Exibicionismo, uma silenciosa violência
sexual de cada dia
Quando Jonas (nome fictício), de 8 anos,
voltava da escola numa típica tarde de segunda-feira em Bonn, na Alemanha, ele
e uma amiga foram atraídos pelo que lhes pareceu ser um pedido inocente de
ajuda. Saído de uma rua lateral, um homem queria saber "se eles tinham
visto um gato preto por aí". As crianças se puseram imediatamente a
procurar o suposto bichano perdido.
Mas o desconhecido abriu as calças e lhes
exibiu a própria genitália, na altura dos olhos dos meninos. O mesmo adulto
abordaria, instantes depois, outro menor de idade, a metros de distância de
Jonas. Apenas algumas horas antes e na mesma região, um caso semelhante já fora
reportado à polícia da cidade.
Especialmente para rotas curtas e cotidianas
nas cidades menores, as crianças costumam ganhar cedo a liberdade de ir e vir
sozinhas na Alemanha. Mas em Bonn, com pouco mais que 300 mil habitantes e
atmosfera majoritariamente sossegada, repetidas ocorrências do que Jonas viveu
rachariam a rotina de uma zona residencial.
"Desde então, eu monitoro mais onde ele
está ou quando ele sai da escola. Peço que, se possível, ele evite andar
sozinho," disse a mãe do menino, três meses após o incidente. "Agora,
ele costuma ir para a escola de bicicleta, e não mais a pé."
A família, no mesmo dia, procurou a
delegacia. Primeiro, Jonas pediu desculpas, julgando ter responsabilidade pelo
que lhe acontecera. Em seguida, os pesadelos com um monstro mau, antes
esporádicos, se tornaram frequentes. E ele não esqueceria o gato preto: ao
passar de novo pelo local onde o estranho cruzara o seu caminho, voltaria a
procurá-lo. Ou, quando de fato viu um felino daquela cor, ficou se perguntando
se seria aquele o animal (falsamente) desaparecido.
"Ele expressa no cotidiano sinais de
medo, mas não sabe bem do quê," relata a mãe. "Os resquícios dessa
experiência ficaram dentro dele."
Este e episódios semelhantes começaram a
correr no boca-a-boca, levando os pais das crianças afetadas a se juntarem.
Eles reuniram 26 casos relatados pelos seus filhos, entre outubro de 2024 e
maio de 2026, com os contornos discerníveis de um mesmo modus operandi. As
descrições lhes apontavam, ao mesmo tempo, para a probabilidade de mais de um
executor das abordagens.
A polícia de Bonn, enquanto isso, recebeu 120
denúncias desde 2024 até 19 de julho de 2026, incluindo 71 na região onde
moravam estas famílias. Do total, foram identificados suspeitos em 26 casos até
meados de agosto, disseram as autoridades locais em nota à DW.
<><> Trauma para crianças
A maioria das famílias em Bonn poderia não
saber a fundo até então, mas mostrar órgãos genitais para estranhos em espaços
públicos leva o nome de exibicionismo. Os executores deste tipo de agressão são
quase sempre homens, movidos por uma excitação sexual que deriva de ver o
choque nos olhos do outro.
Em geral, os exibicionistas usam roupas que
podem ser rapidamente abertas e fechadas, para agir discretamente e causar
susto. É frequente que eles passem à masturbação ou ao orgasmo depois de se
exibirem, embora raramente encostem nos seus alvos – ao contrário do
frotteurismo, cujos praticantes tocam outra pessoa ou se esfregam nela sem
consentimento.
As principais vítimas são mulheres jovens,
adolescentes e crianças, apontam conjuntos de dados em diferentes países. A psicóloga Anke Voßhenrich, do Centro de
Aconselhamento contra Violência Sexualizada em Bonn, estima já ter atendido uma
dezena de casos de menores de idade que passaram por episódios exibicionistas,
ao longo de décadas de carreira num centro de atendimento especializado para
vítimas de violência sexual em Bonn.
"As crianças são mais vulneráveis e não
podemos prepará-las completamente para que algo assim aconteça. Elas costumam
pensar: 'será que eu deveria ter ido por outro caminho?' ou 'eu deveria ter
olhado de outra forma?'," relata.
A família de Mia (nome fictício) procurou
ajuda quando a menina de 9 anos entrou, em outubro, para a lista de alvos das
abordagens exibicionistas na cidade do oeste alemão. "Ela chegou em casa
naquele dia gritando, chorando e tocando a campainha violentamente", conta
a mãe.
Nas primeiras duas noites, ela não dormiu. Ao
fechar os olhos, só conseguia lembrar da imagem do pênis que lhe havia sido
exposto. E, assim como Jonas, trocaria as caminhadas para a escola pelo
patinete. "A psicóloga deu uma pedrinha para ela segurar quando sentisse
medo. E ela carregou aquela pedrinha por semanas."
Segundo Voßhenrich, é importante que os
adultos evitem reações desesperadas na frente da criança que passa por este
tipo de experiência. O principal, afirma, é deixar claro que ela não tem culpa
e que nenhum adulto tem autorização para fazer aquilo. Ela recomenda também
oferecer orientações de antemão sobre como agir neste tipo de situação: dar o
mínimo de atenção possível ao perpetrador e imediatamente se dirigir para casa,
ou outro lugar seguro.
<><> "O crime sexual mais
frequente"
Em toda a Alemanha, foram registrados 7.581
casos no ano passado contra pessoas adultas e outros 1.496 contra crianças até
14 anos, com os suspeitos sendo 67 mulheres e 4.756 homens. O Código Penal
alemão prevê até um ano de prisão ou multa quando os alvos são maiores de
idade.
No caso de vítimas até 14 anos, o
exibicionismo cai numa categorização de crime mais ampla, que envolve outras
condutas e é passível de pena entre seis meses e dez anos.
"A exposição indecente, que inclui o
exibicionismo, é o crime sexual mais comum. Há muito mais autores deste tipo de
ato do que de abuso sexual infantil, por exemplo," diz Nina ten Hoor,
psicóloga forense que há anos atende exibicionistas em tratamento e
pesquisadora da organização Especialistas em Cuidados Forenses, na Holanda.
A pena padrão para atos exibicionistas no
país é uma multa de até 750 euros (R$ 4,5 mil), eventualmente somada a algumas
horas serviços à comunidade, excluídos crimes com agravantes ou, então,
reincidências.
<><> Transtorno parafílico
diagnosticado
No âmbito da medicina, o exibicionismo é
listado pela Classificação Internacional de Doenças (CID), da Organização
Mundial da Saúde (OMS), como um transtorno parafílico quando vira um padrão
intenso de excitação sexual atípica, resultando em danos ou riscos àquele que
se exibe ou às suas vítimas.
Os exibicionistas compulsivos chegam a
executar as abordagens até dezenas ou centenas de vezes antes de responderem
pelos seus atos, apontam especialistas ouvidas pela DW.
"A excitação sexual os coloca numa
bolha, e eles não pensam nas outras pessoas. Quando ela passa, alguns se sentem
culpados. Mas a maioria não está realmente consciente das consequências para as
vítimas. Eles acham que a maior parte das pessoas estará interessada nisso ou
que elas não vão ser negativamente impactadas," explica ainda ten Hoor.
Quem estuda o assunto aponta à importância de
melhor monitorar e investigar este crime sexual, punindo perpetradores, em nome
da prevenção; e, também, de evitar simplificações estigmatizantes sobre aqueles
que sofrem da compulsão associada à doença mental. Para os condenados na
Alemanha, por exemplo, a liberdade condicional pode ser concedida caso se
preveja que o infrator só deixará de cometer atos de exibicionismo após longo
tratamento médico.
Ao mesmo tempo, o impacto psicológico para as
vítimas pode ser limitante, se assemelhando àquele que costuma seguir outros
tipos de crime sexual – por exemplo, os sentimentos de violação, nojo, culpa ou
vergonha. Algumas pessoas experimentam ainda, conforme indicou um estudo com
459 estudantes de graduação nos Estados Unidos, mudanças de comportamento e
sofrimento de longo prazo.
"O medo e a desconfiança podem impactar
alguém. Porque a vítima não sabe qual foi a intenção daquela pessoa, ou se ela
queria causar um mal", afirma Elizabeth Jeglic, coautora da pesquisa e
professora de Psicologia na Faculdade John Jay de Nova York. "É algo que
pode causar trauma. E não apenas um crime de perturbação da ordem
pública."
<><> No Brasil, importunação
sexual é tipificada
Não há dados específicos para atos
exibicionistas no Brasil, mas, sim, para registros de ocorrências de
importunação sexual, crime tipificado em 2018, com pena prevista de um a cinco
anos de reclusão. Estão abarcadas várias condutas de natureza sexual praticadas
sem consentimento, como toques, gestos e abordagens inapropriadas, estejam elas
potencialmente associadas ou não a transtornos parafílicos.
Em 2025, chegaram ao conhecimento das
autoridades 41.425 casos de importunação sexual em todo o país, segundo o
Anuário Brasileiro de Segurança Pública. Desde a tipificação do crime em 2018,
cresceram vertiginosamente os registros listados anualmente pelo relatório. Em
comparação aos 1.352 casos daquele ano, o aumento foi de dez vezes para os
13.576 de 2019; e, depois, de 30 vezes para o total do ano passado.
Ao contrário do assédio sexual (com 9.031
registros no ano passado), a importunação se diferencia pela falta de vínculo
ou de relação de poder entre agressor e vítima.
Ainda assim, as mulheres e crianças são as principais afetadas.
O estado do Rio de Janeiro, por exemplo,
bateu recorde de 2.723 casos registrados contra meninas e adultas no ano
passado, de acordo com um dossiê do Instituto de Segurança Pública (ISP),
ligado ao governo fluminense. A maior fatia das vítimas estava na faixa entre
18 e 29 anos (35%), seguida pelo grupo de 0 a 17 anos (27%).
Na avaliação de Vanessa Campagnac,
vice-presidente do ISP, a tipificação contribui para desnormalizar as agressões
sexuais de cada dia, que geralmente acontecem em público, tanto entre as
vítimas quanto nas delegacias. "A gente tem que ter muito cuidado com a
formação desses policiais. Para que eles entendam a gravidade do problema e não
revitimizem quem denuncia a importunação sexual," avalia.
<><> Subnotificação é a regra
No Brasil ou fora dele, é raro que estes
casos cheguem ao conhecimento das autoridades — a subnotificação é a regra,
sabem as especialistas. Quando se concretiza a denúncia, as polícias de
diversos países tendem a dispensar menor atenção às agressões sexuais sem toque
físico, em comparação ao estupro e mais formas de abuso.
Pesa também, para as vítimas, a dificuldade
de provar as abordagens discretas, que não raro acontecem às escondidas, em
lugares ermos, como parques ou ruas pouco movimentadas.
Entre as famílias afetadas pela onda de casos
exibicionistas em Bonn, houve frustração com o fato de os homens descritos
pelos seus filhos nunca terem sido punidos. Segundo a polícia, um suspeito
chegou a ser preso provisoriamente desde 2024 e, depois, liberado por falta de
motivos para a prisão, conforme uma análise do Ministério Público.
Enquanto isso, os pais da região criaram uma
campanha de sensibilização, convidando a comunidade a se fazer mais atenta ao
ver crianças zanzando sem adultos. "É um direito fundamental aqui que as
crianças sejam independentes desde muito cedo", conta Jennifer Thomé, uma
das mães que se mobilizou.
Numa carta de junho enviada às famílias, a
polícia de Bonn indicou que a repetição das abordagens exibicionistas era uma
grande preocupação para a sua equipe. A corporação afirmou estar fazendo todo o
possível para garantir a segurança das crianças a caminho da escola, em parques
infantis e nas zonas residenciais.
Oficiais foram sensibilizados sobre o tema, e
o patrulhamento foi intensificado nas zonas mais afetadas, inclusive com
operações à paisana, acrescentou a carta. As investigações teriam sido
consolidadas numa unidade especializada.
Fonte: DW Brasil

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