Brasil, o laboratório da guerra híbrida do
século XXI
Durante duas décadas, crises reais do Brasil
foram atravessadas por novas tecnologias de poder, interesses internos e forças
transnacionais que aprenderam a explorar vulnerabilidades, reorganizar
comportamentos e interferir na correlação de forças do Estado. Às vésperas da
eleição de 2026, compreender essa trajetória deixou de ser exercício histórico:
tornou-se uma questão de soberania democrática.
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<><> Uma reflexão diante do nosso
tempo
Este artigo nasce de uma inquietação que me
acompanha há muitos anos e que parece crescer à medida que tento compreender
melhor aquilo que aconteceu e continua acontecendo no Brasil. Tenho dedicado
parte importante da minha trajetória ao estudo da guerra híbrida, das operações
psicológicas, da comunicação e das novas formas de disputa pelo poder, mas essa
caminhada me ensinou sobretudo a desconfiar de explicações simples para
processos históricos complexos. Não pretendo oferecer uma resposta definitiva,
muito menos encaixar duas décadas de história numa teoria capaz de explicar
tudo. Procuro apenas organizar reflexões, dúvidas e angústias acumuladas ao
longo desse percurso diante da realidade objetiva de setembro de 2026, quando
uma eleição presidencial se aproxima em meio a tensões institucionais, pressões
externas e à entrada acelerada da inteligência artificial na mediação da vida
política.
A pergunta que me acompanha é simples apenas
na aparência: como chegamos até aqui? Do Mensalão a Junho de 2013, da
espionagem norte-americana à Lava Jato, do impeachment à ascensão do
bolsonarismo, dos ataques às urnas ao 8 de Janeiro, das sanções e tarifas à
inteligência artificial, atravessamos conjunturas distintas e atores
diferentes. Seria um erro reduzi-los a um único comando. Em sequência, porém,
esses episódios revelam como a disputa pelo poder passou a atravessar
informação, instituições, economia, tecnologia e a própria formação da
percepção.
É nesse sentido que utilizo o conceito de
guerra híbrida. Não como explicação universal, nem como sinônimo de conspiração
ou interferência estrangeira. Sociedades entram em crise por suas próprias
contradições, mobilizações podem nascer espontaneamente, investigações podem
revelar crimes reais e instituições podem colidir sem que exista uma mão
oculta. O problema começa quando vulnerabilidades reais são exploradas por
atores capazes de combinar diferentes instrumentos para modificar percepções,
comportamentos e correlações de força. A operação psicológica participa dessa
lógica ao identificar públicos e vulnerabilidades, organizar emoções e
enquadramentos e tornar determinados comportamentos mais prováveis.
Essa distinção é fundamental porque as
contradições brasileiras não foram fabricadas em Washington, no Vale do Silício
ou em qualquer centro externo de poder. Desigualdade, corrupção, concentração
comunicacional, fragilidade institucional e conflitos entre projetos de país
possuem raízes brasileiras. Ignorar isso nos transformaria em espectadores
passivos da própria história e absolveria atores nacionais de suas
responsabilidades. O que me interessa é compreender como essas contradições
passaram a interagir com redes transnacionais, interesses geopolíticos,
estruturas jurídicas e sistemas tecnológicos capazes de ampliá-las,
reorganizá-las ou explorá-las. É aí que o Brasil pode ser compreendido como
laboratório. Não porque alguém tenha planejado em algum gabinete um experimento
de vinte anos sobre nossa sociedade, mas porque poucas democracias reuniram, em
tão pouco tempo, tamanha combinação de importância geopolítica, desigualdade,
digitalização, concentração midiática, judicialização da política e disputa por
recursos estratégicos. Diferentes tecnologias de poder encontraram aqui
condições para serem testadas, adaptadas e combinadas.
É essa trajetória que pretendo reconstruir.
Não para descobrir uma mão invisível por trás da história, mas para observar
mecanismos que, isolados, parecem dispersos e, em sequência, revelam uma
transformação profunda da disputa pelo poder. Para compreender o Brasil de
2026, precisamos voltar ao momento em que essa batalha ainda tinha outra forma,
antes que plataformas digitais organizassem cotidianamente a política e quando
a inteligência artificial parecia distante. Precisamos voltar a 2005.
<><> 2005: quando a autonomia
brasileira começou a mudar o tabuleiro
Voltar a 2005 não significa procurar uma data
secreta para o início de uma guerra contra o Brasil. Significa reconhecer uma
inflexão. Naquele momento, o país ampliava sua autonomia internacional enquanto
a política doméstica entrava numa fase intensa de disputa pela interpretação da
realidade. O símbolo externo foi a Cúpula das Américas, em Mar del Plata. A
ALCA, concebida sob liderança dos Estados Unidos, chegou ali ao seu limite
político. O Brasil não rompeu com Washington, mas ajudou a afirmar que os interesses
do hemisfério não eram homogêneos. Essa posição fazia parte de uma estratégia
mais ampla de diversificação, aproximação com América do Sul, África, Ásia e
potências emergentes, fortalecimento do Mercosul e busca por maior margem de
decisão internacional. Autonomia, naquele contexto, não significava isolamento.
Significava capacidade de escolha. Essa mudança ganharia novas dimensões com o
pré-sal, a integração sul-americana e a consolidação dos BRICS. Nada disso
prova que os Estados Unidos tenham decidido responder ao Brasil por meio de uma
operação clandestina. Prova algo mais simples e necessário para esta história:
o país adquiria maior peso estratégico e passava a disputar com mais liberdade
sua posição numa ordem internacional em transformação.
Dentro do Brasil, 2005 também marcou uma
mudança de ambiente político. O Mensalão colocou o governo Lula sob uma crise
permanente de enorme intensidade. As denúncias eram graves e exigiam
investigação, mas a questão que interessa aqui é também comunicacional. CPIs,
vazamentos, acusações e cobertura contínua passaram a estruturar a agenda
pública e a enquadrar a política cada vez mais por uma gramática de corrupção,
moralidade e degeneração institucional. Esse processo ainda era comandado
principalmente pelos grandes meios de comunicação. Televisão, jornais e
revistas concentravam a capacidade de decidir o que merecia atenção, por quanto
tempo e sob qual enquadramento. A internet crescia, mas ainda não organizava a
vida política cotidiana. A disputa pela percepção ocorria, portanto, sobretudo
pela capacidade de selecionar acontecimentos e delimitar o ambiente dentro do
qual a sociedade os interpretava. Ainda seria exagerado chamar esse momento de
guerra híbrida. As condições que depois permitiriam combinar mobilização em
rede, plataformas digitais, cooperação jurídica transnacional e disputa
comportamental ainda não estavam plenamente formadas. Mas o terreno começava a
mudar. O Brasil ampliava sua autonomia externa enquanto, internamente, aprendia
o poder político de uma crise capaz de reorganizar a percepção coletiva. Em
2013, a tecnologia transformaria radicalmente a escala dessa disputa.
<><> Junho de 2013: a descoberta
do poder das redes
Junho de 2013 não foi fabricado em
Washington. As manifestações nasceram de contradições brasileiras reais:
transporte caro, serviços públicos precários, violência policial, desigualdade
urbana e crescente descrença nas instituições. O Movimento Passe Livre abriu
aquele ciclo, mas em poucos dias as ruas ultrapassaram qualquer direção
organizada. Foi justamente aí que começou a disputa decisiva: não apenas pelo
protesto, mas pelo significado do protesto. À medida que as manifestações
cresciam, a pauta se fragmentava. A indignação contra tarifas passou a conviver
com rejeição aos partidos, denúncias de corrupção, nacionalismo difuso e
aversão ao sistema político. Setores da mídia que inicialmente criminalizavam
os atos mudaram de enquadramento, enquanto novos grupos passaram a disputar sua
direção. Junho revelou uma regra fundamental da guerra híbrida contemporânea:
uma crise não precisa ser criada para ser capturada. Basta reconhecer a
vulnerabilidade, reorganizar seu sentido e transformar energia social em força
política.
A tecnologia tornou essa apropriação muito
mais poderosa. Facebook, Twitter e YouTube permitiram convocar atos, distribuir
imagens, fabricar enquadramentos e conectar emoções em velocidade inédita. A
velha mídia ainda tinha enorme poder, mas já não monopolizava a mediação. O
cidadão deixava de ser apenas receptor e passava a atuar como produtor,
distribuidor e multiplicador de narrativa. Pela primeira vez em escala
nacional, a disputa política brasileira começava a operar dentro de uma
arquitetura em rede. Foi nesse terreno
que organizações liberais e conservadoras aprenderam rapidamente a transformar
uma mobilização que não haviam criado em capacidade política permanente.
Integrantes ligados ao Estudantes Pela Liberdade participaram daquele ambiente,
e Juliano Torres relataria posteriormente que a marca Movimento Brasil Livre
foi criada por integrantes vinculados ao grupo para atuar nas manifestações. A
própria Atlas Network reconheceria depois relações de treinamento e formação
com membros daquele ecossistema. Isso não prova que essas organizações tenham
produzido Junho. Prova algo mais relevante: elas souberam reconhecer a abertura
histórica, apropriar-se de parte da indignação e convertê-la em organização
política.
Enquanto as ruas eram disputadas, outra
dimensão da soberania brasileira aparecia de forma brutal. Os documentos de
Edward Snowden revelaram que a Agência de Segurança Nacional dos Estados Unidos
espionara a Presidência da República e tinha a Petrobras entre seus alvos.
Dilma Rousseff denunciou o caso na ONU como violação da soberania brasileira.
Não há evidência que ligue a NSA à origem das manifestações, mas a
simultaneidade expunha um fato: quando o Brasil buscava maior autonomia
política e energética, informação estratégica, redes digitais e capacidade de
decisão nacional já eram campos concretos de disputa entre Estados.
Junho foi, portanto, um divisor de águas. A
crise brasileira era real, mas sua interpretação passou a ser disputada por
atores capazes de aprender em tempo real, reorganizar narrativas e transformar
indignação em comportamento político. O que antes dependia sobretudo de grandes
centros de comunicação começava a circular por redes descentralizadas, mais
rápidas e emocionalmente intensas. A disputa pela percepção ganhava uma nova
infraestrutura. Pouco depois, essa lógica encontraria uma máquina ainda mais
poderosa. A Lava Jato combinaria investigação judicial, exposição midiática,
cooperação transnacional e destruição de reputações numa escala capaz de
alterar não apenas a percepção dos brasileiros, mas a própria correlação de
forças do Estado.
<><> Lava Jato: o golpe jurídico
que reorganizou o Brasil
A Lava Jato não foi apenas uma operação
anticorrupção que cometeu excessos. Havia crimes reais e responsáveis que
precisavam ser punidos, mas o processo que se construiu a partir deles produziu
algo muito maior: uma engrenagem judicial, midiática, política e transnacional
que alterou a correlação de forças do país, atingiu o principal líder popular
brasileiro e ajudou a desmontar pilares de um projeto desenvolvimentista e
soberanista. É nesse sentido histórico que a operação precisa ser compreendida
como parte de um golpe. Sua dimensão internacional está documentada. O
Departamento de Justiça dos Estados Unidos reconheceu a cooperação com a
força-tarefa brasileira em casos envolvendo algumas das maiores empresas
nacionais, enquanto agentes do FBI e procuradores norte-americanos estiveram em
Curitiba. Isso não prova que cada ato da Lava Jato tenha sido comandado de
Washington, mas impede qualquer leitura que a trate como fenômeno
exclusivamente doméstico. A investigação passou a operar dentro de uma
arquitetura transnacional de poder jurídico que alcançava empresas estratégicas
brasileiras.
O caso de Lula expõe a dimensão mais brutal
desse processo. Em 2018, preso após condenação conduzida por Sergio Moro,
continuou liderando as pesquisas presidenciais. Sua candidatura foi impedida.
Bolsonaro venceu. Pouco depois, Moro tornou-se ministro da Justiça do novo
governo. Em 2021, o Supremo Tribunal Federal confirmou a parcialidade do juiz
no processo do triplex e anulou seus atos naquele caso. O candidato que
liderava a eleição havia sido retirado da disputa por uma condenação conduzida
por um magistrado depois declarado parcial, que ingressou no governo do
adversário beneficiado por sua ausência. Não é preciso inventar uma sala
secreta de comando para compreender a gravidade. Lula foi vítima de uma
injustiça histórica: o candidato que liderava as pesquisas foi retirado da
disputa, atingindo o maior símbolo político de um projeto que havia ampliado a
autonomia internacional do Brasil, fortalecido a integração Sul-Sul e
recolocado desenvolvimento e soberania no centro da estratégia nacional.
O golpe também teve dimensão econômica. A
Lava Jato atingiu Petrobras, construção pesada, engenharia, petróleo e gás,
setores nos quais o Brasil acumulava tecnologia e capacidade internacional.
Combater corrupção não exigia destruir empresas nem paralisar cadeias
produtivas. Estudo do Dieese estimou que a retração dos investimentos nos
setores analisados correspondeu a um potencial de cerca de 4,4 milhões de
ocupações, considerando efeitos diretos, indiretos e induzidos. Não foram 4,4
milhões de demissões, mas o número dimensiona a capacidade produtiva que deixou
de ser mobilizada. A operação também funcionou como máquina permanente de
produção de percepção. Delações, vazamentos, prisões e novas fases chegavam
imediatamente à opinião pública; revisões judiciais levavam anos. A acusação
produzia efeito político antes da sentença definitiva, e muitas vezes
sobrevivia à própria revisão. O processo judicial já não apenas julgava fatos.
Passava a reorganizar reputações, identidades políticas e possibilidades eleitorais.
Depois do impeachment de Dilma Rousseff, a
mudança de direção materializou-se rapidamente. Alteraram-se o regime do
pré-sal, a política fiscal, as relações trabalhistas e a orientação de setores
estratégicos do Estado. Essas medidas não provam um comando único por trás da
Lava Jato e do impeachment, mas mostram quem perdeu poder e qual projeto ganhou
espaço para reorganizar o país. Reduzir a Lava Jato a uma operação que
simplesmente “errou a mão” seria falsear sua dimensão histórica. A corrupção
foi a porta de entrada. O resultado foi a prisão e exclusão eleitoral de Lula,
a parcialidade reconhecida de Moro, a devastação de capacidades estratégicas, o
recuo do projeto desenvolvimentista e a ascensão de uma nova coalizão política.
A operação apresentada como regeneração moral da República tornou-se uma ponte
decisiva entre a crise aberta em 2013 e a extrema direita que chegaria ao poder
em 2018.
<><> 2018–2022: quando a
plataforma passou a organizar o comportamento
A eleição de 2018 marcou uma nova etapa da
disputa pela percepção no Brasil. O que em 2013 aparecera como mobilização
distribuída havia se transformado, cinco anos depois, numa infraestrutura
permanente de ação política. WhatsApp, Facebook, YouTube, influenciadores e
grupos de militância formavam um ecossistema capaz de produzir, replicar e
adaptar narrativas em escala cotidiana. Estudo com quase 195 mil mensagens de
grupos públicos pró-Bolsonaro encontrou forte concentração da atividade,
circulação entre plataformas e ações coordenadas de mobilização. A propaganda
deixava de depender de um centro emissor. O próprio eleitor passava a funcionar
como nó de distribuição. Essa arquitetura não transmitia apenas informação.
Organizava pertencimento, medo, ressentimento e identidade. A repetição
permanente de inimigos, ameaças e suspeitas produzia comunidades para as quais
imprensa, ciência, instituições e adversários políticos deixavam de representar
apenas posições divergentes e passavam a integrar uma narrativa de cerco. A
operação psicológica ganhava uma forma particularmente poderosa: não precisava
convencer cada indivíduo de uma tese isolada. Bastava construir um ambiente
cognitivo no qual determinados acontecimentos fossem interpretados sempre pela
mesma chave.
O bolsonarismo também se internacionalizou.
Em 2018, Eduardo Bolsonaro encontrou Steve Bannon nos Estados Unidos e, nos
anos seguintes, aprofundaram-se conexões com redes do trumpismo, The Movement e
CPAC. Não se tratava de uma direita brasileira obedecendo mecanicamente a
comandos externos, mas de uma extrema direita integrada a circuitos
transnacionais de aprendizagem, repertórios e articulação política. A guerra
cultural brasileira começava a operar dentro de uma ecologia internacional
muito mais ampla. Durante o governo Bolsonaro, essa máquina voltou-se
progressivamente contra o sistema eleitoral. As urnas foram submetidas durante
anos a acusações sem provas de fraude. O efeito político dessa repetição era
devastador: preparar uma parcela da sociedade para considerar ilegítima
qualquer derrota. Primeiro destrói-se a confiança. Depois, o resultado
incompatível com a expectativa já chega contaminado pela suspeita. Quando a
eleição termina, a narrativa da fraude já está pronta.
Há uma contradição importante em 2022. A
administração Joe Biden defendeu publicamente a confiabilidade das instituições
eleitorais brasileiras. Isso não transforma os Estados Unidos em guardiões
altruístas da democracia latino-americana. O país vivia a disputa aberta entre
Biden e Donald Trump, cuja tentativa de deslegitimar a eleição de 2020 abalara
seu próprio sistema político. Bolsonaro era o aliado mais evidente do trumpismo
na América Latina. Sua reeleição poderia fortalecer essa rede quando Biden disputava
com Trump o futuro do poder nos próprios Estados Unidos. Não há documento que
prove que esse cálculo explique sozinho a postura de Biden, mas ignorar essa
dimensão seria ingênuo. Potências não são blocos homogêneos. São atravessadas
por conflitos internos, classes, partidos, burocracias e projetos concorrentes.
Naquela conjuntura, a disputa doméstica norte-americana podia tornar a
preservação da normalidade eleitoral brasileira compatível com os interesses da
administração Biden. O impulso de poder externo não desaparecera; entrara em
contradição com uma necessidade interna mais imediata.
Quando Bolsonaro perdeu a eleição de 2022,
portanto, não deixou para trás apenas uma campanha derrotada. Deixou uma
comunidade politicamente mobilizada, integrada por plataformas e preparada
durante anos para desconfiar do próprio resultado eleitoral. A infraestrutura
cognitiva da ruptura já existia. Faltava transformar a narrativa em ação.
<><> Do 8 de Janeiro à coerção
aberta
A derrota de Jair Bolsonaro em 2022 não
encerrou o processo construído nos anos anteriores. A desconfiança nas urnas já
havia sido sedimentada, comunidades políticas permaneciam mobilizadas e parte
de seus apoiadores havia sido preparada para interpretar a derrota como fraude.
O 8 de Janeiro foi a passagem da percepção para a ação: a narrativa de ruptura
tornou-se violência material contra as sedes dos Três Poderes. Os julgamentos
posteriores esclareceram parte dessa arquitetura. O Supremo condenou Jair Bolsonaro
e integrantes do chamado Núcleo Crucial por crimes ligados à tentativa de golpe
e, depois, membros do Núcleo da Desinformação, acusado de disseminar falsidades
sobre as urnas e atacar instituições. Isso não significa que toda mensagem ou
todo manifestante obedecesse a um comando central. Significa algo mais grave e
preciso: a desinformação deixou de ser mero ruído da política e apareceu como
instrumento funcional de uma estratégia de ruptura.
Fracassada a tentativa interna, a disputa foi
internacionalizada. Eduardo Bolsonaro passou a buscar nos Estados Unidos apoio
contra os processos que atingiam seu pai, defendendo sanções contra autoridades
brasileiras e reivindicando participação na pressão econômica sobre o país. A
luta política doméstica passava, assim, a procurar no poder de uma potência
estrangeira instrumentos para constranger instituições nacionais. Em 2025, essa
pressão deixou de operar apenas pelas redes e articulações políticas. A Casa
Branca declarou formalmente que determinadas ações do Brasil constituíam ameaça
à segurança nacional, à política externa e à economia dos Estados Unidos e
impôs tarifas adicionais, vinculando sua decisão ao tratamento dado a
Bolsonaro, a seus apoiadores e a disputas envolvendo plataformas
norte-americanas. No mesmo dia, o Tesouro colocou Alexandre de Moraes sob
sanções da Global Magnitsky. Em 2026, a USTR ampliou o movimento ao reunir num
mesmo processo decisões judiciais brasileiras, plataformas digitais, sistemas
de pagamento, política comercial, anticorrupção, propriedade intelectual e
questões ambientais, convertendo depois essa determinação em nova tarifa. A combinação
é reveladora: instrumentos jurídicos, econômicos, tecnológicos e diplomáticos
passaram a atuar simultaneamente sobre vulnerabilidades do Estado brasileiro.
É nesse ponto que a guerra híbrida deixa de
depender apenas de conexões reconstruídas nas entrelinhas. Não porque toda
sanção ou tarifa seja, por si, guerra, mas porque diferentes meios de coerção
passam a convergir sobre objetivos políticos concretos enquanto atores
brasileiros trabalham para internacionalizar sua própria disputa interna. O
jurídico encontra o econômico, o digital encontra o diplomático e a crise
brasileira passa a ser disputada também fora das fronteiras nacionais. O
percurso iniciado com a construção de percepções, ampliado pelas plataformas e
transformado em tentativa de ruptura alcançava agora outra escala. A pressão já
não buscava apenas organizar o modo como os brasileiros interpretavam a
realidade. Passava a impor custos materiais ao próprio Estado brasileiro. E,
justamente nesse momento, uma nova tecnologia começava a alterar novamente o
terreno da disputa.
<><> 2026: a batalha pelo
possível
Em 2026, a disputa pela percepção entra em
outra fase. Durante décadas, grandes meios de comunicação selecionaram
acontecimentos e ofereceram interpretações. Depois, plataformas passaram a
decidir o que circulava, para quem e com qual prioridade. A inteligência
artificial avança sobre uma camada ainda mais profunda: sistemas capazes de
produzir respostas, sintetizar versões da realidade, hierarquizar
possibilidades e conversar diretamente com cada indivíduo. A diferença é
decisiva. Num jornal, o cidadão recebe uma narrativa. Numa rede social, recebe
conteúdos selecionados por algoritmos. Diante de uma inteligência artificial,
ele pergunta e recebe uma resposta construída para aquela interação. A mediação
passa a ocupar o espaço entre a dúvida e a formação da resposta.
O próprio Tribunal Superior Eleitoral
reconheceu essa mudança ao proibir sistemas de inteligência artificial de
ranquear, recomendar ou favorecer candidaturas e de sugerir voto nas eleições
de 2026. A norma revela que o problema já ultrapassou os deepfakes. O risco
mais profundo está na possibilidade de sistemas automatizados interferirem
sobre quais problemas parecem importantes, quais fontes parecem confiáveis e
quais alternativas parecem possíveis. É nesse ponto que a disputa política
deixa de incidir apenas sobre opiniões e passa a alcançar as condições em que
determinadas escolhas se tornam mais prováveis. O indivíduo continua decidindo,
mas decide dentro de um ambiente organizado por sistemas que selecionam
informações, produzem relações entre fatos e aprendem com seu comportamento. A
liberdade formal permanece; o campo de possibilidades pode ser silenciosamente
condicionado.
A crise institucional que atravessa o Brasil
mostra como essa tecnologia pode encontrar vulnerabilidades reais. A
inteligência artificial não cria contradições sociais nem conflitos entre
instituições, mas pode acelerar narrativas, cristalizar suspeitas e multiplicar
interpretações em escala individualizada. O que antes exigia uma campanha
dirigida a milhões pode agora assumir a forma de milhões de interações
aparentemente privadas. A evolução, portanto, não é apenas tecnológica. É uma
mudança na profundidade da mediação. Primeiro disputava-se a interpretação dos
fatos. Depois, sua circulação. Agora começa a ser disputado o próprio ambiente
cognitivo em que cada cidadão procura compreender a realidade. A guerra pela
informação aproxima-se de uma guerra pelo possível.
<><> O laboratório e a soberania
Depois de tantos anos tentando compreender
guerra híbrida, operações psicológicas, plataformas e disputa pelo poder,
termino esta reflexão com uma convicção e uma cautela. A convicção é que o
Brasil atravessou, em pouco mais de duas décadas, uma sucessão de tecnologias
de poder capazes de atuar sobre percepção, comportamento, instituições e
soberania. A cautela é outra: nenhuma delas explica sozinha a história de um
país. O que esse percurso revela é a capacidade de atores internos e externos
de reconhecer contradições existentes, aprender com cada crise e combinar
instrumentos cada vez mais sofisticados. É nesse sentido que compreendo o
Brasil como laboratório. Não como uma sociedade passiva submetida a um
experimento concebido em algum centro oculto, mas como um país em que mídia
concentrada, redes digitais, lawfare, plataformas algorítmicas, extrema direita
transnacional, coerção externa e inteligência artificial se acumularam e
combinaram numa velocidade extraordinária. O perigo não está em uma ferramenta
isolada, mas na capacidade de integrá-las.
Por isso, defender a democracia hoje exige
muito mais do que proteger as urnas no dia da eleição. Exige reconhecer os
processos que moldam, muito antes do voto, aquilo que uma sociedade percebe
como verdadeiro, ameaçador ou possível. O poder contemporâneo não precisa
controlar cada decisão. Basta, muitas vezes, organizar o ambiente em que
milhões de decisões serão tomadas. É também por isso que soberania, no século
XXI, já não pode significar apenas território, recursos naturais ou capacidade
militar. Um país que não domina minimamente suas infraestruturas digitais, seus
dados e as condições pelas quais sua população acessa e interpreta a realidade
possui uma soberania incompleta. Talvez esta seja, no fim, a inquietação
central de todo este artigo. Às vésperas de mais uma eleição decisiva,
compreender esses mecanismos não significa desconfiar da democracia. Significa
levá-la a sério. A soberania popular só existe plenamente quando uma sociedade
preserva não apenas o direito de escolher, mas também as condições materiais,
informacionais e cognitivas para que essa escolha continue sendo
verdadeiramente sua.
Fonte: Por Reynaldo José Aragon, em Brasil
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