terça-feira, 15 de setembro de 2026

Novo composto à base de cobre é candidato contra câncer de ovário

Um estudo realizado no Laboratório de Cristalografia Estrutural do Instituto de Física de São Carlos (IFSC) da USP abriu uma nova frente na luta contra o câncer de ovário. Com uma abordagem inovadora, os pesquisadores investigaram compostos metálicos à base de cobre e identificaram um complexo com atividade extremamente elevada contra células de câncer de ovário humano, sendo 36 vezes mais potente que a cisplatina – um dos principais medicamentos utilizados atualmente na quimioterapia.

Para os experimentos, os pesquisadores sintetizaram cinco novos complexos de cobre (2), incorporando moléculas orgânicas, chamadas ligantes, ao metal. A ideia era verificar se esses compostos apresentavam atividade antitumoral in vitro (fora de organismo vivo) em células de câncer de ovário, pulmão e mama.

Dentre as cinco variações destes compostos, uma se destacou na ação contra células de câncer de ovário, alterando a morfologia das células tumorais e reduzindo a capacidade de formação de colônias, dependendo da concentração. Além disso, o composto também foi capaz de induzir à morte celular e interagir com o DNA sem destruí-lo. Esse mecanismo permite que o complexo interaja com o DNA sem provocar ruptura, alterando sua estrutura e dificultando processos essenciais para a sobrevivência das células tumorais.

Devido ao seu papel central no funcionamento celular, o DNA é o principal alvo de compostos à base de metais. “Os compostos metálicos possuem características químicas particularmente favoráveis para interagir com o DNA. Por essa razão, o DNA se tornou, historicamente, um dos principais alvos estudados no desenvolvimento de metalofármacos”, afirma Alexandre Bizzotto de Carvalho, autor correspondente da pesquisa publicada na revista ACS Omega.

Ainda que os estudos sejam iniciais, em nível molecular, o composto surge como um candidato promissor contra o câncer de ovário, o câncer ginecológico de mais difícil diagnóstico. De acordo com dados da Associação de Combate ao Câncer de Ovário e Doenças Ginecológicas (ACCO), apenas 43% das mulheres sobrevivem por mais de cinco anos após o diagnóstico, sobretudo pela descoberta tardia. Embora seja o sétimo tipo de câncer feminino mais comum em todo o mundo, ainda não há nenhum teste de rotina para descobrir o câncer de ovário com precisão.

Para a equipe responsável pela pesquisa, um dos aspectos mais relevantes do trabalho é a abertura de novas perspectivas para uma classe de compostos ainda pouco explorada. “Os dados sugerem que sistemas baseados em cobre (2) e derivados de benzofenona podem constituir uma plataforma promissora para o desenvolvimento de futuros agentes antitumorais, fornecendo bases sólidas para investigações mais avançadas”, diz Carvalho ao Jornal da USP.

<><> Interação com o DNA

O desenvolvimento de medicamentos à base de metais busca superar limitações dos fármacos tradicionais de platina, como efeitos colaterais e resistência tumoral. Apesar disso, a cisplatina é um dos fármacos mais importantes para o tratamento de diversos tipos de cânceres, e seu mecanismo é clinicamente bem estabelecido: ela atua formando ligações com o DNA e provocando alterações estruturais que impedem a replicação das células.

Já no novo estudo, os complexos de cobre (2) indicaram uma interação multimodal envolvendo diferentes mecanismos simultaneamente, como intercalação entre bases do DNA, interações eletrostáticas e reconhecimento de regiões específicas da dupla hélice. “Esse comportamento é particularmente interessante porque sugere uma forma mais sofisticada de interação com o material genético. Em vez de atuar exclusivamente por meio de danos estruturais diretos, os compostos parecem modular processos biológicos por diferentes vias moleculares”, explica o cientista.

O complexo identificado como altamente potente também foi bastante tóxico para células não cancerosas, indicando que ainda existe um desafio importante de seletividade. Por isso, o estudo reforça a necessidade de investigações adicionais que ajudem a compreender melhor as consequências biológicas dessa interação e seus possíveis efeitos.

Para o primeiro autor da pesquisa, os resultados apontam para estratégias potencialmente complementares às terapias tradicionais, especialmente diante dos desafios relacionados à resistência de alguns tumores aos tratamentos convencionais.

“Compreender mecanismos alternativos de interação com biomoléculas é fundamental para o desenvolvimento de novas gerações de fármacos mais seletivos e eficazes, um dos grandes desafios atuais da química medicinal e da oncologia”, completa Carvalho.

Além do Instituto de Física de São Carlos da USP, o trabalho reuniu pesquisadores da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) e da Universidade Federal de Ouro Preto (Ufop), integrando conhecimentos de síntese química, cristalografia estrutural, modelagem molecular e biologia. Atualmente, a linha de pesquisa está sendo ampliada em colaboração com o Centro de Inovação Teranóstica em Câncer (CancerThera), da Unicamp, e com o Hospital das Clínicas da Universidade. O objetivo é aprofundar a investigação dos mecanismos biológicos desses compostos e avaliar seu potencial para futuras aplicações oncológicas.

•        Ovários mudam atividade após a menopausa e assumem papel importante na imunidade

Os ovários podem continuar exercendo funções relevantes muito depois do encerramento da vida reprodutiva. Uma pesquisa recente indica que, em vez de perder completamente sua atividade após a menopausa, esse órgão passa por uma transformação que o aproxima do sistema imunológico. A descoberta amplia o entendimento sobre o envelhecimento feminino e abre novas perspectivas para prevenir doenças inflamatórias associadas à idade.

Durante décadas, a ciência concentrou esforços para compreender o funcionamento dos ovários enquanto produzem óvulos e hormônios sexuais. Em contrapartida, o destino desse órgão após a menopausa permaneceu cercado de dúvidas. O novo estudo, publicado na revista Molecular Human Reproduction, investigou justamente essa fase pouco explorada.

Como a obtenção de amostras de ovários humanos após a menopausa apresenta limitações, os pesquisadores utilizaram camundongos, cuja trajetória de envelhecimento reprodutivo guarda semelhanças importantes com a dos seres humanos. Nos animais, a fertilidade diminui progressivamente até o período equivalente funcional à menopausa.

Para acompanhar as mudanças ao longo da vida, foram analisados três grupos de camundongos: jovens em idade reprodutiva, indivíduos com idade reprodutiva avançada e animais que já haviam ultrapassado completamente a fase fértil. Em cada exemplar, um ovário foi destinado à análise estrutural, enquanto o outro passou por exames de atividade genética, permitindo identificar quais genes permaneciam ativos e quais moléculas eram produzidas.

Os resultados mostraram uma transformação intensa dos ovários após o fim da reprodução. Nessa etapa, os folículos, pequenas estruturas que abrigam os óvulos imaturos, desaparecem completamente. Ao mesmo tempo, ocorre um acúmulo significativo de colágeno, tornando o tecido mais rígido.

Mesmo sem produzir óvulos, os ovários continuaram biologicamente ativos. A investigação identificou uma intensa presença de células do sistema imunológico, como linfócitos T, macrófagos e células gigantes, indicando que o órgão passa a desempenhar funções muito diferentes das exercidas durante a juventude.

A análise genética reforçou essa mudança. Genes associados à produção de óvulos e à síntese de hormônios reprodutivos apresentaram forte redução de atividade. Em contrapartida, aumentou a expressão de genes envolvidos na inflamação, na resposta imunológica e na ativação de leucócitos, os glóbulos brancos responsáveis pela defesa do organismo.

Os pesquisadores também observaram que os ovários remodelados liberam moléculas sinalizadoras capazes de circular pela corrente sanguínea. Essas substâncias podem atuar em diferentes tecidos do corpo, sugerindo que o órgão continua influenciando processos fisiológicos mesmo após encerrar sua função reprodutiva.

Ao nascimento, as mulheres possuem uma quantidade limitada de folículos, que diminui continuamente ao longo da vida. O envelhecimento dos ovários começa décadas antes do restante do organismo, refletindo na redução gradual da quantidade e da qualidade dos óvulos. Na menopausa, restam aproximadamente mil folículos, número insuficiente para manter a fertilidade.

Os resultados desafiam a visão tradicional de que os ovários se tornam estruturas inativas após a menopausa. As evidências apontam para uma reorganização funcional, na qual o órgão passa a atuar de maneira semelhante a componentes do sistema imunológico, participando de mecanismos inflamatórios relacionados ao envelhecimento.

Caso pesquisas futuras confirmem que o mesmo processo ocorre em mulheres, o conhecimento poderá orientar o desenvolvimento de estratégias terapêuticas voltadas ao controle da inflamação ovariana. Esse avanço tem potencial para reduzir o risco de doenças inflamatórias e de enfermidades associadas ao envelhecimento, contribuindo para melhorar a qualidade de vida durante o período pós-menopausa.

 

Fonte: Por Tabita Said – Jornal da USP/eCycle 

 

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