Flávio
e aliados têm propostas que coincidem com 16 das 21 exigências de Trump ao
Brasil
Propostas
do plano de governo de Flávio Bolsonaro (PL-RJ), declarações públicas do
candidato e posições defendidas por integrantes de seu entorno coincidem, em
diferentes graus, com 16 das 21 exigências apresentadas pelo governo Donald
Trump ao Brasil durante as negociações do tarifaço, mostra levantamento feito a
partir do documento americano revelado nesta quinta-feira (17).
As
aproximações passam por abertura comercial, minerais críticos, Pix, regras para
empresas de tecnologia, liberdade de expressão, eleição de 2026, sanções
financeiras, relações com a China e alinhamento de normas brasileiras a padrões
internacionais.
A lista
foi apresentada pelos Estados Unidos ao governo brasileiro em 16 de outubro de
2025, quando os dois países negociavam as tarifas impostas por Trump a produtos
brasileiros. Washington colocou na mesa 21 condições que iam além do comércio e
alcançavam questões políticas, regulatórias e estratégicas. O governo
brasileiro considerou os termos inaceitáveis e recusou negociar a partir deles.
Entre
as exigências estavam garantias à participação dos chamados “dissidentes
políticos” na eleição de 2026, mudanças no tratamento dado a empresas
americanas de tecnologia, condições envolvendo o acesso aos minerais críticos
brasileiros e proteção a instituições financeiras que cumprissem sanções dos
Estados Unidos.
O
cruzamento mostra que parte dessa agenda encontra paralelo em propostas que
Flávio passou a defender durante a campanha. Algumas foram apresentadas pelo
próprio candidato diretamente em Washington.
Desde
março, Flávio discursou na CPAC, encontrou-se com Trump na Casa Branca, levou
propostas ao Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR) e
participou de audiência do órgão responsável pela política comercial americana.
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Onde as propostas se encontram
• Tarifas: Flávio propôs uma área de livre
comércio com os EUA e seu programa prevê abertura a produtos importados.
• Bens remanufaturados: o programa defende
abertura comercial e redução de barreiras regulatórias.
• Serviços digitais: Flávio propõe menos
entraves regulatórios à tecnologia e negociou comércio digital com o USTR.
• Pix: ofereceu aos EUA um compromisso
legislativo para impedir sua integração a sistemas internacionais “não
ocidentais”.
• Transmissões eletrônicas: incluiu
comércio digital entre os temas levados à negociação com Washington.
• Concorrência digital: seu programa
promete legislação voltada à “liberdade de criar e inovar” e redução de
entraves.
• Eleição: nos EUA, pediu acompanhamento
internacional e “pressão diplomática” por eleições “livres e justas”.
• Liberdade de expressão: seu programa
promete um “Tesouraço na Censura” e revogação de atos considerados restritivos.
• Plataformas digitais: Flávio defende
regras sobre retirada de conteúdo e “regras claras e direito de defesa”.
• Sanções financeiras: Eduardo Bolsonaro e
Paulo Figueiredo atuaram nos EUA pela aplicação de sanções americanas.
• Minerais críticos: Flávio prometeu a
Trump uma “parceria estratégica de longo prazo” entre Brasil e EUA.
• Padrões internacionais: seu programa
prevê convergência das normas brasileiras aos padrões internacionais e adesão à
OCDE.
• Cooperação Brasil-EUA: Flávio defende
maior aproximação econômica e estratégica com Washington.
Investimentos
estratégicos: quer reduzir dependências em cadeias críticas e apresentou o
Brasil como alternativa à China em minerais.
• Soja: seu programa prevê atuação
diplomática contra barreiras ao agro e aliados defendem equilíbrio comercial
entre EUA e China.
• Desmatamento: Flávio concorda com
demandas dos eua nessa área.
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Flávio ofereceu parceria a Trump nos minerais
Uma das
conexões mais diretas está nos minerais críticos.
Os
Estados Unidos exigiram que fossem informados previamente sobre potenciais
transferências de ativos ligados a minerais críticos e que empresas americanas
tivessem oportunidade de participar desses negócios antes da aprovação pelas
autoridades brasileiras.
Em 26
de maio, após ser recebido por Trump na Casa Branca, Flávio anunciou uma
proposta de parceria com os americanos justamente nesse setor.
“Sob
meu governo, haverá parceria estratégica de longo prazo nesse setor, com
investimento protegido e reindustrialização compartilhada entre os dois
países.”
A
declaração foi feita em Washington e tratava especificamente de terras raras e
minerais críticos.
O
programa de governo segue a mesma direção. Identifica lítio, nióbio, grafite,
cobre, níquel, urânio e terras raras como recursos estratégicos e promete
atrair capital e tecnologia estrangeiros, acelerar licenciamentos e estabelecer
parcerias internacionais.
O texto
estabelece como pilares para o setor “marco regulatório claro e estável,
licenciamento ágil e técnico, atração de capital e tecnologia” e afirma que o
governo buscará capital estrangeiro e conhecimento disponível no exterior.
Flávio
também apresentou o Brasil aos americanos como uma alternativa para reduzir a
dependência dos Estados Unidos da China no fornecimento desses minerais.
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Flávio ofereceu mudança no Pix para atender preocupação americana
O Pix
também entrou diretamente nas tratativas de Flávio com Washington.
Em 2 de
julho, o candidato apresentou ao USTR a proposta de que o Brasil assumisse um
“compromisso legislativo” para impedir a integração do Pix a mecanismos
internacionais de compensação financeira considerados “não ocidentais”.
“O
sinal decisivo seria um compromisso legislativo de que o Pix não será
interconectado a mecanismos de compensação transfronteiriça não ocidentais.”
A
sugestão foi apresentada depois que o USTR incluiu o Pix entre as práticas
brasileiras investigadas como potencialmente prejudiciais aos interesses
comerciais americanos.
Uma
conexão internacional do Pix poderia reduzir a dependência do dólar em
determinadas transações e contornar intermediários tradicionais, incluindo
empresas de cartões. A proposta de Flávio impediria a ligação do sistema
brasileiro a redes classificadas por ele como “não ocidentais”.
A
Reuters registrou que o próprio candidato apresentou a medida como forma de
amenizar as preocupações dos Estados Unidos com o Pix.
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Livre comércio e abertura aos produtos estrangeiros
Na área
comercial, Washington exigiu que o Brasil eliminasse tarifas sobre uma série de
produtos americanos, incluindo etanol, produtos químicos, máquinas, automóveis
e bens de alta tecnologia.
Poucos
dias depois de apresentar sua proposta sobre o Pix, Flávio defendeu em
Washington uma área de livre comércio envolvendo Brasil e Estados Unidos.
Chamou
a proposta de AFTA, sigla em inglês para Acordo de Livre Comércio das Américas.
“As
nossas economias, EUA e Brasil, são complementares. A gente tem uma avenida de
oportunidade para trazer investimentos americanos para cá.”
Flávio
disse que levaria a proposta às reuniões que manteria nos Estados Unidos e
sugeriu incluir também México, Canadá e Argentina no arranjo comercial.
O plano
de governo também prevê preparar o país para uma abertura comercial que dê ao
setor produtivo acesso a “bens de capital, tecnologia e insumos importados” e
ampliar a integração brasileira às cadeias globais.
Outra
exigência americana determinava maior alinhamento das regras brasileiras aos
padrões internacionais.
O
programa de Flávio promete retomar o processo de adesão à OCDE e afirma que ele
exige “convergência das nossas normas aos padrões internacionais”.
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China também aproxima as duas agendas
A
disputa dos Estados Unidos com a China aparece em outros pontos da lista.
Washington
pediu que Brasil e EUA fortalecessem a cooperação econômica e de segurança para
tornar cadeias de suprimentos mais resistentes e enfrentar políticas
consideradas “não orientadas pelo mercado”. Também defendeu medidas para
limitar investimentos de determinadas entidades estrangeiras em mineração e
setores industriais estratégicos.
O
programa de Flávio afirma que o Brasil deve evitar “dependência excessiva em
áreas críticas, como as cadeias de suprimentos e de tecnologia”.
Também
promete recuperar a relação com os Estados Unidos e aprofundar a inserção
brasileira nos principais polos econômicos e tecnológicos mundiais.
Em
março, na CPAC, Flávio apresentou aos conservadores americanos sua proposta de
aproximação política:
“Estaremos
celebrando o nascimento da mais forte aliança conservadora da história do
Hemisfério Ocidental.”
Flávio
também passou a defender uma revisão da participação brasileira no Brics e
criticou a agenda de redução da dependência internacional do dólar.
Paulo
Figueiredo, aliado que participa da interlocução do grupo nos Estados Unidos,
levou preocupação semelhante ao USTR ao abordar a expansão chinesa em setores
estratégicos brasileiros.
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“Eleições livres e justas”
A
coincidência politicamente mais sensível envolve a eleição presidencial.
A
minuta americana exigia que o Brasil se comprometesse com uma eleição “livre e
justa” em 2026 e não prendesse, detivesse ou restringisse arbitrariamente a
participação dos chamados “dissidentes políticos”.
Em 28
de março, durante discurso na CPAC, no Texas, Flávio utilizou a mesma
expressão:
“Precisamos
de eleições livres e justas.”
O
candidato pediu diretamente aos Estados Unidos e a outros países que
acompanhassem a disputa brasileira.
“Meu
apelo aqui, não apenas aos Estados Unidos, mas a todo o mundo livre, é:
acompanhem as eleições do Brasil com enorme atenção, aprendam e entendam nosso
processo, monitorem a liberdade de expressão do nosso povo e apliquem pressão
diplomática para que nossas instituições funcionem adequadamente.”
Flávio
afirmou ainda que essa “pressão diplomática por eleições livres e justas” seria
uma mudança positiva na política americana para a região.
A
declaração se soma à defesa feita pelo candidato de uma anistia ampla aos
condenados pelos atos de 8 de Janeiro e ao ex-presidente Jair Bolsonaro.
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Liberdade de expressão e plataformas
Outras
exigências de Washington alcançavam diretamente a atuação brasileira sobre
cidadãos e empresas americanas.
Os EUA
queriam impedir punições contra americanos por manifestações protegidas pela
Primeira Emenda e assegurar às plataformas digitais aviso e oportunidade de
contestação antes de determinadas punições.
O
programa presidencial de Flávio traz uma seção intitulada “Tesouraço na
Censura”.
“Numa
democracia, todo cidadão tem o direito de concordar ou discordar, de criticar e
de questionar, e nenhum governo pode punir quem pensa diferente dele.”
O plano
promete acabar com estruturas estatais destinadas, segundo o próprio documento,
a “vigiar, rotular ou punir o que as pessoas dizem” e revogar atos considerados
responsáveis por silenciar críticos.
Em
outra passagem, estabelece:
“Crime
se combate na Justiça, com regras claras e direito de defesa. O que o governo
não pode fazer é transformar a crítica em delito.”
Flávio
também relatou favoravelmente no Senado projeto que obriga provedores a
comunicar usuários quando conteúdos forem tornados indisponíveis sem ordem
judicial.
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Eduardo e Paulo atuaram por sanções americanas
A lista
de Trump também tratava das sanções impostas pelos Estados Unidos.
Washington
queria que o Brasil não punisse instituições financeiras brasileiras pelo
cumprimento de sanções financeiras americanas.
Nesse
ponto, a conexão aparece principalmente na atuação de Eduardo Bolsonaro e Paulo
Figueiredo em Washington.
Os dois
defenderam a aplicação de sanções americanas contra autoridades brasileiras e
trabalharam pela utilização da Lei Magnitsky.
Paulo
também apresentou formalmente ao USTR uma proposta para que Washington
priorizasse sanções direcionadas contra autoridades em vez de tarifas que
atingissem toda a economia brasileira.
Eduardo
levou ao governo americano reclamações sobre a forma como instituições
financeiras brasileiras estavam tratando as sanções.
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Flávio já defendia aceitar condições de Trump
A
aproximação antecede a apresentação da lista revelada agora.
Em 10
de julho de 2025, depois que Trump anunciou o tarifaço contra o Brasil, Flávio
afirmou à CNN que o governo brasileiro deveria negociar a partir das condições
apresentadas pelo presidente americano.
“O
governo tem que aceitar o que foi imposto por Trump.”
Na
mesma entrevista, Flávio apresentou a aprovação de uma “anistia ampla, geral e
irrestrita” como primeiro passo para o Brasil sinalizar disposição para
negociar com Washington.
A frase
foi dita cerca de três meses antes da entrega da minuta de 21 pontos, em
outubro, e não se referia especificamente ao documento revelado agora.
Nos
meses seguintes, porém, o próprio Flávio levou propostas concretas a Washington
em áreas que também estavam na lista americana: ofereceu parceria estratégica
em minerais críticos, propôs uma área de livre comércio, sugeriu limitar a
internacionalização do Pix, pediu pressão diplomática internacional sobre a
eleição brasileira e incorporou ao programa compromissos de abertura econômica,
convergência regulatória e redução da dependência em cadeias estratégicas.
Fonte:
ICL Notícias

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