O falso fantasma da crise fiscal
Há uma disputa econômica em curso dentro do
campo que sustenta a reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Ela não
deve ser reduzida a uma divergência pessoal entre José Sérgio Gabrielli e Dario
Durigan. Tampouco interessa transformá-la numa competição de currículos ou numa
querela entre integrantes do mesmo governo. O que está em jogo é muito mais
importante: qual diagnóstico da economia brasileira orientará um eventual
quarto governo Lula e, consequentemente, que projeto de desenvolvimento será possível
a partir de 2027.
A controvérsia tornou-se explícita quando
Gabrielli, coordenador-geral do programa de governo de Lula, afirmou que falar
numa crise fiscal brasileira é, em suas palavras, uma espécie de “fake news”. A
declaração provocou a reação previsível dos porta-vozes do mercado financeiro.
Mas merece ser discutida pelo seu conteúdo, e não pelo ruído que gerou.
Gabrielli chama a atenção para fatos difíceis
de conciliar com a narrativa de uma economia à beira do precipício: desemprego
baixo, inflação em trajetória de desaceleração, reservas internacionais
robustas, contas externas administráveis e câmbio sem sinais de descontrole. A
dívida pública cresce, mas não se encontra numa trajetória explosiva. Não há,
portanto, fundamento para transformar a questão fiscal numa emergência nacional
capaz de subordinar todas as demais escolhas de política econômica.
Dario Durigan, ministro da Fazenda e hoje
principal interlocutor econômico da campanha junto ao mercado financeiro, parte
de outra preocupação. Defende o fortalecimento do arcabouço fiscal, a contenção
do crescimento das despesas obrigatórias e novos gatilhos capazes de limitar
gastos. Chegou a discutir a possibilidade de reduzir de 2,5% para 1,5% o limite
máximo de crescimento real das despesas previsto no atual arcabouço.
É aqui que o debate deixa de ser técnico e se
torna essencialmente político.
<><> Quando o diagnóstico
determina o remédio
Se o Brasil vive uma crise fiscal, a
prioridade passa naturalmente a ser o ajuste. Se, ao contrário, o problema
central está no custo extraordinariamente elevado do dinheiro, na estrutura
regressiva do sistema tributário, na compressão do investimento público e na
necessidade de sustentar crescimento e transformação produtiva, a hierarquia
das prioridades muda completamente.
Gabrielli está correto ao questionar a
primeira narrativa.
Isso não significa afirmar que déficit e
dívida não importam. Evidentemente importam. Nenhum economista sério defenderia
que o Estado pode ignorar indefinidamente suas restrições fiscais. A questão é
outra: de onde vem o desequilíbrio, quem paga por seu enfrentamento e quais
despesas serão sacrificadas em nome dele?
Essa é a pergunta que frequentemente
desaparece do debate brasileiro.
Fala-se obsessivamente em gasto público, mas
muito menos no custo dos juros sobre a dívida. Discute-se o crescimento do
Benefício de Prestação Continuada, do Bolsa Família, dos pisos constitucionais,
da Previdência e do salário dos servidores como se aí estivesse o coração do
problema fiscal. Ao mesmo tempo, naturaliza-se uma economia que durante anos
conviveu com algumas das maiores taxas reais de juros do mundo.
O próprio Durigan reconheceu recentemente
algo fundamental: o crescimento numérico do endividamento brasileiro tem forte
relação com a taxa de juros. A diferença entre ele e Gabrielli, portanto, não
está necessariamente na constatação do problema, mas na maneira de enfrentá-lo.
Durigan estabelece uma relação mais estreita
entre credibilidade fiscal e redução dos juros. Gabrielli inverte parcialmente
a causalidade: juros excessivamente elevados também deterioram as contas
públicas e alimentam a própria dinâmica da dívida.
Essa diferença está longe de ser semântica.
Ela determina quem será chamado a pagar a
conta.
<><> O estranho poder da Faria
Lima
Talvez o aspecto mais revelador desse
episódio tenha sido o chamado “efeito Gabrielli”. Depois que declarações do
coordenador do programa de governo desagradaram representantes do mercado
financeiro, Durigan intensificou conversas com instituições como BTG Pactual,
XP e Itaú. Segundo relatos publicados pela imprensa, procurou tranquilizar
investidores e apresentar compromissos de maior contenção fiscal para um
eventual Lula 4.
Há algo de profundamente incômodo nessa
dinâmica.
Desde quando a reação de operadores
financeiros deve funcionar como instância de validação de um programa econômico
submetido ao voto popular?
O mercado financeiro é um ator legítimo da
sociedade. Tem interesses, expectativas e o direito de defendê-los. O problema
começa quando esses interesses particulares são apresentados como se
constituíssem uma racionalidade econômica universal, acima da política e da
disputa democrática.
Não constituem.
Quando o mercado pede redução do gasto
público, não está fazendo uma observação neutra. Quando reivindica metas
fiscais mais duras, tampouco. Há ganhadores e perdedores em qualquer escolha
macroeconômica.
Uma política fiscal mais restritiva pode
favorecer determinadas expectativas dos detentores de ativos e, ao mesmo tempo,
limitar investimento público, políticas sociais, infraestrutura, ciência,
educação e capacidade de planejamento do Estado.
Por isso causa estranheza que uma declaração
de Gabrielli produza imediatamente uma operação de “redução de danos” junto ao
mercado.
Danos para quem?
Essa pergunta precisa voltar ao centro da
política econômica.
<><> O orçamento não pode começar
pelos pobres
A proposta orçamentária para 2027 torna essa
discussão ainda mais concreta.
O governo projeta superávit primário e
anuncia maior contenção das despesas obrigatórias. O Bolsa Família não deverá
ter reajuste, enquanto os gastos com pessoal estarão submetidos a forte
limitação. Ao mesmo tempo, discute-se a ampliação dos gatilhos fiscais e a
revisão de benefícios sociais.
É legítimo revisar políticas públicas. É
obrigação de qualquer governo combater fraudes, distorções e desperdícios.
Privilégios previdenciários, supersalários, renúncias fiscais injustificáveis e
benefícios tributários concedidos a grupos economicamente poderosos devem,
evidentemente, entrar nessa conta.
Mas uma coisa é aumentar a eficiência do
Estado. Outra, inteiramente diferente, é transformar direitos sociais em
variável permanente de ajuste.
Quando se propõe reduzir o limite máximo de
crescimento real das despesas de 2,5% para 1,5%, não se está mexendo apenas
numa abstração contábil. Há consequências concretas.
Menor crescimento das despesas significa
menor espaço futuro para políticas públicas. Pode significar pressão sobre
investimentos, serviços públicos e mecanismos de proteção social. Dependendo da
forma adotada, pode atingir inclusive a política de valorização do salário
mínimo.
E então surge uma contradição política
difícil de ignorar.
Lula retornou à Presidência em 2023
justamente prometendo reconstruir o Estado social desmontado nos anos
anteriores. Recuperou políticas públicas, ampliou investimentos, elevou o
salário mínimo em termos reais, recolocou o combate à fome no centro da agenda
nacional e recuperou a ideia de que crescimento e inclusão social não são
inimigos.
Faria pouco sentido chegar a 2027 para
concluir que o próximo passo desse mesmo projeto histórico deveria ser apertar
novamente o torniquete fiscal.
<><> A dívida tem dois lados
O debate brasileiro sobre dívida pública
sofre de uma curiosa assimetria.
Quando aumenta a despesa primária,
imediatamente se pergunta de onde virá o dinheiro.
Quando bilhões são transferidos aos
detentores da dívida sob a forma de juros, frequentemente isso aparece como uma
espécie de fenômeno natural da economia.
Não é.
A taxa de juros é uma variável econômica com
enorme conteúdo distributivo.
Juros elevados afetam o investimento
produtivo, encarecem o crédito, penalizam empresas e famílias, valorizam
aplicações financeiras e aumentam o custo de carregamento da dívida pública.
Produzem, portanto, efeitos simultâneos sobre crescimento, distribuição de
renda e contas públicas.
O Brasil encontra-se diante de um paradoxo
conhecido: exige-se contenção fiscal para reduzir a dívida, mas a própria
política de juros contribui poderosamente para elevá-la.
Gabrielli toca justamente nesse ponto quando
insiste que a dinâmica da dívida não pode ser atribuída simplesmente a um
suposto excesso de gasto público. Mais recentemente, foi além e defendeu a
possibilidade de atuação do Tesouro no mercado de títulos públicos, por meio de
recompras em determinadas circunstâncias, para enfrentar distorções nas taxas
de longo prazo. Pode-se discutir tecnicamente o instrumento — e deve-se
fazê-lo. O que não se pode é interditar a discussão simplesmente porque ela
contraria a ortodoxia dominante.
A pergunta relevante permanece: por que
determinadas intervenções do Estado são consideradas perigosas enquanto juros
reais excepcionalmente elevados são tratados como inevitáveis?
<><> Responsabilidade fiscal para
quê?
A esquerda comete um erro quando permite que
“responsabilidade fiscal” seja apropriada como monopólio conceitual do
pensamento conservador.
Um governo progressista precisa, sim, ser
fiscalmente responsável.
Mas responsabilidade fiscal não significa
perseguir mecanicamente superávits independentemente da conjuntura econômica.
Significa administrar as finanças públicas de maneira compatível com
crescimento sustentável, estabilidade, emprego, investimento e redução das
desigualdades.
A verdadeira irresponsabilidade pode estar
justamente em sacrificar investimento capaz de ampliar a capacidade produtiva
futura para cumprir uma meta fiscal de curto prazo. Uma estrada, uma ferrovia,
uma universidade, um hospital, uma rede de saneamento ou um programa de
inovação aparecem contabilmente como despesa no presente. Economicamente,
entretanto, podem aumentar produtividade, renda e arrecadação durante décadas.
Essa distinção é elementar, mas
frequentemente desaparece do debate público.
Da mesma forma, um país que tributa
proporcionalmente pouco as grandes fortunas e as rendas mais elevadas não
deveria iniciar qualquer discussão sobre equilíbrio fiscal perguntando quanto
pode retirar das políticas sociais.
Gabrielli tem defendido maior progressividade
tributária e nova tributação sobre os super-ricos. Ele está certíssimo. É por
aí que um governo progressista deveria começar.
Antes de perguntar quanto cortar, é preciso
perguntar quem não está pagando o que poderia pagar.
E antes de limitar investimento, é preciso
perguntar quanto custa ao país manter juros reais extraordinariamente elevados.
<><> Durigan não é o inimigo
Seria, contudo, intelectualmente pobre
transformar essa discussão numa caricatura em que Gabrielli representa o
desenvolvimento e Durigan, a austeridade.
Durigan não propõe o retorno puro e simples
ao teto de gastos de Michel Temer. Pelo contrário, já afirmou que uma regra
dessa natureza não será adotada. Também reconhece a importância de combater
renúncias tributárias, rever privilégios e preservar políticas sociais. E
reconhece explicitamente que os juros elevados desempenham papel central no
crescimento da dívida.
Há, portanto, áreas importantes de
convergência.
Também é verdade que Durigan não é economista
de formação. É advogado, com trajetória construída em áreas diretamente
relacionadas à política econômica e às instituições públicas. Gabrielli, por
sua vez, é economista, professor, doutor e pós-doutor em Economia, além de ter
presidido a Petrobras.
Mas seria um erro transformar formação
acadêmica em argumento de autoridade. A questão decisiva não é o diploma de
quem formula determinada proposta. É a concepção econômica que a proposta
expressa.
E é nesse terreno que minha posição é clara:
a perspectiva defendida por Gabrielli oferece um ponto de partida mais adequado
para pensar os desafios brasileiros dos próximos anos.
<><> O Brasil precisa crescer
para transformar
O próximo mandato presidencial não poderá ser
apenas uma continuação administrativa do atual. O mundo está mudando
rapidamente. A transição energética reorganiza cadeias produtivas. China e
Estados Unidos disputam tecnologias estratégicas. Inteligência artificial,
semicondutores, minerais críticos, energia limpa e infraestrutura digital
redefinem a divisão internacional do trabalho.
O Brasil possui uma oportunidade histórica
extraordinária.
Tem energia limpa, recursos naturais, mercado
interno, capacidade agrícola, base industrial, instituições científicas e
posição geopolítica privilegiada. Mas transformar essas vantagens em
desenvolvimento exige investimento.
Exige Estado.
Exige política industrial.
Exige infraestrutura.
Exige ciência e tecnologia.
Exige financiamento de longo prazo.
E exige capacidade de pensar além da próxima
meta fiscal.
Um país que pretenda ocupar posição soberana
na nova ordem internacional não pode organizar sua estratégia de
desenvolvimento a partir da pergunta sobre quanto gasto público a Faria Lima
está disposta a tolerar.
Essa lógica precisa ser invertida.
Primeiro se define o projeto nacional. Depois
se constroem os instrumentos fiscais, monetários, cambiais e financeiros
necessários para torná-lo sustentável.
Não o contrário.
<><> A escolha de Lula
Talvez seja justamente por isso que a
divergência entre Gabrielli e Durigan seja tão importante. Ela antecipa uma
escolha que Lula provavelmente terá de fazer caso seja reeleito.
Não entre responsabilidade e
irresponsabilidade.
Não entre equilíbrio fiscal e gastança.
Muito menos entre governo e mercado.
A escolha verdadeira será entre duas maneiras
de compreender o papel da política econômica.
Uma delas começa pela necessidade de
tranquilizar os mercados e, a partir das restrições fiscais estabelecidas,
procura descobrir quanto espaço sobra para crescer e investir.
A outra começa perguntando de que crescimento
o Brasil precisa, que transformação produtiva deseja realizar e como distribuir
os custos necessários para financiá-la sem produzir desequilíbrios
insustentáveis.
É nessa segunda perspectiva que Gabrielli
oferece a contribuição mais importante ao debate.
O Brasil não enfrenta uma situação fiscal que
justifique o pânico permanentemente cultivado por determinados setores.
Enfrenta, sim, problemas fiscais que precisam ser administrados. Mas enfrenta
também juros elevados, desigualdade profunda, infraestrutura insuficiente,
necessidades sociais gigantescas e o desafio histórico de reconstruir sua
capacidade de desenvolvimento.
Transformar apenas um desses problemas — o
fiscal — em princípio ordenador de todos os demais seria repetir um erro que o
país já cometeu inúmeras vezes.
A questão decisiva para um eventual Lula 4,
portanto, não deveria ser simplesmente quanto o Estado brasileiro pode gastar.
Deveria ser muito mais ambiciosa: que Estado,
que economia e que país queremos construir — e quem deve financiar essa
transformação?
Essa é a discussão que vale a pena fazer.
E quanto mais cedo ela começar, melhor.
Fonte: Por Maria Luiza Falcão, em Brasil 247
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