Desertos alimentares: quando ter comida por
perto não garante alimentação saudável
Você pode morar perto de padarias,
lanchonetes e mercados e ainda ter dificuldade para encontrar frutas, verduras
e outros alimentos frescos. Para algumas pessoas, chegar a uma feira ou
supermercado pode exigir ônibus, dinheiro para o transporte e um tempo que nem
sempre cabe na rotina.
Os desertos alimentares ajudam a entender
esse cenário. O conceito considera onde os alimentos são vendidos, quais
produtos estão disponíveis e quanto uma pessoa precisa se deslocar para
encontrá-los.
A renda faz parte dessa equação, mas divide
espaço com preço, mobilidade urbana, jornada de trabalho, oferta comercial e
tempo para cozinhar. Essas condições também ajudam a explicar por que
insegurança alimentar e obesidade podem coexistir.
<><> O que são desertos
alimentares?
O conceito de desertos alimentares já aparece
na legislação brasileira. A Política Nacional de Abastecimento Alimentar
(PNAAB), estabelecida pelo decreto nº 11.820, de 2023, define dessa forma os
locais onde o acesso a alimentos in natura ou minimamente processados é escasso
ou impossível, exigindo deslocamento para outras regiões.
Esse recorte ajuda a diferenciar a existência
de alimentos no comércio da possibilidade real de acessá-los. Em áreas
classificadas como desertos alimentares, o problema está justamente na baixa
disponibilidade de opções frescas e minimamente processadas no entorno, o que
aumenta a dependência de deslocamentos para outras partes da cidade.
Um estudo publicado em 2026 na Revista de
Saúde Pública, da Universidade de São Paulo (USP), que dimensionou o fenômeno
em 91 cidades urbanas brasileiras com mais de 300 mil habitantes. O resultado
mostra que cerca de 25 milhões de pessoas viviam em desertos alimentares, 32,3%
da população das cidades analisadas. Entre inscritos no Cadastro Único
(CadÚnico) com renda per capita inferior a meio salário mínimo, a proporção
chegou a 38%.
A pesquisa também encontrou maior
concentração de municípios com baixa densidade de estabelecimentos considerados
saudáveis nas regiões Norte e Nordeste. Dentro das grandes cidades, porém, a
distribuição também é desigual: bairros de um mesmo município podem apresentar
condições diferentes de acesso.
A PNAAB reconhece essa dimensão territorial
ao incluir logística, transporte e planejamento urbano entre seus instrumentos,
além de mercados públicos e feiras livres. Na prática, isso amplia o debate
para além da renda familiar. A localização dos pontos de venda, a presença de
feiras e mercados públicos, as condições de transporte e a organização do
abastecimento também interferem na frequência e na facilidade com que a
população consegue comprar alimentos saudáveis.
<><> Nos pântanos alimentares, a
oferta também pode ser um problema
Outro conceito ajuda a entender o ambiente
alimentar. Os pântanos alimentares são definidos pelo Decreto nº 11.820 como
locais com alta concentração de estabelecimentos que vendem alimentos não
saudáveis, baratos, de alta densidade energética e baixo valor nutricional,
associada à escassez de opções saudáveis.
Nas 91 cidades analisadas pela pesquisa da
USP, aproximadamente 15 milhões de pessoas viviam em pântanos alimentares, o
equivalente a 19% da população estudada.
Os dois conceitos tratam de problemas
diferentes do ambiente alimentar. Nos desertos, determinados alimentos são
difíceis de encontrar. Nos pântanos, produtos de menor qualidade nutricional
ocupam parcela maior da oferta comercial.
A Lei Orgânica de Segurança Alimentar e
Nutricional ajuda a entender por que isso importa. Desde 2006, a legislação
define segurança alimentar como acesso regular e permanente a alimentos de
qualidade, em quantidade suficiente, sem comprometer outras necessidades
essenciais.
A insegurança alimentar, portanto, não começa
apenas quando falta comida. Ela também pode aparecer quando uma família
consegue manter a quantidade consumida, mas precisa reduzir a qualidade ou a
variedade da alimentação, além de conviver com a incerteza sobre o acesso aos
alimentos no futuro.
<><> Preço e renda limitam o
acesso a alimentos saudáveis
O Decreto nº 11.936, de 2024 define
alimentação adequada e saudável como aquela acessível física e financeiramente,
de forma permanente e socialmente justa. A renda disponível, portanto, precisa
ser considerada junto ao preço dos alimentos e às demais despesas que disputam
espaço no orçamento familiar.
Essa relação fica mais evidente quando
diferentes tipos de alimentos são comparados. Um estudo divulgado em 2026 pela
ACT Promoção da Saúde e pela Agência Bori mostrou que, nas duas décadas
anteriores, o poder de compra caiu cerca de 31% para frutas e 26,6% para
hortaliças e verduras. No mesmo período, aumentou para produtos como
refrigerantes, presunto e mortadela.
A diferença ajuda a explicar por que a renda,
isoladamente, não determina a qualidade da alimentação. Mesmo quando uma
família consegue manter os gastos com comida, a alta de preços pode alterar
quais produtos cabem no orçamento, reduzir a variedade das refeições ou
diminuir a frequência de compra de alimentos frescos.
O acesso também depende da oferta existente
no território. Quando frutas, legumes e verduras estão disponíveis apenas em
estabelecimentos mais distantes, o preço desses alimentos se soma aos custos de
deslocamento e ao tempo necessário para comprá-los. Para famílias com orçamento
mais restrito, pequenas diferenças de preço, distância e disponibilidade passam
a interferir na composição das refeições.
<><> Distância e tempo criam
novas barreiras
Ter renda disponível não elimina outros
obstáculos. Se uma feira ou mercado está distante, comprar alimentos frescos
também envolve deslocamento, transporte e disponibilidade de tempo. Para quem
depende de transporte público ou precisa fazer compras em diferentes
estabelecimentos, essas condições podem limitar a frequência com que
determinados alimentos chegam à casa.
A rotina de trabalho também interfere nessa
relação. Jornadas extensas e o tempo gasto nos deslocamentos pela cidade
reduzem o período disponível para comprar, preparar e armazenar refeições.
Alimentos que exigem menos preparo podem ganhar espaço nesse contexto,
principalmente quando estão disponíveis perto de casa ou do trabalho.
A divisão das tarefas domésticas acrescenta
outra camada. A responsabilidade pela compra e pelo preparo dos alimentos
costuma se concentrar nas mulheres, especialmente entre aquelas responsáveis
pelo cuidado das crianças. Quando essa rotina se combina com trabalho
remunerado e redes de apoio reduzidas, a praticidade passa a ter peso na
decisão sobre o que comprar e cozinhar.
Os ultraprocessados entram nessa dinâmica
porque costumam exigir pouco ou nenhum preparo e podem ser encontrados em
diferentes tipos de comércio. A dificuldade para identificá-los também
interfere no consumo, já que produtos industrializados podem ser percebidos
como opções adequadas mesmo quando se enquadram nessa categoria.
Por isso, analisar o acesso à alimentação
saudável exige considerar também quanto tempo e deslocamento são necessários
para transformar a compra de alimentos em uma refeição. A localização do
comércio, a mobilidade urbana, a jornada de trabalho e a organização das
tarefas domésticas fazem parte das condições que interferem no que chega à
mesa.
<><> Insegurança alimentar também
pode conviver com obesidade
Consumir calorias suficientes não garante uma
alimentação nutricionalmente adequada. A insegurança alimentar também envolve a
qualidade e a variedade do que chega à mesa, o que ajuda a explicar por que
excesso de peso e dificuldade de acesso a uma alimentação adequada podem
atingir a mesma população.
Uma revisão publicada em 2024 na Revista
Brasileira de Epidemiologia, que reuniu estudos realizados no Brasil, encontrou
associações entre insegurança alimentar, sobrepeso e obesidade em diferentes
grupos. Entre os mecanismos discutidos estão dietas menos variadas, maior
consumo energético e períodos de restrição alimentar seguidos por momentos de
consumo compensatório.
O preço e a disponibilidade dos alimentos
ajudam a compreender essa relação. Quando o orçamento é limitado ou as opções
saudáveis são mais difíceis de encontrar, a alimentação pode se concentrar em
produtos mais acessíveis, disponíveis e práticos, sem necessariamente oferecer
a diversidade nutricional necessária. Dessa forma, uma pessoa pode ingerir
energia suficiente e continuar submetida à insegurança alimentar.
As desigualdades também aparecem dentro dos
domicílios. Um estudo publicado em 2026 nos Cadernos de Saúde Pública, da
Fiocruz, encontrou relação entre insegurança alimentar e maior risco de
obesidade entre mulheres responsáveis por domicílios no Rio de Janeiro. A
relação observada reforça a necessidade de considerar renda, gênero e
responsabilidades domésticas ao analisar o problema.
Entre crianças e adolescentes, o avanço da
obesidade ocorre ao mesmo tempo em que a desnutrição ainda não desapareceu.
Essa convivência no Brasil pode ser relacionada à presença de ultraprocessados
no ambiente alimentar.
A obesidade, por isso, também precisa ser
analisada a partir das condições em que as pessoas vivem e se alimentam. A
Estratégia Intersetorial de Prevenção da Obesidade inclui renda, escolaridade,
publicidade, mobilidade e ambiente alimentar entre os fatores associados ao
problema. São dimensões que aproximam o debate sobre obesidade daquele sobre
desertos alimentares, porque ambos envolvem as possibilidades de acesso e
consumo disponíveis em cada território.
<><> Políticas públicas atuam
sobre oferta e abastecimento
A Política Nacional de Abastecimento
Alimentar prevê feiras, mercados públicos, agricultura familiar, circuitos
locais de comercialização, transporte e medidas para ampliar a oferta de
alimentos a preços acessíveis. A Lei Orgânica de Segurança Alimentar e
Nutricional (LOSAN) também determina articulação entre diferentes áreas e
níveis de governo nas políticas de segurança alimentar.
<><> Abastecimento aproxima
alimentos dos territórios
Criada em 2023, a Estratégia Alimenta Cidades
busca ampliar produção, disponibilidade e acesso a alimentos adequados, com
prioridade para periferias urbanas e populações vulneráveis. Em 2026, estava
presente em 1.102 municípios, em diferentes estágios de implementação.
A iniciativa atua a partir do diagnóstico dos
sistemas alimentares locais, permitindo que os municípios identifiquem
problemas de produção, distribuição e acesso aos alimentos. A partir desse
mapeamento, as ações podem envolver equipamentos de abastecimento, produção de
alimentos nas cidades e em seus entornos e articulação entre políticas de
segurança alimentar, saúde e assistência social.
Dessa forma, o abastecimento passa a
considerar também onde os alimentos estão disponíveis e quais territórios
enfrentam maiores dificuldades de acesso.
<><> Regulação interfere na
oferta de ultraprocessados
Uma simulação do Instituto de Defesa do
Consumidor (Idec) estimou que restringir ultraprocessados e bebidas açucaradas
nas escolas poderia reduzir em cerca de 8,9% a prevalência de obesidade entre
estudantes de 10 a 19 anos. Em 2026, o Brasil também apresentou à Organização
Mundial da Saúde (OMS) uma proposta para restringir publicidade, promoção e
comercialização desses produtos em espaços frequentados por crianças e
adolescentes.
<><> O acesso à alimentação
saudável também depende da cidade
Os desertos alimentares mostram como o lugar
onde você vive interfere no que pode chegar à sua mesa. Distância até feiras e
mercados, transporte, preço, renda, jornada de trabalho e oferta comercial
criam condições diferentes de acesso dentro de uma mesma cidade.
Ampliar esse acesso envolve aproximar
alimentos frescos da população, fortalecer feiras, mercados públicos e
agricultura familiar, organizar redes de abastecimento e incluir a alimentação
no planejamento urbano. Também passa por políticas de saúde, educação e
regulação capazes de ampliar a presença de opções saudáveis nos espaços
frequentados diariamente pela população.
Uma cidade com maior oferta de alimentos
adequados em seus diferentes territórios reduz a distância entre o que as
recomendações nutricionais indicam e aquilo que as famílias conseguem colocar
em prática. Quanto menores forem as barreiras de preço, deslocamento,
disponibilidade e tempo, maiores serão as possibilidades de incorporar
alimentos frescos à rotina.
Enfrentar os desertos alimentares significa,
nesse sentido, ampliar as condições para que uma alimentação saudável esteja ao
alcance de mais pessoas. O desafio das políticas públicas é fazer com que
frutas, verduras, legumes e outros alimentos adequados estejam disponíveis
também onde hoje são mais difíceis de encontrar, aproximando o acesso à
alimentação das necessidades de quem vive em cada território.
Fonte: ICL Notícias

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