O próximo ciclo do otimismo brasileiro
Para
quem trabalha com escrita ativa, ou vive ativamente dela, existe um dilema
recorrente: como dizer a mesma coisa, de várias formas? Em política econômica e
de desenvolvimento, a repetição disfarçada de novidade é um recurso usual. O
analista de arquibancada, que não tem posição a defender nem mandato a
justificar, pode ao menos observar o jogo com alguma distância.
E o que
se observa, no texto “O próximo ciclo do
planejamento brasileiro”, de Marcio Pochmann, publicado recentemente no
site A Terra é Redonda, é um recurso bastante engenhoso: adaptar velhas
lições a situações novas, permitindo a mudança de assunto na manutenção do
propósito. O problema é que, em determinado momento, o pênalti vai por cima do travessão. E às vezes
para fora do estádio.
Aqui, é necessário darmos um passo atrás.
Marcio Pochmann tem inúmeros serviços prestados à academia, ao conhecimento e
às políticas públicas. Não é apenas um grande intelectual e pensador da
realidade brasileira: ele botou a mão na massa, no governo, com uma trajetória
pelo IPEA e pelo IBGE que causa inveja a uma base bastante alta da pirâmide à
qual pertence. Estamos perguntando aqui como passageiros do veículo para quem
temos dificuldade de imaginar alguém melhor ao volante.
O argumento central do texto é construído em
quatro movimentos. O primeiro deles é histórico-filosófico: a transformação das
temporalidades sociais, da sociedade agrária à era digital, torna insuficiente
o Estado que opera apenas sobre o “presente do passado”. Para sustentar esse
ponto, mobilizam-se Edward P. Thompson e Hartmut Rosa. São referências reais e
pertinentes.
E. P. Thompson, em “Time, work-discipline,
and industrial capitalism” (Past & Present, no. 38,
1967), demonstrou como a disciplina do tempo fabril substituiu progressivamente
o tempo orientado por tarefas pelo tempo medido pelo relógio, constituindo uma
forma de dominação específica da sociedade capitalista industrial.
Hartmut Rosa, em Social acceleration:
a new theory of modernity (Columbia University Press, 2013), argumenta
que a aceleração técnica, a aceleração da mudança social e a aceleração do
ritmo de vida produzem formas de alienação que não se resolvem com mais
velocidade, mas com sua desaceleração deliberada. O problema não está nas
referências. Está no que se faz com elas.
Usar E. P. Thompson para recomendar uma
disciplina mais sofisticada do tempo estatal é uma operação de mão invertida: o
autor descreveu a imposição do tempo como dominação, não como modelo a ser
aperfeiçoado. Usar Rosa para argumentar em favor de um Estado mais rápido e
preditivo é ainda mais paradoxal: a aceleração social, para Hartmut Rosa, é o
problema, não a solução. Dizer a mesma coisa de várias formas é legítimo; mas
quando as formas convocadas contradizem o propósito que as convoca, chegamos ao
limite do recurso retórico. O coração do torcedor não sustenta a cabeça do
analista.
O segundo movimento é epidemiológico e
demográfico. Dados reais do IBGE sobre a saúde mental dos adolescentes, os
impactos das enchentes de 2024 no Rio Grande do Sul, o envelhecimento
estrutural da população e a transição epidemiológica são apresentados para
caracterizar uma ruptura na lógica das políticas públicas.
Nenhum pesquisador sério contestaria a
relevância desses fenômenos. A transição de um padrão de morbimortalidade
dominado por doenças infecciosas para outro dominado por doenças crônicas não
transmissíveis é documentada, no caso brasileiro, ao menos desde os anos 1990,
e a literatura de saúde coletiva – de Sérgio Arouca a Paulo Paim – vem
discutindo suas implicações para o sistema de saúde há décadas. O
envelhecimento estrutural da população, igualmente, não é novidade para os
demógrafos: as projeções do IBGE já sinalizavam essa tendência desde os anos
2000, e o 12o. Censo Demográfico apenas confirmou o que as
estimativas intercensitárias já anunciavam.
A questão relevante, portanto, não é se
precisamos de mais e melhores dados sobre esses fenômenos. É por que o Brasil,
que possui um Sistema Único de Saúde, um robusto sistema de proteção social e
décadas de produção estatística de qualidade, não conseguiu traduzir o
conhecimento disponível em políticas eficazes de prevenção e cuidado.
Essa é uma pergunta de economia política, não
de engenharia da informação. Sustentar que a resposta está na construção de um
Estado preditivo dotado de inteligência estatística avançada é, novamente,
adaptar uma velha lição – a da insuficiência das políticas reativas – a uma
situação nova, mantendo o propósito de ampliar as capacidades do aparato
estatal de produção de dados. O argumento é plausível. Mas é, em certa medida,
circular.
O terceiro movimento trata da transformação
territorial. O interior brasileiro deixou de ser apenas fornecedor de
matérias-primas e abriga, crescentemente, novos polos de serviços, logística e
economia digital. A observação é correta e subestimada no debate público. A
literatura de economia regional e de geografia econômica – de Carlos Brandão
(Território e Desenvolvimento, Editora da Unicamp, 2007) à tradição do Cedeplar
– já mapeou essas dinâmicas com os instrumentos disponíveis, sem necessidade de
esperar por sistemas preditivos mais sofisticados. O problema não tem sido a
ausência de ferramentas analíticas, mas a incapacidade de traduzir o
diagnóstico em intervenção, dado o padrão historicamente concentrador do
investimento público federal e as restrições fiscais impostas às unidades
subnacionais.
Aqui, há algo que merece atenção. A
transformação territorial é apresentada como argumento para a necessidade de
estatísticas de fluxo, não apenas de estoque. A pergunta passa a ser: onde as
pessoas trabalham, estudam, consomem, para onde se deslocam. É uma pergunta
legítima e tecnicamente interessante.
Mas a resposta proposta – integração de
registros administrativos, imagens de satélite, dados digitais e inteligência
artificial – pressupõe uma capacidade institucional e fiscal que o texto não
discute, e ignora que o acesso diferencial a infraestrutura digital reproduz,
no plano dos dados, as mesmas assimetrias regionais que se pretende corrigir no
plano das políticas. Não há neutralidade nos dados que um Estado preditivo
produziria sobre um território desigual.
O quarto e último movimento é o mais
ambicioso e, a nosso juízo, o mais problemático. O texto propõe a passagem da
“estatística descritiva” para a “inteligência estatística preditiva”, com uso
de ciência de dados e inteligência artificial, como condição para um novo ciclo
de planejamento. A formulação é sedutora, e há algo de genuinamente importante
nela: a ideia de que o Estado deve agir sobre o fato gerador dos problemas, e
não apenas sobre suas consequências, está na raiz de qualquer concepção séria de
planejamento de longo prazo. Mas a sedução retórica aqui é grande, e convém não
se deixar levar.
Não há necessidade de acionar a patrulha de
plantão para reconhecer que a literatura especializada em governança de dados e
sociologia digital aponta consistentemente que o problema da inteligência
artificial aplicada ao Estado não é apenas técnico. É de poder. Shoshana Zuboff
(The age of surveillance capitalism, PublicAffairs, 2019) demonstrou
como a capacidade de antecipar comportamentos, produzida pelo acúmulo e
processamento de dados em escala, pode ser instrumentalizada para fins que nada
têm a ver com o bem-estar coletivo.
Virginia Eubanks (Automating inequality,
St. Martin’s Press, 2018) documentou como sistemas algorítmicos de previsão e
triagem, aplicados a populações vulneráveis nos Estados Unidos, tendem a
reproduzir e ampliar as desigualdades que pretendiam corrigir. O texto
reconhece, en passant, que “uma inteligência artificial sem estatística pública
de qualidade apenas reproduzirá desigualdades, vieses e assimetrias
existentes”. Mas não discute quem controlará esses sistemas, com que
finalidade, sob que supervisão democrática e com que garantias contra o uso
político das capacidades preditivas do Estado. São perguntas que não podem ser
postergadas.
O texto fecha com uma sequência de imagens
retóricas que fecham o argumento com firmeza excessiva. O Estado que não espera
a enchente para reconstruir, a doença para tratar, o envelhecimento para
cuidar, o desemprego para qualificar. Quem discordaria?
Mas governar não é antecipar tecnicamente o
futuro. É arbitrar conflitos de interesse, distribuir recursos escassos em
contextos de incerteza, negociar prioridades que frequentemente colidem e
sustentar escolhas impopulares contra pressões de curto prazo. Para isso, o
Estado precisa de dados, sim. Mas precisa, antes e sobretudo, de capacidade
política, de coerência institucional e de autonomia em relação aos interesses
que organizam o presente.
Nenhum sistema de geoinformação, por mais
sofisticado, resolve esse problema. Há também algo meio esquisito mais ao
final, parecido com uma negação da experiência histórica na formulação de
diagnósticos para o planejamento, que eu prefiro atribuir à pressa e ao meu
entendimento limitado. Marcio Pochmann não diria isso, certo?
Adaptar velhas lições – a necessidade do
planejamento, a insuficiência do Estado reativo, a centralidade da informação
para a formulação de políticas – a situações novas é um recurso legítimo e
muitas vezes produtivo. O mote da modernização estatal tem uma história longa e
uma tradição intelectual respeitável no Brasil, de Celso Furtado ao IPEA dos
anos 1970, passando pelas reformas administrativas da Nova República.
O que distingue essa tradição dos seus usos
contemporâneos é a consciência de que a capacidade do Estado de agir sobre o
futuro depende menos de seus instrumentos técnicos do que de sua sustentação
política, de sua inserção em coalizões sociais capazes de manter prioridades ao
longo do tempo e de sua imunidade relativa às pressões dos interesses de curto
prazo.
Ok, as opções não são exatamente boas. Não
vamos discutir aqui o voto. Você aí que está lendo pensando que esta crítica
nega a pertinência do planejamento estatal ou da modernização das capacidades
estatísticas de produção de dados pode partir para outro texto do clipping. Não
há nada disso aqui. O que há é a convicção de que o argumento do Estado
preditivo, tal como formulado, resolve um problema técnico para evitar um
problema político.
E que isso, precisamente, é o recurso mais
engenhoso e mais arriscado que o debate sobre planejamento pode oferecer no
momento em que vivemos. Não deveria ser um problema afirmar isso, ou reafirmar
as condições de superação do subdesenvolvimento. Está difícil, pessoal. Está
difícil.
Fonte: Por Luiz Eduardo Simões de Souza, em A
Terra é Redonda

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