sexta-feira, 18 de setembro de 2026

Embargos a Cuba expõem desprezo dos EUA por resoluções da ONU e direito internacional

Sob bloqueio econômico dos EUA desde 1962, Cuba enfrenta uma crise ainda mais grave desde o retorno de Trump à Casa Branca. Desde o ano passado, Washington intensificou o cerco energético e praticamente zerou o fornecimento de petróleo à ilha. Até que ponto sanções e bloqueios podem funcionar como instrumentos de asfixia de uma população?

Pouco mais de duas horas de eletricidade por dia e uma falta de combustível, que afeta até o transporte público. Esse tem sido o cotidiano de quase 11 milhões de cubanos nos últimos tempos. Segundo país mais populoso do Caribe, Cuba tem 82% de sua população em áreas urbanas, onde elevadas temperaturas são sentidas durante boa parte do ano.

Com o objetivo de estrangular ainda mais a economia do país, Washington passou a intensificar as sanções contra países que enviassem petróleo à nação, cuja produção interna cobre apenas 30% da demanda energética e é quase totalmente dependente de combustíveis fósseis.

Aliado a isso, a Venezuela, que até o sequestro do presidente Nicolás Maduro era o principal fornecedor do insumo ao país, interrompeu o fornecimento sob pressão da Casa Branca.

"Comida estragando, o calor que torna impossível dormir, pais abanando seus bebês, crianças fazendo a lição de casa no escuro, jovens sem conectividade ou lazer, avós sem televisão ou, às vezes, nem mesmo rádio, toda a vida familiar prejudicada", relatou na última semana o ministro das Relações Exteriores do país, Bruno Rodríguez Parrilla.

Conforme o chanceler, somente o bloqueio energético já provocou um prejuízo de mais de US$ 8 bilhões (R$ 40,8 bilhões) em menos de um ano, valor considerado recorde em meio a um embargo que dura há quase 65 anos.

Apesar da gravidade da situação, Cuba encontrou uma alternativa para suprir a necessidade energética a partir da energia solar. Em apenas 45 dias, parques foram instalados no país, que enfrenta um novo desafio: as ameaças contra empresas que transportam painéis solares e baterias para que essas estruturas comecem a funcionar.

A analista internacional e doutora em ciência política pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) Ana Prestes compara, ao podcast Mundioka, da Sputnik Brasil, a situação cubana à realidade vivida pela população palestina na Faixa de Gaza, mas sem bombas. Em meio à guerra na região, Israel tem deixado há quase três anos o território sem fornecimento de energia elétrica.

"Eu estive em Cuba duas vezes neste ano e, inclusive, ouvi essa comparação de um embaixador da Palestina no país. E ninguém melhor que um palestino para fazer esse tipo de comparação. Sabemos que há enormes diferenças, mas o que o povo cubano está sofrendo é uma forma de genocídio sem bombas."

A especialista também afirma que, mesmo sem oferecer nenhuma ameaça aos Estados Unidos, tanto econômica quanto militarmente, Washington busca uma "vitória simbólica" sobre o governo castrista, classificado pelo governo Trump como "uma ameaça extraordinária" à segurança nacional.

"Quando as relações entre os dois países estavam melhores, entre 2007 e o governo Barack Obama, apesar da manutenção do embargo, os Estados Unidos se beneficiavam de Cuba, já que iam fazer turismo, inclusive para tratamentos médicos. Então, não há ameaça nenhuma, muito menos militar, de uma ilha pequena diante de um território enorme que tem 300 milhões de habitantes", afirma.

Mesmo assim, Cuba foi um dos poucos países que um dia desafiou de forma contundente a hegemonia estadunidense, que busca ditar mundo afora como as sociedades devem viver, acrescenta Prestes.

"Quando Cuba é essa alternativa de um país que investe em saúde, educação, cultura, esporte, ciência e pesquisa, ela mostra para o mundo que é possível viver de outra forma, sem ter um regime de exploração. Então, mais do que tudo, os EUA seguem buscando essa vitória simbólica porque é uma forma de mostrarem que Havana tentou outro caminho e não conseguiu", complementa.

O professor e vice-presidente da Associação Cultural José Martí, uma entidade sem fins lucrativos de solidariedade entre Brasil e Cuba, Luiz Eduardo Mergulhão, concorda e acrescenta que Cuba é uma "Gaza silenciosa" diante do cerco econômico sem precedentes.

"Temos uma dificuldade enorme no cotidiano da ilha que, mesmo assim, tenta sobreviver. Então é um cerco justamente para causar a fome e o debacle definitivo da ilha. Mas, por outro lado, as instituições e o governo cubano permanecem e conseguem construir determinadas políticas de resistência. Além disso, o povo cubano, apesar de toda situação muito dura, não é tomado pela completa descrença e tenta construir a sobrevivência à medida que pode. Então, é uma Gaza silenciosa e, ao mesmo tempo, uma Gaza que resiste com suas estruturas de governo consolidadas", afirma ao programa.

<><> ONU condena bloqueio contra Cuba, mas resoluções não têm efeito sobre sanções

Para Ana Prestes, cada vez mais as sanções são instrumentalizadas pelos Estados Unidos e Europa, principalmente, como armas para "pressionar, coagir, intimidar e chantagear" os países. A especialista cita o caso do Brasil, que recentemente sofreu tarifas de importação que chegaram a 50% e tiveram como argumento uma suposta perseguição pelo Supremo Tribunal Federal (STF) ao ex-presidente Jair Bolsonaro.

"São punições coletivas, como ocorre com a Rússia, que é o país mais sancionado do mundo, mas tem um território gigante, muitos recursos e uma forte aliança com a China e o BRICS, que fez com que conseguisse se reerguer, o que é diferente de Cuba, uma ilha isolada fisicamente do mundo. Então, é muito mais fácil isolar o país, que é pequeno, com poucos recursos e sem petróleo suficiente para se manter e tudo mais", compara.

Outro ponto que a analista internacional enfatiza é que há pelo menos 30 anos a Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU) aprova anualmente a resolução contra o bloqueio estadunidense contra Havana. Segundo ela, somente Estados Unidos e alguns poucos parceiros, como Israel e, recentemente, Argentina, votaram contra, enquanto o Brasil chegou a se abster durante o governo Bolsonaro.

"Ou seja, todos os anos Washington não respeita a resolução da ONU. Logo, não há legitimidade no direito internacional, e existe uma extraterritorialidade da legislação dos EUA que eles têm aplicado a vários países da América Latina. É isso que eles fazem, tudo isso à revelia dos pactos internacionais de respeito à soberania dos países", resume.

<><> Ajuda humanitária para Cuba parada por sanções

Para além das dificuldades vividas diariamente pela população cubana, as sanções e os bloqueios estadunidenses afetam até a chegada de ajuda humanitária à ilha. Desde o endurecimento das medidas unilaterais, Cuba passou a receber alimentos, medicamentos e até placas solares de países como Brasil, Rússia e China, cujos navios conseguem chegar ao território. Contudo, quando esse apoio vem de instituições privadas e ONGs, segundo Ana Prestes, não é possível encontrar empresas que façam o transporte justamente por medo de serem sancionadas.

"Quando eu fui pela última vez, em agosto, eles contaram que só nos portos da Jamaica ou do México havia quase 5 mil contêineres com esses insumos. Cuba é alvo de muita solidariedade mundo afora, só que essa ajuda humanitária não está conseguindo chegar."

¨      Trump elogia atuação de Sheinbaum contra drogas, mas interfere na soberania do México ao exigir prisão de funcionários

Em sua apresentação do relatório anual ao Congresso sobre os principais países de trânsito e produção de drogas ilícitas, o presidente Donald Trump escreveu que “reconhecemos os esforços” antidrogas do governo de Claudia Sheinbaum, sobretudo no envio de forças de segurança pública e militares para a fronteira norte, mas ressaltou que “o México precisa fazer muito mais para conter o fluxo de drogas mortais para o nosso país”, incluindo o combate à “narcocorrupção”.

Ao tratar do México em sua introdução, o mandatário escreveu que, enquanto “protegemos nossas fronteiras contra a invasão”, México — juntamente com o Canadá — “precisa fazer muito mais” contra o fluxo de drogas.

“Reconhecemos o governo da presidenta mexicana Sheinbaum por apreender volumes maiores de drogas, desmantelar laboratórios de drogas” e mobilizar forças de segurança para a fronteira com os Estados Unidos.

Elogiou ainda o fato de que a cooperação do México com os Estados Unidos “ajudou a eliminar alguns dos chefes de cartel mais notórios do mundo, incluindo El Mencho”.

Mas o México “tem de tomar medidas adicionais contra as organizações narcoterroristas que dominam vastas áreas de seu território e continuam ameaçando o povo estadunidense”, afirmou.

Entre essas medidas, ressaltou que o México precisa “desmascarar, prender e processar muitos dos funcionários públicos corruptos que ajudaram e instigaram os cartéis e traíram a segurança e a soberania de seu próprio país”.

Outras sugestões, ou talvez exigências, para o México enumeradas por Trump incluem maior participação do setor privado, aumento das inspeções em seus pontos de entrada e elevação dos gastos públicos nessa luta, já que “os atuais investimentos do México em suas forças de segurança são insuficientes para sustentar e ampliar suas campanhas contra os narcoterroristas, suas finanças e suas redes criminosas”.

O relatório, elaborado pelo Departamento de Estado e apresentado anualmente ao Congresso, identifica os principais países de trânsito e produção de drogas.

Nesta edição, são relacionados 23 países do mundo — a maioria na América Latina e no Caribe —, entre eles o México. Dos 23, o presidente designou quatro — Afeganistão, Bolívia, Myanmar e Colômbia — como países que, durante os últimos 12 meses, “fracassaram […] em fazer esforços substanciais para cumprir suas obrigações” previstas em acordos internacionais e nas leis estadunidenses.

O mandatário elogiou a si próprio por suas realizações: “Meu governo fez progressos históricos na proteção do povo estadunidense contra drogas mortais e organizações narcoterroristas implacáveis”. Acrescentou que, sob seu governo, “a fronteira sul é a mais fechada e segura da história de nossa nação” e que “salvamos dezenas de milhares de vidas estadunidenses”.

Ressaltou que “os narcoterroristas responsáveis por esta invasão estão mortos, presos ou vivendo com medo de serem os próximos a enfrentar a Justiça estadunidense”, tudo isso, segundo ele, como resultado do emprego de forças militares contra “narcoterroristas” onde quer que estejam no mundo. Também destacou o papel da Coalizão Anticartel das Américas, aliança de uma dúzia de países do Hemisfério Ocidental que teria alcançado, mais uma vez, resultados “históricos”.

De fato, enfatizou que “mudanças políticas dramáticas na América do Sul durante o último ano criaram oportunidades históricas para a cooperação dos Estados Unidos com governos da região”.

“Na Venezuela, graças à prisão e remoção do ex-ditador ilegítimo e narcotraficante Nicolás Maduro [realizada] por meu governo, já estamos vendo os resultados de uma crescente cooperação com o governo interino do país contra os cartéis…”, afirmou.

Na Bolívia, depois de “décadas de governos socialistas ineptos”, abre-se, segundo Trump, um novo capítulo de cooperação. “O povo da Colômbia tomou a decisão corajosa” de eleger Abelardo de la Espriella depois das “políticas socialistas fracassadas” de seu antecessor e, com isso, “a Colômbia está prestes a retomar seu lugar como nosso principal parceiro de segurança no hemisfério”.

Da mesma forma, deu as boas-vindas ao novo governo do Peru e destacou “os grandes aliados dos Estados Unidos” na região — Argentina, Equador e El Salvador — em suas lutas contra o “narcoterrorismo”. Ao mesmo tempo, acusou o governo do Brasil de ter “fracassado” no enfrentamento a grupos “narcoterroristas” e também condenou a “ditadura socialista” da Nicarágua.

Em relação a outros países, destacou que a China continua sendo o maior produtor mundial de precursores químicos empregados na fabricação de fentanil e outras drogas sintéticas e instou o governo chinês a adotar medidas “mais agressivas”.

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A lista apresentada pelo presidente dos principais países de trânsito ou produção de drogas para o ano fiscal de 2027 é a seguinte: Afeganistão, Bahamas, Belize, Bolívia, Myanmar, China, Colômbia, Costa Rica, República Dominicana, Equador, El Salvador, Guatemala, Haiti, Honduras, Índia, Jamaica, Laos, México, Nicarágua, Paquistão, Panamá, Peru e Venezuela.

<><> O Grito nos Estados Unidos

“Aqui estamos, viva o México” foi uma das palavras de ordem tanto da celebração da Independência do México como um grito de desafio dentro de um país que promove agressivas medidas antimigratórias e cujo presidente divulgou uma imagem do México — junto com o Canadá e a Groenlândia — sob a bandeira estadunidense.

Em Nova York, Chicago, Los Angeles, Minneapolis, Boston e outras cidades, prefeitos e governadores se somaram à celebração e transmitiram a mensagem de que “esta é a sua casa”. Mas o Grito foi mais um sussurro em algumas localidades e chegou a ser sufocado em outras, como em Passaic, Nova Jersey, onde a tradicional celebração do dia 15 foi suspensa diante do temor da “migra” e para evitar expor a comunidade a agentes federais mascarados e às ameaças retóricas que diariamente partem do governo federal.

Mas o Grito foi celebrado como sempre na maior metrópole dos Estados Unidos, Nova York, onde, na cerimônia oficial no bairro mexicano (que também inclui um bairro chinês) de Sunset Park, realizou-se o ato oficial com a presença do cônsul-geral Marcos Bucio, do embaixador do México junto à Organização das Nações Unidas, Héctor Vasconcelos, de alguns políticos latinos locais e do prefeito imigrante de Nova York, Zohran Mamdani.

“Mamdani, irmão, agora você é mexicano”, entoaram milhares de pessoas, felizes porque o prefeito decidiu voltar para estar com elas depois de ter participado do desfile no domingo. A mensagem do ainda novo prefeito foi: “Isto é PueblaYork”.

“É uma grande alegria estar aqui para celebrar os mexicanos em Nova York”, declarou. Recordou Miguel Hidalgo e como seu grito foi apenas o início de uma longa luta; lembrou Benito Juárez e sua estátua no centro desta cidade; e afirmou que “há mais de 160 anos, os mexicanos ajudam a construir esta cidade… Em cada distrito e em cada bairro, o México está costurado no tecido de Nova York.

Vemos isso nos sapateiros de Corona [bairro do Queens], consertando as botas de longas jornadas de trabalho e de longas marchas pela justiça; nos médicos de Kingsbridge, curando os enfermos; vemos isso nos músicos das bandas de Sunset Park, que enchem quarteirões inteiros com ritmo e metais”.

Mamdani referiu-se ao orgulho e à luta da comunidade e afirmou: “Sabemos que há muitos mexicanos nova-iorquinos se perguntando se esta cidade é um lar para eles, e eu venho como prefeito de nossa cidade para dizer que vocês estão em casa em PueblaYork, sempre estarão em casa aqui.

Manteremos abertas nossas clínicas, nossas escolas e nossos abrigos, independentemente da situação migratória de qualquer pessoa, e faremos isso porque, quando olho para vocês aqui, o que vejo é um público de nova-iorquinos”. E concluiu em espanhol: “Que vivam os mexicanos”.

O cônsul Bucio proferiu o Grito e tocou o sino, declarando que “celebramos a identidade, a história e a força de uma comunidade que fez de Nova York seu lar”, e lembrou que o consulado está comemorando 200 anos de presença nesta cidade. Um mar de bandeiras mexicanas, agitadas por famílias, acompanhou os discursos e a música da noite, incluindo um mariachi com a cantora Rosy Arango, a Banda Unión de Chinantla e a dupla pop Ha*Ash, enquanto aromas e sabores de espigas de milho, churros, taquitos dourados, raspadinhas e todo tipo de nozes e amendoins eram oferecidos, juntamente com camisetas da seleção nacional.

Em Washington, DC, a cerimônia do Grito foi presidida pela primeira vez pelo novo embaixador Roberto Lazzeri Montaño, que incluiu entre os “vivas” a comunidade imigrante e uma “América do Norte unida e humanista”, durante a celebração realizada no Instituto Cultural Mexicano.

De longe, ao anoitecer, podia-se ver o icônico arranha-céu Empire State Building iluminado com as cores da bandeira mexicana na noite do dia 15.

Em outras cidades — algumas das quais realizaram a celebração nacional no fim de semana passado — ocorreram eventos culturais de diversos tipos. Em Chicago, o governador democrata de Illinois, JB Pritzker, e o prefeito Brandon Johnson participaram das comemorações, e o governador chegou inclusive a dançar na rua.

A prefeita de Los Angeles, Karen Bass, também dançou na rua ao acompanhar a festa nas escadarias da prefeitura, onde se apresentaram Los Ángeles Azules. Também houve grandes atos em Las Vegas, Phoenix, Arizona, Houston, Miami, San Francisco, Filadélfia, San Diego e El Paso, entre outras cidades e localidades.

Por sua vez, em nome do governo dos Estados Unidos, o secretário de Estado Marco Rubio felicitou o povo mexicano pelo 216º aniversário de sua independência, em um comunicado.

Acrescentou que, no governo de Donald Trump, abriu-se “um novo capítulo de nossa relação com o México, no qual ambas as nossas nações se beneficiam de um comércio mais justo, de uma cooperação muito mais profunda em questões de segurança e de economias prósperas orientadas para o mercado”.

Rubio afirmou que o “narcoterrorismo” afetou os dois povos e declarou que Trump realizou “esforços históricos” para enfrentar os “narcoterroristas” no México, acrescentando que há “muito mais trabalho” a fazer para que o México seja um “parceiro” nas próximas décadas. Enquanto isso, soma-se ao “povo mexicano na celebração de sua independência”.

 

Fonte: Sputnik Brasil/Diálogos do Sul Global

 

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