De Eduardo Cunha a André Mendonça: o golpe apenas
mudou de endereço
A decisão tomada nesta terça-feira, 8 de
setembro, pelo ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal, elevou a
crise institucional brasileira a um novo patamar.
Mendonça determinou o afastamento preventivo
de Andrei Rodrigues, diretor-geral da Polícia Federal, e de Leandro Almada,
diretor de Inteligência da corporação. Também determinou investigações sobre a
produção de relatórios de inteligência da PF e suspendeu a elaboração ou
circulação de relatórios destinados a analisar a atuação de magistrados,
integrantes da advocacia pública e da própria polícia judiciária.
O problema é que esses relatórios não são
exceção. São a regra de uma Polícia Federal aparelhada pela ala lavajatista, da
qual Mendonça é um dos expoentes.
A Lava Jato ensinou a polícia a fazer dossiês
de tudo e de todos na República, nos moldes de Moro e da arapongagem da
República de Curitiba. E o lado decente da polícia aprendeu a fazer os mesmos
dossiês para se resguardar. O problema é que esse uso nunca foi combatido pelo
STF e pelo PGR, Gonet. Agora, a prática cobra seu preço.
A justificativa apresentada pelo ministro é
gravíssima, mas ela é comum, inclusive quando vinda de seu gabinete que,
aparelhado para agir politicamente, como começamos a desconfiar, produziu
relatórios similares sem ter jurisdição para tanto.
Mendonça sabia que investigava um colega sem
o aval constitucional de seus pares em um Pleno. Mendonça sabe que os
vazamentos de seu gabinete têm imenso poder político quando blinda o processo
de Flávio e vaza o processo dos parentes e aliados do presidente Lula. Mendonça
sabe que tudo isso será mais eficaz do que subir em um palanque e pregar a
união do fascismo com Deus.
A movimentação de Mendonça deveria ser
analisada não apenas como uma questão jurídica, mas também pelo seu potencial
político. E um potencial político impulsionado por suas ligações com o Acton,
um think tank universitário dos EUA que opera na guerra híbrida de
interferência dos EUA nas eleições brasileiras.
Agora, a crise deixou de ser uma disputa
abstrata entre ministros. Ela alcançou diretamente o comando da Polícia
Federal.
A comparação com 2016 precisa ser feita com
cautela, mas não pode ser descartada. Naquele processo, Eduardo Cunha foi uma
peça central na abertura do impeachment de Dilma Rousseff. Assim como Cunha
teria desempenhado um papel decisivo na abertura da ruptura política de 2016,
Mendonça pode estar ocupando hoje uma posição estratégica na abertura de uma
nova crise institucional.
Não se trata de afirmar que os dois processos
são idênticos. Não são.
Em 2016, a ruptura ocorreu por meio do
impeachment presidencial. Em 2026, o conflito passa pelo próprio Supremo, pela
Polícia Federal e pela disputa sobre quem controla os instrumentos de
investigação do Estado. Estamos diante de uma disputa jurídica dentro das
instituições ou diante do início de uma nova ruptura política construída a
partir delas?
Art. 10. Constitui crime realizar
interceptação de comunicações telefônicas, de informática ou telemática,
promover escuta ambiental ou quebrar segredo da Justiça, sem autorização
judicial ou com objetivos não autorizados em lei:
Pena – reclusão, de 2 (dois) a 4 (quatro)
anos, e multa.
Parágrafo único. Incorre na mesma pena a
autoridade judicial que determina a execução de conduta prevista no caput deste
artigo com objetivo não autorizado em lei.
Gonet e o Pleno do Supremo precisam se
pronunciar sobre crimes em tese que o ministro Mendonça está cometendo, entre
eles, em tese, o de abuso de autoridade e violação de interceptação telefônica.
A resposta talvez defina o Brasil de 2026 — e
de 2027.
• Acusado
por Moraes de ação ilegal, Mendonça apela para tom religioso
O ministro do Supremo Tribunal Federal (STF)
André Mendonça publicou nesta sexta-feira (4) um vídeo em que agradece o apoio
recebido de líderes religiosos em meio à crise envolvendo as investigações
sobre o Banco Master. Na mensagem, Mendonça afirmou que as orações e
manifestações de solidariedade têm sido importantes para ajudá-lo a enfrentar o
momento.
“Meus irmãos e minhas irmãs, minha palavra se
dirige a vocês essencialmente para agradecer tantas mensagens de oração e de
carinho. Estejam certos de que suas preces a Deus têm sido fundamentais para me
sustentar e sustentar a minha família”, declarou o ministro.
Mendonça também afirmou ser grato pela
generosidade e solidariedade que tem recebido e encerrou a mensagem desejando
bênçãos aos religiosos e ao Brasil. “Eu louvo a Deus por sua vida, grato pela
generosidade e solidariedade que tenho recebido. Que Deus os abençoe e que Deus
abençoe o nosso país”, disse.
A manifestação ocorre em meio ao acirramento
da crise no STF em torno do caso Banco Master. Na terça-feira (1º), Mendonça
retirou o sigilo de um relatório da Polícia Federal que reúne mensagens e
contatos entre o banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, e integrantes
do Judiciário, entre eles o ministro Alexandre de Moraes.
Segundo as informações divulgadas, Moraes, o
procurador-geral da República, Paulo Gonet, e o diretor-geral da Polícia
Federal, Andrei Rodrigues, foram mencionados por Vorcaro em mensagens
apreendidas no celular do banqueiro.
Gonet questionou a validade da apuração e
afirmou que a investigação seria nula por ter sido realizada sem solicitação do
Ministério Público ou da própria Polícia Federal.
A crise se agravou na quinta-feira (3),
quando Alexandre de Moraes encaminhou ao presidente do STF, Edson Fachin, um
pedido para que fossem investigadas as condutas de Mendonça na relatoria dos
casos relacionados ao Banco Master e às fraudes no INSS. Moraes apontou
possíveis indícios de improbidade administrativa, abuso de autoridade, crime de
responsabilidade e favorecimento de grupos políticos.
Moraes acusou Mendonça de ter interferido na
condução das investigações, assumido atribuições que caberiam à direção da PF,
conduzido de maneira irregular tratativas relacionadas a uma possível delação e
direcionado apurações, por supostas razões pessoais e políticas, contra
determinados alvos.
Nesse cenário de crescente tensão dentro do
Supremo, a manifestação pública de Mendonça aos líderes religiosos expõe também
a dimensão pessoal do conflito enfrentado pelo ministro, que fez questão de
destacar o apoio recebido e o papel das orações para ele e sua família.
<><> Mendonça destaca papel de
igrejas nas eleições
Em uma agenda pública na quinta-feira (3),
Mendonça destacou o papel das instituições religiosas durante o processo
eleitoral brasileiro. Na ocasião, o TSE assinou um pacto com representantes
religiosos com o objetivo de promover “paz e tolerância” nas eleições.
Segundo Mendonça, a realização de eleições
não depende exclusivamente da Justiça Eleitoral, das urnas ou da atuação do
TSE. Para o ministro, as instituições religiosas têm papel relevante por sua
capacidade de alcançar comunidades e regiões onde, segundo ele, a presença do
Estado é limitada.
“Os senhores alcançam locais que o Estado
brasileiro não consegue alcançar. Os senhores estão por vezes onde não há
saúde, não há psicólogo, não há segurança. E os senhores são as grandes
autoridades que preservam essa unidade social”, afirmou Mendonça aos
representantes religiosos.
Mendonça afirmou esperar que o TSE conduza
com êxito as próximas eleições, mas ressaltou que o resultado dependerá também
da atuação de organizações que exercem influência direta sobre as comunidades.
“Eu espero que o TSE tenha êxito, e terá
êxito nessa eleição. Mas tenho certeza de que o êxito tem como um ponto
essencial a atuação das instituições que os senhores representam”, declarou.
Evangélico e pastor presbiteriano, Mendonça
tem uma trajetória marcada pela atuação no meio religioso. Ele chegou ao STF em
2021, indicado pelo então presidente Jair Bolsonaro (PL), também evangélico, e
recebeu apoio da ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro para ocupar a vaga.
Durante o processo de indicação, Bolsonaro afirmou que buscava um ministro
“terrivelmente evangélico”, expressão que passou a ser associada a Mendonça.
<><> Apoio da comunidade
evangélica
André Mendonça tem recebido apoio da
comunidade evangélica. Em vídeo publicado em suas redes sociais, o pastor
Cláudio Duarte destaca o papel do ministro do STF. “Às vezes esperamos que apenas uma pessoa
tome uma decisão, como se fosse um salvador da pátria, um indivíduo, André
Mendonça. Eu queria lembrar a todos que a responsabilidade é de todos nós”,
afirmou.
O pastor defendeu que o povo brasileiro adote
uma postura mais ativa diante dos acontecimentos políticos e conclamou os fiéis
a se posicionarem contra o governo Lula.
“Nós estamos a um mês de uma eleição que pode
definir não apenas a eleição de um presidente da República, mas o futuro da
nação brasileira”, afirmou. “É importante olharmos esse momento com seriedade e
nos posicionarmos contra o governo Lula”, declarou.
•
E DARK HORSE, MENDONÇA?
Foi em dezembro de 2025 que a investigação do
caso Master, a maior fraude do sistema financeiro brasileiro, chegou
oficialmente ao Supremo Tribunal Federal (STF), quando o ministro Dias Toffoli
avocou o inquérito para a Corte. Após revelações de negócios com pessoas ligadas ao banco de
Daniel Vorcaro, Toffoli deixou o caso em fevereiro e, no mês seguinte, André
Mendonça assumiu a relatoria.
Em boa parte do mês de agosto, o noticiário
foi tomado por vazamentos de informações do inquérito com conversas
comprometedoras para Alexandre de Moraes e Paulo Gonet. Especialmente as
mensagens em que Daniel Vorcaro pede a Moraes orientações antes de ser preso e
a descoberta de que o ministro teria editado o contrato de advocacia de R$ 130
milhões de sua mulher com o Banco Master. Também o procurador-geral da
República foi citado pelo banqueiro.
Em meio aos protestos de Moraes e Gonet pelos
vazamentos, André Mendonça tirou o sigilo do inquérito na terça-feira (1º) o
que manteve os dois no olho do furacão. Além disso, Mendonça determinou que
Daniel Vorcaro prestasse depoimento para explicar as reclamações de que estava
sofrendo ameaças da Polícia Federal na prisão e a alegação de que sua proposta
de colaboração premiada não foi aceita porque pretendia delatar o diretor geral
da corporação, Andrei Rodrigues.
Enquanto expõe em praça pública as suspeitas
contra Moraes, Gonet e Andrei, no entanto, o relator tem comportamento bem
diferente com relação à investigação do financiamento do filme Dark Horse por
Daniel Vorcaro.
Quase 120 dias depois de vir a público,
através de reportagem publicada no site The Intercept, a gravação em que o
presidenciável Flávio Bolsonaro pede dinheiro a Vorcaro para o filme que conta
a vida de seu pai, não se viu nenhum movimento relevante em relação a esse
episódio.
Curiosamente, outra investigação com
relatoria a cargo de Mendonça proporcionou à imprensa um vasto repertório de
vazamentos sobre o relacionamento de Fábio Luiz Lula da Silva, filho do
presidente de Lula, e do chefe de gabinete da Presidência da República com a
lobista Roberta Luchsinger.
O caso Dark Horse continua parado, sem a
prestação de contas prometida por Flávio Bolsonaro ou qualquer resposta para
várias perguntas, como por exemplo: Qual o destino final do R$ 61 milhões
repassados por Vorcaro? Os recursos foram desviados para atividades políticas
no exterior? Por que uma produtora inexperiente foi escolhida para tratar de um
filme tão caro? E várias outras.
Mendonça, que permitiu o vazamento de tantas
informações do inquérito sobre Fábio Luiz e o chefe de gabinete da Presidência,
parece muito pouco interessado em esclarecer os repasses de Vorcaro que foram
pedidos por Flávio Bolsonaro.
Dessa forma, o relator desequilibra o jogo
eleitoral, dando ao grupo bolsonarista, com quem tem alinhamento ideológico,
munição para ataques na campanha, enquanto preserva o candidato do PL.
Por isso, a campanha de Lula resolveu ir ao
STF para que seja retirado o sigilo dessa parte do inquérito também.
Se não o faz por conta própria, Mendonça
permite à sociedade desconfiar de que sua conduta é parcial, para beneficiar um
dos candidatos a presidente.
Que o sigilo seja derrubado imediatamente
Fonte: ICL Notícias
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