'Ou o Supremo julga Moraes ou o Congresso
julga', diz jurista Joaquim Falcão
"A decisão que apaziguaria esse momento
é o Alexandre [de Moraes] pedir demissão, mas ele sempre dobra a aposta",
disse à BBC News Brasil o jurista Joaquim Falcão, após o ministro do Supremo
Tribunal Federal (STF) apresentar, na noite de quinta-feira (3/9), um pedido de
investigação contra seu colega de Corte, o ministro André Mendonça, por
supostos abusos na condução das investigações do Banco Master.
"É momento de tensão máxima da
democracia", constata ainda Falcão, constitucionalista e integrante da
Academia Brasileira de Letras (ABL).
O terremoto teve início na terça-feira (1/9),
quando o ministro André Mendonça retirou o sigilo de um relatório da Polícia
Federal que detalha supostas interações entre o banqueiro Daniel Vorcaro e o
ministro Alexandre de Moraes, a partir da análise do celular apreendido na
prisão de Vorcaro, em novembro de 2025.
As conversas incluem um suposto pedido do
banqueiro, em 30 de outubro de 2025, para que Moraes interferisse a seu favor
na atuação da Procuradoria-Geral da República (PGR) e da Polícia Federal. As
investigações também confirmaram que o escritório de Viviane Barci de Moraes,
esposa do ministro, mantinha um contrato de R$ 131 milhões com o Master, e que
esse documento chegou a ser editado por Moraes.
Para Joaquim Falcão, não há equivalência
entre as suspeitas que pairam sobre Moraes e as acusações que o ministro fez a
Mendonça.
"A reação do Moraes é de desespero,
porque não tem fundamento legal. A estratégia dele é dizer 'Eu sou igual a
Mendonça', o que é outrageous [absurdo]. Não existe essa equivalência de crimes
ou equivalência de ilícitos. É apenas uma estratégia para ver se faz uma
composição [com outros integrantes da Corte]".
Na sua leitura, o risco de Moraes ser
condenado em um eventual processo criminal é alto.
"Caberia pelo menos um julgamento desses
indícios [contra Moraes]. Agora, se isso vai reverter, com que tipo de processo
de acusação, de penas, eu não [sei]... Mas eu diria o seguinte: o risco de uma
penalização, se for aplicada a Constituição no sentido clássico, é muito grande
para o Alexandre".
Ao revidar a ação de Mendonça, Moraes baseou
suas acusações em outro relatório da Polícia Federal, dessa vez descrevendo
supostos crimes que o ministro teria cometido como relator dos inquéritos que
apuram as fraudes bilionárias do Master e relações suspeitas entre Vorcaro e
autoridades públicas. Os indícios, afirma, seriam de que Mendonça direcionou as
investigações, com fins políticos.
Esse relatório da PF foi feito a pedido de
Moraes, dentro do controverso inquérito das Fake News, aberto em 2019. O
documento é apócrifo, ou seja, sem assinatura dos autores, e veio com a
seguinte classificação da polícia: "sem valor probatório".
"Antes você tinha a Constituição como
normas que cercavam as decisões. Depois, você passou a ter o inquérito das Fake
News como círculo normativo que cercava as decisões. E hoje não tem nem mais a
Constituição, nem mais o Fake News, são as decisões pessoais do
Alexandre", critica Falcão.
"Então fica difícil você decidir onde o
círculo normativo não é mais nem a Constituição, nem o inquérito das Fake News.
E agora é somente 'o fi-lo porque qui-lo' do Alexandre. Ou seja, desapareceram
com as regras", reforça.
Na manhã desta sexta-feira (4/9), Fachin
determinou que a denúncia de Moraes contra Mendonça seja retirada do inquérito
das Fake News e passe para seu gabinete. Ele também abriu prazo de cinco dias
úteis para que Mendonça e a PGR se manifestem sobre o conteúdo das acusações e
sobre a "regularidade do procedimento" de Moraes.
Já em discurso ao lado do presidente Luiz
Inácio Lula da Silva, Fachin disse que o encerramento do Inquérito das Fake
News é uma meta de sua gestão e voltou a prometer respostas.
"A gravidade dos fatos não autoriza
atalhos, ao contrário, quanto maior o desafio, maior deve ser o compromisso com
a legalidade, o devido processo e as garantias constitucionais. Não haverá
precipitação, mas tampouco omissão. A resposta institucional será firme,
proporcional e rigorosa".
No dia anterior (3/9), Fachin já havia
determinado que Moraes, Mendonça, a Procuradoria-Geral da República e a Polícia
Federal se manifestem sobre as acusações contra Moraes em cinco dias. A
expectativa é que, depois disso, o caso seja julgado no plenário do STF.
Mendonça já defendeu que o assunto seja deliberado pelo plenário "de forma
pública e transparente", em sessão marcada pelo presidente do STF.
Até o momento, Fachin não convocou uma sessão
para julgar o caso — e não está claro se o fará. Quando o ministro Dias Toffoli
também foi alvo de um relatório da PF devido à venda de parte de um resort para
um fundo ligado ao Master, o caso foi resolvido em uma reunião secreta com os
dez ministros que atualmente compõem o STF.
Na ocasião, os ministros decidiram arquivar o
relatório sobre Toffoli e o ministro abriu mão da relatoria das investigações
sobre o Banco Master, que acabaram sorteadas para Mendonça.
Para Joaquim Falcão, a atitude de Fachin no
episódio envolvendo Toffoli "foi um fracasso". O jurista também
considera tímida a reação do presidente na atual crise.
"Ou o Supremo julga Alexandre, julga
Toffoli, ou o Congresso julga. Mas fechar-se para um julgamento fechado? Isso
não é democracia", disse ainda, em referência a possíveis processos de
impeachment contra ministros do STF no Senado.
Já há dezenas de pedidos para cassar Moraes
no Congresso, sobretudo apresentados por parlamentares bolsonaristas, após o
ministro conduzir o processo que resultou na condenação do ex-presidente Jair
Bolsonaro por golpe de Estado. No entanto, o presidente do Senado, Davi
Alcolumbre, nunca autorizou a abertura.
<><> Possível 'acordão' vai
estimular violência nas ruas, diz Falcão
O jurista critica também a realização de uma
sessão plenária na quarta-feira (2/9), em que os ministros se reuniram
normalmente para julgar outros processos já agendados. Na ocasião, Mendonça e
Moraes sentaram lado a lado, conforme a composição regular da Corte. Ao final,
o jornal O Globo fez uma foto em que Moraes, Fachin, Gilmar Mendes e Cristiano
Zanin conversavam aos risos.
"Eles querem passar a imagem de que está
tudo normalizado. Ou seja, a sessão de ontem foi normal. Os dois ministros
sentaram-se lado a lado. Depois, uma fotografia onde é só alegria. Não é o
momento de estarem rindo".
"A Angela Merkel [ex-chanceler alemã]
dizia que havia força na calma; isso era frase dela, muito famosa. Eu acho que
há medo na calma do Supremo", continuou.
Na sua visão, enquanto Fachin não marca o
julgamento, negociações se desenrolam nos bastidores da Corte.
"Eles precisam de tempo para uma saída
honrosa. Não somente para o Alexandre, mas para todos eles".
Caso ocorra um "acordão", ressalta,
os reflexos na sociedade serão graves. Para Falcão, a Corte é o "órgão
máximo" do país e "serve de exemplo".
"Aí [em caso de acordo] é business as
usual. A oligarquia se consolidando. Todos ficam contentes. Todos ficam sem
medos. E essa mensagem estimula a violência nas ruas, estimula a ilegalidade,
estimula a corrupção".
Em entrevista à BBC News Brasil no ano
passado, para uma reportagem sobre a trajetória de Moraes, Falcão o descreveu
como um jurista com forte base técnica e perfil obstinado.
"É um trabalhador compulsivo. Ele sempre
pretendeu ir para o Supremo", contou na ocasião.
Hoje, diz estar surpreso com as revelações.
"Pra mim, é uma surpresa absoluta. Não
tenho indícios alguns no Conselho Nacional de Justiça, nem dele, nem dela [a
esposa de Moraes], de que o rumo poderia ser esse. Eu estou surpreso e espero
que ele possa dar uma resposta que o país precisa".
<><> Escritório Barci de Moraes
nega irregularidades; Moraes não se pronuncia
Moraes ainda não se manifestou sobre as
revelações da PF.
Até o momento, não foi possível saber quais
foram as respostas do ministro às mensagens enviadas por Vorcaro, apontadas no
relatório da PF. Segundo os investigadores, os dois se comunicavam enviando
prints de celular de mensagens escritas no bloco de notas.
Essas imagens eram compartilhadas por
aplicativo de mensagem com visualização única e, por isso, o celular do
banqueiro não armazenava as respostas do ministro.
A PF, porém, conseguiu recuperar no celular
de Vorcaro as mensagens que ele escreveu e printou e conseguiu identificar o
envio dessas mensagens para o celular de Moraes.
Em uma das mensagens, enviada no dia 15 de
novembro, Vorcaro perguntou ao ministro se deveria deixar o Brasil — ele foi
preso dois dias depois, quando tentava sair do país para Dubai. No dia
seguinte, o Master foi liquidado pelo Banco Central.
Quanto à revelação de que Moraes editou o
contrato do Master com o escritório de sua esposa, o escritório Barci de Moraes
negou irregularidades.
Em nota divulgada na terça-feira (1/9), a
banca de advocacia afirmou que, diante da abrangência do pedido de contratação
de serviços advocatícios feito pelo Banco Master, seu setor de compliance
consultou o ministro Alexandre de Moraes sobre a eventual existência de
impedimentos legais para a celebração do contrato.
Segundo o escritório, a consulta foi
realizada porque Moraes é marido de Viviane Barci de Moraes, sócia-diretora da
banca.
O objetivo, de acordo com a nota, era
verificar a existência de possíveis restrições, como ações sob relatoria do
ministro no STF ou participação em julgamentos de interesse do potencial
cliente.
O escritório sustenta que não foi
identificada previsão de atuação no STF nem qualquer impedimento legal para a
contratação. A nota afirma ainda que Alexandre de Moraes "jamais julgou
qualquer causa envolvendo o Banco Master".
"Diante da inexistência de previsão de
atuação no STF ou de qualquer impedimento legal, uma vez que o Ministro
Alexandre de Moraes jamais julgou qualquer causa envolvendo o Banco Master, o
contrato foi assinado e os serviços advocatícios devidamente prestados",
diz a nota.
• 'Não
tem ninguém certo nessa história': analistas apontam crise sem precedentes e
enraizada no STF
O mais novo capítulo do embate entre os
ministros Alexandre de Moraes e André Mendonça reforçou, entre analistas, a
percepção de que o Supremo Tribunal Federal (STF) atravessa uma crise
institucional sem precedentes.
Para especialistas ouvidos pela BBC News
Brasil, o confronto coloca em xeque a imagem da Corte perante a sociedade, não
parece ter uma saída previsível e representa uma crise sem precedentes, onde
"ninguém está certo".
Thiago Bottino, professor da FGV Direito Rio,
avalia que "não tem ninguém certo nessa história". "Mas eu
também acho que não tem ninguém errado completamente", afirma.
Para a cientista política e jornalista
Grazielle Albuquerque, "aos olhos da sociedade, o tribunal parece estar
implodindo. É uma crise enraizada por dentro e não parece ter saída
previsível", diz.
Na noite de quinta-feira (3/9), Alexandre de
Moraes encaminhou ao presidente da Corte, ministro Edson Fachin, um pedido de
investigação contra o ministro André Mendonça.
Na petição, Moraes acusa o colega de,
"em tese", ter cometido improbidade administrativa, crimes de
responsabilidade e de abuso de autoridade, com quebra da "imparcialidade
judicial" e "favorecimento a determinados grupos políticos" ao
atuar como relator dos casos do escândalo do INSS ("Operações Sem
Desconto") e do Banco Master ("Operação Compliance Zero").
O magistrado também retirou o sigilo de
relatórios da inteligência da PF que detalham as supostas condutas irregulares
de Mendonça, que teria agido contra o próprio Moraes e outros colegas de
tribunal.
O contra-ataque acontece dois dias depois de
André Mendonça pedir a Fachin que leve ao plenário um pedido de investigação
contra Moraes, indicando possíveis irregularidades na relação do juiz com
Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master, também com base em material da
PF.
Nesta quinta-feira (3/9), o presidente do
Supremo, ministro Edison Fachin, deu cinco dias para que os ministros Alexandre
de Moraes e André Mendonça, além do Procurador-Geral da República, Augusto
Gonet, e o diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, se manifestem
sobre a crise aberta.
<><> Os erros dos ministros
Ao listar possíveis erros cometidos pelos
ministros do Supremo, Bottino cita o caso de Mendonça. "Tem o fato de ele
ter realizado ações durante a investigação que poderiam levar à investigação de
um ministro do Supremo, sabendo que o início dessa investigação depende de
autorização do plenário", afirma.
A conduta do magistrado tem sido criticada
por juristas que afirmam que Mendonça não poderia ter solicitado diretamente à
PF que produzisse um relatório sobre Moraes.
Em sua manifestação sobre o caso, o
procurador-geral da República, Paulo Gonet, pediu a anulação da decisão e
afirmou que Mendonça extrapolou os limites da atuação de um magistrado na
chamada fase pré-processual.
Gonet também é mencionado no relatório da PF
que aponta as supostas interações entre Moraes e Vorcaro.
Também após as revelações sobre os supostos
contatos entre Vorcaro e Moraes, o ministro André Mendonça confirmou que ele
próprio teve um encontro com o banqueiro do Banco Master, em março de 2025. Ele
disse também ter se encontrado com o advogado do empresário no mesmo mês.
Quanto a Moraes, Thiago Bottino vê questões
que exigem mais esclarecimento no caso Master e também critica que ele tenha
usado o controverso Inquérito das Fake News para apontar irregularidades do
colega.
O pedido do magistrado por uma investigação
contra o ministro André Mendonça foi feito no âmbito do Inquérito das Fake
News.
"Se o André Mendonça extrapolou as
funções dele, cometeu um abuso de autoridade, não é no Inquérito das Fake News
que isso vai ser apurado", aponta o professor da FGV Direito Rio .
"Não tem problema nenhum o Alexandre de
Moraes fazer um ofício ao Fachin dizendo: 'olha, tomei conhecimento de que o
meu colega praticou um crime e eu peço providências ao presidente da
Corte'", diz. "Esse seria o caminho próprio".
Bottino diz que há muito tempo o Inquérito
das Fake News já teria extrapolado seus limites.
O inquérito é de 2019 e foi criado de ofício,
ou seja, sem o pedido do Ministério Público, para apurar ameaça contra os
ministros do Supremo. De lá para cá, dois procuradores-gerais da República já
pediram seu encerramento, sem sucesso.
"Se esse inquérito existe até hoje, não
é responsabilidade só do Alexandre Moraes. É do plenário que ratificou a
possibilidade de ter um inquérito existindo mesmo contra a vontade do
Ministério Público", critica Bottino.
Na avaliação do especialista, Fachin tem
atuado de forma adequada diante das circunstâncias. "Fachin está numa
situação que nenhum outro presidente do STF precisou enfrentar", analisa.
O professor afirma que a estranheza causada
pela postura mais moderadora do presidente do tribunal revela uma mudança de
perspectiva sobre o papel dos ministros da Corte.
"A gente está tão acostumado que a gente
normalizou tanto essa figura do juiz 'todo poderoso', sem restrições, que
quando a gente vê o Fachin agindo quase como um árbitro ao invés de um player
principal, a gente acha estranho", completa.
"Mas o papel do juiz é ser árbitro, não
ter lado em causa nenhuma. Acho que o mais importante é tentar ressignificar o
papel do juiz no Estado Democrático Direito", afirma.
<><> Crise sem precedentes
Segundo Grazielle Albuquerque, a crise é sem
precedentes e coloca Fachin em uma situação em que nenhum outro presidente da
Corte esteve.
"Não queria estar na pele do Fachin por
nada neste mundo", diz ela, autora de um doutorado na Unicamp sobre a
relação entre o Supremo e a mídia.
Na quarta-feira (2/9), após a publicação do
relatório que aponta as supostas interações entre Moraes e Vorcaro, Edson
Fachin afirmou que iria anunciar "medidas cabíveis e necessárias" nos
próximos dias.
Em um comunicado, Fachin disse que em
momentos de especial gravidade "é dever de todos preservar a integridade
do Supremo Tribunal Federal, a autoridade de suas decisões, o respeito às suas
normas e, acima de tudo, a confiança da sociedade na instituição".
<><> 'Novela' traz efeitos
danosos para o tribunal
Para a cientista política, o Supremo está
atualmente mergulhado em duas crises ao mesmo tempo: de imagem e de
legitimidade.
A especialista vê o Supremo sendo acompanhado
pelo país como "uma novela", com efeitos danosos para o tribunal.
"Cada ministro parece ter uma agenda
própria e o Brasil acompanha a pautas sabendo seus nomes, rostos e bandeiras
públicas", diz Grazielle Albuquerque.
Isso só faria sentido, afirma a cientista
política, se os cargos do STF fossem eletivos. Por outro lado, perde-se também
a confiança nas regras e nos ritos do próprio Judiciário: a forma correta de
decidir, de seguir processo, de manter distância política.
Albuquerque também afirma que não é possível
prever um desfecho para a crise atual. Segundo ela, o STF dispõe de poucos
mecanismos eficazes para administrar conflitos dessa magnitude entre seus
próprios integrantes.
"O que se tem é impeachment, talvez seja
possível elaborar outra via, mas desenho institucional não dá muitas
possibilidades. Juridicamente é tudo muito inédito", afirma.
No desenho brasileiro, só o Senado pode votar
o impeachment de um ministro da corte.
Fonte: BBC News Brasil

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