quarta-feira, 9 de setembro de 2026

Homofobia não se combate com racismo

Sobre o caso envolvendo o ator João Victor Gonçalves, que foi atacado na rua por um streamer conhecido como GH Rell RJ, é importante deixar claro que a motivação para o “entretenimento” que ele diz oferecer aos seus seguidores foi homofóbica, sim, ainda que ele não tenha verbalizado essa intenção. Homofóbicos, assim como racistas, são covardes e nem sempre verbalizam o seu preconceito. Em ambos os casos, tanto o viés recreativo quanto a cordialidade contida na ofensa podem mascarar a real intenção.

Falando em racistas, estou vendo que alguns deles estão se aproveitando do episódio para expressar o seu preconceito a pretexto de opinião. Comentários do tipo “a skin já diz tudo” e “olha o tipo dele”, numa clara referência ao fato de o streamer ser preto e morador da periferia, não ajudam muito no combate ao preconceito sofrido pelo ator João Victor. Pelo contrário, tornam a situação ainda mais problemática, uma vez que o instrumento utilizado para combater o preconceito é outro preconceito.

Vi uma postagem em que um influencer digital resgata um vídeo antigo de GH Rell — no qual ele diz ter vendido um pacote de balas por R$ 3 mil a um turista — dizendo que “é por causa de pretos como o streamer GH que todos os pretos são vistos com desconfiança, são seguidos dentro de supermercados e que as pessoas atravessam a rua quando veem um preto vindo na mesma calçada à noite”. Ou seja, a justa indignação do influencer com o ataque sofrido por João Victor o faz acreditar que é possível sanear o esgoto do preconceito por meio de estações de tratamento tão sujas quanto as tubulações de onde ele sai. E não é.

O racismo é um projeto social e econômico que não foi estruturado com base no comportamento das pessoas pretas. Quem faz uma afirmação dessas, além de evidenciar um claro desconhecimento histórico, está associando o racismo à forma como os negros se comportam na sociedade. Uma régua que não costuma ser utilizada para medir a branquitude, que é a responsável pelos atos mais desonestos e violentos da história da humanidade. Tomemos a classe política como um exemplo.

Majoritariamente branca e herdeira dos escravocratas, seus desvios de corrupção, roubo de dinheiro público, ataques à democracia e produção de injustiças sociais por meio de políticas que favorecem aos mais ricos, por exemplo, não fazem com que as pessoas suspeitem de políticos brancos quando eles se aproximam para pedir o seu voto nas ruas ou deixem de votar neles e acreditar em suas promessas. Nem mesmo aquelas pessoas que são mais diretamente afetadas por esses “desvios” de comportamento. Pelo contrário, são essas pessoas, historicamente mais oprimidas por essa branquitude política, que seguem oferecendo aos seus algozes, através do voto, o direito de oprimi-las e violentá-las em seus direitos mais básicos.

Isso acontece porque a estrutura racista já definiu que o padrão e o privilégio são brancos. Portanto, a subjetividade das classes e das raças que não se encaixam no perfil preestabelecido como superior foi moldada para aceitar a submissão diante do padrão imposto e naturalizar os privilégios que ele detém estruturalmente. Sendo assim, os mesmos erros ou os mesmos crimes cometidos por pretos e brancos tendem a ser vistos e julgados de forma diferente. Outro exemplo que posso citar aqui é o “entretenimento” oferecido pelo extinto programa “Pânico na TV”, em que a humilhação pessoal, a homofobia, o racismo, a misoginia, entre outros crimes, eram praticados em horário nobre e em rede nacional. E foi um sucesso. Não pela minha audiência.

Quantas vezes os “repórteres” da atração perseguiram artistas e personalidades com piadas recheadas de preconceitos e brincadeiras pra lá de desrespeitosas, com a finalidade de entreter o telespectador. Abordagens semelhantes à que foi feita pelo streamer GH ao ator João Victor eram vistas como humor quando, na verdade, era apenas bullying praticado pelos integrantes do programa, usando seus personagens como disfarce. Não por coincidência, todos os ex-integrantes do “humorístico” hoje defendem ideias da extrema-direita. Principalmente, o direito de fazer piada com tudo e com todos, sob a égide da liberdade de expressão.

Na mesma linha de raciocínio, ou de sua ausência, o streamer GH Rell vestiu uma camisa da seleção brasileira para dizer amar Jair Bolsonaro, criticar a sua prisão “injusta” e ratificar o ataque feito contra João Victor, dizendo que tinha o direito de achar a sua roupa feia e de “zoar” o ator em via pública. O único erro, segundo ele, foi ter filmado a ação e permitido que alguém postasse nas redes sociais. É um “mea-culpa” aceitável para quem cometeu um crime e produziu provas da autoria contra si mesmo. Tudo isso, um dia após ter pedido desculpas. Inevitável não politizar esse tipo de comportamento, uma vez que sabemos qual segmento político o fomenta e incentiva a sua disseminação na sociedade.

Toda solidariedade ao ator João Victor, que, mesmo sendo vítima de um ataque contra a sua existência, não foi racista no seu desabafo, como vem tentando acusá-lo o streamer, após o ator ter dito que sentiu medo de ser assaltado pelos jovens que o abordaram. Sem falar no medo que João Victor deve ter sentido de sofrer uma agressão física por ser homossexual, vivendo em um país com um número absurdo de crimes cometidos por conta da orientação sexual e de gênero. Também desejo mais consciência social e letramento racial para quem deseja “advogar” contra o preconceito usando mais preconceito como jurisprudência. Um crime não se combate com outro.

 

Fonte: Por Ricardo Nêggo Tom, em Brasil 247

 

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