terça-feira, 8 de setembro de 2026

Soberania sob cerco: o Brasil entre o tarifaço, as terras raras e a nova Doutrina Monroe

Não é exagero retórico afirmar que o Brasil não vivia uma ameaça tão concreta à sua soberania desde 1964. Naquele ano, foi um golpe interno articulado com o apoio de Washington que interrompeu os rumos do país. Sessenta e dois anos depois, a pressão volta a vir de fora — mas desta vez de forma aberta, declarada e quase administrativa: tarifas, investigações comerciais, cobiça por minerais estratégicos e uma intervenção militar direta no continente que reabilita, sem pudor, a lógica do “quintal” latino-americano. O segundo governo de Donald Trump tratou de deixar claro que a América Latina voltou a ser, para a Casa Branca, uma questão de segurança nacional dos Estados Unidos — não um conjunto de nações soberanas. 

Nada representa melhor essa ofensiva do que o ataque ao Pix. O sistema de pagamentos instantâneos criado pelo Banco Central brasileiro — gratuito, popular e utilizado diariamente por centenas de milhões de cidadãos — tornou-se alvo formal de uma investigação sob a Seção 301 da Lei de Comércio dos Estados Unidos, o mesmo instrumento historicamente empregado para coagir países a renunciarem a políticas soberanas sob a ameaça de sanções. O argumento oficial é técnico. As operadoras estadunidenses de cartão de crédito alegam que a autoridade monetária favorece indevidamente o arranjo nacional. Contudo, o que está em jogo é outro fato. É a capacidade do Brasil de construir, à margem das bandeiras transnacionais, uma infraestrutura pública de pagamentos que dispensa a intermediação de Visa, Mastercard e das grandes fintechs estadunidenses. Um relatório do próprio USTR (United States Trade Representative, ou Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos, em tradução livre), a agência governamental dos EUA responsável por formular, negociar e executar a política comercial internacional do país, chegou a classificar a autonomia regulatória brasileira sobre plataformas digitais como uma “prática irrazoável”, expondo a real natureza do incômodo: não se trata de concorrência leal, mas de controle financeiro e tecnológico. 

Some-se a isso a corrida global por minerais críticos. O Brasil detém uma das maiores reservas de terras raras do planeta — elementos essenciais para semicondutores, baterias, sistemas de defesa e inteligência artificial — justamente no momento o qual Washington busca reduzir sua vulnerabilidade em relação à cadeia produtiva chinesa. Instituições como o Eximbank já sinalizaram a intenção de financiar projetos de lítio e terras raras em território nacional, integrando uma estratégia mais ampla dos EUA para garantir acesso preferencial a recursos estratégicos pelo mundo. A disputa geopolítica hegemônica entre Washington e Pequim pelo domínio dessas cadeias de suprimento transforma o subsolo brasileiro, mais uma vez, em alvo direto da cobiça externa, reeditando velhos ciclos de exploração primária da história econômica do país. 

Esse cerco não seria completo sem a atuação de setores da extrema direita brasileira ajudando a articulá-lo. Integrantes da família Bolsonaro mantiveram uma rotina de lobby direto em Washington, defendendo publicamente a concessão de reservas estratégicas brasileiras ao governo americano e demandando sanções contra autoridades e instituições do próprio país sob o pretexto de “perseguição política”. O próprio governo estadunidense chegou a registrar, em documento oficial, que medidas tarifárias contra exportações brasileiras foram concebidas como instrumentos de pressão política interna. Trata-se de um caso explícito de agentes políticos nacionais atuando para que uma potência estrangeira puna o próprio Estado em prol de um projeto de poder particular. 

Esse movimento brasileiro não é um fenômeno isolado — ele se insere numa reconfiguração mais ampla do tabuleiro regional. Na Argentina, Javier Milei transformou o alinhamento automático com Trump em projeto de governo, aparecendo ao lado de Flávio Bolsonaro em atos de campanha e tratando o apoio da Casa Branca quase como garantia de sobrevivência política para a disputa de 2027. Na Colômbia, o governo progressista de Gustavo Petro terminou em junho, com a vitória apertada do conservador Abelardo de la Espriella, saudado publicamente pelo secretário de Estado Marco Rubio como um parceiro esperado por Washington. O Peru também não escapou dessa maré conservadora. Em uma disputa definida voto a voto por poucos milhares de sufrágios, a direitista Keiko Fujimori superou o esquerdista Roberto Sánchez, confirmando a hegemonia da direita na região, ainda que por uma margem mínima que escancara a profunda polarização do país. O que esses três processos eleitorais revelam, em conjunto, é uma América do Sul cada vez mais dividida entre governos dispostos a alinhar-se automaticamente aos interesses de Washington e uma esquerda que resiste, mas em terreno cada vez mais estreito. 

O limite dessa lógica revela-se cruamente na intervenção militar dos Estados Unidos na Venezuela, que culminou na captura de Nicolás Maduro e na instalação de uma administração interina alinhada a Washington. O desfecho imediato foi o anúncio de um acordo que confere aos EUA participação direta na exploração das jazidas petrolíferas venezuelanas — classificado por Trump como “o maior negócio de petróleo da história”. Diante do mal-estar internacional, a liderança interina do país precisou vir a público assegurar que a soberania sobre o recurso permanecia resguardada, um esforço discursivo que apenas escancara a fragilidade dessa garantia. Analistas e a imprensa global já nomeiam o fenômeno abertamente como Doutrina Monroe 2.0 — ou “Doutrina Donroe”. Duzentos anos após a declaração do então presidente James Monroe da “América para os americanos”, o receituário reaparece sem mediações: pressão militar, coerção econômica e chantagem diplomática para alinhar governos e capturar ativos estratégicos. 

Esses episódios não são incidentes isolados; constituem engrenagens de um mesmo mecanismo geopolítico. Um governo estadunidense disposto a transformar tarifas em armas políticas, enquadrar recursos naturais alheios como ativos de sua segurança interna, redesenhar regimes vizinhos pela força econômica aliada à ameaça militar e contar com a colaboração ativa de elites domésticas dispostas a terceirizar a soberania em troca de ganhos conjunturais. A questão central não é retórica.  Qual é a capacidade real do Estado brasileiro e de sua sociedade civil de resistir a essa ofensiva sem repetir as fraturas de 1964? A defesa da soberania exige a compreensão de que a disputa ocorre simultaneamente no sistema de pagamentos, no subsolo mineral, nas diretrizes da política externa e no processo democrático interno. Identificar a engrenagem é o primeiro passo para neutralizá-la. 

É diante dessa conjuntura que a data de 7 de setembro adquire um peso que ultrapassa a liturgia dos desfiles cívicos. Celebrar a data nacional em meio a pressões tarifárias, assédio sobre recursos minerais e intervenções armadas na região não pode ser um ato meramente protocolar. É a oportunidade de definir se o Brasil atuará no cenário internacional como uma nação altiva — capaz de ditar os termos de uso de suas riquezas, proteger sua moeda e sustentar uma diplomacia autônoma — ou se aceitará rebaixar suas escolhas soberanas às exigências de potências estrangeiras e de seus intermediários locais. Declarada em 1822 como um ato de ruptura, a independência nacional exige uma decisão coletiva urgente: consolidar essa autonomia ou resignar-se à necessidade de reconquistá-la.

¨      Por que Brasil 'cresceu' em novo mapa aprovado pela ONU

A União Africana venceu uma batalha global ao conseguir que a ONU aprovasse uma resolução para mudar o mapa do planeta.

A Assembleia Geral da ONU votou, na sexta-feira (4/9), a favor de substituir o mapa-múndi tradicional por um que reflita com maior precisão o tamanho da África, continente que costuma ser retratado como menos importante na cartografia.

No novo mapa, chamado de Equal Earth, o Brasil também aparece proporcionalmente maior do que na projeção anterior, conhecida como Mercator.

Na Mercator, o Brasil parece ter dimensão semelhante ao Alasca, embora o país seja cinco vezes maior que o estado americano. No Equal Earth, o Brasil é bem maior que o Alasca. Confira a mudança no gráfico abaixo.

<><> Campanha africana

A organização que reúne todos os países africanos aderiu, há um ano, a uma campanha para que se deixe de utilizar a projeção de Mercator nos mapas-múndi.

A campanha, chamada Correct The Map (Corrijam o mapa), busca evitar que governos, organizações, escolas e empresas representem o continente africano em seus mapas como sendo menor do que realmente é.

"Pode parecer apenas um mapa, mas na verdade não é", disse na ocasião a vice-presidente da Comissão da União Africana, Selma Malika Haddadi, à agência Reuters.

A projeção de Mercator, criada no século 16 pelo cartógrafo europeu Gerardus Mercator, mostra territórios mais próximos dos polos — como a América do Norte e a Europa — como sendo maiores do que aqueles situados perto da linha do Equador,

Essa foi a solução que Mercator encontrou para um problema matemático: representar um planeta esférico em uma superfície plana.

Nessa projeção, o Brasil — que é cruzado pela linha do Equador — parece ter tamanho próximo ao de territórios muito menores, mas que ficam perto dos pólos.

A campanha Correct The Map promove a adoção de uma projeção conhecida como Equal Earth, que reflete com maior precisão o tamanho dos territórios, reduzindo essas distorções.

Os mapas-múndi que seguem a projeção de Mercator são os utilizados como padrão por aplicativos como o Google Maps e são, possivelmente, aqueles que mais moldaram nossa imagem mental do planeta.

"Durante mais de 450 anos, baseamos nossa compreensão da África e do mundo em um mapa que é equivocado", afirma o site da Correct The Map.

O movimento defende que a distorção no tamanho dos continentes no mapa é uma questão de "poder e percepção".

A diretora executiva da Africa No Filter, uma das organizações por trás da campanha, classificou a projeção de Mercator como "a maior campanha de desinformação".

<><> Um problema matemático

É matematicamente impossível projetar de forma exata uma superfície curva, como a da Terra, em uma superfície plana, como uma folha de papel ou uma tela.

Por isso, todas as representações planas da superfície terrestre apresentam, necessariamente, distorções. Dependendo da técnica utilizada para criá-las, o tamanho, a forma e a localização dos continentes variam.

Os cartógrafos estão cientes desse problema há séculos e o solucionam de acordo com a finalidade pretendida para o mapa.

Mercator criou sua famosa projeção — que se tornou a mais popular da história — pensando em uma necessidade específica: a navegação.

Graças a ela, um navegador que utilizasse seu mapa-múndi conseguia saber em que direção seguir, com base na bússola, para ir de um ponto a outro.

O problema da projeção de Mercator é que ela exagera o tamanho dos países à medida que estes se afastam da linha do Equador.

Isso ocorre porque se trata de uma projeção cilíndrica, que apresenta os meridianos como linhas paralelas e equidistantes.

Na realidade, porém, os meridianos convergem nos polos; ou seja, a distância entre eles diminui à medida que se afastam do Equador.

A distorção característica da projeção de Mercator faz com que, por exemplo, a Groenlândia e a África pareçam ter tamanhos semelhantes, quando, na verdade, o continente africano é cerca de 14 vezes maior. Já o Brasil, que na projeção de Mercator parece menor que a Groenlândia, é na realidade 3,9 maior que o território dinamarquês.

<><> 'Um mundo justo começa com um mapa justo'

A resolução aprovada pela Assembleia Geral da ONU foi patrocinada pelo Togo e apoiada pela União Africana.

Ela obteve o apoio de 164 nações, o voto contrário dos Estados Unidos e a abstenção de seis países: Estônia, Geórgia, Lituânia, Moldávia, Sérvia e Ucrânia.

A resolução da ONU não obriga nenhum país a adotar o novo mapa.

Antes da votação desta sexta-feira, o ministro das Relações Exteriores do Togo, Robert Dussey, disse à Reuters que "um mundo justo começa com um mapa justo".

"Um mapa nunca é neutro. Ele molda percepções e influencia a forma como se compreende o lugar dos povos e dos continentes no mundo", disse ele anteriormente em uma sessão informativa da ONU.

Dussey contava com o apoio do ministro das Relações Exteriores da França, Jean-Noël Barrot, que afirmou que o órgão francês deixaria de utilizar o mapa de Mercator.

"Mudar o mapa obviamente não muda o mundo. Mas corrigir uma representação que o distorce já é um ato de verdade", disse ele.

¨      Não será mais possível tornar a América grande de novo. Mesmo no mapa. Por Marcelo Zero

Parece-nos óbvio que a votação da resolução da ONU que adotou um mapa-múndi que corrige as distorções das áreas dos países ocasionadas pela tradicional projeção Mercator é inteiramente adequada e está em sintonia com uma ordem mundial simétrica e multipolar. Foi um voto de simbologia importante e significativa.

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Parece-nos também óbvio que o ridículo voto contrário e isolado dos EUA, que classificou a iniciativa da União Africana como algo que faria parte de um projeto ideológico muito mais amplo e radical, que se inseriria no contexto de uma suposta “guerra cultural contra o Ocidente”, reflete o isolamento geopolítico do governo trumpista. É simbólico da decadência do Império.

Contudo, a afirmação de que a tradicional projeção Mercator seria intencionalmente “eurocêntrica” não nos parece inteiramente verdadeira, embora ela, de fato, aumente desproporcionalmente as áreas de muitos países que estão em latitudes mais elevadas.

Mas há de se considerar que esse é um efeito geométrico da projeção de uma esfera na superfície de um cilindro, o que mantém os paralelos e meridianos em ângulos retos (90°). Tal projeção mantém as distâncias exatas e é algo muito útil para a navegação, algo para o qual a projeção Mercator foi concebida.

A projeção Mercator, agregue-se, aumenta artificialmente as áreas que estão em latitudes elevadas, independentemente dessas áreas estarem no Hemisfério Norte ou Sul. 

O que acontece é que no Hemisfério Norte há muito mais áreas terrenas em latitudes elevadas do que no Hemisfério Sul. Com efeito, no Hemisfério Sul as áreas continentais e nacionais estão muito concentradas em latitudes mais baixas, ao contrário do que ocorre no Hemisfério Norte. 

O Brasil, por exemplo, fosse um país situado entre as latitudes 40º e, digamos, 65º Sul, apareceria, evidentemente, muito maior no mapa com uma projeção Mercator.

No mapa anexo, elaborado com uma projeção Mercator entre 82º de latitude Norte e 82º de latitude Sul, vê-se claramente que a Antártica, mesmo sendo apenas parcialmente representada, apresenta-se como uma massa geográfica descomunal.

Mapa-Múndi com projeção Mercator (82º Latitude Norte- 82º Latitude Sul)

De qualquer forma, o mapa-múndi adotado praticamente por unanimidade pela ONU, embora vá distorcer distâncias e formas, pois curvará paralelos e meridianos (é impossível projetar uma esfera em um plano sem criar algum tipo de distorção), representará melhor os tamanhos reais dos países e, mais ainda, a ascensão geopolítica crescente do chamado “Sul Global” na ordem planetária em rápida mutação.

E o Império, isolado, terá de aceitar. Não será mais possível tornar a América grande de novo. Mesmo no mapa.

 

Fonte: . Por Paula Coradi, no Blog da Boitempo/BBC News/Brasil 247

 

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