quarta-feira, 9 de setembro de 2026

Elo entre Vorcaro e Mendonça, Ciro Soares é tido como lobista de muitos contatos em Brasília

Lobista, arroz de festa e sedutor. Estas são algumas das expressões atribuídos por colegas do meio jurídico ao advogado Ciro Rocha Soares, que aparece em áudios revelados pelo colunista do ICL Notícias Paulo Motoryn como responsável por articular um encontro secreto entre o banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, e o ministro André Mendonça, do STF.

Soares nasceu em Salvador, mas passou parte da vida em Minas Gerais. Voltou para a capital baiana para fazer faculdade na Universidade Católica, onde também começou a advogar. Em 2018, ao lado da esposa Lara Rocha Soares abriu o escritório Rocha Soares Advogados Associados. Lara atualmente trabalha como assessora do desembargador Washington Pires Ribeiro, no Tribunal de Justiça da Bahia.

Apesar de já ter participado da defesa do próprio Vorcaro e também do ex-governador Wilson Witzel no Superior Tribunal de Justiça (STJ), Ciro é apontado por colegas como um advogado sem muita profundidade jurídica, mas com muito acesso entre as autoridades.

Em outras palavras, uma das principais virtudes dele, de acordo com colegas advogados que pediram anonimato, é conseguir articular uma boa rede de contatos, conectando pessoas a partir das suas respectivas demandas. Também é elogiado por colecionar acessos e amizades com autoridades de diversas esferas de poder.

Ciro Soares foi sócio do advogado baiano Thiago Ayres Legal, que, em 2018, atuou como representante jurídico da campanha presidencial de Jair Bolsonaro, eleito naquele ano no segundo turno vencendo Fernando Haddad, candidato do PT.

Ciro é apontado como figura recorrente em festas e eventos de posse de autoridades políticas em Brasília, sendo considerado “divertido”, “boa praça” e “muito sedutor”. Já namorou a filha de um ministro que atualmente compõe a corte do STF, em um caso que se tornou público em Brasília.

<><> “Filho de Otto Alencar”

A inserção de Ciro Soares no meio político se deu por meio do senador Otto Alencar (PSD-BA), atuando como advogado eleitoral dele e do partido, a partir de 2010. Otto é o presidente estadual do diretório do PSD na Bahia – legenda com maior número de prefeituras no estado, 116 no total.

Atualmente, Otto é próximo do PT, que governa a Bahia há 2o anos. Mas, no passado, fez parte do bloco comandado por Antonio Carlos Magalhães, chegando a ser governador por oito meses em 2002.

Essa amplitude política de Otto favoreceu Ciro a trafegar em diferentes colorações partidárias, tanto na Bahia quanto em Brasília. Fontes ouvidas pela reportagem contam que, em mais de uma ocasião, Ciro se apresentou como “filho de Otto” para ser recebido em diferentes gabinetes na capital federal.

Ciro é apontado como responsável por articular com deputados do PSD a concessão de títulos de cidadãos baianos para o procurador-geral da República, Paulo Gonet, e também para o ministro do STF Dias Toffoli na Assembleia Legislativa da Bahia. As duas honrarias foram entregues conjuntamente em uma cerimônia, em março do ano passado.

Relatório da Polícia Federal mostrou que Ciro fazia uma aproximação entre Daniel Vorcaro e Paulo Gonet.

Em entrevista ao ICL Notícias, o senador Otto Alencar confirmou a amizade com Ciro Soares e a também referência paternal usada por ele, mas negou qualquer tipo de favorecimento.

“Ciro perdeu o pai muito cedo. Ele me conhece há mais de 30 anos, se casou com a filha de um grande amigo meu, por isso faz essa brincadeira que é meu filho. Mas nunca fiz nada para promover o escritório dele não. Ele sempre teve os próprios caminhos”, diz.

Questionado sobre como recebeu a notícia de Ciro Soares ter atuado como elo entre Vorcaro e Mendonça, Otto respondeu que “com naturalidade”.

“Ele é advogado de Vorcaro. Atua para o cliente. Eu não me envolvo nessas relações, mas entendo que é uma relação normal dentro da advocacia. Não é proibido ter esse tipo de relação”, contemporizou.

<><> Ciro Soares gosta de luxo e ostentação

Nos sites de coluna social da Bahia, o advogado chegou a ser figurinha carimbada em notícias que falam das suas viagens, jantares e compras em Miami e Cancun, além de um encontro reservado que organizou na Ilha de Itaparica, em janeiro de 2021, durante a pandemia. No texto, é descrito que Ciro “atacou de DJ e comandou a playlist, que contou com grandes clássicos de Skank e Edith Piaf”.

Em um indicativo de evolução patrimonial, Ciro se mudou recentemente dentro de Salvador. Saiu do prédio Mansão Lev Smarcevski, no Horto Florestal, com apartamentos no valor de R$ 3 milhões, para a Mansão Phileto Sobrinho, no Corredor da Vitória (o metro quadrado mais caro da cidade), com apartamentos no valor de R$8 milhões.

O advogado também é frequentador assíduo da Bahia Marina, um clube privado reservado para lanchas e grandes embarcações ancoradas na Baía de Todos os Santos.

Procurado pelo ICL Notícias, Ciro Soares enviou a seguinte nota:

“Tenho uma carreira consolidada e vitoriosa de quase três décadas na advocacia. Não é necessário, portanto, citar terceiros nas minhas apresentações pessoais.

Exerço a advocacia com coragem, orgulho e dentro dos parâmetros estabelecidos em lei.

Respeito as opiniões de todos, mesmo daqueles que se escondem no papel de fontes anônimas para tecer comentários supostamente de ordem ‘técnica e moral’ sobre mim.

Na advocacia, como em qualquer outra profissão, temos amigos e adversários. Não cabe a mim dar curso a intrigas rebarbativas. Quem conhece a mim e a meu trabalho sabe do meu valor”.

•        Alckmin cobra investigação sobre ligação de Tarcísio com o Banco Master: “traga a verdade”

O vice-presidente da República e candidato à reeleição, Geraldo Alckmin (PSB), defendeu a apuração rigorosa sobre a suposta relação entre o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), e as investigações que envolvem o Banco Master. Durante entrevista ao Metrópoles, Alckmin afirmou que repasses financeiros para campanhas eleitorais não podem estar associados a favorecimentos na administração pública.

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“Não tem problema as pessoas fazerem doações para a campanha; a lei permite, pessoa física, não jurídica. Agora, o que não pode é vincular isso a benefícios de governo, então cabe a investigação”, pontuou o vice-presidente.

A declaração ocorre após o ex-banqueiro Daniel Vorcaro relatar, em proposta de delação premiada, que a doação de R$ 5 milhões realizada nas eleições de 2022 para as campanhas de Tarcísio de Freitas (R$ 2 milhões) e de Jair Bolsonaro (R$ 3 milhões) teria sido fruto de negociação de propina com Gilberto Kassab, presidente nacional do PSD e ex-secretário de Governo e Relações Institucionais da gestão paulista. Naquele pleito, Fabiano Zettel, cunhado de Vorcaro e alvo da Operação Compliance Zero, figurou como o maior doador individual dos dois políticos.

<><> Crise no STF, atitude republicana e críticas ao governo Bolsonaro

Na mesma entrevista, Geraldo Alckmin classificou como “muito triste” a atual crise enfrentada pelo Supremo Tribunal Federal (STF), desencadeada pelo envolvimento de ministros com o caso do banco. Ele defendeu que os órgãos de controle atuem sem restrições.

“Acho que tem que ter o que a sociedade espera, a população brasileira espera. Espera que haja investigação e que a investigação traga a verdade. Traga a verdade e que tenha consequências. Ninguém está acima da lei”, declarou.

Alckmin ressaltou que a responsabilidade pública aumenta de acordo com a hierarquia do cargo exercido. “Quanto mais alto o cargo, mais alta a responsabilidade, maior o dever de cumprir a lei e de dar exemplo. Então, defendo que se apure, doa a quem doer. Quero fazer aqui um destaque ao trabalho do governo do presidente Lula, que trabalha com espírito republicano. Ninguém da Polícia Federal é ameaçado. Nenhum diretor é substituído porque investigou A, B ou C. O Ministério Público tem total liberdade”, acrescentou.

A declaração fez alusão direta à postura de Jair Bolsonaro (PL), que promoveu trocas na direção-geral e em postos de comando da Polícia Federal sob a justificativa oficial de ajustes administrativos e falta de interlocução, em um contexto no qual investigações e gravações de reunião ministerial apontavam tentativas de interferência política para blindar familiares.

<><> Fragilidades na gestão paulista e ato antidemocrático

Ao avaliar o cenário político no estado de São Paulo, o vice-presidente pontuou que Fernando Haddad (PT) tem destacado de forma precisa os gargalos do governo de Tarcísio de Freitas. Alckmin citou problemas em áreas essenciais e criticou o modelo adotado na desestatização dos serviços públicos.

“Tem o caso da Sabesp, que não é o fato de ter privatizado, mas você tem uma das melhores e maiores empresas do mundo, não tem um concorrente, é uma coisa estranha. Uma piora da segurança pública, do feminicídio, roubos de celular, da educação. Enfim, eu acho que ele [Haddad] está caminhando”, analisou.

Em relação ao ato convocado por Flávio Bolsonaro (PL) e aliados para o feriado de 7 de Setembro, na Avenida Paulista, Geraldo Alckmin rechaçou atos com perfil golpista no dia da Independência.

“Que as pessoas façam campanha, isso é natural. Faz campanha, faz congresso, defende as suas teses, nenhum problema. O que não pode é no dia da Pátria, que e é o 7 de Setembro, você ter saudade de golpe militar, isso não é possível”, afirmou.

O vice-presidente concluiu enfatizando a diferença fundamental entre as forças políticas no país. “O que diferencia mesmo na vida pública é quem tem apreço pela democracia e quem não tem apreço pela democracia. E não é possível você fazer campanha no exterior contra o país, torcendo contra o emprego no Brasil, a economia, as empresas; o tarifaço”, finalizou.

•        Vorcaro diz que doações a Bolsonaro e Tarcísio foram propina

Daniel Vorcaro afirmou, em propostas de delação premiada rejeitadas pela Polícia Federal e pelo Ministério Público, que os R$ 5 milhões doados às campanhas de Jair Bolsonaro e Tarcísio de Freitas em 2022 teriam sido pagamento de propina articulado com Gilberto Kassab. O relato foi revelado pelo UOL e, segundo os investigadores, não trouxe fatos inéditos.

No material, Vorcaro também diz que houve outros repasses: R$ 10 milhões em dinheiro vivo ao PSD e transferências classificadas como contrapartidas financeiras. As informações, segundo ele, estariam ligadas a um ajuste para manter negócios em funcionamento e preservar o espaço do grupo Master no mercado.

<><> Credcesta e a suposta engrenagem financeira

A acusação coloca no centro do caso o Credcesta, cartão de crédito consignado usado por empresas ligadas ao Master em uma operação iniciada ainda no governo João Doria. Vorcaro sustenta que o objetivo era garantir a continuidade do esquema diante da mudança de comando no governo paulista, com a eleição de Tarcísio em 2022.

Segundo o ex-banqueiro, o acordo com Kassab previa pagamento de 5% do resultado líquido das operações com o Credcesta e também contribuições para campanhas aliadas. Ele afirma ainda que a parte eleitoral foi inicialmente pensada em dinheiro, mas teria sido ajustada para doações oficiais por exigência de partidos parceiros.

<><> Reações de Kassab, Tarcísio e Bolsonaro

Gilberto Kassab negou a versão e disse que não teve relação com Daniel Vorcaro, chamando o relato de “absolutamente fantasioso”. Tarcísio de Freitas afirmou que nunca teve contato com o ex-banqueiro e declarou que sua campanha foi conduzida dentro da lei.

O governador também ressaltou que o credenciamento da empresa ligada ao Master para atuar com o Credcesta ocorreu na gestão anterior. Já a defesa de Jair Bolsonaro não respondeu até a publicação do texto, e Flávio Bolsonaro ironizou a acusação, dizendo que a informação não se sustenta.

<><> Próximos passos da investigação

Vorcaro está preso desde março e tentou negociar novos acordos de colaboração com as autoridades, depois de outras propostas terem sido recusadas. Em junho, ele foi transferido para a unidade conhecida como Papudinha, no Distrito Federal, após a segunda negativa da PF e da PGR.

A delação premiada, pela lei, é um meio de obtenção de prova e não pode sustentar condenação sozinha. Por isso, os relatos de Vorcaro ainda precisam ser apurados, junto com os documentos apresentados na tentativa de acordo.

 

Fonte: ICL Notícias/Brasil 247/JB

 

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