostram que olhar apenas para os idosos deixa escapar uma parte importante do problema.

O relatório da Comissão de Conexão Social da Organização Mundial da Saúde estima que aproximadamente uma em cada seis pessoas no mundo vivencie solidão. Entre adolescentes, a proporção chega a cerca de uma em cada cinco.

O dado chama atenção porque estamos falando justamente das gerações que cresceram com maior capacidade tecnológica de permanecer conectadas.

Estar conectado digitalmente, porém, não é necessariamente o mesmo que sentir-se socialmente conectado. Redes sociais, mensagens e videochamadas podem aproximar pessoas e preservar relações importantes, especialmente quando a distância física existe. O problema aparece quando a interação digital substitui vínculos significativos ou quando o uso excessivo das telas contribui para afastamento, comparação social, pior sono ou redução das relações presenciais.

Ainda não sabemos qual será o impacto cardiovascular, daqui a algumas décadas, de uma juventude que constrói parte relevante de suas relações no ambiente digital. Seria precipitado afirmar que as telas produzirão uma geração com mais doenças cardíacas. Mas já existem razões suficientes para considerar a qualidade dos vínculos sociais como parte da saúde ao longo da vida.

<><> Prevenção cardiovascular também passa pela vida social

Isso não significa transformar amizade em prescrição médica nem dizer a uma pessoa solitária simplesmente que ela precisa “socializar mais”. A solidão pode estar associada a luto, depressão, dificuldades financeiras, doenças, limitações de mobilidade, ausência de espaços de convivência e muitas outras circunstâncias que não se resolvem apenas pela vontade individual.

Mas reconhecer o problema é um primeiro passo. Na prática clínica, perguntar como uma pessoa vive, com quem pode contar e se tem relações significativas pode acrescentar informações que pressão arterial, exames laboratoriais e eletrocardiograma não mostram. Em determinadas situações, atividades comunitárias, grupos, prática de exercícios coletivos, retomada de relações e apoio psicológico ou social podem ajudar a reconstruir vínculos.

Isso não substitui o controle dos fatores clássicos de risco. Uma pessoa hipertensa precisa tratar a pressão; quem tem colesterol elevado precisa avaliar seu risco e seguir a estratégia indicada; tabagismo e sedentarismo continuam exigindo atenção. A saúde social deve ser entendida como uma dimensão adicional do cuidado, e não como substituta da prevenção cardiovascular tradicional.

A Organização Mundial da Saúde passou a tratar a conexão social como uma questão de saúde pública e estima que a solidão esteja associada a centenas de milhares de mortes prematuras todos os anos. É uma mudança importante na maneira de pensar saúde.

Talvez precisemos acrescentar uma pergunta às que já fazemos sobre pressão, colesterol, exercício, alimentação e cigarro: como estão os nossos vínculos? O coração depende de artérias saudáveis, mas a saúde de quem o carrega também é construída pelas relações que mantém ao longo da vida.

•        1 em cada 5 estudantes recorre à IA por solidão, diz pesquisa

Uma pesquisa inédita da Arco Educação revelou um cenário preocupante sobre a saúde social de estudantes brasileiros.

O estudo mostrou que 1 em cada 5 estudantes afirma recorrer regularmente a ferramentas de inteligência artificial quando se sentem sozinhos ou precisam conversar, transformando a tecnologia em uma espécie de companhia diante da falta de conexões interpessoais.

O levantamento ouviu 936 estudantes do 6º ano do Ensino Fundamental ao 3º ano do Ensino Médio em escolas parceiras da Arco nas cinco regiões do Brasil. A pesquisa analisou fatores como solidão, pertencimento, amizades e relações sociais dentro do ambiente escolar.

Os dados indicam que o uso da inteligência artificial está ligado a dificuldades de socialização. Mais da metade dos entrevistados (52%) afirmou ter alguma ou muita dificuldade para fazer novos amigos, enquanto 17% disseram sentir solidão com frequência.

Ao comparar os resultados com a escala internacional de solidão da Universidade da Califórnia em Los Angeles (UCLA), os estudantes brasileiros ficaram próximos da faixa considerada de solidão moderadamente alta.

Um dos indicadores que mais chamou atenção foi a dificuldade de ampliar círculos de amizade: 28,7% dos alunos relataram enfrentar esse problema constantemente, percentual acima das referências globais.

A pesquisa também identificou diferenças significativas entre grupos. As meninas apresentaram índices mais elevados de dificuldade para criar amizades e maior sensação de distanciamento social. Além disso, 23,8% delas afirmaram recorrer à inteligência artificial por solidão, contra 12,3% dos meninos.

Outro grupo que despertou preocupação foi o dos estudantes que preferiram não declarar gênero, representando 4,9% da amostra. Entre eles, metade relatou comportamento de passividade social, esperando que outras pessoas tomem a iniciativa de contato. Além disso, 39% disseram sentir solidão frequentemente e apenas 28% afirmaram sentir-se queridos pelas pessoas ao redor.

Segundo os responsáveis pelo estudo, a solidão na adolescência não está necessariamente ligada à ausência de amigos, mas à dificuldade de criar, aprofundar e manter vínculos significativos.

O sentimento de pertencimento é apontado como um elemento fundamental para o desenvolvimento emocional, social e cognitivo nessa fase da vida.

A passagem para o Ensino Médio também apareceu como um momento crítico. O índice de solidão frequente sobe de 16% nos anos finais do Ensino Fundamental para 25,7% entre os estudantes do Ensino Médio. A pesquisa sugere que a pressão acadêmica e as mudanças de ciclo escolar podem intensificar o isolamento.

Outro dado que chamou atenção é que 32% dos entrevistados sentem que as pessoas raramente ou nunca demonstram interesse pelo que eles têm a dizer. Para os pesquisadores, isso evidencia uma carência de escuta ativa e validação emocional tanto entre colegas quanto entre adultos.

Apesar dos desafios, o estudo identificou um ponto positivo. Cerca de 65% dos estudantes disseram ser tratados com respeito e gentileza pelos colegas na maior parte do tempo ou sempre. Os pesquisadores consideram esse ambiente de respeito um importante recurso para combater o isolamento e fortalecer as relações sociais.

A pesquisa também apontou benefícios associados aos programas estruturados de educação socioemocional nas escolas. Instituições que adotam esse tipo de iniciativa registraram menor sensação de não pertencimento e menores índices de solidão frequente entre os alunos.

Nas escolas com programas socioemocionais ativos, a falta de pertencimento foi 5,3 pontos percentuais menor, enquanto o sentimento de solidão frequente caiu 2,8 pontos percentuais. Já os colégios sem esse tipo de ação apresentaram os maiores índices de isolamento e também a maior procura pela inteligência artificial como forma de apoio social.

Os responsáveis pelo levantamento defendem que o desenvolvimento socioemocional deve ser tratado como prioridade no ambiente escolar. Segundo eles, criar espaços seguros para diálogo, convivência e escuta pode ajudar a reduzir o avanço da solidão entre adolescentes em uma era cada vez mais marcada pela presença da tecnologia.

A pesquisa foi realizada com base em um questionário adaptado da Escala de Solidão da UCLA, possui nível de confiança de 95% e margem de erro de 3,2 pontos percentuais.

 

Fonte: CNN Brasil

 

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