Luis
Pellegrini: O fascismo mudou de roupa. E já está batendo à nossa porta
Ele não
precisa mais de fardas, tanques ou marchas militares. Pode chegar pelo voto,
pelas redes sociais e pela promessa de “ordem”. Seu método é corroer a
democracia por dentro, transformar o adversário em inimigo e convencer os
cidadãos de que liberdade demais é o problema.
Existe
uma pergunta que precisamos ter coragem de fazer: e se estivermos novamente
diante do fascismo – mas não formos capazes de reconhecê-lo porque ele aprendeu
a se disfarçar?
O
fascismo do século 21 não precisa necessariamente repetir os rituais grotescos
do século 20. Não precisa de camisas negras, grandes desfiles, símbolos
militares ou discursos berrados em praças lotadas.
Ele
pode vestir terno. Pode falar em nome da família, da pátria, da segurança, da
moralidade e até da democracia. Pode disputar eleições. Pode conquistar milhões
de votos. E, depois de eleito, começar a fazer aquilo que todo projeto
autoritário precisa fazer: reduzir os limites impostos ao poder.
É essa
a provocadora tese do constitucionalista italiano Michele Ainis, autor de
Fascismo bianco. E ela merece ser levada a sério muito além das fronteiras da
Itália. Porque talvez estejamos vivendo uma das maiores disputas políticas do
nosso tempo: a democracia contra sua própria deformação autoritária.
O golpe
pode acontecer sem tanques. Durante décadas, aprendemos a identificar uma
ditadura pela presença dos militares nas ruas, pela censura explícita, pela
suspensão das eleições e pela violência do Estado. Mas o autoritarismo
contemporâneo descobriu algo muito mais sofisticado: É possível destruir a
democracia utilizando mecanismos democráticos.
Chega-se
ao poder pelo voto. Depois, questionam-se as instituições que limitam o poder.
Desacredita-se o Parlamento. Ataca-se a Justiça. Demoniza-se a imprensa.
Desqualificam-se universidades. Transformam-se adversários em traidores.
Acusa-se qualquer mecanismo de controle de ser uma conspiração contra a
“vontade popular”. E, finalmente, estabelece-se uma ideia perigosa: se fui
eleito pela maioria, tenho o direito de fazer o que quiser. Não. Essa não é a
democracia. Democracia não significa apenas contar votos. Significa também
limitar o poder de quem venceu.
A
democracia não é uma procuração em branco. Este talvez seja o ponto que mais
precisamos compreender. Uma eleição confere legitimidade para governar. Não
confere licença para destruir as regras do jogo.
O voto
não autoriza ninguém a abolir direitos fundamentais. Não permite perseguir
minorias. Não dá ao governante poder para intimidar jornalistas. Não transforma
juízes em inimigos. Não permite destruir instituições de controle. Não concede
ao vencedor o direito de transformar a metade derrotada da população em
cidadãos de segunda classe.
O voto
legitima o governo. A Constituição limita o governo. É justamente essa tensão
que sustenta a democracia. Quando um governante começa a considerar qualquer
limite institucional como uma afronta pessoal, o problema já não é apenas
político. É constitucional e, em última instância, civilizatório.
Primeiro
vem o inimigo. Todo autoritarismo precisa de um inimigo, esta é uma regra quase
universal: o estrangeiro, o imigrante, o refugiado, o comunista, o socialista,
o homossexual, a feminista, o jornalista, o intelectual, o juiz, o artista, a
universidade, o “globalista”, o adversário político.
A lista
pode mudar conforme o país e a época, mas a função permanece a mesma: criar um
“eles” responsável por tudo aquilo que atormenta o “nós”.
É uma
operação política extraordinariamente eficiente. O mundo é complexo demais?
Culpe-se alguém. A economia está ruim? Encontre-se um culpado. A criminalidade
aumentou? Há um inimigo. As transformações culturais assustam? Há alguém
conspirando contra nossos valores. A crise climática provoca ansiedade? Negue-a
ou encontre um grupo responsável. A imigração cresce? Transforme o estrangeiro
em ameaça. A sociedade está insegura? Prometa mão dura. O mecanismo é antigo.
Mas as redes sociais lhe deram uma velocidade inédita.
O
algoritmo descobriu o ódio: Aqui está uma das grandes novidades do nosso tempo.
O autoritarismo encontrou nas plataformas digitais uma máquina extraordinária
de amplificação. A indignação gera cliques. A mentira gera compartilhamentos. A
humilhação produz audiência. A agressividade cria engajamento.
O
algoritmo não pergunta se uma informação é verdadeira ou falsa antes de
premiá-la com alcance. Seu critério fundamental é outro: atenção. E nada
captura mais atenção do que o medo e o ódio. Estamos, portanto, diante de uma
combinação explosiva: medo social + ressentimento político + desinformação
digital + culto ao líder.
O
resultado dessa equação pode ser devastador. Porque uma população
permanentemente submetida à sensação de ameaça começa a aceitar soluções que,
em condições normais, rejeitaria. Começa a desejar o homem forte. Começa a
desconfiar das instituições. Começa a considerar direitos fundamentais como
privilégios. Começa a achar que liberdade é sinônimo de desordem. E começa a
pedir exatamente aquilo que poderá destruí-la.
O
autoritarismo, todos nós sabemos, começa pelos mais fracos. Mas há outro sinal
que deveria nos preocupar. O primeiro alvo do autoritarismo quase sempre é quem
tem menos capacidade de reação: o pobre, o preso, o imigrante, a população de
rua, a mulher vítima de violência, a criança, o idoso, as minorias. Todos
aqueles, enfim, que não possuem poder político e/ou econômico-financeiro
suficiente para se defender.
Uma
democracia pode ser medida por seus discursos sobre liberdade. Mas pode ser
julgada, de maneira muito mais honesta e correta, pela maneira como trata os
vulneráveis.
É fácil
defender direitos quando se está no topo. O verdadeiro teste acontece quando o
outro está por baixo. Quando a sociedade começa a considerar algumas pessoas
menos dignas de direitos do que outras, a democracia começa a apodrecer.
Forte
com os fracos, fraco com os fortes. Theodor Adorno chamou de “personalidade
autoritária” um tipo humano particularmente perigoso: aquele que é forte com os
fracos e submisso diante dos fortes.
Esse
tipo humano não desapareceu. Pelo contrário, talvez esteja encontrando hoje um
ambiente particularmente favorável para a satisfação da sua paranoia de poder.
É o indivíduo que exige punição brutal para o pequeno infrator, mas tolera os
crimes dos poderosos. Que pede liberdade absoluta para si e censura para o
adversário. Que considera seus próprios preconceitos “opiniões” e as opiniões
alheias “ameaças”. Que exige respeito quando fala, mas considera legítimo
humilhar quem discorda.
O
autoritarismo político é, muitas vezes, a expressão institucionalizada de uma
violência que já existia dentro da sociedade. Por isso, combater o
autoritarismo não significa apenas trocar governantes. Significa mudar uma
cultura.
O
Brasil conhece esse filme. O Brasil não precisa procurar no passado distante
exemplos de como uma democracia pode ser corroída. Nossa história é marcada por
golpes, ditaduras, censura, perseguição política, violência de Estado e
rupturas institucionais.
É
diante de situações assim que a memória deveria funcionar como vacina. Mas
memória também pode ser perdida. E quando uma geração deixa de conhecer o preço
pago pela liberdade, torna-se mais fácil convencê-la de que liberdade é um luxo
dispensável.
É por
isso que democracia não pode ser tratada como algo definitivamente conquistado.
Democracia não é patrimônio. É exercício permanente. Todos os dias ela precisa
ser defendida. Nas instituições, na imprensa, nas escolas, nas universidades,
nas famílias, nas redes sociais. E, sobretudo, dentro de cada cidadão.
Em
Fascismo Bianco, seu livro recém lançado na Itália, Michele Ainis fala em uma
nova Resistência. A palavra é forte, porém necessária.
Mas a
Resistência de nosso tempo não precisa de armas. Precisa de consciência.
Resistência
é resistir à mentira deliberada. É resistir à desumanização do adversário.
Resistir ao racismo. Resistir à misoginia. Resistir à xenofobia. Resistir à
homofobia. Resistir ao culto ao líder. Resistir à ideia de que “os nossos”
podem tudo e “os outros” não têm direito a nada. Resistir quando um governante
tenta colocar-se acima das instituições. Resistir quando a maioria acredita que
pode esmagar a minoria. Resistir quando a violência passa a ser apresentada
como solução para problemas políticos. E, sobretudo, resistir à tentação de
trocar liberdade por uma falsa sensação de segurança.
Pois o
perigo é nos acostumarmos. O maior perigo talvez não seja o fascismo chegar: É
nos acostumarmos com ele antes de perceber que chegou. É acordarmos um dia e
descobrirmos que aquilo que ontem seria considerado absurdo tornou-se normal:
Um pouco menos de liberdade. Um pouco mais de intolerância. Um pouco mais de
vigilância. Um pouco menos de direitos. Um pouco mais de violência. Um pouco
menos de solidariedade. Um pouco mais de medo.
Até que
a sociedade inteira tenha se deslocado alguns centímetros – e esses
centímetros, somados, tenham produzido um abismo.
É assim
que democracias podem morrer. Não necessariamente com um estrondo. Às vezes,
elas morrem em silêncio. Morrem quando deixamos de defender aquilo que parecia
óbvio. Morrem quando o insulto substitui o argumento. Quando o inimigo
substitui o adversário. Quando o líder substitui a instituição. Quando o medo
substitui a liberdade. E quando o cidadão, cansado de viver em um mundo
complexo, decide entregar sua autonomia a alguém que promete resolver tudo.
A boa
notícia é que reconhecer o perigo já é uma forma de resistência. Ainda há
tempo. Mas é preciso abandonar a ingenuidade. O autoritarismo contemporâneo não
necessariamente chegará anunciando seu nome. Pode chegar prometendo segurança.
Pode chegar prometendo ordem. Pode chegar prometendo “liberdade”. Pode chegar
prometendo devolver ao país uma suposta grandeza perdida.
E pode
chegar pelo voto. É exatamente por isso que precisamos estar atentos, no
momento em que uma nova eleição se aproxima. Porque o fascismo de hoje talvez
não queira destruir a democracia de fora. Talvez queira ocupá-la por dentro.
E há
uma frase de Italo Calvino que deveria permanecer acesa em nossas mentes como
um sinal de alerta: em meio ao inferno, é preciso procurar aquilo que ainda não
é inferno – reconhecê-lo, preservá-lo e dar-lhe espaço.
Talvez
seja essa a grande tarefa política de nossa geração. Reconhecer a liberdade
enquanto ainda somos livres. Porque depois que ela desaparecer, poderemos
descobrir, tarde demais, que não percebemos quando começou a morrer.
• Crise no STF: prioridade é a guerra
contra o fascismo. Por Bepe Damasco
Os
comentaristas da Globo ignoram o fato de que seu queridinho André Mendonça
afrontou o rito e a lei ao expor seu colega Alexandre de Moraes à execração
pública.
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Mas
apontam o relatório da Polícia Federal sobre a parcialidade política de André
Mendonça como uma peça imprestável, “sem valor probatório.”
Só que
para esses jornalistas o relatório que levanta suspeitas contra Moraes merece
todo crédito do mundo. Que jornalismo, meu Deus!
Abre
parênteses: o presidente Lula age como chefe de Estado e de governo e está
coberto de razão ao pregar rigorosa apuração de tudo e de todos, doa a quem
doer. Também acertam em cheio o presidente nacional do PT, Edinho Silva, e o
ex-ministro José Dirceu quando defendem uma ampla reforma do Judiciário, para
passar as nossas instituições a limpo. Fecha parênteses.
Voltando
para o aqui e agora, é importante lembrar que estamos em plena guerra contra o
fascismo. E alguém tem dúvida de que, se formos derrotados, virão com tiro,
porrada e bomba para cima da gente?
Claro
que os indícios envolvendo o ministro Alexandre de Moraes devem ser
investigados e, uma vez comprovados, que a lei seja aplicada. Contudo, não é
possível perder de vista que o inimigo das forças democráticas e progressistas
é Mendonça, militante da extrema direita travestido de juiz de corte suprema.
No
contra-ataque de Moraes, com base em investigação da PF, na qual ele pede o
enquadramento de Mendonça por crime de responsabilidade, improbidade
administrativa e abuso de poder, restam nítidas as digitais de um juiz que age
o tempo todo movido por suas preferências políticas.
O
relatório da PF, que agora tentam desmoralizar, aponta “circunstâncias
anômalas” na condução de inquéritos que investigam os escândalos do Master e do
INSS, ambos sob a batuta de Mendonça.
A PF
considera que houve viés político na produção de documentos a respeito do
Lulinha, filho mais velho do presidente Lula: “O relator tirou conclusões sem
lastro probatório envolvendo Fábio Luis da Silva e a a lobista Roberta
Luchsinger.”
Os dois
pesos e duas medidas, padrão Sérgio Moro, saltam aos olhos quando se observa o
tempo gasto pelo relator com procedimentos adotados:
Senador
Jaques Wagner (PT-BA) – mandado de busca e apreensão: 9 dias;
Senador
Ciro Nogueira (PP-PI) – mandado de busca e apreensão: 29 dias;
Cláudio
Castro (PL) – mandado de busca e apreensão: 29 dias;
Cláudio
Castro – mandado de busca e apreensão indeferido com parecer favorável da PGR:
46 dias;
Instituto
de Previdência de Maceió: mais de 53 dias.
Quero
ver a Globo desmentir esses prazos.
Fonte:
Brasil 247

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