quinta-feira, 17 de setembro de 2026

‘Economia está bem, mas Governo Lula precisa conectar melhora ao eleitor’, diz economista

Faltando poucos dias para o primeiro turno das eleições presidenciais, a economia começa a ganhar força como tema preponderante das campanhas, já que muitos consiseram que ela é um dos principais fatores responsáveis pelas oscilações nas pesquisas mais recentes, incluindo as que afetam a candidatura do presidente Luiz Inácio Lula da Silva à reeleição.

O economista Pedro Faria considera que o Governo Lula tem indicadores positivos para apresentar na campanha à reeleição, mas não consegue transformar esses resultados em uma percepção de melhora na vida da população. Para ele, o problema não está apenas nos números, mas na dificuldade de fazer com que o eleitor reconheça os efeitos das políticas adotadas pela gestão.

Faria cita como exemplos o crescimento da renda do trabalho, a inflação sob controle, a queda do desemprego e o aumento do número de empregos formais. Na avaliação do economista, esses resultados mostram saldo positivo, mas que há fatores que bloqueiam a percepção desse cenário. Entre eles estão o endividamento das famílias, o peso das bets, o custo elevado do crédito e a força de discursos que atribuem ao indivíduo os avanços na renda e ao governo os problemas econômicos.

“Os programas existem, as estatísticas macroeconômicas de crescimento da renda do trabalho são bastante claras, a inflação está sob controle, o desemprego está na mínima histórica e há crescimento, inclusive, do número de empregos formais”, argumenta o economista, que é pesquisador vinculado ao Centro de Desenvolvimento e Planejamento Regional (Cedeplar) da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).

Em entrevista a Opera Mundi, ele também indica que “falta o governo ser mais claro sobre o que pretende para um possível próximo mandato. Os feitos estão aí. A picanha está no prato, por exemplo. Pelo menos o preço da picanha está mais acessível do que durante o governo Bolsonaro: um salário mínimo comprava 21,56 kg de picanha em dezembro de 2022, no final daquela gestão, e hoje, após quatro anos de governo Lula, um salário mínimo compra 29,47 kg de picanha. Há uma diferença importante”.

A dificuldade de comunicação ganha peso diante da proximidade das eleições de 2026. Na pesquisa Quaest divulgada em 7 de setembro, 38% dos entrevistados afirmaram que a economia piorou em relação ao ano anterior, enquanto 28% disseram que melhorou e 31% avaliaram que não houve mudança. No mesmo levantamento, Lula e Flávio Bolsonaro aparecem empatados numericamente em uma simulação de segundo turno, com 41% das intenções de voto cada um.

Para Faria, os números representam um alerta para a campanha de Lula justamente porque o governo estaria deixando de explorar uma realidade econômica que considera favorável. Além disso, defende que o governo seja mais enfático na disputa eleitoral e estabeleça com maior clareza o que está em jogo em 2026.

“O governo Lula faz campanha como se não estivéssemos lidando, também, com um cerco econômico promovido pela maior potência estrangeira do planeta”, reitera.

>>>> Leia a entrevista com Pedro Faria na íntegra:

·        Na pesquisa Quaest de 7 de setembro, 38% dos entrevistados disseram que a economia piorou em comparação ao ano passado, e 28% disseram que melhorou. Outros 31% acham que não mudou nada. Isso deve ser visto como um alerta para a campanha de Lula?

Pedro Faria: sim, é sinal de que algo está bloqueando a percepção da população. Os programas existem, as estatísticas macroeconômicas de crescimento da renda do trabalho são bastante claras, a inflação está sob controle, o desemprego está na mínima histórica e há crescimento, inclusive, do número de empregos formais.

Então, algo está impedindo que essas medidas, que têm efeitos concretos, sejam percebidas como políticas de governo. Seja algo que se contraponha a esses efeitos, seja algo que realmente faça com que as pessoas não percebam isso como uma medida de governo.

·        Nesse sentido, como você avalia o discurso da campanha de Lula com respeito à questão econômica?

Creio que é um discurso de campanha muito brando para a situação que estamos vivendo. O governo Lula está fazendo uma campanha como se fosse uma campanha em um ambiente normal, como se não estivéssemos lidando, neste momento, com a maior fraude financeira da história do país, que é o caso do Banco Master.

O governo Lula faz campanha como se não estivéssemos lidando, também, com um cerco econômico promovido pela maior potência estrangeira do planeta.

Acho que o presidente Lula tinha que ser mais veemente em seus discursos, nos seus programas eleitorais. O que se vê agora é uma tranquilidade muito grande, e isso não está se conectando bem com uma realidade muito mais complexa.

·        Na campanha de 2022, Lula pleiteou a volta da “picanha no prato” diante da situação econômica ao final do mandato de Bolsonaro. Neste ano, o governo apresenta os feitos e resultados, mas o que falta?

Acho que falta o governo ser mais claro sobre o que pretende para um possível próximo mandato. Os feitos estão aí. A picanha está no prato, por exemplo. Pelo menos o preço da picanha está mais acessível do que durante o governo Bolsonaro: um salário mínimo comprava 21,56 kg de picanha em dezembro de 2022, no final daquela gestão, e hoje, após quatro anos de governo Lula, um salário mínimo compra 29,47 kg de picanha. Há uma diferença importante.

Mas, como disse na resposta anterior, há questões que estão impedindo a percepção de bem-estar de se materializar, e aí temos que entrar na questão das bets, em questões ideológicas sobre as percepções a respeito do crescimento da renda, que algumas pessoas percebem como uma vitória individual, não como consequência das políticas de governo. Mas eu acho que falta olhar para frente e fazer as pessoas conectarem essas realidades macroeconômicas com o futuro.

O que está vencendo, neste momento, é um discurso de que teria havido uma redução do poder de compra da renda do trabalho que não condiz com a realidade. Se observarmos as peças de propaganda da extrema direita, elas inventam uma realidade que não existe, mas que chama a atenção do público, porque o Brasil ainda é um país de renda média, com uma desigualdade enorme.

Portanto, a classe trabalhadora ainda está empobrecida e, por mais que as coisas tenham melhorado em termos de poder de compra do salário mínimo em relação à cesta básica, por exemplo, ainda não é uma vida fácil para uma parte da população. Então, um discurso sobre custo de vida alto ressoa, mesmo que tenha havido melhora.

O governo não está conseguindo se conectar com essas pessoas. Eu acho que tem a ver com você não oferecer um discurso que faça a pessoa pensar que “a vida melhorou e vai continuar melhorando”.

·        As medidas tomadas pelo governo para diminuir o impacto da guerra no Oriente Médio no preço dos combustíveis e do endividamento das famílias, em decorrência das bets e outras questões, tiveram sucesso, ou o cenário da pesquisa mostra justamente que essas políticas não obtiveram o sucesso esperado?

Novamente, a questão está na percepção das pessoas e nas métricas que se adotam para definir se as medidas tiveram ou não sucesso.

No caso dos combustíveis, por exemplo: a métrica é saber se as medidas foram capazes de conter o aumento do preço da gasolina e do diesel? Se sim, então as medidas tiveram sucesso, pois o Brasil foi um dos países que menos tiveram aumento de combustível no mundo. Foi adotada uma política correta sobre isso, com tributação de exportações e sobrelucro das empresas de petróleo, para conter o aumento do custo para o consumidor. Isso elimina o efeito distributivo inverso que uma guerra causa.

Na questão do endividamento, por outro lado, acho que não há um sucesso, nem na métrica, nem na percepção — diferente do caso dos combustíveis, em que há um sucesso na métrica, mas não na percepção. No tema do endividamento, o que nós vemos é que o problema continua se manifestando em um patamar alto e não dá sinais de ceder. Para resolver isso, é preciso um período sustentado de aumento da renda, algo que já está ocorrendo, mas que seja acompanhado de fatores capazes de conter esse aumento do endividamento.

Os dois fatores mais evidentes que nós temos atualmente são o efeito das bets e o crédito caro. Esse segundo ponto é importantíssimo, pois a taxa de juros está altíssima, e, se não há uma redução do custo do crédito, nem para as famílias, nem para as empresas, o efeito na percepção sobre o custo de vida é inevitável.

<><> É possível mudar a campanha com o bonde andando e apresentar uma nova plataforma econômica, especialmente para o eleitor indeciso e para aquele que acha que a economia piorou ou que não mudou nada? Que medidas poderiam ter esse efeito de reverter a tendência das últimas pesquisas?

Acho que essa é uma questão mais para os marqueteiros. Os economistas já não podem fazer nada em termos de medidas; o governo vai ter que trabalhar na campanha com as medidas adotadas até o primeiro semestre.

Ademais, não acredito que o governo Lula tomaria medidas como as usadas pelo governo Bolsonaro, que causou, em plena campanha de 2022, um rombo de mais de R$ 10 bilhões na Caixa, dando empréstimos consignados para pessoas assistidas pelo Bolsa Família — que deram calote, naturalmente, pois são pessoas de extrema vulnerabilidade —, e isso causou um prejuízo à Caixa.

É preciso lembrar, também, que o presidente Lula não tinha a opção de adotar algumas políticas, mesmo quando era legalmente possível fazê-lo, porque ele não tem uma maioria no Congresso que apoie certas políticas que contrariem a maioria de direita, incluindo a parte da direita que é governista. Tampouco tem um Judiciário complacente — ainda que parte do STF tenha enfrentado o golpe de Estado, foi muito complacente com Bolsonaro em outras medidas. Então, os economistas estão fora do jogo. O que dá para fazer é mudar a mensagem sobre a economia.

Acho que uma coisa importante é pensar em termos da teoria direcional do voto, não só a respeito do eleitor indeciso, mas também pensando nos chamados “eleitor provável” e “eleitor improvável”. Esta eleição vai ser decidida por quem vai conseguir fazer seu eleitor, que está desanimado, sair de casa e o eleitor desanimado de seu oponente ficar em casa.

Em Minas Gerais, por exemplo, há um fenômeno que deve ser observado, que é o Cleitinho, que lidera as pesquisas no estado propondo medidas pró-trabalhador, mesmo que boa parte dos seus eleitores se veja como conservadora.

Talvez deixar explícita, por exemplo, a oposição de Flávio Bolsonaro contra o fim da escala 6×1, para desanimar parte dos eleitores dele. Deixar claro que, com Flávio, não será aprovado o fim da escala 6×1, que essa medida depende da eleição de Lula, pode fazer com que parte do eleitorado propenso a votar em Flávio fique em casa. E o eleitor de Lula, pelo contrário, pode se sentir animado a sair de casa para garantir o fim da escala 6×1.

<><> As posições de Trump e Rubio estão conseguindo interferir no cenário eleitoral a partir da guerra tarifária anunciada contra o Brasil? Em que medida as políticas dos Estados Unidos interferem nas taxas de aprovação e intenção de voto?

Pelo que tenho acompanhado, a interferência estadunidense tem vindo por outras formas, que não a econômica. Tem vindo por meio de esquemas de campanha como esse que foi descoberto recentemente, daquele Fernando Cerimedo, que foi preso na Bolívia com fazendas de bots. Temos visto a embaixada norte-americana fazer reuniões com influenciadores de extrema direita, essas coisas.

Não acho que as tarifas causaram uma interferência negativa na taxa de aprovação. Até porque o impacto delas é bastante localizado. Teríamos que ter dados de cidades específicas, onde se concentram indústrias que exportam para os Estados Unidos, e não temos como avaliar isso.

O governo respondeu bem e conseguiu capturar o discurso da soberania, de defender o país contra as medidas promovidas por Donald Trump e Marco Rubio, ainda que esse discurso tenha perdido o ímpeto durante a campanha. Então, acho que a intervenção pode estar acontecendo por outras vias que não a dos efeitos econômicos.

·        É exagerado afirmar que o governo apostou muitas fichas no fim da escala 6×1 e agora, diante da improbabilidade de aprovação do projeto este ano, ficou sem esse trunfo eleitoral?

Sim, o governo apostou muitas fichas e, a meu ver, está desperdiçando a chance de dizer para o eleitorado que esta é uma eleição em que, se Lula ganhar, será aprovado o fim da escala 6×1, e, se Flávio Bolsonaro ganhar, não haverá fim da escala nem redução da jornada de trabalho sem perda salarial, que é o projeto defendido pelo governo.

Isso deveria estar sendo uma peça de campanha constante do governo, para mostrar ao eleitor que essa decisão está em jogo nesta eleição. Há dezenas de milhões de pessoas que são trabalhadores formais, e a escala 6×1 é uma realidade próxima à vida desses trabalhadores; a grande maioria está vivendo sob essa escala.

Isso tem que ficar claro, porque a eleição vai se dar nesses termos, e eu não vejo o governo usando esse discurso de uma forma mais enfática. O presidente Lula tem usado esse elemento em seu discurso, mas talvez precise aumentar a intensidade desse tema dentro da campanha.

·        Promessas como a de Flávio Bolsonaro, de que defenderá um sistema de pagamento de trabalho por horas, podem acabar seduzindo um eleitorado que assimilou o discurso do “empreendedorismo”, ainda que isso possa resultar, na prática, em um cenário pior para o trabalhador do que o da escala 6×1?

Não acho que o discurso do Flávio seduza o trabalhador que de fato está numa jornada definida, na escala 6×1, 44 horas semanais, com um patrão. Esse trabalhador não se engana, entende a realidade à qual está submetido, sabe que negociar com aquele patrão não vai resultar em nada de bom. Basta ver o sucesso do Rick Azevedo com esse público no Rio de Janeiro, por exemplo.

Qual é a questão do discurso de empreendedorismo? Duas coisas. Primeiro, nós temos um contingente enorme de trabalhadores que não está nessa situação, que são os trabalhadores de plataforma: motoristas de aplicativo, entregadores de aplicativo, outras formas de prestação de serviços.

Essas pessoas podem ser seduzidas por um discurso de empreendedorismo, porque, em muitos casos, é o que as levou até ali — óbvio que também tem pessoas ali que estão pela necessidade, mas, em muitos casos, a pessoa optou por estar ali em vez de ter um trabalho de jornada definida. E aí, como essa pessoa não está sendo submetida a uma negociação direta com o patrão imediato, já que a Uber se disfarça de plataforma, ela acaba adotando esse discurso ideológico do empreendedorismo, que justifica a escolha dela por estar nesse trabalho plataformizado.

Outra forma como o discurso do empreendedorismo atrapalha o programa do presidente Lula é justamente a das pessoas que se convencem de que seu sucesso profissional ou o aumento da sua renda não têm a ver com as políticas públicas impulsionadas pelo governo e são fruto exclusivamente de seu mérito individual, ao mesmo tempo em que, no caso contrário, atribuem os aspectos negativos da sua vida exclusivamente ao governo.

É possível ver isso na questão dos combustíveis: ainda que, como disse antes, em termos internacionais o Brasil tenha sido um dos países que melhor lidou com essa questão, há quem tenha outra percepção sobre o efeito disso no bolso, e ele é percebido como um problema causado pelo governo.

O discurso de jogar a culpa no governo pode ressoar mais nas pessoas do que o discurso do próprio governo, que atribui, entre outros fatores, à privatização da BR Distribuidora. Eu também entendo que o governo está correto nesse raciocínio, mas isso está convencendo menos o eleitorado. Talvez essa pessoa absorva esse discurso do empreendedorismo, que prefere colocar a culpa pelo aumento dos combustíveis no governo, enquanto o aumento da renda superior à inflação não é visto como mérito do governo.

 

Fonte: Por Fernanda Forgerini e Victor Farinelli, em Opera Mundi

 

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