Cleitinho: quando a indignação seletiva vira
cinismo
Com forte presença digital e cerca de 7,2
milhões de seguidores nas redes sociais, o candidato ao governo de Minas pelo
Republicanos, Cleiton de Azevedo, conhecido como Cleitinho, faz campanha focada
no combate a injustiças fiscais e na redução do Estado.
Apesar de somar quase 10 anos de vida
política institucional – dois como vereador em Divinópolis, quatro anos como
deputado estadual e três anos e 9 meses no Senado, Cleitinho discursa como se
não fizesse parte das instituições democráticas. Usando um tom carregado de
revolta, se dirige aos eleitores como um cidadão comum.
Crítico do modelo de tributação do governo
federal, recentemente afirmou em entrevista: “Hoje o Estado é inimigo do
trabalhador, ele é inimigo do empresário.” Costuma classificar determinados
impostos no Brasil como roubo legalizado.
Posando de “paladino da moralidade pública”,
produziu dezenas de vídeos nos quais denuncia o que considera privilégios
dentro de instituições como Câmara Federal, Senado, Supremo Tribunal Federal.
Os vídeos têm apelo emocional negativo e narrativas polarizadoras (“nós contra
eles” e “antissistema”). Dessa forma simplista, não toca nas verdadeiras causas
dos problemas enfrentados pela sociedade; tampouco defende a justiça social,
necessária para reforçar a vida democrática.
Há poucos meses, postou um vídeo ensinando
condutores a desviarem de um pedágio que estava previsto para entrar em
operação na BR-040, em Paracatu. Ele aparece em cima de um trator e diz que
está criando um “desvio”, pois a rodovia pertence ao “governo”, enquanto o
caminho alternativo seria “particular”.
Esse é o discurso do senador desde que entrou
na vida pública. Basicamente, vocaliza sentimentos que o sociólogo François
Dubet identificou como sintomas de sofrimento social em um regime de múltiplas
desigualdades. Sentimentos reais dos cidadãos como cólera, humilhação,
ressentimento, paixões tristes que, ao não encontrarem expressão política,
alimentam o populismo.
No Plano de Governo registrado no Tribunal
Superior Eleitoral, cujo título é “O povo primeiro”, o candidato promete
melhorar a vida das pessoas. Em vídeos e entrevistas, repete o bordão “o meu
partido é o povo”.
No entanto, é preciso examinar se o Plano de
Governo dele traz propostas factíveis para melhorar a vida do mineiro e se, ao
longo de sua trajetória na arena política, tem atuado efetivamente em prol dos
interesses populares.
Nesse sentido, vale a pena refrescar a
memória do eleitor sobre a atuação parlamentar do candidato nos últimos anos.
Em pelo menos dois episódios de grande repercussão midiática, as escolhas do
senador não favoreceram o povo. Pelo contrário, contribuíram para produzir
efeitos nefastos na vida das pessoas.
O primeiro deles ocorreu em janeiro de 2025.
Estudo que relaciona o impacto da disseminação de mentiras na Internet e do
radicalismo na política sobre a formulação de políticas, publicado este ano,
demonstra que Cleitinho desempenhou um papel central de amplificação política
na controvérsia da suposta taxação do Pix, ao disseminar desinformação.
Em ordem cronológica, foram os seguintes os
acontecimentos: no dia 6 de janeiro de 2025, ele gravou e publicou um vídeo
reagindo a uma postagem anterior do advogado Dr. Amarildo 22. Embora o material
original de Amarildo tratasse apenas de fiscalização da Receita Federal e não
mencionasse cobranças, o senador o ressignificou publicamente, disseminando uma
narrativa falsa.
No seu vídeo de reação, o senador afirmou
explicitamente que as novas regras de monitoramento fiscal eram uma estratégia
velada do governo federal para taxar o Pix. Ele declarou textualmente: “E o
pior, gente, sabe para que é isso tudo? É para taxar o Pix! […] O Haddad queria
taxar o Pix”.
Com esse vídeo, Cleitinho ativou o
Ecossistema de Desinformação, ou seja, o vídeo atuou como um gatilho para o
ciclo informacional mais agudo da crise. A postagem ajudou a inflar, nas redes
sociais, uma onda de pânico moral e desconfiança institucional, que
posteriormente escalou com a circulação de deepfakes e vídeos de outros
parlamentares de oposição.
Conforme análise dos pesquisadores, Cleitinho
atuou como mediador de “fatos afetivos”. Ele utilizou recursos narrativos e
apelos afetivos para converter uma medida de controle fiscal (a Instrução
Normativa nº 2.219/2024) em uma “ameaça existencial” percebida pelo senso comum
e pela população de baixa renda.
O vídeo com informações falsas foi removido
da plataforma TikTok graças à atuação da Advocacia-Geral da União (AGU), mas
não apagou o fato de o candidato, que se apresenta como defensor da população
de baixa renda, ter gerado uma crise ao ativar o ecossistema de desinformação e
alimentar a radicalização política, provocando uma onda de pânico moral e
desconfiança da população nas instituições e no governo.
Esse caso, explicam os autores do estudo,
mostra como as redes sociais criaram um “mundo paralelo” de “informações”,
contestando a ciência, a imprensa e as instituições do Estado democrático de
direito.
O segundo exemplo refere-se à postura adotada
pelo senador Cleitinho Azevedo durante depoimento da influenciadora digital
Virginia Fonseca à CPI das Bets, em maio de 2025. A CPI foi criada para
investigar o impacto que as apostas on-line causam no orçamento das famílias
brasileiras, para apurar supostos vínculos com crime organizado e identificar
possíveis delitos de influenciadores digitais que divulgam essas apostas.
É importante frisar que, das 17 reuniões
realizadas até então, essa foi a única que contou com a presença do
parlamentar. Cleitinho não era membro titular nem suplente da comissão, mas
interrompeu a oitiva, se levantou, foi até a mesa e alegremente começou a
gravar uma saudação para a família ao lado da influenciadora.
De forma totalmente inadequada, o senador
demonstrou admiração e exaltou uma investigada por promover uma prática
duvidosa que estava sob investigação da CPI.
Depois de oito meses de funcionamento, a CPI
das Bets foi encerrada em junho de 2025, após ter seu relatório final
rejeitado. O documento pedia o indiciamento de 16 pessoas, incluindo Virginia
Fonseca, por estelionato e propaganda enganosa.
Sem a aprovação do relatório final, que
continha 20 projetos de lei para conter os danos provocados pelas apostas
virtuais, milhões de pessoas no país padecem com o superendividamento, aliado a
uma grave crise de saúde pública e mental.
<><> Indignação seletiva
Pretenso defensor da moralidade pública,
Cleitinho parece não estar incomodado com o indiciamento do presidente do
Republicanos em Minas, Euclydes Pettersen, por organização criminosa, lavagem
de dinheiro e corrupção passiva na Operação Sem Desconto.
A Operação é uma investigação conjunta da
Polícia Federal (PF) e da Controladoria-Geral da União (CGU). A PF aponta que
Pettersen recebeu pelo menos R$ 14,7 milhões da organização criminosa ligada à
Confederação Nacional de Agricultores Familiares e Empreendedores Rurais
(Conafer).
O parlamentar é acusado de atuar como
protetor político do esquema no INSS, ajudando a evitar fiscalizações e
mantendo apoio institucional à entidade em troca de repasses financeiros
fracionados.
Questionado sobre o assunto, Cleitinho
limitou-se a comentar: “se forem condenados, aliados investigados vão ter que
pagar”. Nada de tapa na mesa, nenhuma demonstração de indignação ou revolta
perante uma das maiores injustiças cometidas contra aposentados e pensionistas
brasileiros.
<><> Plano de Governo
O Plano de Governo registrado no Tribunal
Superior Eleitoral pelos candidatos Cleitinho e Falcão propõe diversas ações
ambiciosas, como expansão de hospitais, investimentos em infraestrutura e
ampliação de programas sociais, mas não apresenta como serão financiadas.
O Plano não apresenta projeções
orçamentárias, estimativas de impacto financeiro e estratégias para garantir a
implantação das propostas. A necessidade de renegociação da dívida com a União
é citada, mas não existe plano B caso não seja bem-sucedida, considerando o
grave quadro fiscal do Estado.
Um setor que merece atenção é o da indústria
mineral. Estado líder em extração de minério, Minas responde por 39,9% de toda
a produção anual do país. A atividade deve manter seu papel estratégico na
economia mineira, apoiada na extração do minério de ferro, na valorização do
ouro e na demanda por minerais associados à transição energética e tecnológica.
Apesar disso, o Plano nãodetalha políticas de
reparação, prevenção e apoio às comunidades afetadas por tragédias como
Brumadinho e Mariana, nem mecanismos de responsabilização das mineradoras.
Faltam propostas para a diversificação econômica das regiões mineradoras e para
o fortalecimento da defesa civil em situações de desastre.
Embora mencione a busca ativa e programas de
primeiro emprego, faltam propostas mais consistentes para o enfrentamento da
evasão escolar, da violência juvenil, do acesso à cultura e lazer, e políticas
de prevenção à criminalidade entre jovens.
O Plano não menciona políticas para povos
indígenas, quilombolas e comunidades tradicionais, que enfrentam desafios
próprios em Minas Gerais. Também não menciona os termos direitos humanos,
combate à pobreza, prevenção à criminalidade ou políticas sociais, somente para
ficarmos em alguns exemplos que poderiam traduzir preocupação em relação à
defesa de direitos e combate às desigualdades.
Apesar de reconhecer a diversidade regional,
também não detalha políticas de desenvolvimento para o Norte de Minas,
Jequitinhonha, Mucuri e outras regiões historicamente desfavorecidas.
O Plano de Governo Cleitinho e Falcão omite
questões importantes, como desigualdades regionais e ignora problemas reais
como a insegurança da população que vive em áreas de mineração. Enfim, carece
de maior detalhamento sobre viabilidade financeira, metas mensuráveis,
políticas para populações específicas e soluções inovadoras para desafios
urbanos, ambientais e sociais. Em resumo, não explica como vai melhorar a vida
dos mineiros.
<><> Minar a democracia
É inegável o desempenho do candidato nas
redes sociais, pois consegue engajamento orgânico massivo e viraliza conteúdos.
A eficácia da comunicação do parlamentar se encontra na capacidade de explorar
emoções, reforçar identidades grupais e instrumentalizar o ambiente algorítmico
das plataformas digitais.
Mas, conforme visto, ao vocalizar sentimentos
da sociedade com um discurso antissistema, além de disseminar desinformação,
Cleitinho está assolando a confiança nas instituições democráticas, abrindo
espaço para o enfraquecimento gradual da democracia e afirmando posições
autoritárias.
Na obra “Como as democracias morrem”, os
pesquisadores Levitsky e Ziblatt explicam o colapso das democracias pela
ascensão de líderes políticos e partidos que exploram as instituições
democráticas para minar a própria democracia.
Segundo eles, essas lideranças costumam
ganhar notoriedade pela via eleitoral, explorando as fraquezas do sistema
democrático para miná-lo gradualmente e consolidar seu poder político. Assim, a
democracia é subvertida por dentro de sua própria dinâmica institucional, sendo
transformada num regime que é a sua própria negação.
Fonte: Por Jaqueline Morelo, em Outras
Palavras

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