sexta-feira, 11 de setembro de 2026

Moda, a filha predileta do capitalismo

Quando pensamos em moda, normalmente pensamos em tendências, cores, tecidos, passarelas e escolhas pessoais. Mas uma roupa nunca é apenas uma roupa.

Antes de chegar ao nosso corpo, uma peça percorre uma longa trajetória. Ela envolve trabalhadores, matérias-primas, tecnologia, comércio internacional, decisões políticas e relações de poder.

Uma camiseta, um tênis ou um boné podem carregar histórias sobre globalização, capitalismo e as transformações do nosso tempo.

Foi a partir dessa perspectiva que escrevi meu livro Moda, a Filha Predileta do Capitalismo — O que a roupa que vestimos revela sobre o mundo que habitamos, lançado pela Editora Alameda.

A obra é resultado de oito anos de pesquisa e foi escrita no Brasil. Nela, investigo a moda como uma linguagem capaz de revelar relações de poder, cultura, economia, trabalho e sociedade.

Hoje, vivendo em Beijing, na China, realizo a campanha de pré-venda do livro a partir daqui por uma questão logística. Minha mudança para o país aconteceu depois da conclusão da obra e abriu uma nova etapa da minha trajetória profissional, marcada justamente pela aproximação entre Brasil e China.

Para este artigo, selecionei um recorte específico do livro: três capítulos em que a moda encontra a geopolítica — “Moda, China e as tarifas de Trump”; “O boné MAGA e ‘as mudanças nunca vistas em um século’”; e “China, a fábrica do mundo”.

A pergunta que atravessa essas páginas é simples, mas provocadora: o que uma roupa pode nos ensinar sobre a disputa pelo futuro do planeta?

<><> A China que vestimos

Durante muito tempo, a China foi apresentada ao mundo apenas como o lugar onde as coisas eram produzidas. A etiqueta “Made in China” parecia resumir uma relação econômica global: o mundo consumia, enquanto a China fabricava.

Mas essa imagem ficou pequena diante da transformação vivida pelo país nas últimas décadas. A China não é apenas a fábrica que abastece o planeta. É também um dos centros de inovação tecnológica, desenvolvimento industrial e reorganização das cadeias produtivas globais.

A moda ajuda a enxergar essa mudança.

Durante décadas, a indústria chinesa esteve profundamente integrada ao sistema mundial de produção de roupas, calçados e acessórios. Grandes marcas internacionais construíram suas cadeias produtivas em diálogo com a capacidade industrial chinesa.

Mas essa história não terminou aí. O país que durante anos produziu para marcas estrangeiras também passou a desenvolver suas próprias marcas, tecnologias e estratégias de inserção no mercado global.

A China deixou de ser apenas o lugar onde o mundo fabrica seus produtos e passou a disputar os caminhos da inovação, da tecnologia e do consumo.

A roupa que chega às nossas mãos revela essa transformação. Uma peça pode ser desenhada em um país, produzida em outro, vendida por uma plataforma digital e impulsionada por um algoritmo que identifica nossos desejos antes mesmo de percebermos que os temos.

A moda contemporânea é, ao mesmo tempo, tecido e tecnologia. É tradição industrial e inteligência artificial. É fábrica e algoritmo.

<><> Tarifas, Trump e a batalha pelo controle da produção

Quando Donald Trump iniciou sua guerra comercial contra a China, as tarifas sobre produtos chineses foram apresentadas como uma disputa econômica.

Mas, por trás de uma tarifa sobre uma peça de roupa, existe uma questão muito maior. Quem controla as cadeias produtivas? Quem domina as tecnologias estratégicas? Quem define as regras do comércio global?

A moda se tornou um dos territórios dessa disputa.

Uma camiseta, um tênis ou um acessório carregam marcas invisíveis de uma nova ordem econômica. As tarifas não são apenas números em uma planilha: elas expressam uma batalha pelo controle da produção e pelo lugar que cada país ocupará no século XXI.

A roupa, nesse sentido, deixa de ser apenas objeto de consumo e se transforma em documento histórico. Ela revela conexões entre países, trabalhadores, empresas e governos. Mostra que, em um mundo profundamente integrado, nenhuma mercadoria existe isoladamente.

<><> O boné vermelho e a política das aparências

Poucos objetos representam tão bem a relação entre moda e política quanto o boné vermelho com a inscrição MAGA — Make America Great Again.

Criado como símbolo da campanha presidencial de Donald Trump em 2016, o boné ultrapassou a condição de simples peça eleitoral e se transformou em um dos principais ícones da extrema direita estadunidense contemporânea.

Mais do que identificar um candidato, ele expressa uma identidade política, um sentimento de pertencimento e uma determinada visão de mundo.

Assim como outros símbolos políticos que ganham vida própria, o boné MAGA passou a representar um movimento que ultrapassa a figura individual de Trump.

Ele funciona como uma marca visual de uma corrente política que mobiliza ideias de nacionalismo, rejeição à globalização e a promessa de recuperar um passado industrial estadunidense, associado a uma época em que fábricas nacionais representavam empregos e segurança econômica.

Mas existe uma contradição reveladora. Em uma economia profundamente conectada, muitos dos objetos associados ao nacionalismo econômico fazem parte justamente das cadeias produtivas globais nas quais a China ocupa papel central.

O próprio boné que simboliza uma defesa da indústria nacional estadunidense circula dentro de uma lógica de produção global.

A moda expõe essa contradição porque está em todos os lugares. Está no corpo das pessoas, nas ruas, nas imagens compartilhadas nas redes sociais, nos símbolos políticos e nas disputas culturais.

O boné, assim como uma roupa ou qualquer outro objeto carregado de significado, comunica antes mesmo da fala.

<><> “Mudanças nunca vistas em um século”: a moda como testemunha da nova ordem mundial

A disputa entre China e Estados Unidos acontece em um momento de transformação profunda da ordem mundial.

A expressão “mudanças nunca vistas em um século”, utilizada pelo presidente chinês, Xi Jinping, tornou-se uma das formas pelas quais a China interpreta o período histórico atual.

A ideia se refere a um conjunto de mudanças econômicas, tecnológicas, sociais e geopolíticas que estão reorganizando relações de poder construídas ao longo do século XX.

Não se trata apenas de uma disputa entre países, mas de uma reorganização mais ampla do sistema internacional.

Novas tecnologias, inteligência artificial, automação e mudanças nas cadeias industriais estão alterando antigas hierarquias econômicas.

Países que durante décadas ocuparam posições específicas na divisão internacional do trabalho passam a disputar novos espaços na economia global.

É nesse cenário que a moda se torna uma lente privilegiada para compreender o mundo. Ela acompanha essas mudanças porque está diretamente ligada às cadeias produtivas globais.

Uma peça de roupa reúne diferentes geografias, tecnologias e formas de trabalho. Ela conecta a matéria-prima extraída em um lugar, a produção industrial em outro, a circulação internacional e o consumo mediado por plataformas digitais.

A moda registra desejos, medos, conflitos e expectativas de uma época. Por isso, olhar para uma roupa é olhar para uma sociedade. É perguntar quem produziu, onde foi produzida, quais tecnologias permitiram sua existência, quais relações econômicas estão por trás dela e quais disputas de poder ela revela.

A disputa entre China e Estados Unidos também aparece nesse território simbólico.

Enquanto o discurso político do “Make America Great Again” expressa uma tentativa de recuperar uma imagem de passado industrial e devolver ao país uma centralidade perdida, a China apresenta sua ascensão como parte de uma transformação histórica mais ampla, marcada pela inovação tecnológica, pela reorganização produtiva e pela busca de um novo lugar no sistema internacional.

A China que aparece nas etiquetas das roupas que vestimos é também a China que disputa os caminhos do século XXI.

<><> Um convite para olhar o mundo pelo avesso

Meu livro Moda, a Filha Predileta do Capitalismo — O que a roupa que vestimos revela sobre o mundo que habitamos nasceu dessa inquietação: compreender a moda não como algo superficial, mas como uma linguagem capaz de explicar a sociedade.

Ao longo da obra, a roupa aparece como uma ponte entre histórias individuais e grandes processos coletivos. Ela conecta trabalho e consumo, cultura e economia, identidade e poder.

Escrever este livro foi uma forma de investigar aquilo que está diante dos nossos olhos todos os dias e que, justamente por isso, muitas vezes passa despercebido.

Porque uma roupa nunca é apenas uma roupa. Ela carrega lugares, pessoas, escolhas, conflitos e sonhos.

A campanha de pré-venda já está no ar e faz parte dessa construção.

Mais do que viabilizar a publicação de uma obra, ela busca aproximar leitores, pesquisadores, estudantes, profissionais da moda e pessoas interessadas em compreender como aquilo que vestimos revela as estruturas do mundo em que vivemos.

Cada apoio ajuda a colocar essa reflexão em circulação e construir uma comunidade de leitores em torno das histórias escondidas nas roupas que usamos.

Se você já se perguntou por que uma peça custa o que custa, quem está por trás dela, quais caminhos ela percorreu ou o que ela revela sobre o nosso tempo, este livro é um convite.

Um convite para olhar a moda de outro jeito.

Para enxergar, por trás de cada tecido, a história do mundo.

 

Fonte: Por Iara Vidal, em Outras Palavras

 

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