segunda-feira, 14 de setembro de 2026

Equipe que atuou contra o BC para Vorcaro também monitorava redes para Flávio Bolsonaro

A equipe envolvida na estratégia digital de Daniel Vorcaro durante a crise do Banco Master com o Banco Central também fazia monitoramento das redes sociais de Flávio Bolsonaro (PL-RJ). A informação aparece em documentos da Polícia Federal que tiveram o sigilo levantado na madrugada desta sexta-feira (11) pelo ministro André Mendonça, por determinação do presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Edson Fachin.

A frase foi escrita por André Salvador, ligado à empresa UNLTD Network Brazil, em uma conversa com Nathan Felipe Ribeiro, assessor parlamentar do vereador Rony de Assis Gabriel, de Erechim (RS). Salvador procurava Rony para tentar recrutá-lo para um projeto de gestão de crise e produção de conteúdo. Logo no início da abordagem, explicou como havia chegado até ele: “Estamos fazendo monitoramento das redes pro Flavio Bolsonaro também e encontrei o perfil do Rony nessas publicações feitas”.

Na mesma mensagem, Salvador deixa claro que o trabalho que pretendia oferecer a Rony era outro. “Mas o assunto aqui é outro”, escreveu, antes de dizer que sua equipe estava fazendo “gerenciamento de reputação e gestão de crise para um executivo grande” e contratando perfis para ajudar em uma “disputa política”.

Meses depois, em depoimento à PF, Rony identificou esse executivo como Daniel Vorcaro e contou que Salvador lhe apresentou uma proposta para produzir conteúdos sobre a crise do Banco Master, com críticas ao Banco Central e referências a uma possível atuação do Tribunal de Contas da União (TCU). Segundo ele, havia “valores milionários” disponíveis para a estratégia.

A sequência dos documentos revela, portanto, uma sobreposição: o mesmo profissional que atuava no projeto de comunicação ligado a Vorcaro dizia que sua equipe também monitorava as redes de Flávio Bolsonaro. O material não demonstra, porém, que o senador tenha participado da campanha relacionada ao Master ou que Vorcaro tenha financiado o trabalho feito para Flávio. A própria conversa separa expressamente as duas frentes.

<><> Como André Salvador chegou a Rony

A conversa foi registrada em uma ata notarial lavrada em janeiro de 2026 e depois incorporada ao Inquérito 5.035. O documento registra mensagens trocadas entre Nathan Felipe Ribeiro e o contato salvo como “André Salvador”. Nathan era assessor parlamentar de Rony de Assis Gabriel.

Salvador disse ter recebido o contato de Nathan por intermédio de pessoas ligadas a políticos do Rio Grande do Sul. Em seguida, explicou que havia encontrado Rony justamente durante o monitoramento das redes de Flávio Bolsonaro.

“Estamos fazendo monitoramento das redes pro Flavio Bolsonaro também e encontrei o perfil do Rony nessas publicações feitas”, escreveu.

A partir daí, mudou de assunto e apresentou a proposta relacionada ao que chamou de um “executivo grande”. Disse que sua equipe cuidava de gerenciamento de reputação e gestão de crise e que vinha contratando perfis para participar de uma disputa política de repercussão nacional.

Nathan aceitou conversar. Salvador pediu seus dados para preparar um termo de confidencialidade. Dias depois, marcou uma reunião por Google Meet.

<><> O Projeto DV

O acordo de confidencialidade enviado a Nathan também está nos autos. O documento identifica a UNLTD Network Brazil Ltda. e afirma que as conversas estavam relacionadas a um projeto estratégico denominado, naquele momento, “Projeto DV”.

O termo protege informações relativas a “estratégias de comunicação, narrativa, reputação, posicionamento e influência”, além da identidade e participação de integrantes, parceiros e terceiros.

O documento leva a assinatura de André Silva Salvador e de Nathan Felipe.

Foi somente depois da assinatura do acordo, segundo Rony contou à Polícia Federal, que Salvador revelou quem era o cliente.

“Foi realizada através de Google Meet. Nesse momento, nessa reunião do Google Meet, aí sim, ele deixa claro do que se trata”, afirmou Rony em depoimento.

Segundo o vereador, Salvador explicou que trabalhava para uma empresa de gestão de crise contratada por um “executivo grande” e então mencionou Daniel Vorcaro e o caso do Banco Master.

“Isso ficou claríssimo durante a reunião”, disse Rony.

<><> “O Banco Central errou”

Rony também detalhou aos investigadores qual seria a linha do conteúdo que Salvador pretendia contratar.

Segundo ele, a apresentação feita durante a reunião sustentava que a cobertura da imprensa não mostrava corretamente o caso e apontava erros na atuação do Banco Central.

Rony relatou à PF que a mensagem transmitida era a de que “o Banco Central errou, que estaria errando o Banco Central” e que o TCU deveria intervir ou poderia vir a intervir no caso.

Para entender melhor o que esperavam dele, Rony perguntou se já havia outros conteúdos seguindo aquela linha.

Salvador, segundo o depoimento, enviou exemplos de vídeos de Paulo Cardoso, do Cardoso Mundo, Marcelo Renot, André Dias e Carol Dias, além da página Alfinetei. Rony afirmou que Salvador apresentou essas publicações como modelos do conteúdo que gostaria que ele produzisse.

O uso dessas postagens como exemplo não comprova, por si só, que os respectivos perfis tenham sido contratados ou remunerados pela UNLTD ou por Vorcaro.

<><> Proposta teria valores “milionários”

Rony contou ainda que perguntou sobre o pagamento pelo trabalho.

Segundo seu depoimento, Salvador afirmou que havia um “valor disponível” que poderia ser “milionário”. O vereador disse não ter avançado para uma negociação formal porque decidiu recusar a proposta.

“Eu não sei te dizer exatamente de quantos milhões poderiam ser, mas ficou muito claro que se tratava de valores milionários”, afirmou à PF.

Mais adiante, Rony disse que Salvador chegou a oferecer o custeio de passagens para São Paulo para que ele recebesse informações adicionais sobre o caso.

Segundo o depoimento, a proposta era para produzir conteúdos inseridos na estratégia de gestão de crise ligada ao Master. Rony afirma que recusou antes de assinar qualquer contrato de prestação de serviço ou receber pagamentos.

Após a recusa, Nathan escreveu formalmente que não participaria do projeto. Salvador respondeu: “avisarei o cliente”.

<><> Rony diz ter identificado a mesma narrativa nas redes

No depoimento, Rony explicou à PF por que decidiu comunicar o caso.

Ele contou que, depois da reunião, passou a observar notícias e conteúdos sobre o Banco Master e percebeu que influenciadores apresentados a ele como modelos estavam publicando vídeos com a mesma linha descrita por Salvador.

Segundo Rony, os conteúdos defendiam a ideia de que o Banco Central poderia ter errado e destacavam uma possível atuação do TCU.

“Todos com a mesma narrativa de que o TCU foi para cima, porque o Banco Central pode ter errado, que tem coisa errada”, afirmou.

Foi essa percepção, segundo ele, que o levou a procurar as autoridades.

<><> O que a referência a Flávio revela — e o que não revela

A menção a Flávio Bolsonaro aparece antes de toda a explicação sobre Vorcaro. Salvador usou o trabalho de monitoramento do senador para explicar como havia encontrado o perfil de Rony.

A frase estabelece documentalmente que a equipe de Salvador mantinha algum tipo de monitoramento das redes de Flávio Bolsonaro ao mesmo tempo em que desenvolvia o Projeto DV.

Os autos analisados até agora não esclarecem, porém, quem contratou o serviço para Flávio, qual empresa fez o pagamento, quanto foi pago, qual era a finalidade específica do monitoramento ou se houve produção de conteúdo além do acompanhamento das redes.

Também não há, nesses documentos, prova de que o serviço para Flávio tivesse relação financeira com Vorcaro.

A informação ganha relevância porque, meses depois, o senador passou a ser investigado no STF em uma apuração relacionada ao financiamento de Dark Horse, filme sobre Jair Bolsonaro, que envolve justamente Daniel Vorcaro.

Em julho de 2026, André Mendonça determinou que notícias-crime envolvendo Flávio fossem autuadas separadamente e enviadas ao Ministério Público Federal para manifestação. Uma delas relatava a suspeita de que o senador teria negociado com Vorcaro o repasse de US$ 24 milhões, cerca de R$ 134 milhões, para financiar o filme. O despacho apenas determinou a abertura do procedimento e não confirmou a acusação.

A nova documentação acrescenta agora uma informação anterior nessa relação: em dezembro de 2025, meses antes de o caso Dark Horse chegar formalmente ao STF, um profissional que trabalhava na estratégia de comunicação de Vorcaro já dizia que sua equipe também monitorava as redes sociais de Flávio Bolsonaro.

O ICL Notícias procurou Flávio Bolsonaro para saber quem contratou o monitoramento, qual era o objetivo do serviço, quanto foi pago e por quanto tempo o trabalho foi realizado. O espaço permanece aberto para manifestação.

•        PF encontra elo entre Mário Frias e Karina Gama com Flávio Bolsonaro no caso Master, revela decisão de Dino

decisão do ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF), que deu aval à megaoperação de busca e apreensão desencadeada pela Polícia Federal nesta quinta-feira (9), revela um elo entre as emendas destinadas pelo deputado Mário Frias à a empresária Karina Gama, dona da produtora GoUp, e a investigação que envolve Flávio Bolsonaro no caso Master, que está sob relatoria de André Mendonça na corte. O ponto de contato está na produção de Dark Horse, filme sobre Jair Bolsonaro que aparece nas duas frentes de investigação.

A partir de elementos reunidos pela Polícia Federal, Dino concluiu que investigações que tramitavam separadamente — uma sobre emendas parlamentares destinadas ao Instituto Conhecer Brasil (ICB) e outra sobre movimentações financeiras envolvendo pessoas e empresas ligadas ao núcleo investigado — podem fazer parte de uma mesma estrutura criminosa.

“Não há dois esquemas distintos”, afirma o ministro. Em seguida, Dino aponta que “há fortes indícios de uma única organização criminosa, estruturada para captar, disseminar e ocultar recursos provenientes de verbas públicas, na qual o Deputado Federal Mário Frias figura como agente central”.

<><> Da investigação das emendas ao filme sobre Bolsonaro

A investigação que chegou ao ICB começou a partir da destinação de R$ 2 milhões em emendas parlamentares de autoria de Mário Frias. O inquérito, que tem origem no orçamento secreto, está sob relatoria de Flávio Dino e motivou a ação da PF.

Segundo a decisão do ministro, os recursos foram destinados à entidade por meio de dois termos de fomento registrados no sistema federal de transferências.

Karina Ferreira da Gama aparece no material analisado pela PF como presidente do ICB e da Academia Nacional de Cultura (ANC), além de empresária ligada à produção de Dark Horse.

A decisão registra ainda sua proximidade política com Mário Frias e a prestação de serviços de uma empresa de sua propriedade para a campanha do deputado em 2022.

A produção do filme é feita pela Go Up Entertainment, empresa que aparece entre as atingidas pelas medidas determinadas por Dino, como a proibição de contratação por entidades públicas.

É nesse ponto que a investigação sobre o uso de emendas passa a tocar diretamente o universo de Dark Horse.

Segundo Dino, a análise financeira encontrou relações entre o ICB, empresas contratadas e pessoas ligadas ao núcleo investigado. O ministro fala em “inequívoca confusão patrimonial entre o ICB, as empresas contratadas e as pessoas físicas vinculadas ao núcleo investigado”.

Entre os elementos identificados estão “vínculos societários cruzados, identidade ou proximidade de sócios e administradores, empresas com faturamento declarado incompatível com os montantes efetivamente movimentados e sucessivas devoluções de recursos sem causa econômica aparente”.

Para Dino, essas circunstâncias “indicam, em tese, a utilização de pessoas jurídicas como instrumentos de circulação patrimonial e ocultação de valores.”

<><> A conexão com o caso Master

É justamente a Go Up Entertainment que coloca a investigação de Dino em contato com a apuração conduzida por André Mendonça sobre o caso Master.

Enquanto Dino analisa o caminho de recursos públicos destinados ao ICB e as movimentações entre as empresas ligadas ao núcleo investigado, Mendonça apura os recursos relacionados a Daniel Vorcaro, ex-dono do Banco Master, destinados à produção de Dark Horse e o contexto da atuação de Flávio Bolsonaro.

Há informações relevantes sobre a atuação de Flávio Bolsonaro, incluindo o áudio em que ele cobra Vorcaro de parte dos 24 milhões de dólares que teriam sido prometidos ao clã, além de reuniões com o banqueiro após a primeira prisão, em novembro do ano passado. Mesmo assim, o caso sob relatoria de Mendonça não desencadeou operações contra o filho “01” de Jair Bolsonaro.

Segundo a PF, são duas investigações diferentes, mas que chegam ao mesmo ponto: o filme sobre Jair Bolsonaro e sua estrutura de produção.

A decisão de Dino não afirma que o dinheiro de Vorcaro tenha passado pelo ICB nem que os recursos das emendas tenham financiado o filme. O que ela revela é que a produtora de Dark Horse aparece no fluxo financeiro investigado a partir das emendas.

Essa intersecção ganha importância diante da própria conclusão de Dino de que os fatos inicialmente investigados em frentes distintas podem integrar uma única estrutura.

O ministro afirma que “a conexão probatória é manifesta, assim como a coincidência subjetiva dos investigados e a convergência dos fatos apurados”.

E alerta que “o fracionamento da investigação compromete a adequada compreensão da dinâmica global dos acontecimentos, dificulta a produção de prova e favorece a formação de visões parciais acerca de uma mesma estrutura criminosa”.

Em síntese, Dino defende que as duas investigações devem ser unificadas por tratarem da atuação de uma mesma organização criminosa com o mesmo fim.

•        Proposta a Vorcaro previa bilheteria  para Dark Horse maior que Vingadores e Homem Aranha

Documentos obtidos pela Polícia Federal (PF) no celular do banqueiro Daniel Vorcaro mostram que um plano de negócios do filme “Dark Horse” enviado a ele previa que a cinebiografia de Jair Bolsonaro superasse as bilheterias de “Vingadores: Ultimato” e “Homem-Aranha: Um Novo Dia” em um “cenário conservador”.

A informação consta na representação que instaurou inquérito contra o senador Flávio Bolsonaro, candidato à Presidência pelo PL, por suspeitas dos crimes corrupção passiva, lavagem de dinheiro, evasão de divisas e organização criminosa, por conta dos R$ 134 milhões solicitados por Flávio para Vorcaro, sob o pretexto de financiar a produção do longa metragem.

Apesar da liberação do documento que instaura o inquérito, o conteúdo das investigações segue mantido sob sigilo pelo ministro André Mendonça, indicado ao Supremo Tribunal Federal por Jair Bolsonaro em 2021.

<><> Previsão de recorde bilheteria

De acordo com o relatório da PF, produzido em 8 de julho, a estimativa do retorno financeiro que o filme daria foi enviado a Vorcaro pelo empresário Thiago Miranda, que operava como um intermediário entre os interesses da família Bolsonaro e o banqueiro.  “O material apresenta projeções de receita bruta de bilheteria em três cenários: pessimista de US$ 45.000.000,00, conservador de US$ 70.000.000,00 e otimista de US$ 100.000.000,00 (cem milhões de dólares)”.

Levantamento feito pelo ICL Notícias com base em dados divulgados pelo portal Filme B, que compila dados de bilheteria e faturamento de produções cinematográficas no mercado brasileiro, mostra que a estimativa conservadora –R$  356.251.000,000 em cotação desta sexta-feira (11)– colocaria “Dark Horse” como a segunda maior bilheteria da história do Brasil.

A estimativa conservadora enviada ao banqueiro superaria dois enormes sucessos recentes do Marvel Studios: “Vingadores: Ultimato”, terceira maior bilheteria no Brasil, faturou em 2019 um total de R$ 338,6 milhões. O filme foi recentemente superado por “Homem-Aranha: Um Novo Dia”: o filme do super-herói aracnídeo ainda está em cartaz e, até o fim de agosto R$ 344 milhões — R$ 12 milhões a menos do que a previsão conservadora da cinebiografia de Bolsonaro.

O plano de negócios visava convencer o banqueiro de que o projeto seria lucrativo, mesmo diante do orçamento estratosférico: US$ 24 milhões, ou R$ 122,4 milhões na cotação desta sexta-feira. O valor é suficiente para bancar quase três vezes os custos de “Ainda Estou Aqui”, primeiro filme brasileiro a vencer o Oscar, e mais de quatro vezes “O Agente Secreto”, indicado a quatro Oscars e vencedor de dois prêmios no Festival de Cannes, melhor ator e melhor direção.

A quebra do Master e a prisão de Vorcaro interromperam os pagamentos. Segundo a PF, o banqueiro transferiu US$  12.333.335,00, ou R$ 62,9 milhões para o fundo Havengate Development Fund, sediado no Texas e administrado por aliados próximos de Eduardo Bolsonaro, que se mudou para o estado americano pouco depois que os repasses de Vorcaro para o fundo foram iniciados.

O primeiro lugar nas bilheterias brasileiras é da animação “Divertida Mente 2”, lançada pela Pixar em 2024. O desenho arrecadou R$ 442,5 milhões — equivalentes a aproximadamente US$ 86,9 milhões.

A documentação mostra que a família Bolsonaro conseguiu convencer Vorcaro de que, em um cenário otimista, “Dark Horse” poderia pulverizar o recorde de maior bilheteria no país. Os US$ 100 milhões estimados no plano de negócios equivale, em valores atuais, a R$ 508,9 milhões.

 

Fonte: ICL Notícias

 

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