‘Economia está bem, mas Governo Lula precisa
conectar melhora ao eleitor’, diz economista
Faltando
poucos dias para o primeiro turno das eleições presidenciais, a economia começa
a ganhar força como tema preponderante das campanhas, já que muitos consiseram
que ela é um dos principais fatores responsáveis pelas oscilações nas pesquisas
mais recentes, incluindo as que afetam a candidatura do presidente Luiz Inácio Lula da Silva à reeleição.
O
economista Pedro Faria considera que o Governo Lula tem indicadores
positivos para
apresentar na campanha à reeleição, mas não consegue transformar esses
resultados em uma percepção de melhora na vida da população. Para ele, o
problema não está apenas nos números, mas na dificuldade de fazer com que o
eleitor reconheça os efeitos das políticas adotadas pela gestão.
Faria
cita como exemplos o crescimento da renda do trabalho, a inflação sob controle,
a queda do desemprego e o aumento do número de empregos formais. Na avaliação
do economista, esses resultados mostram saldo positivo, mas que há fatores que
bloqueiam a percepção desse cenário. Entre eles estão o endividamento das
famílias, o peso das bets, o custo elevado do crédito e a força de discursos
que atribuem ao indivíduo os avanços na renda e ao governo os problemas
econômicos.
“Os
programas existem, as estatísticas macroeconômicas de crescimento da renda do
trabalho são bastante claras, a inflação está sob controle, o desemprego está
na mínima histórica e há crescimento, inclusive, do número de empregos
formais”, argumenta o economista, que é pesquisador vinculado ao Centro de
Desenvolvimento e Planejamento Regional (Cedeplar) da Universidade Federal de
Minas Gerais (UFMG).
Em
entrevista a Opera Mundi, ele também indica que “falta o governo ser mais
claro sobre o que pretende para um possível próximo mandato. Os feitos estão
aí. A picanha está no prato, por exemplo. Pelo menos o preço da picanha está
mais acessível do que durante o governo Bolsonaro: um salário mínimo comprava
21,56 kg de picanha em dezembro de 2022, no final daquela gestão, e hoje, após
quatro anos de governo Lula, um salário mínimo compra 29,47 kg de picanha. Há
uma diferença importante”.
A
dificuldade de comunicação ganha peso diante da proximidade das eleições de
2026. Na pesquisa Quaest divulgada em 7 de
setembro,
38% dos entrevistados afirmaram que a economia piorou em relação ao ano
anterior, enquanto 28% disseram que melhorou e 31% avaliaram que não houve
mudança. No mesmo levantamento, Lula e Flávio Bolsonaro aparecem empatados
numericamente em uma simulação de segundo turno, com 41% das intenções de voto
cada um.
Para
Faria, os números representam um alerta para a campanha de Lula justamente
porque o governo estaria deixando de explorar uma realidade econômica que
considera favorável. Além disso, defende que o governo seja mais enfático na
disputa eleitoral e estabeleça com maior clareza o que está em jogo em 2026.
“O
governo Lula faz campanha como se não estivéssemos lidando, também, com um
cerco econômico promovido pela maior potência estrangeira do planeta”, reitera.
>>>> Leia a entrevista com Pedro
Faria na íntegra:
·
Na pesquisa Quaest de 7
de setembro, 38% dos entrevistados disseram que a economia piorou em comparação
ao ano passado, e 28% disseram que melhorou. Outros 31% acham que não mudou
nada. Isso deve ser visto como um alerta para a campanha de Lula?
Pedro Faria:
sim, é sinal de que algo está bloqueando a percepção da população. Os programas
existem, as estatísticas macroeconômicas de crescimento da renda do trabalho
são bastante claras, a inflação está sob controle, o desemprego está na mínima
histórica e há crescimento, inclusive, do número de empregos formais.
Então, algo está impedindo que essas medidas,
que têm efeitos concretos, sejam percebidas como políticas de governo. Seja
algo que se contraponha a esses efeitos, seja algo que realmente faça com que
as pessoas não percebam isso como uma medida de governo.
·
Nesse sentido, como você
avalia o discurso da campanha de Lula com respeito à questão econômica?
Creio que é um discurso de campanha muito
brando para a situação que estamos vivendo. O governo Lula está fazendo uma
campanha como se fosse uma campanha em um ambiente normal, como se não
estivéssemos lidando, neste momento, com a maior fraude financeira da história
do país, que é o caso do Banco Master.
O governo Lula faz campanha como se não
estivéssemos lidando, também, com um cerco econômico promovido pela maior
potência estrangeira do planeta.
Acho que o presidente Lula tinha que ser mais
veemente em seus discursos, nos seus programas eleitorais. O que se vê agora é
uma tranquilidade muito grande, e isso não está se conectando bem com uma
realidade muito mais complexa.
·
Na campanha de 2022,
Lula pleiteou a volta da “picanha no prato” diante da situação econômica ao
final do mandato de Bolsonaro. Neste ano, o governo apresenta os feitos e
resultados, mas o que falta?
Acho que falta o governo ser mais claro sobre
o que pretende para um possível próximo mandato. Os feitos estão aí. A picanha
está no prato, por exemplo. Pelo menos o preço da picanha está mais acessível
do que durante o governo Bolsonaro: um salário mínimo comprava 21,56 kg de
picanha em dezembro de 2022, no final daquela gestão, e hoje, após quatro anos
de governo Lula, um salário mínimo compra 29,47 kg de picanha. Há uma diferença
importante.
Mas, como disse na resposta anterior, há
questões que estão impedindo a percepção de bem-estar de se materializar, e aí
temos que entrar na questão das bets, em questões ideológicas sobre as
percepções a respeito do crescimento da renda, que algumas pessoas percebem
como uma vitória individual, não como consequência das políticas de governo.
Mas eu acho que falta olhar para frente e fazer as pessoas conectarem essas
realidades macroeconômicas com o futuro.
O que está vencendo, neste momento, é um
discurso de que teria havido uma redução do poder de compra da renda do
trabalho que não condiz com a realidade. Se observarmos as peças de propaganda
da extrema direita, elas inventam uma realidade que não existe, mas que chama a
atenção do público, porque o Brasil ainda é um país de renda média, com uma
desigualdade enorme.
Portanto, a classe trabalhadora ainda está
empobrecida e, por mais que as coisas tenham melhorado em termos de poder de
compra do salário mínimo em relação à cesta básica, por exemplo, ainda não é
uma vida fácil para uma parte da população. Então, um discurso sobre custo de
vida alto ressoa, mesmo que tenha havido melhora.
O governo não está conseguindo se conectar
com essas pessoas. Eu acho que tem a ver com você não oferecer um discurso que
faça a pessoa pensar que “a vida melhorou e vai continuar melhorando”.
·
As medidas tomadas pelo
governo para diminuir o impacto da guerra no Oriente Médio no preço dos
combustíveis e do endividamento das famílias, em decorrência das bets e outras
questões, tiveram sucesso, ou o cenário da pesquisa mostra justamente que essas
políticas não obtiveram o sucesso esperado?
Novamente, a questão está na percepção das
pessoas e nas métricas que se adotam para definir se as medidas tiveram ou não
sucesso.
No caso dos combustíveis, por exemplo: a
métrica é saber se as medidas foram capazes de conter o aumento do preço da
gasolina e do diesel? Se sim, então as medidas tiveram sucesso, pois o Brasil
foi um dos países que menos tiveram aumento de combustível no mundo. Foi
adotada uma política correta sobre isso, com tributação de exportações e
sobrelucro das empresas de petróleo, para conter o aumento do custo para o
consumidor. Isso elimina o efeito distributivo inverso que uma guerra causa.
Na questão do endividamento, por outro lado,
acho que não há um sucesso, nem na métrica, nem na percepção — diferente do
caso dos combustíveis, em que há um sucesso na métrica, mas não na percepção.
No tema do endividamento, o que nós vemos é que o problema continua se
manifestando em um patamar alto e não dá sinais de ceder. Para resolver isso, é
preciso um período sustentado de aumento da renda, algo que já está ocorrendo,
mas que seja acompanhado de fatores capazes de conter esse aumento do endividamento.
Os dois fatores mais evidentes que nós temos
atualmente são o efeito das bets e o crédito caro. Esse segundo ponto é
importantíssimo, pois a taxa de juros está altíssima, e, se não há uma redução
do custo do crédito, nem para as famílias, nem para as empresas, o efeito na
percepção sobre o custo de vida é inevitável.
<><> É possível mudar a campanha
com o bonde andando e apresentar uma nova plataforma econômica, especialmente
para o eleitor indeciso e para aquele que acha que a economia piorou ou que não
mudou nada? Que medidas poderiam ter esse efeito de reverter a tendência das
últimas pesquisas?
Acho que essa é uma questão mais para os
marqueteiros. Os economistas já não podem fazer nada em termos de medidas; o
governo vai ter que trabalhar na campanha com as medidas adotadas até o
primeiro semestre.
Ademais, não acredito que o governo Lula
tomaria medidas como as usadas pelo governo Bolsonaro, que causou, em plena
campanha de 2022, um rombo de mais de R$ 10 bilhões na Caixa, dando empréstimos
consignados para pessoas assistidas pelo Bolsa Família — que deram calote,
naturalmente, pois são pessoas de extrema vulnerabilidade —, e isso causou um
prejuízo à Caixa.
É preciso lembrar, também, que o presidente
Lula não tinha a opção de adotar algumas políticas, mesmo quando era legalmente
possível fazê-lo, porque ele não tem uma maioria no Congresso que apoie certas
políticas que contrariem a maioria de direita, incluindo a parte da direita que
é governista. Tampouco tem um Judiciário complacente — ainda que parte do STF
tenha enfrentado o golpe de Estado, foi muito complacente com Bolsonaro em
outras medidas. Então, os economistas estão fora do jogo. O que dá para fazer é
mudar a mensagem sobre a economia.
Acho que uma coisa importante é pensar em
termos da teoria direcional do voto, não só a respeito do eleitor indeciso, mas
também pensando nos chamados “eleitor provável” e “eleitor improvável”. Esta
eleição vai ser decidida por quem vai conseguir fazer seu eleitor, que está
desanimado, sair de casa e o eleitor desanimado de seu oponente ficar em casa.
Em Minas Gerais, por exemplo, há um fenômeno
que deve ser observado, que é o Cleitinho, que lidera as pesquisas no estado
propondo medidas pró-trabalhador, mesmo que boa parte dos seus eleitores se
veja como conservadora.
Talvez deixar explícita, por exemplo, a
oposição de Flávio Bolsonaro contra o fim da escala 6×1, para desanimar parte
dos eleitores dele. Deixar claro que, com Flávio, não será aprovado o fim da
escala 6×1, que essa medida depende da eleição de Lula, pode fazer com que
parte do eleitorado propenso a votar em Flávio fique em casa. E o eleitor de
Lula, pelo contrário, pode se sentir animado a sair de casa para garantir o fim
da escala 6×1.
<><> As posições de Trump e Rubio
estão conseguindo interferir no cenário eleitoral a partir da guerra tarifária
anunciada contra o Brasil? Em que medida as políticas dos Estados Unidos
interferem nas taxas de aprovação e intenção de voto?
Pelo
que tenho acompanhado, a interferência estadunidense tem vindo por
outras formas, que não a econômica. Tem vindo por meio de esquemas de campanha como esse que foi descoberto
recentemente, daquele Fernando Cerimedo, que foi preso na Bolívia com fazendas
de bots. Temos visto a embaixada norte-americana fazer reuniões com
influenciadores de extrema direita, essas coisas.
Não acho que as tarifas causaram uma
interferência negativa na taxa de aprovação. Até porque o impacto delas é
bastante localizado. Teríamos que ter dados de cidades específicas, onde se
concentram indústrias que exportam para os Estados Unidos, e não temos como
avaliar isso.
O governo respondeu bem e conseguiu capturar
o discurso da soberania, de defender o país contra as medidas promovidas por
Donald Trump e Marco Rubio, ainda que esse discurso tenha perdido o ímpeto
durante a campanha. Então, acho que a intervenção pode estar acontecendo por
outras vias que não a dos efeitos econômicos.
·
É exagerado afirmar que
o governo apostou muitas fichas no fim da escala 6×1 e agora, diante da
improbabilidade de aprovação do projeto este ano, ficou sem esse trunfo
eleitoral?
Sim, o governo apostou muitas fichas e, a meu
ver, está desperdiçando a chance de dizer para o eleitorado que esta é uma
eleição em que, se Lula ganhar, será aprovado o fim da escala 6×1, e, se Flávio
Bolsonaro ganhar, não haverá fim da escala nem redução da jornada de trabalho
sem perda salarial, que é o projeto defendido pelo governo.
Isso deveria estar sendo uma peça de campanha
constante do governo, para mostrar ao eleitor que essa decisão está em jogo
nesta eleição. Há dezenas de milhões de pessoas que são trabalhadores formais,
e a escala 6×1 é uma realidade próxima à vida desses trabalhadores; a grande
maioria está vivendo sob essa escala.
Isso tem que ficar claro, porque a eleição
vai se dar nesses termos, e eu não vejo o governo usando esse discurso de uma
forma mais enfática. O presidente Lula tem usado esse elemento em seu discurso,
mas talvez precise aumentar a intensidade desse tema dentro da campanha.
·
Promessas como a de
Flávio Bolsonaro, de que defenderá um sistema de pagamento de trabalho por
horas, podem acabar seduzindo um eleitorado que assimilou o discurso do
“empreendedorismo”, ainda que isso possa resultar, na prática, em um cenário
pior para o trabalhador do que o da escala 6×1?
Não acho que o discurso do Flávio seduza o
trabalhador que de fato está numa jornada definida, na escala 6×1, 44 horas
semanais, com um patrão. Esse trabalhador não se engana, entende a realidade à
qual está submetido, sabe que negociar com aquele patrão não vai resultar em
nada de bom. Basta ver o sucesso do Rick Azevedo com esse público no Rio de
Janeiro, por exemplo.
Qual é a questão do discurso de
empreendedorismo? Duas coisas. Primeiro, nós temos um contingente enorme de
trabalhadores que não está nessa situação, que são os trabalhadores de
plataforma: motoristas de aplicativo, entregadores de aplicativo, outras formas
de prestação de serviços.
Essas pessoas podem ser seduzidas por um
discurso de empreendedorismo, porque, em muitos casos, é o que as levou até ali
— óbvio que também tem pessoas ali que estão pela necessidade, mas, em muitos
casos, a pessoa optou por estar ali em vez de ter um trabalho de jornada
definida. E aí, como essa pessoa não está sendo submetida a uma negociação
direta com o patrão imediato, já que a Uber se disfarça de plataforma, ela
acaba adotando esse discurso ideológico do empreendedorismo, que justifica a
escolha dela por estar nesse trabalho plataformizado.
Outra forma como o discurso do
empreendedorismo atrapalha o programa do presidente Lula é justamente a das
pessoas que se convencem de que seu sucesso profissional ou o aumento da sua
renda não têm a ver com as políticas públicas impulsionadas pelo governo e são
fruto exclusivamente de seu mérito individual, ao mesmo tempo em que, no caso
contrário, atribuem os aspectos negativos da sua vida exclusivamente ao
governo.
É possível ver isso na questão dos
combustíveis: ainda que, como disse antes, em termos internacionais o Brasil
tenha sido um dos países que melhor lidou com essa questão, há quem tenha outra
percepção sobre o efeito disso no bolso, e ele é percebido como um problema
causado pelo governo.
O discurso de jogar a culpa no governo pode
ressoar mais nas pessoas do que o discurso do próprio governo, que atribui,
entre outros fatores, à privatização da BR Distribuidora. Eu também entendo que
o governo está correto nesse raciocínio, mas isso está convencendo menos o
eleitorado. Talvez essa pessoa absorva esse discurso do empreendedorismo, que
prefere colocar a culpa pelo aumento dos combustíveis no governo, enquanto o
aumento da renda superior à inflação não é visto como mérito do governo.
Fonte: Por Fernanda Forgerini e Victor
Farinelli, em Opera Mundi

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