Soberania sob cerco: o Brasil entre o
tarifaço, as terras raras e a nova Doutrina Monroe
Não é exagero retórico afirmar que o Brasil
não vivia uma ameaça tão concreta à sua soberania desde 1964. Naquele ano, foi
um golpe interno articulado com o apoio de Washington que interrompeu os rumos
do país. Sessenta e dois anos depois, a pressão volta a vir de fora — mas desta
vez de forma aberta, declarada e quase administrativa: tarifas, investigações
comerciais, cobiça por minerais estratégicos e uma intervenção militar direta
no continente que reabilita, sem pudor, a lógica do “quintal” latino-americano.
O segundo governo de Donald Trump tratou de deixar claro que a América Latina
voltou a ser, para a Casa Branca, uma questão de segurança nacional dos Estados
Unidos — não um conjunto de nações soberanas.
Nada representa melhor essa ofensiva do que o
ataque ao Pix. O sistema de pagamentos instantâneos criado pelo Banco Central
brasileiro — gratuito, popular e utilizado diariamente por centenas de milhões
de cidadãos — tornou-se alvo formal de uma investigação sob a Seção 301 da Lei
de Comércio dos Estados Unidos, o mesmo instrumento historicamente empregado
para coagir países a renunciarem a políticas soberanas sob a ameaça de sanções.
O argumento oficial é técnico. As operadoras estadunidenses de cartão de crédito
alegam que a autoridade monetária favorece indevidamente o arranjo nacional.
Contudo, o que está em jogo é outro fato. É a capacidade do Brasil de
construir, à margem das bandeiras transnacionais, uma infraestrutura pública de
pagamentos que dispensa a intermediação de Visa, Mastercard e das grandes fintechs estadunidenses.
Um relatório do próprio USTR (United States Trade Representative, ou
Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos, em tradução livre),
a agência governamental dos EUA responsável por formular, negociar e executar a
política comercial internacional do país, chegou a classificar a autonomia
regulatória brasileira sobre plataformas digitais como uma “prática
irrazoável”, expondo a real natureza do incômodo: não se trata de concorrência
leal, mas de controle financeiro e tecnológico.
Some-se a isso a corrida global por minerais
críticos. O Brasil detém uma das maiores reservas de terras raras do planeta —
elementos essenciais para semicondutores, baterias, sistemas de defesa e
inteligência artificial — justamente no momento o qual Washington busca reduzir
sua vulnerabilidade em relação à cadeia produtiva chinesa. Instituições como o
Eximbank já sinalizaram a intenção de financiar projetos de lítio e terras
raras em território nacional, integrando uma estratégia mais ampla dos EUA para
garantir acesso preferencial a recursos estratégicos pelo mundo. A disputa
geopolítica hegemônica entre Washington e Pequim pelo domínio dessas cadeias de
suprimento transforma o subsolo brasileiro, mais uma vez, em alvo direto da
cobiça externa, reeditando velhos ciclos de exploração primária da história
econômica do país.
Esse cerco não seria completo sem a atuação
de setores da extrema direita brasileira ajudando a articulá-lo. Integrantes da
família Bolsonaro mantiveram uma rotina de lobby direto em Washington,
defendendo publicamente a concessão de reservas estratégicas brasileiras ao
governo americano e demandando sanções contra autoridades e instituições do
próprio país sob o pretexto de “perseguição política”. O próprio governo
estadunidense chegou a registrar, em documento oficial, que medidas tarifárias
contra exportações brasileiras foram concebidas como instrumentos de pressão
política interna. Trata-se de um caso explícito de agentes políticos nacionais
atuando para que uma potência estrangeira puna o próprio Estado em prol de um
projeto de poder particular.
Esse movimento brasileiro não é um fenômeno
isolado — ele se insere numa reconfiguração mais ampla do tabuleiro regional.
Na Argentina, Javier Milei transformou o alinhamento automático com Trump em
projeto de governo, aparecendo ao lado de Flávio Bolsonaro em atos de campanha
e tratando o apoio da Casa Branca quase como garantia de sobrevivência política
para a disputa de 2027. Na Colômbia, o governo progressista de Gustavo Petro
terminou em junho, com a vitória apertada do conservador Abelardo de la Espriella,
saudado publicamente pelo secretário de Estado Marco Rubio como um parceiro
esperado por Washington. O Peru também não escapou dessa maré conservadora. Em
uma disputa definida voto a voto por poucos milhares de sufrágios, a direitista
Keiko Fujimori superou o esquerdista Roberto Sánchez, confirmando a hegemonia
da direita na região, ainda que por uma margem mínima que escancara a profunda
polarização do país. O que esses três processos eleitorais revelam, em
conjunto, é uma América do Sul cada vez mais dividida entre governos dispostos
a alinhar-se automaticamente aos interesses de Washington e uma esquerda que
resiste, mas em terreno cada vez mais estreito.
O limite dessa lógica revela-se cruamente na
intervenção militar dos Estados Unidos na Venezuela, que culminou na captura de
Nicolás Maduro e na instalação de uma administração interina alinhada a
Washington. O desfecho imediato foi o anúncio de um acordo que confere aos EUA
participação direta na exploração das jazidas petrolíferas venezuelanas —
classificado por Trump como “o maior negócio de petróleo da história”. Diante
do mal-estar internacional, a liderança interina do país precisou vir a público
assegurar que a soberania sobre o recurso permanecia resguardada, um esforço
discursivo que apenas escancara a fragilidade dessa garantia. Analistas e a
imprensa global já nomeiam o fenômeno abertamente como Doutrina Monroe 2.0 — ou
“Doutrina Donroe”. Duzentos anos após a declaração do então presidente James
Monroe da “América para os americanos”, o receituário reaparece sem mediações:
pressão militar, coerção econômica e chantagem diplomática para alinhar
governos e capturar ativos estratégicos.
Esses episódios não são incidentes isolados;
constituem engrenagens de um mesmo mecanismo geopolítico. Um governo
estadunidense disposto a transformar tarifas em armas políticas, enquadrar
recursos naturais alheios como ativos de sua segurança interna, redesenhar
regimes vizinhos pela força econômica aliada à ameaça militar e contar com a
colaboração ativa de elites domésticas dispostas a terceirizar a soberania em
troca de ganhos conjunturais. A questão central não é retórica. Qual é a
capacidade real do Estado brasileiro e de sua sociedade civil de resistir a
essa ofensiva sem repetir as fraturas de 1964? A defesa da soberania exige a
compreensão de que a disputa ocorre simultaneamente no sistema de pagamentos,
no subsolo mineral, nas diretrizes da política externa e no processo
democrático interno. Identificar a engrenagem é o primeiro passo para
neutralizá-la.
É diante dessa conjuntura que a data de 7 de
setembro adquire um peso que ultrapassa a liturgia dos desfiles cívicos.
Celebrar a data nacional em meio a pressões tarifárias, assédio sobre recursos
minerais e intervenções armadas na região não pode ser um ato meramente
protocolar. É a oportunidade de definir se o Brasil atuará no cenário
internacional como uma nação altiva — capaz de ditar os termos de uso de suas
riquezas, proteger sua moeda e sustentar uma diplomacia autônoma — ou se
aceitará rebaixar suas escolhas soberanas às exigências de potências
estrangeiras e de seus intermediários locais. Declarada em 1822 como um ato de
ruptura, a independência nacional exige uma decisão coletiva urgente:
consolidar essa autonomia ou resignar-se à necessidade de reconquistá-la.
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Por que Brasil 'cresceu'
em novo mapa aprovado pela ONU
A União Africana venceu uma
batalha global ao conseguir que a ONU aprovasse uma resolução para
mudar o mapa do planeta.
A
Assembleia Geral da ONU votou, na sexta-feira (4/9), a favor de substituir o
mapa-múndi tradicional por um que reflita com maior precisão o tamanho da África, continente que
costuma ser retratado como menos importante na cartografia.
No novo
mapa, chamado de Equal Earth, o Brasil também aparece proporcionalmente maior
do que na projeção anterior, conhecida como Mercator.
Na
Mercator, o Brasil parece ter dimensão semelhante ao Alasca, embora o país seja
cinco vezes maior que o estado americano. No Equal Earth, o Brasil é bem maior
que o Alasca. Confira a mudança no gráfico abaixo.
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Campanha africana
A
organização que reúne todos os países africanos aderiu, há um ano, a uma
campanha para que se deixe de utilizar a projeção de Mercator nos mapas-múndi.
A
campanha, chamada Correct The Map (Corrijam o mapa), busca evitar que governos,
organizações, escolas e empresas representem o continente africano em seus
mapas como sendo menor do que realmente é.
"Pode
parecer apenas um mapa, mas na verdade não é", disse na ocasião a
vice-presidente da Comissão da União Africana, Selma Malika Haddadi, à agência
Reuters.
A
projeção de Mercator, criada no século 16 pelo cartógrafo europeu Gerardus
Mercator, mostra territórios mais próximos dos polos — como a América do Norte
e a Europa — como sendo maiores do que aqueles situados perto da linha do
Equador,
Essa
foi a solução que Mercator encontrou para um problema matemático: representar
um planeta esférico em uma superfície plana.
Nessa
projeção, o Brasil — que é cruzado pela linha do Equador — parece ter tamanho
próximo ao de territórios muito menores, mas que ficam perto dos pólos.
A
campanha Correct The Map promove a adoção de uma projeção conhecida como Equal
Earth, que reflete com maior precisão o tamanho dos territórios, reduzindo
essas distorções.
Os
mapas-múndi que seguem a projeção de Mercator são os utilizados como padrão por
aplicativos como o Google Maps e são, possivelmente, aqueles que mais moldaram
nossa imagem mental do planeta.
"Durante
mais de 450 anos, baseamos nossa compreensão da África e do mundo em um mapa
que é equivocado", afirma o site da Correct The Map.
O
movimento defende que a distorção no tamanho dos continentes no mapa é uma
questão de "poder e percepção".
A
diretora executiva da Africa No Filter, uma das organizações por trás da
campanha, classificou a projeção de Mercator como "a maior campanha de
desinformação".
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Um problema matemático
É
matematicamente impossível projetar de forma exata uma superfície curva, como a
da Terra, em uma superfície plana, como uma folha de papel ou uma tela.
Por
isso, todas as representações planas da superfície terrestre apresentam,
necessariamente, distorções. Dependendo da técnica utilizada para criá-las, o
tamanho, a forma e a localização dos continentes variam.
Os
cartógrafos estão cientes desse problema há séculos e o solucionam de acordo
com a finalidade pretendida para o mapa.
Mercator
criou sua famosa projeção — que se tornou a mais popular da história — pensando
em uma necessidade específica: a navegação.
Graças
a ela, um navegador que utilizasse seu mapa-múndi conseguia saber em que
direção seguir, com base na bússola, para ir de um ponto a outro.
O
problema da projeção de Mercator é que ela exagera o tamanho dos países à
medida que estes se afastam da linha do Equador.
Isso
ocorre porque se trata de uma projeção cilíndrica, que apresenta os meridianos
como linhas paralelas e equidistantes.
Na
realidade, porém, os meridianos convergem nos polos; ou seja, a distância entre
eles diminui à medida que se afastam do Equador.
A
distorção característica da projeção de Mercator faz com que, por exemplo, a
Groenlândia e a África pareçam ter tamanhos semelhantes, quando, na verdade, o
continente africano é cerca de 14 vezes maior. Já o Brasil, que na projeção de
Mercator parece menor que a Groenlândia, é na realidade 3,9 maior que o
território dinamarquês.
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'Um mundo justo começa com um mapa justo'
A
resolução aprovada pela Assembleia Geral da ONU foi patrocinada pelo Togo e
apoiada pela União Africana.
Ela
obteve o apoio de 164 nações, o voto contrário dos Estados Unidos e a abstenção
de seis países: Estônia, Geórgia, Lituânia, Moldávia, Sérvia e Ucrânia.
A
resolução da ONU não obriga nenhum país a adotar o novo mapa.
Antes
da votação desta sexta-feira, o ministro das Relações Exteriores do Togo,
Robert Dussey, disse à Reuters que "um mundo justo começa com um mapa
justo".
"Um
mapa nunca é neutro. Ele molda percepções e influencia a forma como se
compreende o lugar dos povos e dos continentes no mundo", disse ele
anteriormente em uma sessão informativa da ONU.
Dussey
contava com o apoio do ministro das Relações Exteriores da França, Jean-Noël
Barrot, que afirmou que o órgão francês deixaria de utilizar o mapa de
Mercator.
"Mudar
o mapa obviamente não muda o mundo. Mas corrigir uma representação que o
distorce já é um ato de verdade", disse ele.
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Não será mais possível
tornar a América grande de novo. Mesmo no mapa. Por Marcelo Zero
Parece-nos óbvio que a votação da resolução
da ONU que adotou um mapa-múndi que corrige as distorções das áreas dos países
ocasionadas pela tradicional projeção Mercator é inteiramente adequada e está
em sintonia com uma ordem mundial simétrica e multipolar. Foi um voto de
simbologia importante e significativa.
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Parece-nos também óbvio que o ridículo voto
contrário e isolado dos EUA, que classificou a iniciativa da União Africana
como algo que faria parte de um projeto ideológico muito mais amplo e radical,
que se inseriria no contexto de uma suposta “guerra cultural contra o
Ocidente”, reflete o isolamento geopolítico do governo trumpista. É simbólico
da decadência do Império.
Contudo, a afirmação de que a tradicional
projeção Mercator seria intencionalmente “eurocêntrica” não nos parece
inteiramente verdadeira, embora ela, de fato, aumente desproporcionalmente as
áreas de muitos países que estão em latitudes mais elevadas.
Mas há de se considerar que esse é um efeito
geométrico da projeção de uma esfera na superfície de um cilindro, o que mantém
os paralelos e meridianos em ângulos retos (90°). Tal projeção mantém as
distâncias exatas e é algo muito útil para a navegação, algo para o qual a
projeção Mercator foi concebida.
A projeção Mercator, agregue-se, aumenta
artificialmente as áreas que estão em latitudes
elevadas, independentemente dessas áreas estarem no Hemisfério Norte ou
Sul.
O que acontece é que no Hemisfério Norte há
muito mais áreas terrenas em latitudes elevadas do que no Hemisfério Sul. Com
efeito, no Hemisfério Sul as áreas continentais e nacionais estão muito
concentradas em latitudes mais baixas, ao contrário do que ocorre no Hemisfério
Norte.
O Brasil, por exemplo, fosse um país situado
entre as latitudes 40º e, digamos, 65º Sul, apareceria, evidentemente, muito
maior no mapa com uma projeção Mercator.
No mapa anexo, elaborado com uma projeção
Mercator entre 82º de latitude Norte e 82º de latitude Sul, vê-se claramente
que a Antártica, mesmo sendo apenas parcialmente representada, apresenta-se
como uma massa geográfica descomunal.
Mapa-Múndi com projeção Mercator (82º
Latitude Norte- 82º Latitude Sul)
De qualquer forma, o mapa-múndi adotado
praticamente por unanimidade pela ONU, embora vá distorcer distâncias e formas,
pois curvará paralelos e meridianos (é impossível projetar uma esfera em um
plano sem criar algum tipo de distorção), representará melhor os tamanhos reais
dos países e, mais ainda, a ascensão geopolítica crescente do chamado “Sul
Global” na ordem planetária em rápida mutação.
E o Império, isolado, terá de aceitar. Não
será mais possível tornar a América grande de novo. Mesmo no mapa.
Fonte: . Por Paula Coradi, no Blog da
Boitempo/BBC News/Brasil 247

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