Diabetes
pode voltar depois da bariátrica? Entenda por que isso acontece
Os
exames melhoram, os níveis de glicose entram em uma faixa adequada e, em alguns
casos, os medicamentos usados para tratar o diabetes deixam de fazer parte da
rotina. Depois da cirurgia bariátrica, essa mudança pode representar um marco
importante para quem conviveu durante anos com o diabetes tipo 2.
É
justamente por isso que o retorno da doença pode causar surpresa quando
acontece algum tempo depois. Embora algumas pessoas alcancem a remissão do
diabetes tipo 2, ela pode não ser mantida ao longo dos anos. De acordo com as
diretrizes da American Diabetes Association(ADA) cerca de 35% a 50% das pessoas
que inicialmente entram em remissão podem apresentar recorrência da doença.
Ainda assim, a cirurgia pode produzir benefícios metabólicos duradouros,
inclusive quando a remissão não se mantém de forma permanente.
Para
entender por que isso acontece, primeiro é preciso entender o que é a cirurgia
bariátrica e como diferenciar o que a medicina chama de remissão e o que chama
de cura.
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O que é a cirurgia bariátrica?
De
acordo com os especialistas, a bariátrica é uma cirurgia que altera o tamanho
do estômago ou o caminho do intestino para diminuir a quantidade de comida que
o corpo armazena e absorve.
Durante
o episódio do Diabetescast, o cirurgião bariátrico Dr. Fernando Pechy e o
endocrinologista da Sociedade Brasileira de Diabetes, Dr. Fernando Valente,
explicaram como a cirurgia deixou de ser apenas uma ferramenta para
emagrecimento e passou a ser considerada um importante tratamento metabólico.
Para os
especialistas, é importante entender que tanto o diabetes quanto a obesidade
são doenças crônicas e que a cirurgia bariátrica não representa,
necessariamente, a cura dessas condições. No caso do diabetes, o objetivo do
procedimento pode ser alcançar a remissão da doença, de forma total ou parcial,
como explica o cirurgião bariátrico Dr. Fernando Pechy:
“A
cirurgia bariátrica é uma cirurgia do aparelho digestivo. Com o intuito de
tratar a obesidade e o diabetes, a ideia é tentar fazer a remissão da doença,
total ou parcial.”
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Mas se remissão não é cura, então o que é?
Como
explica o endocrinologista Dr. Fernando Valente, entrar em remissão não
significa que a doença foi curada. Nesse cenário, a condição permanece
controlada, sem necessariamente desaparecer de forma definitiva.
De
acordo com um consenso internacional publicado pela ADA, a remissão do diabetes
tipo 2 é caracterizada pela manutenção da hemoglobina glicada abaixo de 6,5%
por pelo menos três meses, sem o uso de medicamentos para redução da glicose. O
próprio documento ressalta que essa condição pode não ser permanente e que a
pessoa continua precisando de acompanhamento.
Essa
diferença é importante porque o diabetes tipo 2 está relacionado a alterações
metabólicas que podem continuar presentes mesmo quando os exames melhoram.
Em
outras palavras, entrar em remissão significa que o organismo conseguiu
recuperar, pelo menos naquele período, um controle da glicose próximo do normal
sem a necessidade de medicamentos. Isso não permite concluir que a
predisposição ao diabetes desapareceu.
Por
esse motivo, a melhora dos exames não representa o fim do cuidado. Pelo
contrário, ela inaugura uma nova fase do acompanhamento. E entender como a
cirurgia produz essa melhora ajuda a explicar por que ela pode ser tão
significativa, mas também por que seus efeitos precisam ser observados ao longo
do tempo.
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O que muda no organismo depois da cirurgia?
A
cirurgia bariátrica, também chamada de cirurgia metabólica em determinados
contextos, produz efeitos que vão além da redução do tamanho do estômago.
A perda
de peso tem papel importante nesse processo. Ao mesmo tempo, as mudanças
provocadas pela cirurgia no sistema digestivo podem alterar mecanismos
relacionados à fome, à saciedade, à secreção de hormônios intestinais e à forma
como o organismo responde à insulina. Estudos sobre os procedimentos também
descrevem mudanças metabólicas que podem contribuir para a melhora da glicose.
No
bypass gástrico, por exemplo, as alterações no trajeto dos alimentos pelo
sistema digestivo podem participar dessa resposta metabólica. A melhora da
glicemia pode aparecer rapidamente, inclusive antes que toda a perda de peso
esperada tenha acontecido. Com a redução da gordura corporal, também pode
ocorrer melhora da resistência à insulina, facilitando o controle da glicose.
Mas os
efeitos da cirurgia não ficam congelados no tempo. A evolução do peso, a
duração do diabetes antes do procedimento e outras características individuais
ajudam a explicar por que a remissão pode durar mais para algumas pessoas do
que para outras. Entre esses fatores, o peso merece atenção especial, já que
sua evolução depois da cirurgia pode influenciar a trajetória do diabetes.
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O reganho de peso pode fazer o diabetes voltar?
O
reganho de peso é um dos fatores associados à recorrência do diabetes após a
cirurgia, mas não é o único. Um estudo publicado na revista Diabetes Care
acompanhou 736 pessoas com diabetes tipo 2 submetidas a bypass gástrico ou
gastrectomia vertical. Entre aquelas que entraram em remissão no primeiro ano,
32% apresentaram uma recaída tardia durante o acompanhamento, que teve mediana
de oito anos.
As
pessoas que tiveram recaída haviam perdido menos peso no primeiro ano e
recuperado mais peso depois. Isso não significa, porém, que qualquer aumento de
peso provocará automaticamente o retorno do diabetes.
A
relação é mais complexa. O risco também esteve associado a fatores como a
quantidade de medicamentos usados antes da cirurgia, o tempo de diagnóstico do
diabetes e o tipo de procedimento realizado. Por isso, o acompanhamento não
deve se concentrar apenas no número mostrado pela balança. A avaliação precisa
considerar o conjunto das mudanças metabólicas ao longo do tempo.
E o
peso é apenas uma parte dessa história. O próprio tempo de convivência com o
diabetes antes da cirurgia também pode ajudar a explicar por que algumas
pessoas alcançam e mantêm a remissão com mais facilidade do que outras.
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Duração do diabetes x risco
A
duração do diabetes antes da cirurgia é um dos fatores que ajudam a explicar a
chance de remissão e sua manutenção. Revisões sistemáticas e estudos de
acompanhamento apontam que pessoas com menor tempo de doença tendem a
apresentar maior probabilidade de remissão. O mesmo ocorre, de maneira geral,
entre aquelas que ainda não dependem de insulina e que utilizam menos
medicamentos para controlar a glicose antes do procedimento.
Uma das
possíveis explicações está na capacidade das células beta do pâncreas de
continuar produzindo insulina. Com a evolução do diabetes tipo 2, essa função
pode se deteriorar progressivamente, o que pode dificultar tanto a obtenção
quanto a manutenção da remissão. É por isso que duas pessoas submetidas à mesma
cirurgia podem ter trajetórias diferentes. O procedimento é o mesmo, mas a
história metabólica de cada paciente não é.
Além do
histórico da doença, outro aspecto relacionado ao próprio procedimento pode
fazer diferença: a técnica cirúrgica utilizada. E é justamente nesse ponto que
os estudos também encontram diferenças.
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O tipo de cirurgia pode influenciar?
Evidências
mais recentes mostram diferenças entre os procedimentos na duração da remissão
do diabetes. Dados apresentados pela American Diabetes Association em seus
Standards of Care 2026 mostraram que pessoas submetidas ao bypass gástrico
tiveram menor risco de recaída do diabetes do que aquelas submetidas à
gastrectomia vertical.
Em uma
análise envolvendo mais de 6 mil pessoas que haviam alcançado remissão, a
estimativa de recorrência cinco anos depois foi de 33,1% entre aquelas
submetidas ao bypass gástrico e de 41,6% entre as que passaram pela
gastrectomia vertical. O risco de recaída também foi menor no grupo do bypass.
Esses
números não significam que um procedimento seja indicado de forma automática
para qualquer pessoa. A escolha da técnica depende de características clínicas,
histórico de saúde, avaliação cirúrgica e acompanhamento multiprofissional.
Ainda
assim, observar diferenças entre os procedimentos ajuda a compreender que a
recorrência do diabetes não depende de um único fator. E isso também muda a
maneira de interpretar o que acontece quando a glicose volta a subir.
<><>Se
o diabetes voltar, significa que a cirurgia falhou?
Esse é
um dos pontos que mais precisam de contexto quando se fala em recorrência do
diabetes depois da cirurgia. No estudo publicado pela revista Diabetes Care, as
pessoas que apresentaram recaída continuavam, no longo prazo, com melhora do
controle glicêmico, da pressão arterial, do perfil de gorduras do sangue e da
necessidade de medicamentos em comparação com o período anterior à cirurgia.
A
própria American Diabetes Association destaca que, embora parte das pessoas
apresente retorno do diabetes ao longo dos anos, a maioria mantém uma melhora
substancial do controle da glicose em relação ao período pré-operatório.
Isso
muda a forma de interpretar a recorrência. Afinal, o retorno da hiperglicemia
não apaga os benefícios obtidos anteriormente.
Mas
existe uma consequência prática importante dessa informação. Se a remissão pode
se modificar com o passar dos anos, manter o acompanhamento deixa de ser apenas
uma recomendação e passa a fazer parte do próprio cuidado após a cirurgia.
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E o acompanhamento?
Depois
que os exames melhoram e os medicamentos são reduzidos ou suspensos, pode
surgir a sensação de que o diabetes ficou para trás. Mas a remissão exige
acompanhamento justamente porque a hiperglicemia pode voltar.
O
consenso internacional sobre remissão recomenda monitoramento contínuo, e o
acompanhamento de pessoas submetidas à cirurgia metabólica deve observar tanto
a perda de peso insuficiente quanto a recuperação de peso. Nas situações em que
isso acontece, a recomendação é investigar os fatores envolvidos e avaliar
outras estratégias de tratamento quando necessário.
Na
prática, isso significa que a normalização da glicose não encerra o
acompanhamento médico. Exames periódicos, acompanhamento nutricional, atividade
física, composição corporal e evolução do peso continuam fazendo parte do
cuidado.
E,
quando o foco deixa de ser apenas a glicose e passa a considerar o organismo
como um todo, outro aspecto ganha espaço nessa avaliação: a preservação da
massa muscular durante o processo de perda de peso.
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E a massa muscular?
Durante
um processo de perda de peso importante, preservar a massa muscular também
merece atenção. Parte do peso perdido depois da cirurgia pode corresponder à
massa magra. Por isso, a estratégia de acompanhamento pode envolver alimentação
adequada e exercícios de força, de acordo com as condições e necessidades de
cada pessoa.
Esse
cuidado é relevante porque o objetivo do tratamento não é apenas reduzir o peso
corporal, mas melhorar a saúde metabólica e preservar a capacidade funcional ao
longo do tempo.
No fim,
todos esses fatores ajudam a colocar a cirurgia dentro de uma perspectiva mais
ampla. A questão não é apenas quanto peso foi perdido ou se os medicamentos
deixaram de ser necessários, mas quais benefícios metabólicos foram alcançados
e como eles podem ser mantidos.
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A cirurgia ainda vale a pena se o diabetes puder voltar?
A
possibilidade de recorrência não significa que a cirurgia deixe de ser uma
estratégia eficaz. Os dados apresentados pela American Diabetes Association
reconhecem a cirurgia metabólica como uma abordagem capaz de promover perda de
peso importante, melhorar o controle glicêmico e frequentemente levar à
remissão do diabetes tipo 2.
O ponto
central é entender que remissão não deve ser confundida com eliminação
definitiva da doença. O diabetes tipo 2 pode retornar depois de um período de
controle, especialmente com o passar dos anos. Quando isso acontece, o objetivo
não é considerar que todo o benefício foi perdido, mas identificar precocemente
a mudança e ajustar o cuidado de acordo com a nova situação clínica.
Por
isso, depois da cirurgia, a pergunta não deve ser apenas se o diabetes pode
voltar. É também como acompanhar essa possibilidade e o que pode ser feito para
preservar, pelo maior tempo possível, os benefícios conquistados com o
tratamento.
Fonte:
Um Diabético

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