quarta-feira, 9 de setembro de 2026

Luis Pellegrini: O fascismo mudou de roupa. E já está batendo à nossa porta

Ele não precisa mais de fardas, tanques ou marchas militares. Pode chegar pelo voto, pelas redes sociais e pela promessa de “ordem”. Seu método é corroer a democracia por dentro, transformar o adversário em inimigo e convencer os cidadãos de que liberdade demais é o problema.

Existe uma pergunta que precisamos ter coragem de fazer: e se estivermos novamente diante do fascismo – mas não formos capazes de reconhecê-lo porque ele aprendeu a se disfarçar?

O fascismo do século 21 não precisa necessariamente repetir os rituais grotescos do século 20. Não precisa de camisas negras, grandes desfiles, símbolos militares ou discursos berrados em praças lotadas.

Ele pode vestir terno. Pode falar em nome da família, da pátria, da segurança, da moralidade e até da democracia. Pode disputar eleições. Pode conquistar milhões de votos. E, depois de eleito, começar a fazer aquilo que todo projeto autoritário precisa fazer: reduzir os limites impostos ao poder.

É essa a provocadora tese do constitucionalista italiano Michele Ainis, autor de Fascismo bianco. E ela merece ser levada a sério muito além das fronteiras da Itália. Porque talvez estejamos vivendo uma das maiores disputas políticas do nosso tempo: a democracia contra sua própria deformação autoritária.

O golpe pode acontecer sem tanques. Durante décadas, aprendemos a identificar uma ditadura pela presença dos militares nas ruas, pela censura explícita, pela suspensão das eleições e pela violência do Estado. Mas o autoritarismo contemporâneo descobriu algo muito mais sofisticado: É possível destruir a democracia utilizando mecanismos democráticos.

Chega-se ao poder pelo voto. Depois, questionam-se as instituições que limitam o poder. Desacredita-se o Parlamento. Ataca-se a Justiça. Demoniza-se a imprensa. Desqualificam-se universidades. Transformam-se adversários em traidores. Acusa-se qualquer mecanismo de controle de ser uma conspiração contra a “vontade popular”. E, finalmente, estabelece-se uma ideia perigosa: se fui eleito pela maioria, tenho o direito de fazer o que quiser. Não. Essa não é a democracia. Democracia não significa apenas contar votos. Significa também limitar o poder de quem venceu.

A democracia não é uma procuração em branco. Este talvez seja o ponto que mais precisamos compreender. Uma eleição confere legitimidade para governar. Não confere licença para destruir as regras do jogo.

O voto não autoriza ninguém a abolir direitos fundamentais. Não permite perseguir minorias. Não dá ao governante poder para intimidar jornalistas. Não transforma juízes em inimigos. Não permite destruir instituições de controle. Não concede ao vencedor o direito de transformar a metade derrotada da população em cidadãos de segunda classe.

O voto legitima o governo. A Constituição limita o governo. É justamente essa tensão que sustenta a democracia. Quando um governante começa a considerar qualquer limite institucional como uma afronta pessoal, o problema já não é apenas político. É constitucional e, em última instância, civilizatório.

Primeiro vem o inimigo. Todo autoritarismo precisa de um inimigo, esta é uma regra quase universal: o estrangeiro, o imigrante, o refugiado, o comunista, o socialista, o homossexual, a feminista, o jornalista, o intelectual, o juiz, o artista, a universidade, o “globalista”, o adversário político.

A lista pode mudar conforme o país e a época, mas a função permanece a mesma: criar um “eles” responsável por tudo aquilo que atormenta o “nós”.

É uma operação política extraordinariamente eficiente. O mundo é complexo demais? Culpe-se alguém. A economia está ruim? Encontre-se um culpado. A criminalidade aumentou? Há um inimigo. As transformações culturais assustam? Há alguém conspirando contra nossos valores. A crise climática provoca ansiedade? Negue-a ou encontre um grupo responsável. A imigração cresce? Transforme o estrangeiro em ameaça. A sociedade está insegura? Prometa mão dura. O mecanismo é antigo. Mas as redes sociais lhe deram uma velocidade inédita.

O algoritmo descobriu o ódio: Aqui está uma das grandes novidades do nosso tempo. O autoritarismo encontrou nas plataformas digitais uma máquina extraordinária de amplificação. A indignação gera cliques. A mentira gera compartilhamentos. A humilhação produz audiência. A agressividade cria engajamento.

O algoritmo não pergunta se uma informação é verdadeira ou falsa antes de premiá-la com alcance. Seu critério fundamental é outro: atenção. E nada captura mais atenção do que o medo e o ódio. Estamos, portanto, diante de uma combinação explosiva: medo social + ressentimento político + desinformação digital + culto ao líder.

O resultado dessa equação pode ser devastador. Porque uma população permanentemente submetida à sensação de ameaça começa a aceitar soluções que, em condições normais, rejeitaria. Começa a desejar o homem forte. Começa a desconfiar das instituições. Começa a considerar direitos fundamentais como privilégios. Começa a achar que liberdade é sinônimo de desordem. E começa a pedir exatamente aquilo que poderá destruí-la.

O autoritarismo, todos nós sabemos, começa pelos mais fracos. Mas há outro sinal que deveria nos preocupar. O primeiro alvo do autoritarismo quase sempre é quem tem menos capacidade de reação: o pobre, o preso, o imigrante, a população de rua, a mulher vítima de violência, a criança, o idoso, as minorias. Todos aqueles, enfim, que não possuem poder político e/ou econômico-financeiro suficiente para se defender.

Uma democracia pode ser medida por seus discursos sobre liberdade. Mas pode ser julgada, de maneira muito mais honesta e correta, pela maneira como trata os vulneráveis.

É fácil defender direitos quando se está no topo. O verdadeiro teste acontece quando o outro está por baixo. Quando a sociedade começa a considerar algumas pessoas menos dignas de direitos do que outras, a democracia começa a apodrecer.

Forte com os fracos, fraco com os fortes. Theodor Adorno chamou de “personalidade autoritária” um tipo humano particularmente perigoso: aquele que é forte com os fracos e submisso diante dos fortes.

Esse tipo humano não desapareceu. Pelo contrário, talvez esteja encontrando hoje um ambiente particularmente favorável para a satisfação da sua paranoia de poder. É o indivíduo que exige punição brutal para o pequeno infrator, mas tolera os crimes dos poderosos. Que pede liberdade absoluta para si e censura para o adversário. Que considera seus próprios preconceitos “opiniões” e as opiniões alheias “ameaças”. Que exige respeito quando fala, mas considera legítimo humilhar quem discorda.

O autoritarismo político é, muitas vezes, a expressão institucionalizada de uma violência que já existia dentro da sociedade. Por isso, combater o autoritarismo não significa apenas trocar governantes. Significa mudar uma cultura.

O Brasil conhece esse filme. O Brasil não precisa procurar no passado distante exemplos de como uma democracia pode ser corroída. Nossa história é marcada por golpes, ditaduras, censura, perseguição política, violência de Estado e rupturas institucionais.

É diante de situações assim que a memória deveria funcionar como vacina. Mas memória também pode ser perdida. E quando uma geração deixa de conhecer o preço pago pela liberdade, torna-se mais fácil convencê-la de que liberdade é um luxo dispensável.

É por isso que democracia não pode ser tratada como algo definitivamente conquistado. Democracia não é patrimônio. É exercício permanente. Todos os dias ela precisa ser defendida. Nas instituições, na imprensa, nas escolas, nas universidades, nas famílias, nas redes sociais. E, sobretudo, dentro de cada cidadão.

Em Fascismo Bianco, seu livro recém lançado na Itália, Michele Ainis fala em uma nova Resistência. A palavra é forte, porém necessária.

Mas a Resistência de nosso tempo não precisa de armas. Precisa de consciência.

Resistência é resistir à mentira deliberada. É resistir à desumanização do adversário. Resistir ao racismo. Resistir à misoginia. Resistir à xenofobia. Resistir à homofobia. Resistir ao culto ao líder. Resistir à ideia de que “os nossos” podem tudo e “os outros” não têm direito a nada. Resistir quando um governante tenta colocar-se acima das instituições. Resistir quando a maioria acredita que pode esmagar a minoria. Resistir quando a violência passa a ser apresentada como solução para problemas políticos. E, sobretudo, resistir à tentação de trocar liberdade por uma falsa sensação de segurança.

Pois o perigo é nos acostumarmos. O maior perigo talvez não seja o fascismo chegar: É nos acostumarmos com ele antes de perceber que chegou. É acordarmos um dia e descobrirmos que aquilo que ontem seria considerado absurdo tornou-se normal: Um pouco menos de liberdade. Um pouco mais de intolerância. Um pouco mais de vigilância. Um pouco menos de direitos. Um pouco mais de violência. Um pouco menos de solidariedade. Um pouco mais de medo.

Até que a sociedade inteira tenha se deslocado alguns centímetros – e esses centímetros, somados, tenham produzido um abismo.

É assim que democracias podem morrer. Não necessariamente com um estrondo. Às vezes, elas morrem em silêncio. Morrem quando deixamos de defender aquilo que parecia óbvio. Morrem quando o insulto substitui o argumento. Quando o inimigo substitui o adversário. Quando o líder substitui a instituição. Quando o medo substitui a liberdade. E quando o cidadão, cansado de viver em um mundo complexo, decide entregar sua autonomia a alguém que promete resolver tudo.

A boa notícia é que reconhecer o perigo já é uma forma de resistência. Ainda há tempo. Mas é preciso abandonar a ingenuidade. O autoritarismo contemporâneo não necessariamente chegará anunciando seu nome. Pode chegar prometendo segurança. Pode chegar prometendo ordem. Pode chegar prometendo “liberdade”. Pode chegar prometendo devolver ao país uma suposta grandeza perdida.

E pode chegar pelo voto. É exatamente por isso que precisamos estar atentos, no momento em que uma nova eleição se aproxima. Porque o fascismo de hoje talvez não queira destruir a democracia de fora. Talvez queira ocupá-la por dentro.

E há uma frase de Italo Calvino que deveria permanecer acesa em nossas mentes como um sinal de alerta: em meio ao inferno, é preciso procurar aquilo que ainda não é inferno – reconhecê-lo, preservá-lo e dar-lhe espaço.

Talvez seja essa a grande tarefa política de nossa geração. Reconhecer a liberdade enquanto ainda somos livres. Porque depois que ela desaparecer, poderemos descobrir, tarde demais, que não percebemos quando começou a morrer.

•        Crise no STF: prioridade é a guerra contra o fascismo. Por Bepe Damasco

Os comentaristas da Globo ignoram o fato de que seu queridinho André Mendonça afrontou o rito e a lei ao expor seu colega Alexandre de Moraes à execração pública.

Play Video

Mas apontam o relatório da Polícia Federal sobre a parcialidade política de André Mendonça como uma peça imprestável, “sem valor probatório.”

Só que para esses jornalistas o relatório que levanta suspeitas contra Moraes merece todo crédito do mundo. Que jornalismo, meu Deus!

Abre parênteses: o presidente Lula age como chefe de Estado e de governo e está coberto de razão ao pregar rigorosa apuração de tudo e de todos, doa a quem doer. Também acertam em cheio o presidente nacional do PT, Edinho Silva, e o ex-ministro José Dirceu quando defendem uma ampla reforma do Judiciário, para passar as nossas instituições a limpo. Fecha parênteses.

Voltando para o aqui e agora, é importante lembrar que estamos em plena guerra contra o fascismo. E alguém tem dúvida de que, se formos derrotados, virão com tiro, porrada e bomba para cima da gente?

Claro que os indícios envolvendo o ministro Alexandre de Moraes devem ser investigados e, uma vez comprovados, que a lei seja aplicada. Contudo, não é possível perder de vista que o inimigo das forças democráticas e progressistas é Mendonça, militante da extrema direita travestido de juiz de corte suprema.

No contra-ataque de Moraes, com base em investigação da PF, na qual ele pede o enquadramento de Mendonça por crime de responsabilidade, improbidade administrativa e abuso de poder, restam nítidas as digitais de um juiz que age o tempo todo movido por suas preferências políticas.

O relatório da PF, que agora tentam desmoralizar, aponta “circunstâncias anômalas” na condução de inquéritos que investigam os escândalos do Master e do INSS, ambos sob a batuta de Mendonça.

A PF considera que houve viés político na produção de documentos a respeito do Lulinha, filho mais velho do presidente Lula: “O relator tirou conclusões sem lastro probatório envolvendo Fábio Luis da Silva e a a lobista Roberta Luchsinger.”

Os dois pesos e duas medidas, padrão Sérgio Moro, saltam aos olhos quando se observa o tempo gasto pelo relator com procedimentos adotados:

Senador Jaques Wagner (PT-BA) – mandado de busca e apreensão: 9 dias;

Senador Ciro Nogueira (PP-PI) – mandado de busca e apreensão: 29 dias;

Cláudio Castro (PL) – mandado de busca e apreensão: 29 dias;

Cláudio Castro – mandado de busca e apreensão indeferido com parecer favorável da PGR: 46 dias;

Instituto de Previdência de Maceió: mais de 53 dias.

Quero ver a Globo desmentir esses prazos.

 

Fonte: Brasil 247

 

Nenhum comentário: