quinta-feira, 10 de setembro de 2026

 

De Eduardo Cunha a André Mendonça: o golpe apenas mudou de endereço

A decisão tomada nesta terça-feira, 8 de setembro, pelo ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal, elevou a crise institucional brasileira a um novo patamar.

Mendonça determinou o afastamento preventivo de Andrei Rodrigues, diretor-geral da Polícia Federal, e de Leandro Almada, diretor de Inteligência da corporação. Também determinou investigações sobre a produção de relatórios de inteligência da PF e suspendeu a elaboração ou circulação de relatórios destinados a analisar a atuação de magistrados, integrantes da advocacia pública e da própria polícia judiciária.

O problema é que esses relatórios não são exceção. São a regra de uma Polícia Federal aparelhada pela ala lavajatista, da qual Mendonça é um dos expoentes.

A Lava Jato ensinou a polícia a fazer dossiês de tudo e de todos na República, nos moldes de Moro e da arapongagem da República de Curitiba. E o lado decente da polícia aprendeu a fazer os mesmos dossiês para se resguardar. O problema é que esse uso nunca foi combatido pelo STF e pelo PGR, Gonet. Agora, a prática cobra seu preço.

A justificativa apresentada pelo ministro é gravíssima, mas ela é comum, inclusive quando vinda de seu gabinete que, aparelhado para agir politicamente, como começamos a desconfiar, produziu relatórios similares sem ter jurisdição para tanto.

Mendonça sabia que investigava um colega sem o aval constitucional de seus pares em um Pleno. Mendonça sabe que os vazamentos de seu gabinete têm imenso poder político quando blinda o processo de Flávio e vaza o processo dos parentes e aliados do presidente Lula. Mendonça sabe que tudo isso será mais eficaz do que subir em um palanque e pregar a união do fascismo com Deus.

A movimentação de Mendonça deveria ser analisada não apenas como uma questão jurídica, mas também pelo seu potencial político. E um potencial político impulsionado por suas ligações com o Acton, um think tank universitário dos EUA que opera na guerra híbrida de interferência dos EUA nas eleições brasileiras.

Agora, a crise deixou de ser uma disputa abstrata entre ministros. Ela alcançou diretamente o comando da Polícia Federal.

A comparação com 2016 precisa ser feita com cautela, mas não pode ser descartada. Naquele processo, Eduardo Cunha foi uma peça central na abertura do impeachment de Dilma Rousseff. Assim como Cunha teria desempenhado um papel decisivo na abertura da ruptura política de 2016, Mendonça pode estar ocupando hoje uma posição estratégica na abertura de uma nova crise institucional.

Não se trata de afirmar que os dois processos são idênticos. Não são.

Em 2016, a ruptura ocorreu por meio do impeachment presidencial. Em 2026, o conflito passa pelo próprio Supremo, pela Polícia Federal e pela disputa sobre quem controla os instrumentos de investigação do Estado. Estamos diante de uma disputa jurídica dentro das instituições ou diante do início de uma nova ruptura política construída a partir delas?

Art. 10. Constitui crime realizar interceptação de comunicações telefônicas, de informática ou telemática, promover escuta ambiental ou quebrar segredo da Justiça, sem autorização judicial ou com objetivos não autorizados em lei:

Pena – reclusão, de 2 (dois) a 4 (quatro) anos, e multa.

Parágrafo único. Incorre na mesma pena a autoridade judicial que determina a execução de conduta prevista no caput deste artigo com objetivo não autorizado em lei.

Gonet e o Pleno do Supremo precisam se pronunciar sobre crimes em tese que o ministro Mendonça está cometendo, entre eles, em tese, o de abuso de autoridade e violação de interceptação telefônica.

A resposta talvez defina o Brasil de 2026 — e de 2027.

        Acusado por Moraes de ação ilegal, Mendonça apela para tom religioso

O ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) André Mendonça publicou nesta sexta-feira (4) um vídeo em que agradece o apoio recebido de líderes religiosos em meio à crise envolvendo as investigações sobre o Banco Master. Na mensagem, Mendonça afirmou que as orações e manifestações de solidariedade têm sido importantes para ajudá-lo a enfrentar o momento.

“Meus irmãos e minhas irmãs, minha palavra se dirige a vocês essencialmente para agradecer tantas mensagens de oração e de carinho. Estejam certos de que suas preces a Deus têm sido fundamentais para me sustentar e sustentar a minha família”, declarou o ministro.

Mendonça também afirmou ser grato pela generosidade e solidariedade que tem recebido e encerrou a mensagem desejando bênçãos aos religiosos e ao Brasil. “Eu louvo a Deus por sua vida, grato pela generosidade e solidariedade que tenho recebido. Que Deus os abençoe e que Deus abençoe o nosso país”, disse.

A manifestação ocorre em meio ao acirramento da crise no STF em torno do caso Banco Master. Na terça-feira (1º), Mendonça retirou o sigilo de um relatório da Polícia Federal que reúne mensagens e contatos entre o banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, e integrantes do Judiciário, entre eles o ministro Alexandre de Moraes.

Segundo as informações divulgadas, Moraes, o procurador-geral da República, Paulo Gonet, e o diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, foram mencionados por Vorcaro em mensagens apreendidas no celular do banqueiro.

Gonet questionou a validade da apuração e afirmou que a investigação seria nula por ter sido realizada sem solicitação do Ministério Público ou da própria Polícia Federal.

A crise se agravou na quinta-feira (3), quando Alexandre de Moraes encaminhou ao presidente do STF, Edson Fachin, um pedido para que fossem investigadas as condutas de Mendonça na relatoria dos casos relacionados ao Banco Master e às fraudes no INSS. Moraes apontou possíveis indícios de improbidade administrativa, abuso de autoridade, crime de responsabilidade e favorecimento de grupos políticos.

Moraes acusou Mendonça de ter interferido na condução das investigações, assumido atribuições que caberiam à direção da PF, conduzido de maneira irregular tratativas relacionadas a uma possível delação e direcionado apurações, por supostas razões pessoais e políticas, contra determinados alvos.

Nesse cenário de crescente tensão dentro do Supremo, a manifestação pública de Mendonça aos líderes religiosos expõe também a dimensão pessoal do conflito enfrentado pelo ministro, que fez questão de destacar o apoio recebido e o papel das orações para ele e sua família.

<><> Mendonça destaca papel de igrejas nas eleições

Em uma agenda pública na quinta-feira (3), Mendonça destacou o papel das instituições religiosas durante o processo eleitoral brasileiro. Na ocasião, o TSE assinou um pacto com representantes religiosos com o objetivo de promover “paz e tolerância” nas eleições.

Segundo Mendonça, a realização de eleições não depende exclusivamente da Justiça Eleitoral, das urnas ou da atuação do TSE. Para o ministro, as instituições religiosas têm papel relevante por sua capacidade de alcançar comunidades e regiões onde, segundo ele, a presença do Estado é limitada.

“Os senhores alcançam locais que o Estado brasileiro não consegue alcançar. Os senhores estão por vezes onde não há saúde, não há psicólogo, não há segurança. E os senhores são as grandes autoridades que preservam essa unidade social”, afirmou Mendonça aos representantes religiosos.

Mendonça afirmou esperar que o TSE conduza com êxito as próximas eleições, mas ressaltou que o resultado dependerá também da atuação de organizações que exercem influência direta sobre as comunidades.

“Eu espero que o TSE tenha êxito, e terá êxito nessa eleição. Mas tenho certeza de que o êxito tem como um ponto essencial a atuação das instituições que os senhores representam”, declarou.

Evangélico e pastor presbiteriano, Mendonça tem uma trajetória marcada pela atuação no meio religioso. Ele chegou ao STF em 2021, indicado pelo então presidente Jair Bolsonaro (PL), também evangélico, e recebeu apoio da ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro para ocupar a vaga. Durante o processo de indicação, Bolsonaro afirmou que buscava um ministro “terrivelmente evangélico”, expressão que passou a ser associada a Mendonça.

<><> Apoio da comunidade evangélica

André Mendonça tem recebido apoio da comunidade evangélica. Em vídeo publicado em suas redes sociais, o pastor Cláudio Duarte destaca o papel do ministro do STF.  “Às vezes esperamos que apenas uma pessoa tome uma decisão, como se fosse um salvador da pátria, um indivíduo, André Mendonça. Eu queria lembrar a todos que a responsabilidade é de todos nós”, afirmou.

O pastor defendeu que o povo brasileiro adote uma postura mais ativa diante dos acontecimentos políticos e conclamou os fiéis a se posicionarem contra o governo Lula.

“Nós estamos a um mês de uma eleição que pode definir não apenas a eleição de um presidente da República, mas o futuro da nação brasileira”, afirmou. “É importante olharmos esse momento com seriedade e nos posicionarmos contra o governo Lula”, declarou.

        E DARK HORSE, MENDONÇA?

Foi em dezembro de 2025 que a investigação do caso Master, a maior fraude do sistema financeiro brasileiro, chegou oficialmente ao Supremo Tribunal Federal (STF), quando o ministro Dias Toffoli avocou o inquérito para a Corte. Após revelações  de negócios com pessoas ligadas ao banco de Daniel Vorcaro, Toffoli deixou o caso em fevereiro e, no mês seguinte, André Mendonça assumiu a relatoria.

Em boa parte do mês de agosto, o noticiário foi tomado por vazamentos de informações do inquérito com conversas comprometedoras para Alexandre de Moraes e Paulo Gonet. Especialmente as mensagens em que Daniel Vorcaro pede a Moraes orientações antes de ser preso e a descoberta de que o ministro teria editado o contrato de advocacia de R$ 130 milhões de sua mulher com o Banco Master. Também o procurador-geral da República foi citado pelo banqueiro.

Em meio aos protestos de Moraes e Gonet pelos vazamentos, André Mendonça tirou o sigilo do inquérito na terça-feira (1º) o que manteve os dois no olho do furacão. Além disso, Mendonça determinou que Daniel Vorcaro prestasse depoimento para explicar as reclamações de que estava sofrendo ameaças da Polícia Federal na prisão e a alegação de que sua proposta de colaboração premiada não foi aceita porque pretendia delatar o diretor geral da corporação, Andrei Rodrigues.

Enquanto expõe em praça pública as suspeitas contra Moraes, Gonet e Andrei, no entanto, o relator tem comportamento bem diferente com relação à investigação do financiamento do filme Dark Horse por Daniel Vorcaro.

Quase 120 dias depois de vir a público, através de reportagem publicada no site The Intercept, a gravação em que o presidenciável Flávio Bolsonaro pede dinheiro a Vorcaro para o filme que conta a vida de seu pai, não se viu nenhum movimento relevante em relação a esse episódio.

Curiosamente, outra investigação com relatoria a cargo de Mendonça proporcionou à imprensa um vasto repertório de vazamentos sobre o relacionamento de Fábio Luiz Lula da Silva, filho do presidente de Lula, e do chefe de gabinete da Presidência da República com a lobista Roberta Luchsinger.

O caso Dark Horse continua parado, sem a prestação de contas prometida por Flávio Bolsonaro ou qualquer resposta para várias perguntas, como por exemplo: Qual o destino final do R$ 61 milhões repassados por Vorcaro? Os recursos foram desviados para atividades políticas no exterior? Por que uma produtora inexperiente foi escolhida para tratar de um filme tão caro? E várias outras.

Mendonça, que permitiu o vazamento de tantas informações do inquérito sobre Fábio Luiz e o chefe de gabinete da Presidência, parece muito pouco interessado em esclarecer os repasses de Vorcaro que foram pedidos por Flávio Bolsonaro.

Dessa forma, o relator desequilibra o jogo eleitoral, dando ao grupo bolsonarista, com quem tem alinhamento ideológico, munição para ataques na campanha, enquanto preserva o candidato do PL.

Por isso, a campanha de Lula resolveu ir ao STF para que seja retirado o sigilo dessa parte do inquérito também.

Se não o faz por conta própria, Mendonça permite à sociedade desconfiar de que sua conduta é parcial, para beneficiar um dos candidatos a presidente.

Que o sigilo seja derrubado imediatamente

 

Fonte: ICL Notícias

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