quarta-feira, 9 de setembro de 2026

Mendonça afasta diretor da PF. Como o diretor aparece nas mensagens de Vorcaro e na guerra Moraes-Mendonça

O ministro André Mendonça determinou, nesta segunda-feira (8/9), o afastamento preventivo de Andrei Rodrigues do cargo de diretor-geral da Polícia Federal, em mais um capítulo do agravamento da crise que assola o Supremo Tribunal Federal (STF).

Mendonça acusou Rodrigues de comandar e ter pleno conhecimento de um "monitoramento sistemático e ilegal" contra ele próprio e contra o advogado-geral da União, Jorge Messias.

O ministro classificou a produção dos relatórios pela PF como uma "arapongagem institucional" e ordenou a abertura de investigações criminais e disciplinares contra Rodrigues na Corregedoria da PF.

A Segunda Turma do STF chegou a formar maioria para confirmar o afastamento, com votos favoráveis de Luiz Fux e Kassio Nunes Marques acompanhando Mendonça, mas o julgamento foi suspenso por um pedido de vista de Gilmar Mendes de 90 dias.

No momento, Rodrigues permanece afastado preventivamente do cargo. A Advocacia-Geral da União (AGU) deve recorrer da decisão, segundo informações da GloboNews, por considerá-la uma invasão na prerrogativa exclusiva do presidente da República de nomear e exonerar o chefe da PF.

Rodrigues, que estava no comando da PF desde 2023, foi o nome escolhido pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) para substituir Márcio Nunes de Oliveira, o último dos cinco diretores-gerais nomeados por Jair Bolsonaro (PL).

À época de sua nomeação, o órgão também passava por uma crise. Bolsonaro teve o maior número de diretores-gerais desde a gestão de Fernando Henrique Cardoso. Foram quatro nomeados e um barrado pelo STF — Alexandre Ramagem, por suspeita de desvio de finalidade em sua nomeação.

O indicado de Lula havia atuado como coordenador de segurança do petista e também fez parte da segurança da ex-presidente Dilma Rousseff (PT) em 2010.

Além disso, foi Secretário Extraordinário de Segurança para Grandes Eventos. Neste cargo, ele esteve à frente da segurança de eventos como a Copa do Mundo em 2014 e nos Jogos Olímpicos e Paralímpicos de 2016, no Rio de Janeiro.

Rodrigues passou de chefe do órgão de investigação a alvo de pedidos de prisão e afastamento judicial.

Na semana passada, por ordem de Mendonça, foram reveladas mensagens extraídas do celular do banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master.

Os diálogos revelam uma série de interações de Vorcaro com um contato dele salvo com o nome de Alexandre de Moraes e mostram trocas de informações sobre a Operação Compliance Zero, que investiga um suposto esquema bilionário de fraudes envolvendo o Banco Master.

Após a retirada do sigilo das mensagens do banqueiro, o Partido Novo acionou o STF, em 2 de setembro, para pedir o afastamento cautelar de Andrei Rodrigues. Isso porque as mensagens mostrariam evidências de participação direta do chefe da PF em uma suposta rede de influência a que Vorcaro teria acesso.

No dia seguinte, o Partido Novo solicitou formalmente a prisão preventiva do diretor-geral da PF.

Abaixo, relembre episódios em que o nome de Andrei Rodrigues esteve envolvido no escândalo do Banco Master e na "guerra civil" entre ministros do STF.

<><> Menção nas mensagens de Daniel Vorcaro

A Polícia Federal recuperou capturas de tela e notas temporárias de WhatsApp durante as análises forenses no celular apreendido do banqueiro Daniel Vorcaro.

Em 30 de outubro de 2025, Vorcaro escreveu a um contato atribuído a Alexandre de Moraes que havia recebido informações confidenciais de pessoas do Banco Central de que a instituição sofria pressão da Polícia Federal e do Ministério Público para tomar uma medida contra ele.

Na mesma mensagem, afirmou: "É importante reforçar com Andrei e Paulo pra não deixar ninguém de baixo fazer uma sacanagem". Segundo a PF, "Andrei" pode ser uma referência a Andrei Rodrigues, e "Paulo" a Paulo Gonet, procurador-geral da República.

Outra troca de mensagens entre o ex-banqueiro e o ministro, no mês seguinte, indica que o dono do Banco Master pediu que o magistrado tentasse reverter as investigações sobre a instituição financeira junto a Gonet e diretor-geral da PF.

"Não conseguimos reverter isso com e Andrei? Muita sacanagem isso. Isso em Brasília?", escreveu Vorcaro ao ministro em 15 de novembro de 2025, dois dias antes de ser preso pela primeira vez.

Ainda não há indícios, no entanto, de que Rodrigues tenha de fato travado investigações a favor de Vorcaro.

<><> Viagem a Londres e degustação de uísque Macallan

Em abril de 2024, ocorreu em Londres o 1º Fórum Jurídico Brasil de Ideias, evento organizado pelo Grupo Voto com o financiamento do Banco Master.

O fórum jurídico teve uma série de empresários e autoridades na lista de palestrantes e na plateia. Entre os debatedores, estavam nomes como o ex-presidente Michel Temer, Paulo Gonet, Alexandre de Moraes e Andrei Rodrigues.

Na ocasião, Vorcaro teria contratado um "serviço de degustação Macallan no George Club". Macallan é um uísque escocês encontrado a preços que podem chegar a R$ 5 mil, a depender da versão da bebida.

O custo da degustação está registrado por US$ 640.831,88, noticiou o portal Poder360. Convertendo com base no valor do dólar da época, o montante equivale a R$ 3,3 milhões. Além do uísque, também foram oferecidos charutos aos convidados.

O site Poder360 afirmou que o próprio ministro Alexandre de Moraes fez uma citação ao evento durante a sessão secreta do STF.

"Nesse encontro [em Londres], vários estávamos lá. Eu estava lá. Andrei Rodrigues estava lá. Depois fomos todos juntos a um pub, tomamos Macallan", teria dito o ministro, segundo apuração do portal.

<><> Elaboração de relatórios de inteligência contra Mendonça

Na condição de diretor-geral da PF, Rodrigues encaminhou a Alexandre de Moraes o Ofício nº 40/2026/GAB/PF, contendo seis "relatórios de inteligência" produzidos de forma sigilosa entre 3 e 31 de agosto de 2026.

Os documentos fazem uma análise crítica de decisões e da atuação de Mendonça principalmente nas operações Sem Desconto, que investiga fraudes em descontos de benefícios previdenciários do INSS, e Compliance Zero, que apura suspeitas relacionadas ao Banco Master.

Esses relatórios, elaborados à margem dos inquéritos formais, acusavam o relator do caso Master no STF, o ministro André Mendonça, de cometer irregularidades e ter atuação política na condução do caso Master e do INSS.

A decisão de Mendonça sobre o afastamento de Rodrigues menciona uma declaração da jornalista Monica Waldvogel, segundo a qual o próprio diretor-geral teria confirmado a existência de relatórios produzidos pela PF "para seu próprio consumo".

"A superlativa gravidade e ilicitude na produção dos 'relatórios de inteligência' publicizados pelo Ministro Alexandre de Moraes impõe a adoção de providências imediatas para evitar que as prerrogativas da magistratura, da advocacia pública e da própria atividade policial continuem sendo vilipendiadas", afirma Mendonça na decisão que afastou Rodrigues do cargo,

<><> Sem confiança de Mendonça

Os relatórios da inteligência da Polícia Federal usados para acusar André Mendonça fazem uma citação anônima para afirmar que o ministro disse que não confiava na atuação de Andrei Rodrigues nem de Paulo Gonet.

Mendonça teria afirmado que o diretor-geral mantinha uma proximidade "inadequada" com Lula. Por isso, o ministro teria considerado que ele não seria confiável para conduzir determinadas investigações.

O relatório registra ainda que o ministro teria avaliado a possibilidade de afastá-lo do cargo.

A PF relaciona essas declarações a outros episódios em que, segundo os relatórios, Mendonça teria demonstrado insatisfação com a atuação da direção da corporação e com a condução dos inquéritos.

O relatório fala em uma atuação que poderia produzir "incompatibilidade estrutural" entre as autoridades responsáveis pela investigação e o ministro que exercia sua supervisão judicial.

•        Decisão de Mendonça afasta também delegado que investigou morte de Marielle Franco

A decisão do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) André Mendonça de afastar o diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, divulgada nesta terça-feira (08/09) também atingiu o diretor de Inteligência da corporação, o delegado Leandro Almada.

O afastamento da dupla é o mais recente episódio da crise instaurada no STF desde a semana passada, quando Mendonça tirou o sigilo de relatórios da PF sobre supostas trocas de mensagens entre o ministro Alexandre de Moraes e o banqueiro Daniel Vorcaro.

Leandro Almada ficou conhecido nacionalmente por ter atuado no grupo de policiais federais criado para atuar no caso da morte da vereadora Marielle Franco e do motorista Anderson Gomes, em março de 2018.

Ele também ganhou notoriedade por comandar a Superintendência da PF no Rio de Janeiro entre 2023 e 2024. Almada também já comandou as superintendências da PF no Amazonas e na Bahia.

Foi no período em que comandou a PF no Rio que a corporação desencadeou uma série de operações de combate ao crime organizado em função do cumprimento de uma decisão do STF no âmbito da Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental (ADPF) 635, conhecida como "ADPF das Favelas".

Parte dessas operações também atingiram o ex-governador do Estado, Cláudio Castro (PL).

Dois delegados ouvidos pela BBC News Brasil em caráter reservado afirmam que a atuação de Almada no Rio de Janeiro incomodava a cúpula do governo fluminense. Em dezembro de 2023, a jornalista Andreia Sadi, da GloboNews, publicou um artigo em que dizia que Castro e aliados teriam tentado tirar Almada do comando da PF no Rio de Janeiro.

Na decisão que determinou o afastamento, Mendonça relaciona a medida contra Almada à produção de relatórios de inteligência que, segundo o ministro, teriam extrapolado as atribuições legais da Polícia Federal.

Esses relatórios foram citados em um despacho de Moraes na semana passada após a divulgação dos documentos sobre supostas trocas de mensagens entre ele e Vorcaro.

Os relatórios de inteligência citados por Moraes em sua decisão analisavam, entre outros pontos, decisões tomadas pelo próprio Mendonça no âmbito de investigações sob sua relatoria no Supremo Tribunal Federal (STF), além da atuação do advogado-geral da União, Jorge Messias, e de delegados e agentes da própria PF.

Mendonça classificou a produção e a divulgação dos documentos como ilícita e afirmou que eles teriam sido usados para realizar "monitoramento e coleta dirigida" sobre ele e sobre Messias.

No caso específico de Almada, Mendonça justificou o seu afastamento citando o fato de que ele ocupa a Diretoria de Inteligência Policial (DIP), órgão centro do sistema de inteligência da PF.

Almada está no cargo desde 2024. Em sua decisão, o ministro disse que embora o relatório citado por Moraes tenha sido elaborado por uma unidade vinculada à unidade da PF que atua em inquéritos que tramitam em tribunais superiores, como o STF, caberia à DIP supervisionar a elaboração e a divulgação desse tipo de documento.

"A referida unidade de inteligência sujeita-se à DIP, sendo assim dever legal do seu responsável zelar para que fossem observados os normativos internos e os comandos legais que rechaçam por completo a possibilidade de elaboração e disseminação desses 'relatórios'", escreveu Mendonça.

A decisão, no entanto, não afirma que Almada tenha pessoalmente elaborado ou determinado a produção dos documentos.

Mendonça diz que há, em uma avaliação preliminar, indícios que precisam ser investigados sobre o grau de conhecimento e eventual participação dos responsáveis pela área de inteligência da PF.

"Em juízo preambular, identificam-se robustos indícios da existência não apenas de grave omissão como também de participação e conhecimento da elaboração desses 'relatórios', com consequências extremamente danosas, por parte dos atuais ocupantes dos cargos de maior envergadura na estrutura da Polícia Federal no que concerne às suas atividades de inteligência", diz outro trecho da decisão.

Mendonça determinou ainda que as circunstâncias da produção dos documentos sejam investigadas pela Corregedoria da Polícia Federal. Na prática, a depender do resultado dessas investigações, Rodrigues e Almada podem ser alvo de processos administrativos que podem levar às suas expulsões da corporação.

Para o ministro, a permanência de Almada e Rodrigues nos cargos poderia colocar em risco justamente essas apurações.

Segundo ele, o afastamento pretende impedir que os dois delegados utilizem "as prerrogativas, os acessos, os sistemas, as relações institucionais e os instrumentos inerentes ao cargo para interferir nas investigações em curso".

"Permitir que as autoridades públicas permaneçam investidas de poderes policiais de elevada envergadura, diante de suspeita concretamente individualizada de que esses poderes teriam sido empregados de maneira indevida, seria medida temerária", diz a decisão de Mendonça.

<><> Caso Marielle Franco

No caso envolvendo a morte de Marielle Franco, Almada foi o principal encarregado de comandar o que ficou conhecido como a "investigação da investigação" da morte da vereadora.

Seu trabalho era fazer uma investigação sobre o trabalho conduzido pela Polícia Civil do Rio de Janeiro após a morte da vereadora e apontar os motivos que levaram à suposta impunidade dos responsáveis pelo assassinato até então.

Marielle e Anderson Gomes foram mortos em março de 2018 em um atentado a tiros no Centro do Rio de Janeiro.

O caso se arrastou por anos até que, em 2023, o governo federal determinou a criação de um grupo de agentes federais para apurar o caso.

Ao fim da investigação, em 2024, a PF apontou que a Polícia Civil do Rio de Janeiro havia atuado deliberadamente para garantir a impunidade dos autores e dos mandantes da morte da ex-vereadora e do motorista Anderson Gomes.

O trabalho de Almada se concentrou nos mecanismos supostamente existentes na Polícia Civil do Rio de Janeiro que impediram, durante anos, que os responsáveis pelo crime fossem identificados e punidos.

Os irmãos Chiquinho e Domingos Brazão foram apontados como os mandantes do crime, que teria sido executado pelo ex-PM Ronnie Lessa.

A investigação da PF apontou ainda que o ex-chefe da Polícia Civil do Rio de Janeiro, Rivaldo Barbosa, teria atuado para atrapalhar as investigações.

Os irmãos Brazão e Rivaldo Barbosa negam envolvimento no crime.

Em âmbito federal, o caso ficou sob a relatoria do ministro Alexandre de Moraes, que agora se vê no centro da crise com Mendonça.

<><>Almada, Mendonça e Castro

Um dos pontos que chamou atenção de delegados da PF ouvidos pela BBC News Brasil em caráter reservado é a atuação de Almada contra Cláudio Castro e a suposta demora de Mendonça em autorizar diligências sobre o ex-governador fluminense solicitadas pela PF recentemente.

Castro era um conhecido apoiador do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL). Bolsonaro, por sua vez, foi quem indicou Mendonça para o cargo.

O ex-governador do Rio, no entanto, é investigado pela PF em inquéritos que apuram se ele favoreceu a refinaria Refit, uma das maiores devedoras de impostos do Rio de Janeiro, em troca de vantagens indevidas.

Ele também é alvo de investigações em um inquérito que apura os aportes feitos pelo fundo de previdência de servidores públicos do Rio de Janeiro, RioPrevidência, em ativos financeiros do Banco Master, de Daniel Vorcaro. Segundo relatórios da PF, Castro teria atuado politicamente para favorecer o banqueiro.

De acordo com o relatório de inteligência citado por Moraes na semana passada, a PF apontou que Mendonça teria levado até 75 dias para deferir um pedido de diligência contra Castro enquanto demorou apenas nove dias para deferir um pedido contra o senador e ex-líder do governo no Senado, Jaques Wagner (PT-BA).

O afastamento de Almada e Andrei Rodrigues está sendo submetido à apreciação da Segunda Turma do STF e já há maioria para ser mantido. Os ministros Kássio Nunes Marques e Luiz Fux já votaram para manter o afastamento determinado por André Mendonça. O julgamento está suspenso, neste momento, após um pedido de vistas feito por Gilmar Mendes.

 

Fonte: BBC News Brasil

 

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