A indecência de votar pensando apenas em
si
É exatamente esse o centro da contundência da
coluna publicada por Martha Medeiros em 4 de setembro, na Zero Hora.
Às vésperas da eleição presidencial de 4 de outubro, a escritora retoma — agora
com força ainda maior — uma reflexão que já havia desenvolvido em 2021: quem
teve seus direitos e interesses assegurados ao longo da vida não deveria votar
pensando apenas em si mesmo.
Quando a escritora apresenta o próprio perfil
— mulher branca, heterossexual, pertencente a uma família que lhe garantiu
estudo, cultura, segurança e estrutura desde o berço —, não está apenas fazendo
uma autocrítica ou um inventário de suas vantagens de classe. Está
estabelecendo um contraste ético profundo com a retórica vazia da política
tradicional.
Martha diz que pôde frequentar boas escolas,
estudar idiomas, viajar e conviver com livros, filmes e teatro. Teve acesso a
plano de saúde, previdência privada e uma rede de contatos à qual pode recorrer
nos momentos difíceis. Trabalha há 45 anos, criou as duas filhas e vive sob um
teto seguro, com a certeza de que terá o que comer no dia seguinte.
Seus interesses fundamentais foram atendidos
antes mesmo de ela nascer, quando sua mãe pôde realizar os exames necessários
durante a gravidez. Por que, então, deveria escolher o próximo presidente
pensando apenas em si mesma?
<><> A indecência
A resposta da escritora é a frase que
concentra toda a força de sua coluna: “Seria uma indecência se eu votasse
pensando em mim.”
A frase incomoda porque confronta diretamente
uma das engrenagens mais eficientes das campanhas eleitorais: a redução do voto
a uma transação individual. O candidato oferece segurança, vantagens
tributárias, proteção patrimonial ou a preservação de privilégios; o eleitor
responde escolhendo aquele que promete defender seus interesses
imediatos.
É uma visão estreita da democracia.
Transforma o voto numa espécie de contrato particular entre o cidadão e o
governante e apaga da urna aqueles que, embora formalmente iguais perante a
lei, nasceram sem as condições mínimas para exercer essa igualdade.
Em 2026, a menos de um mês da eleição,
recuperar essa reflexão funciona como antídoto contra o individualismo que
domina grande parte do debate político. Enquanto discursos corporativistas e
polarizados apelam para o bolso, o medo ou o ressentimento das classes já
protegidas, Martha propõe a maturidade cívica do voto por alteridade: a decisão
consciente de não votar apenas a partir do próprio umbigo, mas em função de
quem foi sistematicamente marginalizado pelo Estado e pela desigualdade
estrutural do país.
<><> A mesma pergunta, cinco
anos depois
Não é a primeira vez que ela defende esse
princípio. Em 24 de setembro de 2021, pouco mais de um ano antes da disputa
entre Lula e Jair Bolsonaro, Martha publicou no Zero Hora a coluna “A
quem interessa meu voto”. O subtítulo anunciava que votaria, em 2022, no
candidato que apresentasse as melhores propostas para o país — não para ela
própria.
Martha reconhecia que precisava do governo,
como qualquer cidadã, mas muito menos do que outros brasileiros. Por isso,
escreveu que não deveria olhar para o próprio umbigo, mas para os lados: para
quem precisava comer, encontrar trabalho e ter acesso aos livros. Não revelava
o nome de seu candidato, mas estabelecia uma fronteira democrática: seu voto
não seria entregue a um extremista que defendesse a ditadura e a
tortura, exaltasse a ignorância, estimulasse a violência ou propagasse
notícias falsas.
A coluna de 2026, “Meus
interesses? Deixem-os pra lá”, retoma o mesmo princípio, mas
avança politicamente. O Brasil já atravessou a pandemia, os ataques às urnas
eletrônicas, a tentativa de golpe e a invasão das sedes dos Três Poderes em 8
de janeiro de 2023. Jair Bolsonaro foi condenado. O bolsonarismo, porém,
reorganizou-se em torno da candidatura de Flávio Bolsonaro e voltou a disputar
a Presidência.
Martha não cita Lula nem Flávio. Não precisa.
Ao escrever que votará em quem impeça a escalada do retrocesso, da ignorância e
da irresponsabilidade, deixa claro o lado em que se encontra. A referência à
soberania torna a identificação ainda mais evidente: ela não dará seu voto a um
“entreguista lambe-botas” disposto a tratar o Brasil como sucursal dos Estados
Unidos.
<><> Votar também pelo país
A expressão não foi lançada ao acaso. A
eleição ocorre sob a pressão explícita do governo de Donald Trump, em meio à
aproximação do clã Bolsonaro com Washington e à tentativa de subordinar o
futuro do Brasil aos interesses econômicos, políticos e estratégicos dos
Estados Unidos. A escolha presidencial já não envolve apenas dois projetos
internos. Coloca frente a frente a preservação da soberania brasileira e a
submissão de um eventual governo de Flávio Bolsonaro ao trumpismo.
Martha acrescenta uma dimensão nacional ao
voto por alteridade. Não basta pensar nos outros. É necessário pensar também no
país. Patriotismo não é bater continência para a bandeira dos Estados Unidos,
festejar sanções contra o Brasil ou oferecer nossas riquezas em troca de apoio
eleitoral. É defender a independência, a democracia e o direito dos brasileiros
de escolher seu governo sem tutela estrangeira.
A coluna ultrapassa, assim, o terreno da
reflexão pessoal. Quem pode pagar escola, saúde, previdência, transporte e
segurança talvez atravesse um governo socialmente irresponsável protegido
dentro de sua bolha. Quem mora numa encosta, depende da escola pública, espera
atendimento no SUS ou precisa de transferência de renda não dispõe do mesmo
abrigo.
Para essas pessoas, política não é abstração.
Uma eleição pode decidir se haverá comida, vaga na escola, remédio no posto de
saúde, oportunidade de emprego ou socorro quando a chuva destruir a casa. O
eleitor privilegiado consegue sobreviver aos erros de um governo. O brasileiro
pobre, muitas vezes, não consegue.
<><> O voto não é um cheque em
branco
O voto por alteridade não significa renunciar
aos próprios interesses nem entregar um cheque em branco a quem se apresente
como defensor dos pobres. Tampouco dispensa a cobrança contra corrupção,
incompetência ou erros de um governo progressista. A própria Martha ressalva
que quem assumir em janeiro cometerá erros e deverá ser cobrado.
Mas existe diferença entre cobrar os erros de
um governo democrático e devolver o poder a um projeto que nunca demonstrou
compaixão por quem depende de políticas públicas; entre exigir eficiência do
Estado e entregá-lo a quem deseja destruí-lo; entre combater a corrupção e
utilizar essa bandeira para justificar a volta do autoritarismo.
O mercado, o agronegócio, o empresariado, o
equilíbrio fiscal e o crescimento econômico importam. Mas só adquirem sentido
democrático quando seus resultados chegam à maioria, e não quando ampliam a
distância entre brasileiros protegidos e abandonados.
O Brasil avançou na redução da pobreza:
segundo o IBGE, 8,6 milhões de pessoas saíram dessa condição entre 2023 e 2024.
Mesmo assim, em 2024, quase um quarto da população ainda vivia abaixo da linha
de pobreza. Em 2025, o índice de Gini do rendimento domiciliar permaneceu em
0,511. A desigualdade continua determinando quem terá acesso à saúde, à
educação, à moradia segura e até à possibilidade de sobreviver a uma
tragédia.
É por isso que Martha vota pela criança
cuidada pelo irmão enquanto a mãe trabalha. Pelo adolescente obrigado a
abandonar a escola. Pelo jovem que não encontrou o primeiro emprego. Pelos
moradores das encostas, pelas mulheres vítimas de violência e pelos milhões aos
quais foi negado até o domínio pleno da leitura e da escrita.
<><> A página que o eleitor não
pode virar
Poucos dias antes da publicação da coluna de
Martha, O Estado de S. Paulo voltou a tratar da candidatura de Flávio
Bolsonaro. Em editorial de 27 de agosto, contestou a tentativa do senador de
declarar encerrado o escândalo de sua relação com Daniel Vorcaro. O título
foi direto: “A página que Flávio não virou”.
Flávio afirmara que o
caso Dark Horse era “página virada”. O Estadão respondeu: “Não é.”
Não é porque ele prometeu explicar, em 30 dias, como foram utilizados os
milhões recebidos de Vorcaro e não explicou. Não é porque a
intimidade entre o candidato e o banqueiro investigado não desaparece quando o
candidato se irrita com perguntas. Não é porque continuam sem resposta as
suspeitas sobre o destino do dinheiro, as razões do financiamento e o
que Vorcaro esperava receber em troca.
E não é porque o passado de Flávio contém
outras páginas jamais satisfatoriamente viradas: as “rachadinhas”, os imóveis
adquiridos com dinheiro vivo, as relações com milicianos e sua participação
ativa no projeto político que tentou impedir a posse do presidente eleito e
abolir violentamente o Estado Democrático de Direito. O projeto político
que programou o Plano Verde Amarelo, que deixava explícito
o assassinato do presidente Lula, seu vice Alkmin e o ministro
Alexandre de Moraes.
O Estadão não parece estar aderindo a Lula.
Continua tentando salvar a direita de Flávio Bolsonaro. Martha também não
escreve uma declaração partidária de voto. Faz algo anterior e mais profundo:
estabelece os critérios morais pelos quais pretende escolher. Esses critérios
tornam a escolha menos difícil.
A eleição de 2026 é dura. A extrema
direita continua agressiva, financiada, internacionalizada e disposta a tudo,
com Trump no centro da política mundial e da ultradireita global. Eduardo
Bolsonaro permanece nos Estados Unidos vivendo como um bilionário
esbanjador atuando contra a soberania brasileira. Jair Bolsonaro, mesmo
condenado, continua tentando comandar o campo político que criou. E Flávio
procura apresentar-se como candidato viável de uma direita que não consegue se
libertar do próprio monstro.
Mas há uma diferença fundamental entre 2018 e
2026.
Ninguém pode dizer que não
sabia. Ninguém pode dizer que foi surpreendido.
Ninguém pode fingir que Flávio Bolsonaro
surgiu como novidade eleitoral, conservador moderado, candidato normal de
centro-direita ou alternativa sem vínculos com o desastre anterior.
Ele vem de onde vem. Carrega o que carrega.
Representa o que representa.
Em 2018, o Estadão disse que a escolha entre
Fernando Haddad e Jair Bolsonaro era “muito difícil”. Em 2026, o próprio
Estadão mostra que a escolha entre Lula e Flávio Bolsonaro não pode ser tratada
da mesma maneira.
Já conhecemos o roteiro. Conhecemos a
mentira. Conhecemos o entreguismo. Conhecemos a violência. Conhecemos o ataque
às urnas. Conhecemos a tentativa de golpe. Conhecemos o preço pago pelo
Brasil.
<><> E conhecemos os Bolsonaro.
Martha acrescenta a pergunta que faltava:
quem já teve educação, saúde, segurança, cultura, proteção familiar e
oportunidades deve votar apenas para preservar os próprios interesses? Sua
resposta é não.
Seu voto pertence também à criança cuidada
pelo irmão enquanto a mãe trabalha. Ao adolescente que abandonou a escola. Ao
jovem que não encontrou o primeiro emprego. À mulher violentada. Ao morador
da periferia. A quem depende do Estado para transformar sobrevivência em
cidadania.
A página que Flávio Bolsonaro pretende virar
é justamente a página que o eleitor brasileiro não pode esquecer.
Votar pensando apenas no próprio bolso,
depois de tudo o que o país viveu, não seria apenas egoísmo.
“Seria uma indecência.
Meus interesses? Deixem para lá.
O Brasil tem mais com que se
preocupar.”
Fonte: Por Gustavo Tapioca, em Brasil 247

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