Moda, a filha predileta do capitalismo
Quando pensamos em moda, normalmente pensamos
em tendências, cores, tecidos, passarelas e escolhas pessoais. Mas uma roupa
nunca é apenas uma roupa.
Antes de chegar ao nosso corpo, uma peça
percorre uma longa trajetória. Ela envolve trabalhadores, matérias-primas,
tecnologia, comércio internacional, decisões políticas e relações de poder.
Uma camiseta, um tênis ou um boné podem
carregar histórias sobre globalização, capitalismo e as transformações do nosso
tempo.
Foi a partir dessa perspectiva que escrevi
meu livro Moda, a Filha Predileta do Capitalismo — O que a roupa que vestimos
revela sobre o mundo que habitamos, lançado pela Editora Alameda.
A obra é resultado de oito anos de pesquisa e
foi escrita no Brasil. Nela, investigo a moda como uma linguagem capaz de
revelar relações de poder, cultura, economia, trabalho e sociedade.
Hoje, vivendo em Beijing, na China, realizo a
campanha de pré-venda do livro a partir daqui por uma questão logística. Minha
mudança para o país aconteceu depois da conclusão da obra e abriu uma nova
etapa da minha trajetória profissional, marcada justamente pela aproximação
entre Brasil e China.
Para este artigo, selecionei um recorte
específico do livro: três capítulos em que a moda encontra a geopolítica —
“Moda, China e as tarifas de Trump”; “O boné MAGA e ‘as mudanças nunca vistas
em um século’”; e “China, a fábrica do mundo”.
A pergunta que atravessa essas páginas é
simples, mas provocadora: o que uma roupa pode nos ensinar sobre a disputa pelo
futuro do planeta?
<><> A China que vestimos
Durante muito tempo, a China foi apresentada
ao mundo apenas como o lugar onde as coisas eram produzidas. A etiqueta “Made
in China” parecia resumir uma relação econômica global: o mundo consumia,
enquanto a China fabricava.
Mas essa imagem ficou pequena diante da
transformação vivida pelo país nas últimas décadas. A China não é apenas a
fábrica que abastece o planeta. É também um dos centros de inovação
tecnológica, desenvolvimento industrial e reorganização das cadeias produtivas
globais.
A moda ajuda a enxergar essa mudança.
Durante décadas, a indústria chinesa esteve
profundamente integrada ao sistema mundial de produção de roupas, calçados e
acessórios. Grandes marcas internacionais construíram suas cadeias produtivas
em diálogo com a capacidade industrial chinesa.
Mas essa história não terminou aí. O país que
durante anos produziu para marcas estrangeiras também passou a desenvolver suas
próprias marcas, tecnologias e estratégias de inserção no mercado global.
A China deixou de ser apenas o lugar onde o
mundo fabrica seus produtos e passou a disputar os caminhos da inovação, da
tecnologia e do consumo.
A roupa que chega às nossas mãos revela essa
transformação. Uma peça pode ser desenhada em um país, produzida em outro,
vendida por uma plataforma digital e impulsionada por um algoritmo que
identifica nossos desejos antes mesmo de percebermos que os temos.
A moda contemporânea é, ao mesmo tempo,
tecido e tecnologia. É tradição industrial e inteligência artificial. É fábrica
e algoritmo.
<><> Tarifas, Trump e a batalha
pelo controle da produção
Quando Donald Trump iniciou sua guerra
comercial contra a China, as tarifas sobre produtos chineses foram apresentadas
como uma disputa econômica.
Mas, por trás de uma tarifa sobre uma peça de
roupa, existe uma questão muito maior. Quem controla as cadeias produtivas?
Quem domina as tecnologias estratégicas? Quem define as regras do comércio
global?
A moda se tornou um dos territórios dessa
disputa.
Uma camiseta, um tênis ou um acessório
carregam marcas invisíveis de uma nova ordem econômica. As tarifas não são
apenas números em uma planilha: elas expressam uma batalha pelo controle da
produção e pelo lugar que cada país ocupará no século XXI.
A roupa, nesse sentido, deixa de ser apenas
objeto de consumo e se transforma em documento histórico. Ela revela conexões
entre países, trabalhadores, empresas e governos. Mostra que, em um mundo
profundamente integrado, nenhuma mercadoria existe isoladamente.
<><> O boné vermelho e a política
das aparências
Poucos objetos representam tão bem a relação
entre moda e política quanto o boné vermelho com a inscrição MAGA — Make
America Great Again.
Criado como símbolo da campanha presidencial
de Donald Trump em 2016, o boné ultrapassou a condição de simples peça
eleitoral e se transformou em um dos principais ícones da extrema direita
estadunidense contemporânea.
Mais do que identificar um candidato, ele
expressa uma identidade política, um sentimento de pertencimento e uma
determinada visão de mundo.
Assim como outros símbolos políticos que
ganham vida própria, o boné MAGA passou a representar um movimento que
ultrapassa a figura individual de Trump.
Ele funciona como uma marca visual de uma
corrente política que mobiliza ideias de nacionalismo, rejeição à globalização
e a promessa de recuperar um passado industrial estadunidense, associado a uma
época em que fábricas nacionais representavam empregos e segurança econômica.
Mas existe uma contradição reveladora. Em uma
economia profundamente conectada, muitos dos objetos associados ao nacionalismo
econômico fazem parte justamente das cadeias produtivas globais nas quais a
China ocupa papel central.
O próprio boné que simboliza uma defesa da
indústria nacional estadunidense circula dentro de uma lógica de produção
global.
A moda expõe essa contradição porque está em
todos os lugares. Está no corpo das pessoas, nas ruas, nas imagens
compartilhadas nas redes sociais, nos símbolos políticos e nas disputas
culturais.
O boné, assim como uma roupa ou qualquer
outro objeto carregado de significado, comunica antes mesmo da fala.
<><> “Mudanças nunca vistas em um
século”: a moda como testemunha da nova ordem mundial
A disputa entre China e Estados Unidos
acontece em um momento de transformação profunda da ordem mundial.
A expressão “mudanças nunca vistas em um
século”, utilizada pelo presidente chinês, Xi Jinping, tornou-se uma das formas
pelas quais a China interpreta o período histórico atual.
A ideia se refere a um conjunto de mudanças
econômicas, tecnológicas, sociais e geopolíticas que estão reorganizando
relações de poder construídas ao longo do século XX.
Não se trata apenas de uma disputa entre
países, mas de uma reorganização mais ampla do sistema internacional.
Novas tecnologias, inteligência artificial,
automação e mudanças nas cadeias industriais estão alterando antigas
hierarquias econômicas.
Países que durante décadas ocuparam posições
específicas na divisão internacional do trabalho passam a disputar novos
espaços na economia global.
É nesse cenário que a moda se torna uma lente
privilegiada para compreender o mundo. Ela acompanha essas mudanças porque está
diretamente ligada às cadeias produtivas globais.
Uma peça de roupa reúne diferentes
geografias, tecnologias e formas de trabalho. Ela conecta a matéria-prima
extraída em um lugar, a produção industrial em outro, a circulação
internacional e o consumo mediado por plataformas digitais.
A moda registra desejos, medos, conflitos e
expectativas de uma época. Por isso, olhar para uma roupa é olhar para uma
sociedade. É perguntar quem produziu, onde foi produzida, quais tecnologias
permitiram sua existência, quais relações econômicas estão por trás dela e
quais disputas de poder ela revela.
A disputa entre China e Estados Unidos também
aparece nesse território simbólico.
Enquanto o discurso político do “Make America
Great Again” expressa uma tentativa de recuperar uma imagem de passado
industrial e devolver ao país uma centralidade perdida, a China apresenta sua
ascensão como parte de uma transformação histórica mais ampla, marcada pela
inovação tecnológica, pela reorganização produtiva e pela busca de um novo
lugar no sistema internacional.
A China que aparece nas etiquetas das roupas
que vestimos é também a China que disputa os caminhos do século XXI.
<><> Um convite para olhar o
mundo pelo avesso
Meu livro Moda, a Filha Predileta do
Capitalismo — O que a roupa que vestimos revela sobre o mundo que habitamos
nasceu dessa inquietação: compreender a moda não como algo superficial, mas
como uma linguagem capaz de explicar a sociedade.
Ao longo da obra, a roupa aparece como uma
ponte entre histórias individuais e grandes processos coletivos. Ela conecta
trabalho e consumo, cultura e economia, identidade e poder.
Escrever este livro foi uma forma de
investigar aquilo que está diante dos nossos olhos todos os dias e que,
justamente por isso, muitas vezes passa despercebido.
Porque uma roupa nunca é apenas uma roupa.
Ela carrega lugares, pessoas, escolhas, conflitos e sonhos.
A campanha de pré-venda já está no ar e faz
parte dessa construção.
Mais do que viabilizar a publicação de uma
obra, ela busca aproximar leitores, pesquisadores, estudantes, profissionais da
moda e pessoas interessadas em compreender como aquilo que vestimos revela as
estruturas do mundo em que vivemos.
Cada apoio ajuda a colocar essa reflexão em
circulação e construir uma comunidade de leitores em torno das histórias
escondidas nas roupas que usamos.
Se você já se perguntou por que uma peça
custa o que custa, quem está por trás dela, quais caminhos ela percorreu ou o
que ela revela sobre o nosso tempo, este livro é um convite.
Um convite para olhar a moda de outro jeito.
Para enxergar, por trás de cada tecido, a
história do mundo.
Fonte: Por Iara Vidal, em Outras Palavras

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