Homofobia não se combate com racismo
Sobre o caso envolvendo o ator João Victor
Gonçalves, que foi atacado na rua por um streamer conhecido como GH Rell RJ, é
importante deixar claro que a motivação para o “entretenimento” que ele diz
oferecer aos seus seguidores foi homofóbica, sim, ainda que ele não tenha
verbalizado essa intenção. Homofóbicos, assim como racistas, são covardes e nem
sempre verbalizam o seu preconceito. Em ambos os casos, tanto o viés recreativo
quanto a cordialidade contida na ofensa podem mascarar a real intenção.
Falando em racistas, estou vendo que alguns
deles estão se aproveitando do episódio para expressar o seu preconceito a
pretexto de opinião. Comentários do tipo “a skin já diz tudo” e “olha o tipo
dele”, numa clara referência ao fato de o streamer ser preto e morador da
periferia, não ajudam muito no combate ao preconceito sofrido pelo ator João
Victor. Pelo contrário, tornam a situação ainda mais problemática, uma vez que
o instrumento utilizado para combater o preconceito é outro preconceito.
Vi uma postagem em que um influencer digital
resgata um vídeo antigo de GH Rell — no qual ele diz ter vendido um pacote de
balas por R$ 3 mil a um turista — dizendo que “é por causa de pretos como o
streamer GH que todos os pretos são vistos com desconfiança, são seguidos
dentro de supermercados e que as pessoas atravessam a rua quando veem um preto
vindo na mesma calçada à noite”. Ou seja, a justa indignação do influencer com
o ataque sofrido por João Victor o faz acreditar que é possível sanear o esgoto
do preconceito por meio de estações de tratamento tão sujas quanto as
tubulações de onde ele sai. E não é.
O racismo é um projeto social e econômico que
não foi estruturado com base no comportamento das pessoas pretas. Quem faz uma
afirmação dessas, além de evidenciar um claro desconhecimento histórico, está
associando o racismo à forma como os negros se comportam na sociedade. Uma
régua que não costuma ser utilizada para medir a branquitude, que é a
responsável pelos atos mais desonestos e violentos da história da humanidade.
Tomemos a classe política como um exemplo.
Majoritariamente branca e herdeira dos
escravocratas, seus desvios de corrupção, roubo de dinheiro público, ataques à
democracia e produção de injustiças sociais por meio de políticas que favorecem
aos mais ricos, por exemplo, não fazem com que as pessoas suspeitem de
políticos brancos quando eles se aproximam para pedir o seu voto nas ruas ou
deixem de votar neles e acreditar em suas promessas. Nem mesmo aquelas pessoas
que são mais diretamente afetadas por esses “desvios” de comportamento. Pelo
contrário, são essas pessoas, historicamente mais oprimidas por essa
branquitude política, que seguem oferecendo aos seus algozes, através do voto,
o direito de oprimi-las e violentá-las em seus direitos mais básicos.
Isso acontece porque a estrutura racista já
definiu que o padrão e o privilégio são brancos. Portanto, a subjetividade das
classes e das raças que não se encaixam no perfil preestabelecido como superior
foi moldada para aceitar a submissão diante do padrão imposto e naturalizar os
privilégios que ele detém estruturalmente. Sendo assim, os mesmos erros ou os
mesmos crimes cometidos por pretos e brancos tendem a ser vistos e julgados de
forma diferente. Outro exemplo que posso citar aqui é o “entretenimento” oferecido
pelo extinto programa “Pânico na TV”, em que a humilhação pessoal, a homofobia,
o racismo, a misoginia, entre outros crimes, eram praticados em horário nobre e
em rede nacional. E foi um sucesso. Não pela minha audiência.
Quantas vezes os “repórteres” da atração
perseguiram artistas e personalidades com piadas recheadas de preconceitos e
brincadeiras pra lá de desrespeitosas, com a finalidade de entreter o
telespectador. Abordagens semelhantes à que foi feita pelo streamer GH ao ator
João Victor eram vistas como humor quando, na verdade, era apenas bullying
praticado pelos integrantes do programa, usando seus personagens como disfarce.
Não por coincidência, todos os ex-integrantes do “humorístico” hoje defendem
ideias da extrema-direita. Principalmente, o direito de fazer piada com tudo e
com todos, sob a égide da liberdade de expressão.
Na mesma linha de raciocínio, ou de sua
ausência, o streamer GH Rell vestiu uma camisa da seleção brasileira para dizer
amar Jair Bolsonaro, criticar a sua prisão “injusta” e ratificar o ataque feito
contra João Victor, dizendo que tinha o direito de achar a sua roupa feia e de
“zoar” o ator em via pública. O único erro, segundo ele, foi ter filmado a ação
e permitido que alguém postasse nas redes sociais. É um “mea-culpa” aceitável
para quem cometeu um crime e produziu provas da autoria contra si mesmo. Tudo
isso, um dia após ter pedido desculpas. Inevitável não politizar esse tipo de
comportamento, uma vez que sabemos qual segmento político o fomenta e incentiva
a sua disseminação na sociedade.
Toda solidariedade ao ator João Victor, que,
mesmo sendo vítima de um ataque contra a sua existência, não foi racista no seu
desabafo, como vem tentando acusá-lo o streamer, após o ator ter dito que
sentiu medo de ser assaltado pelos jovens que o abordaram. Sem falar no medo
que João Victor deve ter sentido de sofrer uma agressão física por ser
homossexual, vivendo em um país com um número absurdo de crimes cometidos por
conta da orientação sexual e de gênero. Também desejo mais consciência social e
letramento racial para quem deseja “advogar” contra o preconceito usando mais
preconceito como jurisprudência. Um crime não se combate com outro.
Fonte: Por Ricardo Nêggo Tom, em Brasil 247

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