Servidão voluntária, bolsonarismo e eleição
A divulgação em 3 de setembro da Pesquisa
DataFolha, e em 2 de setembro da Pesquisa Quaest, recoloca na ordem do dia a
necessidade de reflexão sobre o comportamento político e eleitoral do
bolsonarismo. Mais adiante, examinaremos os números dessas Pesquisas,
realizadas antes da crise no STF, cujo impacto no eleitorado ainda não foi
medido.
Como ponto de partida, julgamos esclarecedor
reconhecer uma associação profunda entre o livro Discurso da servidão
voluntária, de Étienne de La Boétie, e o fenômeno do fanatismo político do
bolsonarismo. La Boétie oferece uma chave filosófica para pensar por que
pessoas podem aderir voluntariamente a uma autoridade e até defender aquilo que
as submete.
Escrito no século XVI, o Discurso da servidão
voluntária parte de uma pergunta aparentemente paradoxal: como um tirano, que é
apenas um homem, consegue dominar milhares ou milhões de pessoas? Para La
Boétie, a força do tirano não está apenas na violência. Ela depende
fundamentalmente da obediência dos próprios dominados. O poder se mantém porque
os indivíduos, por hábito, medo, interesse, identificação ou conformismo,
continuam oferecendo sua colaboração.
A questão decisiva deixa de ser: “Por que o
tirano consegue nos dominar?” e passa a ser: “Por que nós continuamos
obedecendo?”. É justamente aí que a reflexão pode ajudar a esclarecer o
fanatismo político contemporâneo.
No caso do bolsonarismo, torna-se evidente
que uma parte do fenômeno ultrapassa a simples concordância com propostas
políticas. Quando a identidade política se transforma em identidade pessoal e
moral, a crítica ao líder passa a ser percebida como uma agressão contra o
próprio indivíduo e contra seu grupo.
Isso produz alguns mecanismos semelhantes aos
descritos por La Boétie. Em primeiro lugar, o líder transforma-se em símbolo.
Bolsonaro deixa de ser apenas um político que pode ser avaliado por suas ações.
Para o militante fanatizado, ele representa uma série de valores –
anticomunismo, conservadorismo moral, nacionalismo, oposição à esquerda, defesa
das armas, religião etc. Assim, defender o líder passa a significar defender a
própria identidade.
Em segundo lugar, a obediência pode ser
voluntária. A servidão não precisa ser imposta diretamente pela força. Ela pode
ser produzida pela adesão emocional. O indivíduo acredita que está exercendo
sua liberdade justamente quando reproduz as posições do líder e do grupo. É o
paradoxo da “servidão voluntária”: a pessoa participa ativamente da manutenção
de uma autoridade que limita sua própria capacidade de julgamento.
Em seguida, a crítica ao líder é vista como
uma ameaça ao grupo. O fanatismo político tende a criar uma divisão entre “nós”
e “eles”. “Nós” somos os patriotas, os cidadãos de bem, os verdadeiros
brasileiros”. “Eles” são os inimigos: esquerda, comunistas, imprensa, STF,
universidades, ONGs, instituições eleitorais etc. Quando essa lógica se
consolida, fatos que contradizem o líder podem ser reinterpretados como
propaganda do inimigo. A realidade passa a ser filtrada pela fidelidade ao
grupo.
Finalmente, o hábito transforma a submissão
em normalidade. La Boétie dá grande importância ao costume. As pessoas
acostumam-se à obediência e acabam considerando natural aquilo que,
inicialmente, poderia parecer absurdo. No fanatismo político contemporâneo, a
repetição permanente de determinadas palavras de ordem, símbolos, vídeos,
acusações e narrativas pode produzir uma espécie de normalização da submissão
intelectual ao líder. Tudo isso configura um grande paradoxo que em nada
surpreenderia La Boétie – o indivíduo acredita estar lutando pela liberdade
enquanto entrega progressivamente sua capacidade de julgamento a uma
autoridade.
Assim, o problema não seria simplesmente
“obedecer a Bolsonaro”. Seria abdicar da autonomia crítica em nome da
fidelidade a Bolsonaro. Nesse sentido, a resposta à pergunta de La Boétie:
“Como pode um líder político exercer tamanha influência sobre milhões de
pessoas?”, não estaria apenas na capacidade do líder de manipular ou coagir,
mas também na participação voluntária dos próprios seguidores na construção de
sua autoridade.
A associação com La Boétie é particularmente
pertinente quando analisamos o comportamento de grupos em que a lealdade ao
líder se torna incondicional, inclusive diante de fatos que contradizem suas
próprias convicções anteriores. Um bom exemplo é o caso dos “patriotas” que
passaram a defender Donald Trump e Flávio Bolsonaro contra o Brasil, no caso
dos tarifaços e ameaças de Donald Trump ao Pix.
Mas existe ainda uma consequência mais
profunda: La Boétie desloca a discussão da personalidade do líder para a
responsabilidade dos seguidores. O tirano não é apenas aquele que manda. É
também aquele cuja autoridade é continuamente reproduzida pelos que obedecem.
Essa perspectiva permite interpretar o fanatismo bolsonarista não simplesmente
como um fenômeno de manipulação “de cima para baixo”, mas como uma relação de
mútua alimentação entre líder, seguidores, identidade coletiva, medo do inimigo
e necessidade de pertencimento.
Em síntese, para La Boétie, a dominação do
tirano depende da servidão voluntária dos dominados. No fanatismo político, a
submissão ao líder pode ser vivida paradoxalmente pelo próprio indivíduo como
exercício de liberdade.
Tendo em vista a exposição acima, torna-se
importante perguntar: adianta dialogar com o fanático bolsonarista ou ele não
assimila argumentos? No caso de um bolsonarista fanático, alguns mecanismos
podem dificultar muito a assimilação de argumentos:
(i) Identidade antes da razão: a posição
política passa a fazer parte da identidade pessoal. Criticar Bolsonaro pode ser
percebido como ataque à própria pessoa.
(ii) Raciocínio preconcebido: fatos e
argumentos são avaliados não apenas por sua consistência, mas por sua
compatibilidade com aquilo que a pessoa já acredita. As informações favoráveis
ao grupo são aceitas facilmente, e informações contrárias são rejeitadas ou
submetidas a um grau maior de desconfiança.
(iii) Bolha informacional: redes sociais e
grupos políticos podem produzir um ambiente em que praticamente toda informação
externa é previamente classificada como “esquerdista”, “comunista”, “mídia”,
“STF” etc. (iv) Crenças autorreferentes: quando uma informação contradiz a
crença, ela pode ser reinterpretada como prova de que existe uma conspiração
para esconder a “verdade”. Nesse estágio, torna-se muito difícil produzir uma
evidência que possa ser aceita como refutação.
Mas isso não significa que todo bolsonarista
é incapaz de raciocinar ou assimilar argumentos. Tudo indica que este ano
muitos votos tradicionalmente bolsonaristas irão, por desencanto, para outros
candidatos ou para abstenção e voto nulo, no primeiro e segundo turno. Trata-se
de uma parcela minoritária, mas pode ser expressiva.
É plausível que exista um voto bolsonarista
dissidente em 2026, isto é, eleitores que continuam identificados com a direita
ou com Jair Bolsonaro, mas que não estejam dispostos a votar necessariamente em
Flávio Bolsonaro. As pesquisas recentes já dão alguns sinais dessa fragmentação
– mas não permitem medir com precisão quanto desse eleitorado é efetivamente
“bolsonarista dissidente”.
Pela pesquisa AtlasIntel/Bloomberg divulgada
em 31 de agosto, Lula aparece com 43,4% no primeiro turno e Flávio Bolsonaro
com 33,7%. Pela pesquisa Quaest, divulgada em 2/9, Lula lidera no 1º. Turno com
37%, Flávio Bolsonaro tem 29% e Augusto Cury tem 10%. No segundo turno, há
empate técnico: Lula tem 42% e Flávio tem 41%. E, pela pesquisa Datafolha,
divulgada em 3/9, Lula tem 38% e Flávio tem 33% no 1º. Turno. E Cury vai a 8%.
No segundo turno, Lula tem 46% e Flávio, 44%.
Os outros nomes da direita e candidatos fora
da polarização tradicional captam parcelas menores do eleitorado. Para onde
pode ir esse voto? No primeiro turno, uma pequena parcela pode migrar para
outros candidatos da direita como Ronaldo Caiado ou Romeu Zema. São eleitores
que continuam anti-PT, mas têm menor identificação pessoal com a família
Bolsonaro.
Mas o fenômeno mais surpreendente das últimas
semanas foi a ascensão abrupta de Augusto Cury que parece ter capturado o voto
“antissistema”. Cury atingiu 10% na pesquisa Quaest de 2/9 e 8% na pesquisa
Datafolha de 3/9. Ele surge como uma alternativa para eleitores indecisos,
insatisfeitos com a polarização. Mas há suspeitas de forte financiamento por
trás dessa subida brusca, além de uso ilegal de robôs.
200 influenciadores com públicos entre 20 mil
e 50 mil seguidores, voltados a questões de fitness, gastronomia, estilo de
vida, fofocas e entretenimento, passaram a declarar voto de forma simultânea e
padronizada. Nem todos os votos de Augusto Cury são de bolsonaristas
dissidentes, mas é possível que uma parte do eleitorado de direita descontente
com Flávio tenha migrado para Cury.
Outro segmento do eleitorado pode
simplesmente deixar de votar em um candidato presidencial, contribuindo para a
abstenção, branco ou nulo. Esse comportamento é particularmente relevante
quando há baixa identificação com os candidatos. Existe ainda uma migração
potencial diretamente para Lula, embora isso seja mais difícil de medir. Seria
o caso de eleitores que foram bolsonaristas e que se desencantaram com o
candidato indicado por Jair Bolsonaro.
É importante fazer uma distinção entre
“bolsonarismo ideológico” e “voto Bolsonaro”. O primeiro tende a permanecer
fiel à família Bolsonaro. O segundo é um eleitorado mais amplo, que pode ter
votado em Jair Bolsonaro por motivos diversos, como rejeição ao PT,
antipetismo, conservadorismo, preocupação com segurança, liberalismo econômico,
identificação religiosa etc. É justamente nesse segundo grupo que pode aparecer
o voto dissidente.
Há fortes indícios de que Flávio Bolsonaro
não herdou 100% do eleitorado do pai. A própria evolução das pesquisas ao longo
de 2026 mostra oscilações importantes, enquanto candidatos como Augusto Cury
começam a captar eleitores insatisfeitos com a polarização. Assim, o “voto
bolsonarista dissidente” não é um bloco que necessariamente vai para um único
candidato. Ele provavelmente se distribuirá entre outros candidatos de direita,
candidaturas antissistema, abstenção/branco/nulo e, em menor medida, Lula.
Numa eleição bastante polarizada, com empate
técnico previsto para o segundo turno, com manobras da direita e pressão do
governo americano em favor do seu candidato Flávio Bolsonaro, salta aos olhos
que falta ao candidato Lula uma agenda propositiva que produza impacto e
desperte a esperança na população. O custo de vida pesa contra o governante e
os dados macroeconômicos favoráveis não ganham votos. Como dizia a saudosa
economista Maria da Conceição Tavares, o povo não come PIB.
Com o tarifaço e o ataque ao Pix, Donald
Trump deu de presente a Lula a defesa da soberania nacional, tema que, até
agora pelo menos, não está sendo bem explorado. Mas o primeiro dado político de
impacto imediato, por mexer diretamente com a vida das pessoas, será a
aprovação do fim da escala 6×1, estranhamente deixada pelo presidente do
Senado, Davi Alcolumbre, para depois do primeiro turno.
Um outro dado de grande importância que
causaria enorme impacto eleitoral favorável a Lula não foi ainda sequer
cogitado: o envio pelo governo Lula de um projeto abolindo as bets. Esse
projeto não seria aprovado no Congresso, mas daria a Lula o importante capital
político de defensor da família brasileira. Numa eleição apertada, isso poderia
fazer a diferença.
• Olha
o Datafolha, mermão: Flávio é o lindão que sobrou. Por Moisés Mendes
Juntem
o apelo de Nikolas Ferreira para que Vorcaro resolvesse o problema dos ‘ativos
minerários’ de um amigo, a delação do homem que entregou dinheiro de Vorcaro ao
fundo de Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos e a notícia de que André Mendonça
decidiu deixar seu instituto beneficente, onde um dia recebeu Vorcaro.
Play Video
Nada disso abala a direita e a extrema
direita. Nem a descoberta de uma quadrilha de cobradores de propinas dentro da
Secretaria da Fazenda de Tarcísio de Freitas. São miudezas num atacado de
notícias ruins que, soltas a granel, não funcionam mais.
É o que comprova o Datafolha desta
quinta-feira. Lula perde um ponto e fica com 46% e Flávio ganha um e vai a 44%,
no segundo turno, em relação à pesquisa de 21 de agosto. A diferença pró-Lula
cai de quatro para dois pontos em duas semanas.
A extrema direita vive e esperneia. Se
descobrirem hoje que Vorcaro presenteou cada filho de Bolsonaro com um jatinho,
os jornalões passarão a apresentar os modelos de cada jato. E irão chamar
especialistas para que debatam sobre qual deles recebeu o avião melhor
equipado.
Se o último repórter investigativo do Brasil
se dedicar a remexer a vida de Flávio Bolsonaro, tudo que encontrar como fatos
novos, por mais escabrosos que sejam, não mudará nada até a eleição. Repórter
investigativo não tem o status que já teve no Brasil. O que tem valor é o
colunista de vazamentos.
E tem quem se pergunte: quanto Lula pode
ganhar com a aprovação do fim da escala 6×1 e quanto Flávio pode perder com
novas informações sobre o dinheiro do Vorcaro? É provável que Lula ganhe pouco
e que Flávio não perca quase nada.
Não é nessa área dos valores éticos e morais
que as coisas irão se acomodar até a eleição. Há muito tempo não é. O eleitor à
direita não se importa com valores essenciais na avaliação de figuras públicas
das estruturas antilulistas.
Podem aparecer novos áudios em que Flávio e
Nikolas chamam Vorcaro de mermão, chefão, lindão, chegadão e patrão, usando a
linguagem das milícias, que não mudará quase nada. Podem descobrir que o
apelido Dani, usado por Nikolas, era comum entre os bolsonaristas que mordiam
Vorcaro. Não importa.
Valores não alteraram humores e sentimentos
na Argentina, nos Estados Unidos, no Chile, no Equador, em El Salvador, na
Colômbia. Todos os eleitos nesses países são figuras consideradas disruptivas,
antes de serem entendidas como fascistas.
E muitas vezes nem são vistos como
extremistas. São disruptivos amorais, negacionistas do clima, violentos,
armamentistas, anticiência, antivacina. Não importa.
O que restava de racionalidade no
envolvimento das pessoas com figuras públicas desapareceu no pântano de onde
emergem mágicos antissistema, anticasta e anti tudo isso que está aí. No
Brasil, com a particularidade do antilulismo.
Se as esquerdas conseguissem pagar milhões de
influencers para mobilizar as redes sociais contra Flávio, pouco mudaria. Podem
repetir que o filho ungido é entreguista pró-Trump, que ajudou a sabotar o
Brasil com o tarifaço, que é amigo de milicianos, que lavava dinheiro de caixa
dois e rachadinhas comprando imóveis, que é de família golpista, que é
autoritário e machista, segundo a própria madrasta, que está jogando contra o
fim da escala 6×1 e que recebeu mais de R$ 80 milhões de Vorcaro.
Flávio não deixará de ser mermão, mesmo que
as pesquisas digam que ele não era o preferidão da direita para enfrentar Lula.
Não tem a preferência, é o pior dos Bolsonaros, é fraco, é simplório e
despreparado, mas é o que tem. É o lindão por exclusão, na falta de outro mais
vistosão.
Fonte: Por Liszt Vieira, em A Terra é
Redonda/Brasil 247

Nenhum comentário:
Postar um comentário