Nota sobre a candidatura de Augusto Cury
Depois de ouvir mais de uma das entrevistas
com Augusto Cury, firmei as avaliações que seguem. Há um ajuste mais ou menos
fácil entre o candidato e significativa parte da opinião pública que está
cansada e desiludida com a polarização e que prefere um candidato alternativo.
Ambos são centristas, podendo haver alguma inclinação mais à esquerda, ou mais
à direita conforme se considere o assunto ou o segmento do conjunto dos que
preferem uma terceira via. Em parte dessa opinião centrista a falta de experiência
política de Augusto Cury e seu sucesso empresarial são vistos, não como
limitações, mas como trunfos.
Creio, no entanto, que convém olhar isso mais
de perto e atentar para o que suas apresentações preocupantemente revelam. E
assim porque, embora remota, há alguma chance de Augusto Cury ganhar a eleição.
Jânio Quadros, Fernando Collor, Jair Bolsonaro são exemplos de que isso de vez
em quando ocorre entre nós, com ou sem a presença da velocidade de
reconhecimento de personagens inesperados que hoje a existência das redes
permite.
A verdade é que o Brasil passa uma crise
política grave, há um evidente desgaste do que temos atualmente como lideranças
políticas e com o quadro institucioal vigente e isso abre espaço para quem se
apresenta contra os hoje titulares do centro do poder nacional.
Politicamente, o candidato é um amador.
Tranparece, delicada mas abundantemente, as evidências de que não tem noção do
que seja um Estado Nacional, nem da complexidade política do governo de um país
e da não menor dificuldade que é gerenciar eficaz e resolutivamente um governo.
Ademais disso, Augusto Cury tem alguns valores e ideias bizarras. Quanto a
valores, orgulha-se de ter um patrimônio maior do que o de todos os demais
candidatos juntos, a mensagem implícita sendo a de que assim como soube o que fazer
para enriquer a si, ele saberá melhor do que eles o que fazer para enriquecer o
Brasil.
A pressuposição é um ceteris paribus de
arbitrariedade e primarismo desnorteantes. A isso acresce o fato de que hoje o
exemplo paradigmático de empresário-presidente é o grande Donald Trump, esse
personagem que é a reversão viva da tese de Mandeville de que vícios privados
geram benefícios públicos, pois o que esse senhor demonstra todos os dias, em
escala planetária, é que, bem administrados, vícios públicos geram
espetaculares benefícios privados.
De arbitrariedade mais ou menos equivalente é
a ilação de Augusto Cury de que da melhor nota que obteve em algum exame de
matemática, somada ao que leu sobre economia – não obstante , por certo, o
tempo dedicado as muitas dezenas de livros que já escreveu e seu trabalho em
medicina – é prova de que saberá o que fazer com a complexidade desse assunto,
no qual se emaranham pelo menos as difíceis questões relativas à mediocridade
de nosso desenvolvimento desde os anos oitenta do século passado, aos déficits
orçamentários e à curva evolutiva da dívida pública, à super turbinada e prorporcionalmente
lesiva taxa de juros, à paridade cambial e ao emprego.A bizarrice das ideias do
candidato continua com a de transformar os embaixadores do Brasil em caixeiros
viajantes! Emparelhado com ela está a inutilidade do projeto de criar milhões
de pequenos empresários no Brasil, pois, contadas as pejotas que já temos, esse
novo exército já existe e sua expansão não dependerá de iniciativa estatal
alguma, pois decorre e decorrerá cada vez mais rapidamente da difusão de
serviços simples, das novas condições de trabalho em rede e de contratação
terceirizada, fatores esstes que, com a substituição acelerada de trabalho de
gente por trabalho de máquina, só fará aumentar o desejado universo dos
pequenos empresários.
Para terminar esta enumeração, convém ainda
mencionar a ideia d e Augusto Cury de controlar a multiplicação dos
feminicídeos com drones! A combinação da evocação das novas tecnologias de
guerra com a solução de um problema social tão grave quanto atomizado e
disperso gográfica e cronologicamente vai, porém, além da surpresa e da
bizarria. Para onde, não vou me atrever a cogitar.
À vista dessas ideias e projetos, ocorreu-me
lembrar e tomar de empréstimo uma imagem criada por Mirabeau quando, alertando
para as dificuldades que a Constituinte tinha pela frente no início da
Revolução francesa, criticava as ousadias – da esquerda, digamos, para
simplificar – e acusava seus representantes de se portarem como quem viaja em
um mapa mundi, onde nem rios, nem o mar, nem montanhas, nem abismos, tampouco
florestas, pântanos, desertos, são obstáculos.
Mirabeau enganou-se com relação a seus
adversários que realmente terminaram com o Antigo Regime e deram um passo
institucional decisivo na construção da modernidade. Já Augusto Cury, com suas
estranhas e meio amalucadas ideias, não parece ter a menor condição de ter
sucesso em suas veleidades mudancistas. Mesmo propostas eventualmernter
razoáveis como a de alterar a constituição para termos um regime parlamentar no
Brasil parece muito pouco viável no Congresso que sairá desta eleição.
Além disso, na hipótese de que viesse a se
eleger, não é de duvidar que Augusto Cury possa vir a se enfadar com as
dificuldades para fazer o que pretende, do que, aliás, uma sua menção à ideia
de que, aprovado seu preconizado parlamentarismo, ter o governador Tarciso de
Freitas como seu primeiro ministro já faz pensar. Mas talvez não. Ele parece já
estar mais do que satisfeito com seus sucessos particulares, tem anseios
públicos, anela somar a seu êxito privado o que quer obter no domínio público.
Dizem por aí que o Brasil não é para
amadores. Se não fosse não haveria necessidade dessa declaração enfática. Na
pouco provável hipótese de termos o Augusto Cury presidente, o que viriamos mos
ter é justamente um amador tratando de aprender o que é governar o Brasil. A
crise institucional presente, os desvios que desequilibram os poderes da
República e que fazem do Poder executivo o mais fraco dos nossos três poderes,
se agrava com a contaminação do próprio Supremo Tribunal Federal pela
venalidade.
Evidentemente, nossas instituições precisam
ser reajustadas e isso exigirá reformas institucionais, dependentes de mudanças
constitucionais cujo desenho e velocidade de implementação são difíceis de
estimar com precisão, mas que, mantido o Estado de Direito, não serão feitas de
um só golpe, nem em prazos muito curtos.
O Congresso que vai sair da eleição não será
melhor do que o atual. Tampouco a reforma do Supremo, e muito menos uma revisão
geral do sistema judiciário brasileiro, se fará no tempo do calendário
eleitoral, ainda que o presidente Edson Fachin tome alguma decisão de maior
alcance.
Em vista do estado da opinião pública atual,
a demanda dessas reformas aumentará e a pressão para que isso aconteça tem
muita chance de lhe dar algum andamento. Nessa hora o papel da presidência da
república e sua capacidade de negociação será vital para construir consensos.
Creio que a prudência e capacidade de negociação de Lula, não obstante as
dificuldades do entorno, poderão contar a favor de mudanças positivas.
Sem ele, com o Bolsonaro filho, o cenário só
nos levará à situação de neo colônia que os Estados Unidos estão propondo e já
executando na América Latina. Ou, com Augusto Cury, às confusões que os
projetos de uma liderança de direita, inexperiente e de propósitos
extravagantes não deixará de acarretar.
Fonte: Por João Carlos Brum Torres, em A
Terra é Redonda

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