Novo composto à base de cobre é candidato
contra câncer de ovário
Um estudo realizado no Laboratório de
Cristalografia Estrutural do Instituto de Física de São Carlos (IFSC) da USP
abriu uma nova frente na luta contra o câncer de ovário. Com uma abordagem
inovadora, os pesquisadores investigaram compostos metálicos à base de cobre e
identificaram um complexo com atividade extremamente elevada contra células de
câncer de ovário humano, sendo 36 vezes mais potente que a cisplatina – um dos
principais medicamentos utilizados atualmente na quimioterapia.
Para os experimentos, os pesquisadores
sintetizaram cinco novos complexos de cobre (2), incorporando moléculas
orgânicas, chamadas ligantes, ao metal. A ideia era verificar se esses
compostos apresentavam atividade antitumoral in vitro (fora de organismo vivo)
em células de câncer de ovário, pulmão e mama.
Dentre as cinco variações destes compostos,
uma se destacou na ação contra células de câncer de ovário, alterando a
morfologia das células tumorais e reduzindo a capacidade de formação de
colônias, dependendo da concentração. Além disso, o composto também foi capaz
de induzir à morte celular e interagir com o DNA sem destruí-lo. Esse mecanismo
permite que o complexo interaja com o DNA sem provocar ruptura, alterando sua
estrutura e dificultando processos essenciais para a sobrevivência das células
tumorais.
Devido ao seu papel central no funcionamento
celular, o DNA é o principal alvo de compostos à base de metais. “Os compostos
metálicos possuem características químicas particularmente favoráveis para
interagir com o DNA. Por essa razão, o DNA se tornou, historicamente, um dos
principais alvos estudados no desenvolvimento de metalofármacos”, afirma
Alexandre Bizzotto de Carvalho, autor correspondente da pesquisa publicada na
revista ACS Omega.
Ainda que os estudos sejam iniciais, em nível
molecular, o composto surge como um candidato promissor contra o câncer de
ovário, o câncer ginecológico de mais difícil diagnóstico. De acordo com dados
da Associação de Combate ao Câncer de Ovário e Doenças Ginecológicas (ACCO),
apenas 43% das mulheres sobrevivem por mais de cinco anos após o diagnóstico,
sobretudo pela descoberta tardia. Embora seja o sétimo tipo de câncer feminino
mais comum em todo o mundo, ainda não há nenhum teste de rotina para descobrir
o câncer de ovário com precisão.
Para a equipe responsável pela pesquisa, um
dos aspectos mais relevantes do trabalho é a abertura de novas perspectivas
para uma classe de compostos ainda pouco explorada. “Os dados sugerem que
sistemas baseados em cobre (2) e derivados de benzofenona podem constituir uma
plataforma promissora para o desenvolvimento de futuros agentes antitumorais,
fornecendo bases sólidas para investigações mais avançadas”, diz Carvalho ao
Jornal da USP.
<><> Interação com o DNA
O desenvolvimento de medicamentos à base de
metais busca superar limitações dos fármacos tradicionais de platina, como
efeitos colaterais e resistência tumoral. Apesar disso, a cisplatina é um dos
fármacos mais importantes para o tratamento de diversos tipos de cânceres, e
seu mecanismo é clinicamente bem estabelecido: ela atua formando ligações com o
DNA e provocando alterações estruturais que impedem a replicação das células.
Já no novo estudo, os complexos de cobre (2)
indicaram uma interação multimodal envolvendo diferentes mecanismos
simultaneamente, como intercalação entre bases do DNA, interações
eletrostáticas e reconhecimento de regiões específicas da dupla hélice. “Esse
comportamento é particularmente interessante porque sugere uma forma mais
sofisticada de interação com o material genético. Em vez de atuar
exclusivamente por meio de danos estruturais diretos, os compostos parecem
modular processos biológicos por diferentes vias moleculares”, explica o
cientista.
O complexo identificado como altamente
potente também foi bastante tóxico para células não cancerosas, indicando que
ainda existe um desafio importante de seletividade. Por isso, o estudo reforça
a necessidade de investigações adicionais que ajudem a compreender melhor as
consequências biológicas dessa interação e seus possíveis efeitos.
Para o primeiro autor da pesquisa, os
resultados apontam para estratégias potencialmente complementares às terapias
tradicionais, especialmente diante dos desafios relacionados à resistência de
alguns tumores aos tratamentos convencionais.
“Compreender mecanismos alternativos de
interação com biomoléculas é fundamental para o desenvolvimento de novas
gerações de fármacos mais seletivos e eficazes, um dos grandes desafios atuais
da química medicinal e da oncologia”, completa Carvalho.
Além do Instituto de Física de São Carlos da
USP, o trabalho reuniu pesquisadores da Universidade Federal de São Carlos
(UFSCar), da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) e da
Universidade Federal de Ouro Preto (Ufop), integrando conhecimentos de síntese
química, cristalografia estrutural, modelagem molecular e biologia. Atualmente,
a linha de pesquisa está sendo ampliada em colaboração com o Centro de Inovação
Teranóstica em Câncer (CancerThera), da Unicamp, e com o Hospital das Clínicas
da Universidade. O objetivo é aprofundar a investigação dos mecanismos
biológicos desses compostos e avaliar seu potencial para futuras aplicações
oncológicas.
• Ovários
mudam atividade após a menopausa e assumem papel importante na imunidade
Os ovários podem continuar exercendo funções
relevantes muito depois do encerramento da vida reprodutiva. Uma pesquisa
recente indica que, em vez de perder completamente sua atividade após a
menopausa, esse órgão passa por uma transformação que o aproxima do sistema
imunológico. A descoberta amplia o entendimento sobre o envelhecimento feminino
e abre novas perspectivas para prevenir doenças inflamatórias associadas à
idade.
Durante décadas, a ciência concentrou
esforços para compreender o funcionamento dos ovários enquanto produzem óvulos
e hormônios sexuais. Em contrapartida, o destino desse órgão após a menopausa
permaneceu cercado de dúvidas. O novo estudo, publicado na revista Molecular
Human Reproduction, investigou justamente essa fase pouco explorada.
Como a obtenção de amostras de ovários
humanos após a menopausa apresenta limitações, os pesquisadores utilizaram
camundongos, cuja trajetória de envelhecimento reprodutivo guarda semelhanças
importantes com a dos seres humanos. Nos animais, a fertilidade diminui
progressivamente até o período equivalente funcional à menopausa.
Para acompanhar as mudanças ao longo da vida,
foram analisados três grupos de camundongos: jovens em idade reprodutiva,
indivíduos com idade reprodutiva avançada e animais que já haviam ultrapassado
completamente a fase fértil. Em cada exemplar, um ovário foi destinado à
análise estrutural, enquanto o outro passou por exames de atividade genética,
permitindo identificar quais genes permaneciam ativos e quais moléculas eram
produzidas.
Os resultados mostraram uma transformação
intensa dos ovários após o fim da reprodução. Nessa etapa, os folículos,
pequenas estruturas que abrigam os óvulos imaturos, desaparecem completamente.
Ao mesmo tempo, ocorre um acúmulo significativo de colágeno, tornando o tecido
mais rígido.
Mesmo sem produzir óvulos, os ovários
continuaram biologicamente ativos. A investigação identificou uma intensa
presença de células do sistema imunológico, como linfócitos T, macrófagos e
células gigantes, indicando que o órgão passa a desempenhar funções muito
diferentes das exercidas durante a juventude.
A análise genética reforçou essa mudança.
Genes associados à produção de óvulos e à síntese de hormônios reprodutivos
apresentaram forte redução de atividade. Em contrapartida, aumentou a expressão
de genes envolvidos na inflamação, na resposta imunológica e na ativação de
leucócitos, os glóbulos brancos responsáveis pela defesa do organismo.
Os pesquisadores também observaram que os
ovários remodelados liberam moléculas sinalizadoras capazes de circular pela
corrente sanguínea. Essas substâncias podem atuar em diferentes tecidos do
corpo, sugerindo que o órgão continua influenciando processos fisiológicos
mesmo após encerrar sua função reprodutiva.
Ao nascimento, as mulheres possuem uma
quantidade limitada de folículos, que diminui continuamente ao longo da vida. O
envelhecimento dos ovários começa décadas antes do restante do organismo,
refletindo na redução gradual da quantidade e da qualidade dos óvulos. Na
menopausa, restam aproximadamente mil folículos, número insuficiente para
manter a fertilidade.
Os resultados desafiam a visão tradicional de
que os ovários se tornam estruturas inativas após a menopausa. As evidências
apontam para uma reorganização funcional, na qual o órgão passa a atuar de
maneira semelhante a componentes do sistema imunológico, participando de
mecanismos inflamatórios relacionados ao envelhecimento.
Caso pesquisas futuras confirmem que o mesmo
processo ocorre em mulheres, o conhecimento poderá orientar o desenvolvimento
de estratégias terapêuticas voltadas ao controle da inflamação ovariana. Esse
avanço tem potencial para reduzir o risco de doenças inflamatórias e de
enfermidades associadas ao envelhecimento, contribuindo para melhorar a
qualidade de vida durante o período pós-menopausa.
Fonte: Por Tabita Said – Jornal da USP/eCycle

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