quarta-feira, 9 de setembro de 2026

A indecência de votar pensando apenas em si

É exatamente esse o centro da contundência da coluna publicada por Martha Medeiros em 4 de setembro, na Zero Hora. Às vésperas da eleição presidencial de 4 de outubro, a escritora retoma — agora com força ainda maior — uma reflexão que já havia desenvolvido em 2021: quem teve seus direitos e interesses assegurados ao longo da vida não deveria votar pensando apenas em si mesmo.  

Quando a escritora apresenta o próprio perfil — mulher branca, heterossexual, pertencente a uma família que lhe garantiu estudo, cultura, segurança e estrutura desde o berço —, não está apenas fazendo uma autocrítica ou um inventário de suas vantagens de classe. Está estabelecendo um contraste ético profundo com a retórica vazia da política tradicional. 

Martha diz que pôde frequentar boas escolas, estudar idiomas, viajar e conviver com livros, filmes e teatro. Teve acesso a plano de saúde, previdência privada e uma rede de contatos à qual pode recorrer nos momentos difíceis. Trabalha há 45 anos, criou as duas filhas e vive sob um teto seguro, com a certeza de que terá o que comer no dia seguinte. 

Seus interesses fundamentais foram atendidos antes mesmo de ela nascer, quando sua mãe pôde realizar os exames necessários durante a gravidez. Por que, então, deveria escolher o próximo presidente pensando apenas em si mesma? 

<><> A indecência 

A resposta da escritora é a frase que concentra toda a força de sua coluna: “Seria uma indecência se eu votasse pensando em mim.” 

A frase incomoda porque confronta diretamente uma das engrenagens mais eficientes das campanhas eleitorais: a redução do voto a uma transação individual. O candidato oferece segurança, vantagens tributárias, proteção patrimonial ou a preservação de privilégios; o eleitor responde escolhendo aquele que promete defender seus interesses imediatos. 

É uma visão estreita da democracia. Transforma o voto numa espécie de contrato particular entre o cidadão e o governante e apaga da urna aqueles que, embora formalmente iguais perante a lei, nasceram sem as condições mínimas para exercer essa igualdade. 

Em 2026, a menos de um mês da eleição, recuperar essa reflexão funciona como antídoto contra o individualismo que domina grande parte do debate político. Enquanto discursos corporativistas e polarizados apelam para o bolso, o medo ou o ressentimento das classes já protegidas, Martha propõe a maturidade cívica do voto por alteridade: a decisão consciente de não votar apenas a partir do próprio umbigo, mas em função de quem foi sistematicamente marginalizado pelo Estado e pela desigualdade estrutural do país. 

<><> A mesma pergunta, cinco anos depois 

Não é a primeira vez que ela defende esse princípio. Em 24 de setembro de 2021, pouco mais de um ano antes da disputa entre Lula e Jair Bolsonaro, Martha publicou no Zero Hora a coluna “A quem interessa meu voto”. O subtítulo anunciava que votaria, em 2022, no candidato que apresentasse as melhores propostas para o país — não para ela própria. 

Martha reconhecia que precisava do governo, como qualquer cidadã, mas muito menos do que outros brasileiros. Por isso, escreveu que não deveria olhar para o próprio umbigo, mas para os lados: para quem precisava comer, encontrar trabalho e ter acesso aos livros. Não revelava o nome de seu candidato, mas estabelecia uma fronteira democrática: seu voto não seria entregue a um extremista que defendesse a ditadura e a tortura, exaltasse a ignorância, estimulasse a violência ou propagasse notícias falsas. 

A coluna de 2026, “Meus interesses? Deixem-os pra lá”, retoma o mesmo princípio, mas avança politicamente. O Brasil já atravessou a pandemia, os ataques às urnas eletrônicas, a tentativa de golpe e a invasão das sedes dos Três Poderes em 8 de janeiro de 2023. Jair Bolsonaro foi condenado. O bolsonarismo, porém, reorganizou-se em torno da candidatura de Flávio Bolsonaro e voltou a disputar a Presidência. 

Martha não cita Lula nem Flávio. Não precisa. Ao escrever que votará em quem impeça a escalada do retrocesso, da ignorância e da irresponsabilidade, deixa claro o lado em que se encontra. A referência à soberania torna a identificação ainda mais evidente: ela não dará seu voto a um “entreguista lambe-botas” disposto a tratar o Brasil como sucursal dos Estados Unidos. 

<><> Votar também pelo país 

A expressão não foi lançada ao acaso. A eleição ocorre sob a pressão explícita do governo de Donald Trump, em meio à aproximação do clã Bolsonaro com Washington e à tentativa de subordinar o futuro do Brasil aos interesses econômicos, políticos e estratégicos dos Estados Unidos. A escolha presidencial já não envolve apenas dois projetos internos. Coloca frente a frente a preservação da soberania brasileira e a submissão de um eventual governo de Flávio Bolsonaro ao trumpismo. 

Martha acrescenta uma dimensão nacional ao voto por alteridade. Não basta pensar nos outros. É necessário pensar também no país. Patriotismo não é bater continência para a bandeira dos Estados Unidos, festejar sanções contra o Brasil ou oferecer nossas riquezas em troca de apoio eleitoral. É defender a independência, a democracia e o direito dos brasileiros de escolher seu governo sem tutela estrangeira. 

A coluna ultrapassa, assim, o terreno da reflexão pessoal. Quem pode pagar escola, saúde, previdência, transporte e segurança talvez atravesse um governo socialmente irresponsável protegido dentro de sua bolha. Quem mora numa encosta, depende da escola pública, espera atendimento no SUS ou precisa de transferência de renda não dispõe do mesmo abrigo. 

Para essas pessoas, política não é abstração. Uma eleição pode decidir se haverá comida, vaga na escola, remédio no posto de saúde, oportunidade de emprego ou socorro quando a chuva destruir a casa. O eleitor privilegiado consegue sobreviver aos erros de um governo. O brasileiro pobre, muitas vezes, não consegue. 

<><> O voto não é um cheque em branco 

O voto por alteridade não significa renunciar aos próprios interesses nem entregar um cheque em branco a quem se apresente como defensor dos pobres. Tampouco dispensa a cobrança contra corrupção, incompetência ou erros de um governo progressista. A própria Martha ressalva que quem assumir em janeiro cometerá erros e deverá ser cobrado. 

Mas existe diferença entre cobrar os erros de um governo democrático e devolver o poder a um projeto que nunca demonstrou compaixão por quem depende de políticas públicas; entre exigir eficiência do Estado e entregá-lo a quem deseja destruí-lo; entre combater a corrupção e utilizar essa bandeira para justificar a volta do autoritarismo. 

O mercado, o agronegócio, o empresariado, o equilíbrio fiscal e o crescimento econômico importam. Mas só adquirem sentido democrático quando seus resultados chegam à maioria, e não quando ampliam a distância entre brasileiros protegidos e abandonados. 

O Brasil avançou na redução da pobreza: segundo o IBGE, 8,6 milhões de pessoas saíram dessa condição entre 2023 e 2024. Mesmo assim, em 2024, quase um quarto da população ainda vivia abaixo da linha de pobreza. Em 2025, o índice de Gini do rendimento domiciliar permaneceu em 0,511. A desigualdade continua determinando quem terá acesso à saúde, à educação, à moradia segura e até à possibilidade de sobreviver a uma tragédia. 

É por isso que Martha vota pela criança cuidada pelo irmão enquanto a mãe trabalha. Pelo adolescente obrigado a abandonar a escola. Pelo jovem que não encontrou o primeiro emprego. Pelos moradores das encostas, pelas mulheres vítimas de violência e pelos milhões aos quais foi negado até o domínio pleno da leitura e da escrita. 

<><> A página que o eleitor não pode virar 

Poucos dias antes da publicação da coluna de Martha, O Estado de S. Paulo voltou a tratar da candidatura de Flávio Bolsonaro. Em editorial de 27 de agosto, contestou a tentativa do senador de declarar encerrado o escândalo de sua relação com Daniel Vorcaro. O título foi direto: “A página que Flávio não virou”. 

Flávio afirmara que o caso Dark Horse era “página virada”. O Estadão respondeu: “Não é.” Não é porque ele prometeu explicar, em 30 dias, como foram utilizados os milhões recebidos de Vorcaro e não explicou. Não é porque a intimidade entre o candidato e o banqueiro investigado não desaparece quando o candidato se irrita com perguntas. Não é porque continuam sem resposta as suspeitas sobre o destino do dinheiro, as razões do financiamento e o que Vorcaro esperava receber em troca. 

E não é porque o passado de Flávio contém outras páginas jamais satisfatoriamente viradas: as “rachadinhas”, os imóveis adquiridos com dinheiro vivo, as relações com milicianos e sua participação ativa no projeto político que tentou impedir a posse do presidente eleito e abolir violentamente o Estado Democrático de Direito. O projeto político que programou o Plano Verde Amarelo, que deixava explícito o assassinato do presidente Lula, seu vice Alkmin e o ministro Alexandre de Moraes. 

O Estadão não parece estar aderindo a Lula. Continua tentando salvar a direita de Flávio Bolsonaro. Martha também não escreve uma declaração partidária de voto. Faz algo anterior e mais profundo: estabelece os critérios morais pelos quais pretende escolher. Esses critérios tornam a escolha menos difícil. 

A eleição de 2026 é dura. A extrema direita continua agressiva, financiada, internacionalizada e disposta a tudo, com Trump no centro da política mundial e da ultradireita global. Eduardo Bolsonaro permanece nos Estados Unidos vivendo como um bilionário esbanjador atuando contra a soberania brasileira. Jair Bolsonaro, mesmo condenado, continua tentando comandar o campo político que criou. E Flávio procura apresentar-se como candidato viável de uma direita que não consegue se libertar do próprio monstro. 

Mas há uma diferença fundamental entre 2018 e 2026. 

Ninguém pode dizer que não sabia. Ninguém pode dizer que foi surpreendido. 

Ninguém pode fingir que Flávio Bolsonaro surgiu como novidade eleitoral, conservador moderado, candidato normal de centro-direita ou alternativa sem vínculos com o desastre anterior. 

Ele vem de onde vem. Carrega o que carrega. Representa o que representa. 

Em 2018, o Estadão disse que a escolha entre Fernando Haddad e Jair Bolsonaro era “muito difícil”. Em 2026, o próprio Estadão mostra que a escolha entre Lula e Flávio Bolsonaro não pode ser tratada da mesma maneira. 

Já conhecemos o roteiro. Conhecemos a mentira. Conhecemos o entreguismo. Conhecemos a violência. Conhecemos o ataque às urnas. Conhecemos a tentativa de golpe. Conhecemos o preço pago pelo Brasil. 

<><> E conhecemos os Bolsonaro. 

Martha acrescenta a pergunta que faltava: quem já teve educação, saúde, segurança, cultura, proteção familiar e oportunidades deve votar apenas para preservar os próprios interesses? Sua resposta é não. 

Seu voto pertence também à criança cuidada pelo irmão enquanto a mãe trabalha. Ao adolescente que abandonou a escola. Ao jovem que não encontrou o primeiro emprego. À mulher violentada. Ao morador da periferia. A quem depende do Estado para transformar sobrevivência em cidadania. 

A página que Flávio Bolsonaro pretende virar é justamente a página que o eleitor brasileiro não pode esquecer. 

Votar pensando apenas no próprio bolso, depois de tudo o que o país viveu, não seria apenas egoísmo. 

“Seria uma indecência. 

Meus interesses? Deixem para lá. 

O Brasil tem mais com que se preocupar.” 

 

Fonte: Por Gustavo Tapioca, em Brasil 247

 

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