Corrida
pelas terras raras: capital estrangeiro avança enquanto Brasil busca soberania
mineral
Nas
regiões mais promissoras para a exploração de terras raras no Brasil,
mineradoras ligadas ao capital estrangeiro já avançam com projetos de
exploração. Especialistas analisam à Sputnik Brasil se a ausência de empresas
nacionais no setor pode fazer o país perder mais uma "janela de
oportunidade" para desenvolver sua própria cadeia industrial.
No Sul
de Minas Gerais, as propriedades medicinais e relaxantes das águas termais
sulfurosas de Poços de Caldas fizeram a região ganhar fama mundo afora. A
riqueza foi registrada pela primeira vez em 1819, quando o naturalista francês
Auguste de Saint-Hilaire citou inicialmente as águas minerais presentes na
bacia do rio Pardo. A partir de então, a localidade passou a ser cada vez mais
procurada por pessoas que buscavam tratamentos para problemas como reumatismo,
artrite e doenças de pele e, em 1886, recebeu o seu primeiro balneário, marco
que mais tarde contribuiria para o título de estância hidromineral.
Essa
singularidade está ligada à própria formação geológica do território, chamada
de Planalto Vulcânico de Poços de Caldas. Considerada das maiores estruturas
alcalinas intrusivas do mundo, a região guarda uma combinação rara: depósitos
ricos em elementos terras raras e concentrações naturais de urânio e tório. Foi
justamente essa característica geológica que levou à exploração do metal em
Caldas, a pouco mais de 30 quilômetros de Poços de Caldas, a partir dos anos
1980. No local, foi instalado o primeiro complexo mínero-industrial de urânio
brasileiro, operado pela estatal Indústrias Nucleares do Brasil (INB). A
estrutura funcionou até 1995 e, desde então, passa por um longo processo de
recuperação ambiental.
Quase
três décadas depois do fim da atividade, a riqueza mineral volta a atrair a
atenção, desta vez para a extração de terras raras, elementos estratégicos para
as novas tecnologias. Atualmente, já existem dois grandes projetos na região:
Caldeira, da Meteoric Caldeira, e Colossus, da Viridis Mineração, cujas áreas
sob estudo chegam a quase 800 hectares. Ambas as mineradoras são subsidiárias
de companhias australianas.
No caso
da Viridis, a companhia inclusive anunciou na última semana que o Banco
Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) aprovou um financiamento
de R$ 77,5 milhões, recurso previsto em uma linha especial de crédito com taxas
de juros a partir de 1,1% ao ano para projetos que contribuam com a
descarbonização e a transição energética. O montante vai ajudar a implantar o
Centro de Pesquisa e Processamento de Terras Raras (CPTR) para a produção em
escala-piloto, incluindo extração e estudo de argilas iônicas em um dos
depósitos mais promissores do mundo fora da Ásia.
Ao
longo do ano, as áreas dos três empreendimentos foram alvo de visitas oficiais,
com a participação de órgãos e ministérios do governo federal, além de
organizações da sociedade civil. Na ocasião foram apontados riscos
socioambientais relacionados aos projetos, agravados pela ausência, até então,
de uma política nacional para minerais estratégicos, sancionada apenas nesta
quarta-feira (16). Entre as instituições participantes estava o Movimento dos
Atingidos por Barragens (MAB).
Membro
da coordenação nacional do grupo, Joceli Andreoli classifica à Sputnik Brasil
que a mobilização de recursos públicos para fortalecer empreendimentos
controlados por empresas estrangeiras, a exemplo da Viridis em Poços de Caldas,
é preocupante.
"Enquanto
isso, o país possui universidades, institutos federais e empresas públicas
capazes de desenvolver conhecimento e tecnologia próprios. Em setores
estratégicos, o dinheiro público deve estar associado a uma política de
soberania tecnológica, industrial e mineral. Terras raras são estratégicas não
apenas pelo valor econômico, mas por sua importância para tecnologias, energia,
indústria e soberania nacional", enfatiza.
Andreoli
pontua que o MAB defende maior controle público sobre essa cadeia, mas não
exclui a importância das cooperações internacionais e parcerias estratégicas.
"Concordamos
que o Brasil não pode continuar condenado à exportação de matéria-prima.
Precisamos desenvolver uma cadeia produtiva nacional com pesquisa, tecnologia,
processamento e industrialização, gerando empregos qualificados e conhecimento
no país. Mas industrializar não basta. É preciso perguntar: industrializar pra
quem, sob qual controle e para qual projeto de desenvolvimento?",
questiona.
O
dirigente do MAB afirma ainda ser crucial evitar a "lógica colonial de
apropriação dos bens naturais", mesmo que uma etapa seja mais sofisticada.
Para isso, uma das propostas da entidade é que o governo federal viabilize a
criação do Centro de Inteligência e Tecnologias Avançadas em Terras Raras na
Universidade Federal de Alfenas (Unifal-MG) e no Instituto Federal de Educação,
Ciência e Tecnologia do Sul de Minas Gerais (IFSULDEMINAS).
"O
Brasil tem capacidade científica para construir conhecimento próprio e também
pode estabelecer parcerias estratégicas internacionais. O que não podemos é
transformar essa capacidade em subsídio para ampliar a rentabilidade privada
sem garantir soberania, participação popular e benefícios para os
territórios", argumenta.
A
professora e coordenadora do curso de relações internacionais da Faculdade
Presbiteriana Mackenzie Rio, Fernanda Brandão, pondera que a presença de
empresas estrangeiras na exploração desses minerais envolve aspectos positivos
e negativos.
"A
Viridis é uma empresa especializada na exploração desses minerais e traz
consigo a tecnologia para a exploração desses recursos. Contudo, a dependência
de empresas estrangeiras pode dificultar o controle do governo sobre esses
recursos estratégicos e limitar a capacidade regulatória. Mas imposições
legislativas severas sobre o volume exportável ou o requisito de processamento
industrial nacional podem afastar potenciais investidores", exemplifica.
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Terras raras e a nova janela de oportunidade para o Brasil
Uma das
prioridades do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) para o
setor, a Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos (PNMCE)
estabelece um fundo de R$ 5 bilhões para incentivos fiscais e cria um programa
voltado ao desenvolvimento de indústrias de beneficiamento e transformação de
terras raras. A legislação também institui um conselho com poder para barrar
operações societárias no país.
Hoje,
apenas uma empresa no Brasil faz a extração em reservas de terras raras em
Goiás: a mineradora Serra Verde, adquirida pela norte-americana USA Rare Earth
por US$ 2,8 bilhões (R$ 14 bilhões), antes de a nova legislação entrar em
vigor. Enquanto isso, os projetos das subsidiárias australianas em Poços de
Caldas seguem em estágio inicial, inclusive na obtenção de licenças ambientais.
Para
Fernanda Brandão, o momento é crucial para definir o objetivo do Brasil no
desenvolvimento do setor: aproveitar a "janela de oportunidade" para
construir uma cadeia produtiva tecnológica, como quer a política nacional
aprovada, ou permanecer como fornecedor de commodities estratégicas para o
mercado global.
"Para
definir qual a melhor estratégia para o Brasil, o país precisa levar em conta
seus dilemas econômicos e de segurança, sua proximidade com os Estados Unidos e
o desejo do governo Donald Trump de assegurar sua influência sobre o país e
garantir acesso a esses recursos. Também é preciso considerar as necessidades
de desenvolvimento industrial nacionais e, a partir desse contexto, elaborar a
melhor estratégia para o desenvolvimento desse setor, sem sacrificar a
soberania nacional e a oportunidade de ganhos econômicos e desenvolvimento
industrial que se apresenta", resume.
O
professor do Departamento de Economia da Universidade Federal Fluminense (UFF)
André Nassif acrescenta que países em desenvolvimento como o Brasil têm mais
chances de aproveitar essas oportunidades e competir de forma efetiva com
outras potências quando uma nova tecnologia está surgindo, como ocorre agora
com as terras raras. Um exemplo, segundo ele, é a China, que hoje domina o
setor e é o único país com reservas superiores às brasileiras —54,4% das
reservas mundiais estão em solo chinês, enquanto o Brasil concentra outros
13,9%, conforme dados revisados pela Agência Nacional de Mineração (ANM).
"As
terras raras possuem um potencial de desenvolvimento e difusão tecnológica que
é totalmente novo com poucas empresas efetivamente no setor. Sabemos que o
Brasil conta com uma das maiores disponibilidades do recurso natural
propriamente dito, mas a transformação só a China praticamente domina. É
essencial que o governo brasileiro abrace uma política forte que permita o
aproveitamento dessa oportunidade para empresas nacionais. Para isso, é
essencial que não se caia na armadilha do neocolonialismo verde [uso da agenda
climática por países ricos para perpetuar a exploração econômica]", alerta
à Sputnik Brasil.
©
Sputnik Brasil
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Do Norte ao Sul Global: as estratégias mundo afora
Enquanto
a China usa um forte controle sobre as próprias exportações para dominar a
cadeia produtiva das terras raras, países como Chile e Indonésia adotam
mecanismos para estimular a participação nacional no setor. Entre eles estão a
exigência de parcerias público-privadas, condições diferenciadas para empresas
de tecnologia que se instalem em seus territórios e regras para que parte dos
lucros permaneça nas localidades. A professora Fernanda Brandão também cita a
estratégia da Austrália, cujo governo financia a expansão de companhias do
país, como a Viridis, para o exterior.
"Hoje,
a competição geopolítica global é acompanhada de uma corrida tecnológica que
depende desses recursos que deixaram de ser meros minérios para se tornarem
altamente estratégicos e se tornando motivadores de projetos expansionistas
econômicos e militares das principais potências globais […]. Reservas
significativas como as brasileiras passam a ganhar um novo interesse das
principais potências globais. Antes da compra de Serra Verde por uma empresa
americana, a empresa operava em parceria com uma empresa chinesa",
complementa.
Diante
disso, a especialista acredita também que a abundância desses recursos no
território brasileiro também pode até se tornar uma ameaça de segurança ao
país. "O interesse estrangeiro nessa indústria é gigante, o que cria uma
importante janela de oportunidade para o país se inserir numa das principais
cadeias produtivas globais, mas também cria riscos de segurança caso o acesso a
esses recursos seja negado a esses atores", conclui.
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Desenvolvimento x questões ambientais
Os
impactos ambientais sobre a exploração das terras raras ainda são pouco
conhecidos. Na região de Poços de Caldas, por exemplo, a chegada dos projetos
ocorre em meio à convivência de décadas com o passivo deixado pela antiga
exploração de urânio da INB, que opera a Unidade de Descomissionamento de
Caldas (UDC). Já os projetos Caldeira e Colossus devem alterar a dinâmica das
águas no território, conforme documento do Instituto Brasileiro do Meio
Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) divulgado recentemente.
É
justamente a interação entre essas três atividades que preocupa o órgão
ambiental. Durante a exploração, as mineradoras precisarão retirar água das
áreas das futuras cavas, o que pode modificar o fluxo subterrâneo e,
consequentemente, mudar a trajetória de áreas já contaminadas pela antiga
mineração de urânio. O Ibama também aponta riscos relacionados ao próprio
processo de extração das terras raras. O uso de produtos químicos nas argilas
pode favorecer a liberação de metais, além de urânio e tório naturalmente
presentes no solo.
"Em
Poços de Caldas, comunidades questionam a proximidade dos projetos com moradias
e escolas e levantam preocupações sobre água, segurança e o futuro do
território. Há questionamentos das organizações e comunidades da região sobre a
insuficiência dos estudos e sobre a necessidade de avaliar o conjunto dos
projetos previstos para o Planalto Vulcânico do Sul de Minas, e não cada
empreendimento isoladamente", pontua Joceli Andreoli, que citou o risco de
escavações a cerca de 300 metros de casas e escolas.
Por
isso, o membro da coordenação nacional do MAB defende que, para além da
soberania nacional, é necessário garantir a "soberania popular" e
fazer um novo caminho diferente do que ocorreu historicamente com a mineração
brasileira.
"As
comunidades têm direito à informação qualificada, acessível e independente. A
participação não pode ocorrer apenas depois que o empreendimento está pronto.
Deve acontecer desde a produção dos estudos e do conhecimento sobre o
território, antes das decisões fundamentais", conclui.
• Brasil e China reforçam cooperação em
IA, minerais críticos e diálogo diplomático em Pequim
O
assessor-chefe da Assessoria Especial do Presidente da República, Celso Amorim,
se reuniu nesta quarta-feira (16), em Pequim, com o ministro das Relações
Exteriores da China, Wang Yi.
Celso
Amorim se reuniu em Pequim com o chanceler Wang Yi para discutir a relação
Brasil-China, cooperação em IA e minerais críticos, além dos conflitos na
Ucrânia e no Oriente Médio, entregando uma carta de Lula a Xi, que reforça a
convergência estratégica entre os dois países.
De
acordo com apuração da mídia brasileira, Amorim entregou uma carta do
presidente Luiz Inácio Lula da Silva ao seu homólogo chinês, Xi Jinping,
reforçando a convergência estratégica entre os dois países.
Brasil
e China trataram do desenvolvimento de sistemas de IA de código aberto, com
foco em ética e inclusão, e da ampliação das capacidades produtivas ligadas a
minerais críticos e terras raras, essenciais para tecnologias eletrônicas,
veículos elétricos e a transição energética.
A pauta
econômica ocorre em meio ao aumento da relevância desses insumos nas cadeias
globais de tecnologia e energia, um espaço em que ambos buscam avançar no
sentido da agregação de valor, para fortalecer setores estratégicos diante da
competição internacional na cadeia.
No
campo diplomático, Amorim e Wang Yi defenderam o multilateralismo, o diálogo e
a solução pacífica de conflitos, além de rejeitarem ingerências externas,
considerando o BRICS como tendo um papel estratégico para a articulação das
negociações de paz.
O
encontro entre eles ocorre dias após a Cúpula do BRICS, e os dois diplomatas
revisaram a declaração aprovada pelo bloco e a presidência chinesa do grupo,
segundo a apuração.
Wang Yi
destacou o avanço acelerado das relações bilaterais sob orientação de Lula e
Xi, classificando a parceria como modelo de solidariedade do Sul Global, e
elogiou a adesão brasileira à Organização Mundial de Cooperação em IA,
defendendo que os dois países promovam um desenvolvimento tecnológico inclusivo
e benéfico à humanidade.
Ainda
segundo a mídia, Amorim afirmou que Brasil e China devem aprofundar a
coordenação em plataformas multilaterais e implementar o consenso entre os
chefes de Estado, ampliando a cooperação prática em diversas áreas.
Fonte:
Sputnik Brasil

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