Deputado
questiona André Mendonça: 'Vai blindar o Flávio Bolsonaro até quando?'
O
deputado federal Glauber Braga (PSOL-RJ) cobrou o ministro do Supremo Tribunal
Federal (STF) André Mendonça em relação à condução do inquérito que investiga
os valores doados pelo ex-banqueiro Daniel Vorcaro ao senador e pré-candidato à
Presidência, Flávio Bolsonaro (PL-RJ).
Em fala
realizada no plenário da Câmara, o parlamentar alegou que o magistrado tem
“dois pesos e duas medidas”:
“O
senhor André Mendonça manda à PGR uma solicitação de manifestação em relação à
troca de mensagens do senhor Vorcaro com o ministro Alexandre de Moraes.
Cometeu crime? Que seja devidamente responsabilizado, seja ministro do Supremo,
seja deputado federal, seja senador. Agora, vai ficar um ministro do Supremo
Tribunal Federal, no caso o senhor André Mendonça, blindando o senhor Flávio
Bolsonaro, até quando?” questionou.
“Por
que que o ministro André Mendonça não solicitou também à PGR, de maneira
contundente, uma manifestação sobre o conjunto de crimes cometidos pelo senhor
Flávio Bolsonaro?”, perguntou ainda o parlamentar. “São dois pesos e duas
medidas”.
Glauber
Braga seguiu: “O que nós cobramos aqui é que não tenha um ministro do Supremo
Tribunal Federal sendo um articulador, dentro da Corte, da campanha de um
senador que é candidato à Presidência da República”, apontou.
<><>
Seletividade e crise institucional
O
deputado não foi o único a apontar a diferença de tratamento entre um e outro
caso. A jornalista Helena Chagas publicou uma postagem em sentido semelhante no
X (ex-Twitter), observando os possíveis impactos da conduta de André Mendonça.
“Crise
STF/Vorcaro/Moraes a um mês da eleição exige baldes e baldes de água fria. É
claro que tem que investigar, identificar condutas ilegais ou impróprias e
punir. Mas não na velocidade de uma jamanta sem freios despencando pela
ladeira”, afirmou.
Para
Chagas, existe um risco institucional envolvido no imbróglio. “Essa sessão
proposta por Mendonça para discutir em plenário nos próximos dias uma
investigação sobre Moraes pode acabar se tornando um harakiri institucional de
toda a Corte. No mínimo, os demais ministros deveriam exigir de André Mendonça
o mesmo empenho e rapidez nas apurações do envolvimento Flávio Bolsonaro/Dark
Horse…”, ponderou.
Na
mesma rede social, o doutor em Ciência Política pela Universidade de Brasília
(UnB), Gabriel Elias, também cobrou celeridade na apuração sob relatoria do
ministro: “Quanta coincidência um vazamento contra Alexandre de Moraes no mesmo
dia em que surge uma nova notícia sobre a relação de Flavio Bolsonaro com
Vorcaro para o famoso filme Dark Horse. E o Mendonça não move uma palha pra
investigar o candidato à Presidência”, publicou.
O
professor do Departamento de Ciência Política da Universidade Federal de Minas
Gerais (UFMG) Dawisson Belém Lopes também comentou o episódio no X. “Mendonça
foi de all in. Circulou conteúdo tóxico em desfavor do colega de tribunal –
que, mesmo que saia ileso do episódio, já ‘perdeu aura’, como dizem os jovens.
Jair Bolsonaro sabia exatamente o que estava fazendo quando indicou um soldado
‘terrivelmente evangélico’ de toga”, postou.
• Relatório da PF revela racha e críticas
na apuração sobre Lulinha
O
relatório de inteligência da Polícia Federal divulgado pelo ministro do Supremo
Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes expõe uma divisão interna envolvendo
as investigações sobre Fábio Luís Lula da Silva, filho mais velho do presidente
Lula, faz críticas sobre a produção de relatórios sobre Lulinha e sugere
acionar a Corregedoria para apurar a conduta de investigadores ao batizar uma
operação com o nome de Elli, em referência à letra L de Lula.
O
próprio documento se descreve como "sem valor probatório" e diz que
não pode ser utilizado para imputar acusações de infrações. Em vários trechos,
diz que as informações registradas são de confiabilidade "baixa ou
moderada" por depender apenas de relatos verbais.
O
relatório, que foi produzido por uma unidade de inteligência ligada à
Coordenação de Inquéritos nos Tribunais Superiores (Cinq) e inicialmente
enviado apenas ao diretor-geral Andrei Rodrigues, classifica como
"frágeis" os elementos de prova que citaram Lulinha na investigação
sobre desvios no Instituto Nacional do Seguro Social (INSS). O documento indica
que a nova equipe da PF que assumiu a Operação Sem Desconto a partir de maio,
em meio a uma troca que gerou suspeitas de interferência no caso, passou a fazer
uma espécie de pente-fino no trabalho realizado e apontou ressalvas na
investigação sobre o filho do presidente.
O
documento critica a equipe de investigação por ter produzido um relatório sobre
as menções a Lulinha e as viagens mantidas por ele com a lobista Roberta
Luchsinger e o empresário Antônio Camilo Antunes, o Careca do INSS. Esse
relatório alvo de críticas, porém, faz uma compilação sobre os fatos
encontrados na investigação em relação a todos os personagens mencionados, e
não apenas a Lulinha.
Ainda
assim, o relatório de inteligência diz que Lulinha ainda não era formalmente
investigado e que a produção de um documento sobre ele resultou em "risco
reputacional" ao filho do presidente, já que estava disponível nos autos
da investigação.
Em
seguida, o relatório de inteligência registra que a fase da Sem Desconto que
resultou em busca e apreensão contra a lobista Roberta Luchsinger e nas
primeiras suspeitas sobre Lulinha foi batizada internamente como Operação Elli,
pronunciada como se fosse a letra L, e que isso faria uma referência indevida a
Lulinha.
"A
preocupação é legítima e deve ser registrada. Denominações de fase que
codifiquem pessoa não formalmente investigada constituem indicador reconhecido
de risco em programas de integridade, por três razões: sugerem que o objetivo
real da diligência difere do objetivo declarado; comprometem a aparência de
imparcialidade perante o controle externo; e, uma vez tornadas públicas,
produzem dano reputacional a quem não é parte", diz a análise.
A
conclusão do tópico recomenda que seja identificado quem batizou a operação
como Elli e levado o caso à Corregedoria da PF: "Apurar, por via
documental, quem a atribuiu, quando e com que registro; verificar a existência
de norma interna sobre nomenclatura de fases; e, confirmada a codificação de
pessoa não investigada, submeter a questão à Corregedoria, que é a instância
própria".
Com
base nessas informações, a defesa de Lulinha chegou a divulgar uma nota dizendo
que o relatório de inteligência corrobora suspeitas apontadas sobre o
direcionamento da investigação e defendendo o arquivamento das suspeitas sobre
o filho do presidente.
Apesar
de o relatório de inteligência ter classificado como "frágil" o
vínculo de Lulinha com os fatos investigados no estágio inicial da apuração, o
avanço das investigações com informações do celular da lobista Roberta
Luchsinger revelou que ela efetivamente intermediou negócios de empresários com
o governo federal. A própria PF passou a apontar indícios de que ela tinha uma
sociedade oculta com Lulinha nesses negócios. Por causa disso, a PF pediu
abertura de três inquéritos para apurar suspeitas de tráfico de influência e
apontou suspeitas de que Roberta seria responsável por bancar as despesas do
filho do presidente, a partir dos contratos firmados com empresários
interessados em negócios no governo federal.
'Tensões
funcionais crescentes'
O
relatório de inteligência foi produzido com a intenção apenas de informar o
diretor-geral da PF sobre impressões dos investigadores e questões internas.
Moraes, porém, acabou tornado públicas até mesmo os atritos e divisões dentro
da PF com a divulgação do documento usado para incluir André Mendonça no
inquérito da Fake News.
O
documento faz um panorama sobre o surgimento de atritos nas equipes depois que
a direção da PF decidiu trocar a coordenação da Operação Sem Desconto, em maio
deste ano. A investigação até então estava sob comando do delegado-chefe da
Divisão de Repressão a Crimes Previdenciários, que foi responsável por pedir
busca e apreensão contra uma lobista amiga de Lulinha e a quebra do sigilo do
próprio filho do presidente. O caso, porém, acabou sendo retirado da
Coordenadoria de Repressão a Crimes Fazendário (Cgfaz) e enviado para a
Coordenadoria de Repressão à Corrupção, Crimes Financeiros e Lavagem de
Dinheiro (Cgrc), o que resultou na troca do delegado que coordenava as
apurações.
"Desde
a transferência da coordenação da operação da Cgfaz para a Cgrc, foram
reportadas tensões funcionais crescentes", diz o documento. O relatório
cita como fontes os quatro delegados da Cgrc que assumiram a Operação Sem
Desconto com a mudança promovida pela direção --é um dos poucos trechos do
relatório de inteligência em que as fontes da informação são nominalmente
apontadas, porque a maior parte dos relatos são anônimos.
De
acordo com o documento, essa tensão passou a ocorrer porque os novos
coordenadores passaram a questionar os delegados responsáveis pelos inquéritos
sobre os motivos de medidas adotadas na investigação.
O
relatório registra, como avaliação, que os investigadores da Operação Sem
Desconto atuavam com maior autonomia funcional e passaram a ter essa autonomia
reduzida com a mudança na coordenação, que adotou um "crivo jurídico e
investigativo" sobre os passos adotados na apuração. A tensão, de acordo
com o relatório, também envolveu "insinuações" dos delegados
responsáveis pelos inquéritos de que a mudança na coordenação tinha objetivo de
"matar" a Operação Sem Desconto.
<><>
Polícia Federal diz que André Mendonça levou 75 dias para decidir sobre Castro
e 9 sobre Wagner
A
Polícia Federal apontou no relatório uma diferença relevante entre o tempo que
o ministro André Mendonça levou para despachar materiais de investigações
envolvendo diferentes figuras políticas citadas no caso Banco Master. No
exemplo descrito, o material ligado ao senador Jaques Wagner teria sido
apreciado em nove dias, enquanto o caso do ex-governador Cláudio Castro levou
75 dias. Ciro Nogueira também aparece na comparação, com 29 dias.
Apesar
disso, os investigadores afirmam que a conclusão não é definitiva. O próprio
documento ressalta que a série analisada é pequena, seletiva e sujeita a
variáveis não controladas, como volume de processos, complexidade, atuação da
PGR e períodos de recesso. Por isso, a PF trata o dado como apenas indiciário.
<><>
Jaques Wagner, Cláudio Castro e as suspeitas no Banco Master
O nome
de Jaques Wagner passou a ser associado ao caso a partir de informações
reunidas pela PF sobre o Banco Master e a atuação do ex-banqueiro Daniel
Vorcaro. Segundo a investigação, há indícios de que o senador teria feito
investimentos na instituição, e seu nome teria aparecido em uma lista de
clientes com valores aplicados.
A
apuração também menciona a suspeita de que Wagner teria recebido um apartamento
em Salvador, avaliado em R$ 2,4 milhões, como propina do empresário Augusto
Lima. O senador foi alvo de busca e apreensão na fase da Operação Compliance
Zero, e a quebra de sigilo e a pressão política acabaram contribuindo para sua
saída da liderança do governo Lula no Senado.
Já em
relação a Cláudio Castro, a PF apontou um andamento mais lento e considerado
estranho para o prosseguimento dos materiais. Segundo o relatório, o caso foi
impactado por conexões do governo fluminense com contratos de fundos de
previdência ligados ao Banco Master.
<><>
Nikolas Ferreira e um suposto laudo falso
O
relatório também abre espaço para um segundo desdobramento político: a
divulgação, por Nikolas Ferreira, de um suposto documento da Polícia Federal
que o favoreceria no contexto das suspeitas envolvendo Daniel Vorcaro. A PF
afirma que não produziu o material e que há sinais de falsificação.
Uma
análise técnica citada no texto indica que o conteúdo teria sido criado com
auxílio de inteligência artificial e apresenta inconsistências em relação aos
documentos oficiais da investigação. Nikolas afirma que apenas compartilhou o
que recebeu e que não sabia da falsidade, mas isso não afasta, por si só, a
possibilidade de apuração criminal caso fique comprovado conhecimento prévio ou
participação direta na produção do documento.
• Petistas pedem inelegibilidade de
Nikolas por documento falso da PF
Os
deputados federais Rogério Correia (PT-MG), Lindbergh Farias (PT-RJ) e Alencar
Santana (PT-SP) acionaram a Procuradoria-Geral Eleitoral (PGE) contra Nikolas
Ferreira (PL-MG) e pediram que o deputado mineiro seja declarado inelegível por
oito anos. A representação também solicita a cassação do registro ou diploma do
parlamentar.
O
pedido tem como base a divulgação de um documento falso atribuído à Polícia
Federal (PF). O material simulava uma conclusão da corporação de que não
haveria indícios de crimes envolvendo Nikolas e o banqueiro Daniel Vorcaro,
investigado na Operação Compliance Zero. Segundo a representação, a PF negou
ter produzido o documento.
A
publicação ocorreu em 3 de setembro, horas após reportagens do ICL Notícias
sobre mensagens e áudios trocados entre Nikolas e Vorcaro. O documento foi
compartilhado nas contas oficiais do deputado no Instagram e no X, que somam
mais de 27 milhões de seguidores.
Um
laudo anexado à representação aponta diferenças entre o material divulgado e um
relatório de 218 páginas produzido pela PF. Segundo os parlamentares, há
divergências de conteúdo, datas, estrutura e identificação, além da ausência de
assinatura, matrícula de servidor, número de procedimento e código verificador.
Nikolas
afirmou posteriormente que desconhecia a falsidade do documento, disse ter
reproduzido conteúdo publicado por terceiros e removeu a postagem.
Os
deputados sustentam que o caso pode configurar uso indevido dos meios de
comunicação social e abuso de poder político. Eles pedem à PGE a abertura de
investigação eleitoral e, posteriormente, o ajuizamento de uma ação no Tribunal
Superior Eleitoral (TSE).
Também
querem a apuração de possíveis crimes eleitorais relacionados à falsificação e
ao uso do documento.
Fonte:
JB/Correio Braziliense/Metrópoles

Nenhum comentário:
Postar um comentário