Avança a batalha por banheiros e bebedouros
públicos
Onde uma pessoa que trabalha ou passa o dia
nas ruas consegue beber água potável? Onde pode usar um banheiro com segurança,
lavar as mãos ou tomar um banho? Perguntas aparentemente simples revelam uma
dimensão ainda pouco discutida das políticas de saneamento: o acesso à água e a
banheiros fora do domicílio.
É a partir dessa realidade que o ONDAS e o
Centro de Estudos em Saneamento Além do Domicílio (CESAD/UFBA), projeto de
extensão da Universidade Federal da Bahia, lançaram o documentário “O corpo e a
rua: limites da dignidade” e a plataforma “Quero água, quero banheiro”,
iniciativas que sensibilizam e ampliam o debate sobre o acesso à água e ao
saneamento nos espaços públicos.
O mês de agosto, marcado pela luta da
população em situação de rua, é também uma oportunidade para chamar atenção
para essa questão. Pessoas em situação de rua e trabalhadores que dependem dos
espaços públicos para exercer suas atividades estão entre os grupos mais
afetados pela ausência ou precariedade de banheiros, bebedouros, chuveiros e
outros equipamentos de apoio.
Na discussão sobre os serviços de água e
saneamento ao nível domiciliar, é consolidado que água e saneamento são
promotores e cruciais à saúde. Mas, nos espaços públicos, onde a materialização
desses serviços não é reconhecida como responsabilidade do setor, o acesso a
esses serviços por pessoas que vivem e trabalham nas ruas é totalmente
dependente de favores e assistencialismo, trazendo prejuízos evidentes à saúde
dessas pessoas. As consequências ultrapassam o desconforto. A impossibilidade
de acessar água potável, instalações sanitárias e condições adequadas de
higiene pode afetar a saúde, a alimentação, a hidratação, a higiene menstrual e
a própria permanência das pessoas no espaço urbano. Para quem vive ou trabalha
nas ruas, não se trata de uma necessidade eventual, mas de condições essenciais
para viver e exercer atividades cotidianas com dignidade.
Na perspectiva dos Direitos Humanos à Água e
ao Saneamento (DHAS), esses serviços não devem ser compreendidos como favores
ou benefícios, mas como parte das condições necessárias para a garantia de
direitos fundamentais, entre eles o direito à saúde, à cidade e à vida.
<><> O corpo e a rua
O documentário “O corpo e a rua: limites da
dignidade” reúne relatos e reflexões de pessoas que vivenciam cotidianamente
essa realidade. Trabalhadores, representantes do movimento da população em
situação de rua da Bahia e do movimento Elas por Elas. Além disso,
representantes do ONDAS, do CESAD e pesquisadores do campo do saneamento
discutem as dificuldades de acessar água e banheiros nos espaços públicos.
Ao colocar essas experiências em primeiro
plano, o documentário questiona a naturalização de uma situação que, apesar de
cotidiana, não deveria ser considerada normal: a ausência de equipamentos
básicos de água e saneamento em espaços onde milhares de pessoas vivem,
trabalham e circulam diariamente.
Carol, coordenadora do Movimento Elas por
Elas, relaciona a saúde e o acesso aos banheiros: “Dignidade pra mim é ter
acesso à água potável, é ter acesso a banheiros, é ter acesso a políticas
públicas, higiene menstrual (…) A gente perdeu uma companheira porque não teve
acesso a banheiro e ficou por mais de 12h trabalhando na rua, todos os dias, e
esse acesso era negado”, conta sobre a perda de uma companheira por agravamento
de uma infecção urinária que se deu pela baixa ingestão de água relacionada à falta
de banheiros nas ruas.
Para o mototaxista Rogério Oliveira, a falta
de água e banheiros nas ruas também é uma questão econômica: “A água é
comprada, nós temos que consumir três litros de água, que são seis garrafinhas,
e eu acho que, pra gente que ganha por conta aqui, seis garrafinhas por dia…
Não tem nem como a gente suprir essa necessidade. A gente passa dificuldade de
beber água porque não tem condições de comprar.”
Além dos relatos de Carol e Rogério, o
documentário está repleto de reflexões de autores importantes nessa discussão.
O objetivo final é contribuir para que esses equipamentos sejam reconhecidos
simultaneamente como infraestrutura sanitária, instrumento de promoção da saúde
e parte das estratégias de adaptação climática, fortalecendo que o debate sobre
cidades mais justas, inclusivas e acessíveis entre na agenda pública a partir
de um diálogo intersetorial.
<><> Quero água, quero banheiro —
um mapa coletivo
A parceria entre o ONDAS e o CESAD/UFBA
também resultou na criação de um website que reúne documentário, conteúdos
audiovisuais, reportagens e artigos científicos sobre o tema, além de
informações sobre as iniciativas do Centro de Estudos. Acesse: saneamentoalemdomicilio.com.br.
A iniciativa conta ainda com o perfil no Instagram @cesad.ufba, voltado à
comunicação científica e à divulgação das ações do projeto.
Outra frente é a plataforma colaborativa
“Quero Água, Quero Banheiro”, que tem uma aba específica no site, criada para
mapear banheiros e bebedouros disponíveis nos espaços públicos. A ferramenta
permite que qualquer pessoa consulte os locais já identificados e também
contribua com novas informações.
Quem conhece um bebedouro, banheiro público,
fraldário, chuveiro, ponto de apoio ou outro equipamento importante pode
indicar sua localização por meio do formulário disponível na plataforma. As
contribuições passam por um processo de validação, tratamento e padronização
pela equipe responsável antes de serem publicadas.
A proposta é construir, de forma coletiva,
uma rede de informações que ajude as pessoas a encontrar serviços essenciais e,
ao mesmo tempo, revele onde eles existem — e onde ainda estão ausentes.
Fonte: Por Fernanda Deister Moreira e
Washington Lima dos Santos, em Outras Palavras

Nenhum comentário:
Postar um comentário