quarta-feira, 9 de setembro de 2026

Milhões de idosos vivem sem apoio adequado no Brasil, diz estudo

O Brasil conta com mais de 32 milhões de pessoas com 60 anos ou mais em um processo acelerado de envelhecimento populacional. A terceira onda do Estudo Longitudinal da Saúde dos Idosos Brasileiros (ELSI-Brasil), conduzido pela Fiocruz Minas em parceria com a Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), acendeu um alerta sobre as condições de vida dos idosos.

Considerada uma das maiores pesquisas sobre envelhecimento no Brasil, ela mostra que milhões de idosos enfrentam dificuldades para manter a autonomia e não recebem o suporte necessário para lidar com essas limitações.

Um dos dados mais preocupantes do levantamento é que 20,4% dos idosos brasileiros apresentam dificuldade para realizar pelo menos uma atividade básica do dia a dia, como tomar banho, se vestir, comer, usar o banheiro ou levantar da cama.

Segundo os pesquisadores, isso representa cerca de 6,5 milhões de pessoas vivendo com algum grau de limitação funcional.

O problema se agrava quando a pesquisa analisa a rede de apoio disponível para esse grupo. Entre os idosos que têm dificuldade para realizar atividades cotidianas, apenas 37,9% recebem ajuda. Isso significa que a maioria não conta com assistência regular, mesmo enfrentando limitações que afetam diretamente sua independência e qualidade de vida.

Os resultados indicam ainda que a situação piora com o avanço da idade. Enquanto 13,9% das pessoas entre 60 e 69 anos apresentam limitações funcionais, esse percentual sobe para 44,2% entre aqueles com 80 anos ou mais. As mulheres também são mais afetadas: 23,1% relatam dificuldades para atividades básicas, contra 17% dos homens.

O estudo também aponta falhas na estrutura de cuidados oferecida aos idosos. Apenas 5,8% dos cuidadores afirmaram ter recebido algum tipo de treinamento para desempenhar essa função.

Para os pesquisadores, esse dado evidencia a falta de políticas públicas voltadas à capacitação e ao suporte de familiares e cuidadores informais, que frequentemente assumem a responsabilidade pelos cuidados sem orientação adequada.

Além da falta de assistência, a pesquisa mostra que fatores urbanos e sociais também dificultam o envelhecimento saudável. Quase metade dos idosos que vivem em áreas urbanas, 42,7%, afirma ter medo de cair por causa de buracos, defeitos em calçadas ou problemas nas vias públicas próximas de casa. Entre pessoas com 80 anos ou mais, esse índice chega a 63,1%.

A sensação de insegurança também afeta milhões de brasileiros mais velhos. Segundo o levantamento, 12,1% dos idosos consideram as vizinhanças muito inseguras em relação à violência e à criminalidade.

Na área da saúde, a pesquisa identificou que 34,4% dos idosos apresentam níveis compatíveis com hipertensão arterial. O percentual corresponde a cerca de 11 milhões de brasileiros que precisam de acompanhamento para evitar complicações graves, como infarto, acidente vascular cerebral, insuficiência renal e demência vascular.

Os pesquisadores destacam que os desafios do envelhecimento vão muito além das doenças. Questões como mobilidade urbana, acessibilidade, segurança, assistência domiciliar e suporte aos cuidadores têm impacto direto na autonomia e no bem-estar da população idosa.

O estudo também reforça a importância do Sistema Único de Saúde (SUS) nesse cenário. Cerca de dois terços dos brasileiros com 60 anos ou mais dependem exclusivamente da rede pública para atendimento médico. Além disso, 69,2% estão vinculados à Estratégia Saúde da Família, considerada uma das principais portas de entrada para o cuidado dessa população.

•        Quatro em cada cinco idosos no Brasil têm demência sem diagnóstico; entenda

Quatro de cada cinco brasileiros idosos convivem com demência, sem nunca receberem diagnóstico médico formal. A informação é de pesquisa conduzida por estudiosos da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo) teve participação de 5.249 pessoas, acompanhadas pelo Estudo Longitudinal da Saúde dos Idosos Brasileiros (ELSI-Brasil).

O alto índice de subnotificação já havia sido apontado por levantamento feito pelo Relatório Nacional sobre a Demência em 2024, pelo Ministério da Saúde. A pesquisa recente, publicada na revista científica International Journal of Geriatric Psychiatry, confirmou que 83,1% dos participantes convivem com condição neurológica e não tinham diagnóstico prévio.

O estudo ainda ressalta desigualdades pautadas por região e condição socioeconômica. As ocorrências do quadro foram mais observadas entre pessoas analfabetas (93,9%) e moradores de regiões mais pobres (90,2%). Nas regiões mais ricas do país, o percentual de ausência de diagnóstico foi cerca de 76%.

O Ministério da Saúde estima que, atualmente, 2,5 milhões de brasileiros convivam com demência. Considerando a subnotificação identificada pelo estudo, 2 milhões delas ainda não entraram na conta. A estimativa é de que, até 2050, o número pode triplicar e pode representar um dos maiores desafios para o sistema de saúde nos próximos anos.

Os autores do artigo defendem que o diagnóstico preciso é essencial para o manejo clínico adequado, permitindo melhor planejamento dos pacientes e familiares. A demência é um quadro irreversível, mas, se diagnosticada precocemente, pode ser atenuada combinando tratamento com medicamentos para estabilizar a cognição e controlar sintomas, com terapias não farmacológicas.

Eles destacam que as dificuldades de acesso ao sistema de saúde e falta de preparo de alguns profissionais estão entre fatores agravantes da subnotificação, que eles entendem como uma questão cultural na medicina diagnóstica. "O declínio cognitivo é entendido como uma consequência esperada do envelhecimento", alertam. De acordo com os pesquisadores, a visão colabora para diagnósticos tardios ou não realizados.

 

Fonte: CNN Brasil

 

Nenhum comentário: