Intervencionismo: o que é e como essa
estratégia influencia as relações entre os países
Intervenções militares, sanções econômicas,
embargos, tarifas, bloqueios financeiros e pressões diplomáticas aparecem com
frequência nas disputas entre países. Esses instrumentos funcionam de maneiras
diferentes, mas podem ser utilizados para influenciar decisões políticas,
econômicas ou militares tomadas por outro Estado.
É nesse campo que aparece o intervencionismo.
Ao longo da história, governos recorreram a diferentes formas de interferência
alegando razões de segurança, interesses econômicos e estratégicos, combate ao
terrorismo ou proteção de populações. O debate envolve uma questão que
atravessa as relações internacionais: quais são os limites para um país
interferir nos assuntos de outro?
A criação da Organização das Nações Unidas,
em 1945, estabeleceu regras para o uso da força e reforçou o princípio da
soberania. Nas décadas seguintes, porém, a Guerra Fria, as intervenções
humanitárias e o crescimento das sanções econômicas mostraram que a
interferência internacional pode assumir diversas formas.
<><> O que é intervencionismo e
como o conceito se desenvolveu?
O intervencionismo pode ser entendido como o
uso de instrumentos políticos, econômicos, diplomáticos ou militares para
interferir nas decisões de outro Estado ou tentar alterar seu comportamento.
A prática antecede a criação da ONU. No
século XIX e início do XX, potências recorreram a intervenções sob
justificativas como proteção nacional e propriedades no exterior, interesses
econômicos e razões humanitárias.
Depois da Segunda Guerra Mundial, esse
cenário ganhou novas regras. A Carta das Nações Unidas estabeleceu a igualdade
soberana dos Estados, a solução pacífica das controvérsias e a proibição da
ameaça ou do uso da força contra a integridade territorial ou independência
política de outro país.
Em 1965, a Resolução 2131 da Assembleia Geral
reforçou a proibição de intervenções diretas ou indiretas nos assuntos internos
e externos dos Estados. Cinco anos depois, a Resolução 2625 consolidou
princípios relacionados à soberania, não intervenção e relações entre países
com diferentes sistemas políticos e econômicos.
No Brasil, a não intervenção também aparece
no artigo 4º da Constituição de 1988, ao lado da independência nacional,
autodeterminação dos povos, igualdade entre os Estados, defesa da paz e solução
pacífica dos conflitos.
<><> Da guerra às sanções: quais
são as formas de intervenção?
A intervenção militar ocorre quando um Estado
ou uma coalizão emprega forças armadas em território estrangeiro para atingir
objetivos políticos, estratégicos ou de segurança. Ela pode envolver ataques
aéreos, envio de tropas, invasões, bloqueios militares e operações que resultem
no controle de áreas de outro país. Por envolver o uso da força, essa
modalidade está submetida às regras da Carta da ONU, que restringe seu emprego
e prevê situações específicas, como legítima defesa ou ações autorizadas pelo Conselho
de Segurança.
O Conselho de Segurança da ONU classifica as
sanções previstas no artigo 41 da Carta como medidas que não envolvem força
armada. Elas podem incluir restrições econômicas e comerciais, embargos de
armas, congelamento de ativos, proibição de viagens e limitações financeiras.
As sanções internacionais são medidas
coercitivas destinadas a pressionar ou isolar governos, empresas, organizações
ou indivíduos. Elas podem impedir transações bancárias, restringir comércio e
circulação de pessoas ou suspender relações diplomáticas.
Embargos atuam sobre fluxos comerciais.
Bloqueios financeiros atingem recursos, transações e acesso a ativos. Tarifas
têm outra natureza: a Organização Mundial do Comércio as define como impostos
cobrados sobre mercadorias importadas. Elas podem integrar uma estratégia de
pressão externa quando são utilizadas para tentar influenciar o comportamento
de outro governo ou de seus parceiros comerciais.
A pressão diplomática também faz parte desse
repertório. O rompimento das relações entre Estados Unidos e Cuba em 1961, por
exemplo, antecedeu décadas de isolamento econômico da ilha.
<><> A Guerra Fria ampliou as
intervenções indiretas
A disputa entre Estados Unidos e União
Soviética ampliou o uso de operações clandestinas, financiamento de grupos
locais, fornecimento de armas, treinamento militar e assistência econômica como
instrumentos de influência.
Um dos casos chegou à Corte Internacional de
Justiça. Durante os anos 1980, os Estados Unidos apoiaram os Contras, grupos
armados que combatiam o governo sandinista na Nicarágua. Em 1986, no caso
Nicarágua contra Estados Unidos, a Corte concluiu que Washington havia violado
obrigações relacionadas à não intervenção, ao não uso da força e à soberania
nicaraguense.
O Brasil também disputou influência regional
durante o período. Em 1983, o governo João Figueiredo ampliou a cooperação
econômica, política e militar com o Suriname. Um dos objetivos era evitar a
aproximação do governo de Desiré Bouterse com Cuba e União Soviética.
Os dois episódios mostram como a disputa
geopolítica podia ocorrer por meio de apoio militar, recursos econômicos e
influência política sem uma guerra formal entre as potências envolvidas.
A relação entre Cuba e Estados Unidos reúne
diferentes formas de intervenção e pressão externa. Depois da Revolução Cubana
de 1959, o governo de Fidel Castro nacionalizou empresas e propriedades
norte-americanas. Washington impôs sanções comerciais, rompeu relações
diplomáticas em 1961 e apoiou a invasão da Baía dos Porcos no mesmo ano.
O embargo foi formalizado em 1962. Décadas
depois, as leis Torricelli, de 1992, e Helms-Burton, de 1996, ampliaram
restrições relacionadas a empresas estrangeiras e subsidiárias norte-americanas
fora dos Estados Unidos.
A estratégia continuou produzindo novos
instrumentos. Em 2026, sanções norte-americanas atingiram autoridades e
entidades cubanas e incluíram alertas a instituições financeiras e empresas
estrangeiras que mantivessem determinadas relações com os sancionados.
Outra medida criou a possibilidade de aplicar
tarifas a produtos de países que fornecessem petróleo a Cuba. A decisão ampliou
a pressão para parceiros comerciais da ilha. As consequências chegam à
população, com restrições de crédito, petróleo e importação de peças, às
dificuldades do sistema energético cubano.
<><> Quando uma intervenção é
considerada legal pelo direito internacional?
A Carta da ONU estabelece como regra a
proibição da ameaça ou do uso da força contra outros Estados. Existem hipóteses
previstas no próprio documento. O artigo 51 reconhece o direito de legítima
defesa individual ou coletiva diante de ataque armado. O Capítulo VII permite
ao Conselho de Segurança agir diante de ameaças à paz, ruptura da paz ou ato de
agressão.
O Conselho pode primeiro aplicar medidas sem
força armada, previstas no artigo 41. Se elas forem consideradas insuficientes,
o artigo 42 permite autorizar ações militares. A legalidade depende, assim, da
natureza da medida, das circunstâncias e da base jurídica utilizada. O caso da
Nicarágua mostrou uma intervenção considerada contrária ao direito
internacional.
Sanções unilaterais também provocam
controvérsias próprias, principalmente quando alcançam empresas e cidadãos de
terceiros países. O caso cubano mostra como medidas adotadas por Washington
podem atingir relações comerciais mantidas fora do território norte-americano.
<><> Direitos humanos colocaram
novos limites em debate
Nos anos 1990, uma série de conflitos armados
ampliou o debate sobre os limites da soberania. Genocídios e crimes contra
populações civis colocaram a ONU diante de um impasse: como reagir a violações
graves de direitos humanos sem transformar a proteção humanitária em
justificativa para intervenções sem limites?
A discussão ganhou força após o genocídio em
Ruanda, em 1994, e a Guerra Civil Iugoslava, entre 1991 e 2001. Em 1999, a OTAN
realizou uma operação militar no Kosovo sem autorização explícita do Conselho
de Segurança da ONU. A ação foi apresentada como uma resposta à violência
contra a população kosovar, mas provocou questionamentos sobre sua
compatibilidade com as regras internacionais para o uso da força.
A própria ONU relacionou esses episódios ao
debate que posteriormente levou à formulação da Responsabilidade de Proteger,
um compromisso assumido pelos Estados-membros em 2005. O princípio estabelece
que cada Estado tem a responsabilidade de proteger sua população contra
genocídio, crimes de guerra, limpeza étnica e crimes contra a humanidade.
Quando essa proteção falha, a comunidade internacional pode recorrer a medidas
diplomáticas, políticas e econômicas e, nas condições previstas pela Carta da
ONU, discutir ações coletivas por meio do Conselho de Segurança.
A proposta não encerrou a controvérsia. Por
que algumas crises provocam intervenções internacionais e outras não? A decisão
sobre medidas que envolvem o uso da força passa pelo Conselho de Segurança,
onde Estados Unidos, China, Rússia, França e Reino Unido possuem poder de veto.
O debate sobre intervenção humanitária passou, assim, a envolver também quem
possui poder para autorizar essas ações e quais critérios determinam onde elas
serão empregadas.
<><> O intervencionismo continua
em disputa nas relações internacionais
As regras construídas desde 1945
estabeleceram limites ao uso da força e consolidaram soberania e não
intervenção como princípios internacionais. As formas de exercer pressão sobre
outros países, porém, incluem instrumentos militares, econômicos, financeiros,
políticos e diplomáticos.
Nicarágua, Suriname, Cuba e Kosovo mostram
como interesses estratégicos, disputas geopolíticas, segurança e direitos
humanos produziram justificativas e métodos diferentes de intervenção.
Compreender o intervencionismo exige observar
o instrumento utilizado, a finalidade da medida, os interesses envolvidos, seus
efeitos sobre a população e a base jurídica apresentada. Essas diferenças
ajudam a entender por que uma sanção financeira, uma tarifa usada como pressão
externa, o apoio a grupos armados e uma operação militar produzem consequências
distintas e recebem tratamentos diferentes no direito internacional.
Conhecer esses mecanismos também amplia a
capacidade de interpretar as disputas internacionais para além das
justificativas apresentadas pelos governos. Em um sistema formado por países
com capacidades econômicas, políticas e militares desiguais, acompanhar quem
exerce a pressão, quais interesses estão em jogo e quem suporta seus efeitos
ajuda a compreender como o poder circula entre os Estados e quais limites as
regras internacionais conseguem impor ao seu exercício.
• Ala
radical nos EUA usa STF e manobra ‘ação decisiva’ contra eleição no Brasil. Por
Jami Chade
A ala mais radical do governo de Donald Trump
costura uma ação para desestabilizar a eleição brasileira. A manobra do grupo
formado principalmente por deputados republicanos, aliados do segundo escalão
do governo e membros do Departamento de Estado é a de convencer o presidente
americano a retomar sanções contra o Brasil e, principalmente, contra o
ministro do STF, Alexandre de Moraes.
Nos últimos dias, bolsonaristas encaminharam
às autoridades americanas os documentos que citam as conversas entre Moraes e o
banqueiro Daniel Vorcaro.
O ICL Notícias apurou que o caso já estava no
radar de diplomatas americanos, que vinham acompanhando o juiz e tentando
encontrar brechas para recolocar Moraes no centro de uma ação contra o Brasil.
Em 2025, o ministro já foi alvo de sanções
por parte do governo Trump. Naquele momento, a alegação eram as supostas
violações do brasileiro em relação à liberdade de expressão e o que foi chamado
de “caça às bruxas” contra bolsonaristas. A Lei Magnitsky foi aplicada, com
sanções financeira contra o ministro.
Mas o gesto acabou se transformando numa
plataforma política para o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que denunciou
o gesto dos EUA como uma ingerência na soberania brasileira.
Em dezembro do ano passado, depois de uma
negociação entre os dois países, as sanções foram suspensas, deixando a ala
mais radical frustrada em relação a seus objetivos.
Nos últimos meses, as decisões de Moraes
sobre diversos temas deram esperanças a esse grupo nos EUA de que o ministro
poderia voltar a ser foco de uma operação, principalmente por conta de suas
atitudes contra plataformas digitais. Mas, ainda assim, havia resistência na
cúpula do governo Trump.
Agora, a nova situação envolvendo Moraes foi
recebida nos EUA como a “peça que faltava” para convencer a Casa Branca a agir.
Não existe, porém, um consenso final no
governo sobre como agir. O próprio presidente Donald Trump afirmou, na
quarta-feira, que mantinha uma “boa relação” com o Brasil, sem citar Lula.
Em 2025, Trump partiu para o ataque contra
Moraes e, ao impôr sanções contra Moraes, descobriu que seu gesto fez a
popularidade de Lula subir a taxas inéditas. O governo transformou a ação em um
ataque contra as instituições da democracia e a versão vingou.
Parte do governo norte-americano, porém,
considera que o cenário é outro agora. As revelações das ligações entre Moraes
e Daniel Vorcaro teriam abalado, segundo eles, a imagem do ministro do STF como
defensor da democracia.
A chance de uma sanção, agora, seria
acompanhada por um sentido de “legitimidade” e casaria com a narrativa de Trump
de acusar juízes de “corruptos”.
Um levantamento foi encomendado nesta semana
com 2 mil brasileiro para tentar entender qual seria a reação popular no
Brasil, caso novas sanções fossem impostas. O cálculo é de que, faltando cinco
semanas para a eleição no país, um abalo na opinião pública poderia ser
definitivo. Ou seja, se os EUA errarem na aplicação da sanção, não haveria
tempo suficiente para desfazer o impacto.
Mas as sinalizações apontam que o resultado
do levantamento reforçou a ideia de que, hoje, sanções contra Moraes não
gerariam a mesma indignação popular. Ao mesmo tempo, criariam um cenário de
desestabilização institucional e política no Brasil. Para uma das fontes
ouvidas pelo ICL Notícias, seria uma “ação decisiva”.
Outro aspecto sendo considerado é o eventual
encontro entre Lula e Trump, às margens da Assembleia Geral da ONU. O encontro
ocorre no final de setembro e, pela ordem dos discursos em Nova York, uma vez
mais os dois presidentes estarão juntos nas salas que dão acesso ao palco
central da ONU:
No mês passado, o jornal britânico Financial
Times revelou que o governo Donald Trump estaria considerando aplicar novas
sanções contra Moraes.
Se aplicadas, as sanções representariam mais
um teste para a já tensa relação entre os dois governos, Ainda que seja contra
um ministro do STF, o governo Lula passou a adotar a postura de que uma sanção
seria contra as instituições do país.
O gesto é ainda visto como um sinal de que,
em um momento chave da eleição, Trump avalia escalar a ingerência no processo
de escolha do próximo presidente.
Tanto o Palácio do Planalto quanto o
Itamaraty consideram que a intromissão da Casa Branca para favorecer Flávio
Bolsonaro já é uma realidade. O governo estima que, nas próximas semanas, as
ações por parte de Washington vão ser multiplicadas.
De acordo com o FT, antes das revelações com
Vorcaro, um dos motivos para repensar a sanção seria a decisão de Moraes de
agir contra um jornalista no Maranhão. O ministro autorizou a quebra de sigilo
das comunicações do jornalista Luís Pablo Conceição Almeida, de 40 anos. O caso
seria usado na Casa Branca como “prova” de que o ministro seria um “inimigo” da
liberdade de expressão.
Citando pessoas próximas ao poder nos EUA, o
jornal destacou que a figura de Moraes é alvo de duras críticas em Washington.
“Ele está perseguindo os apoiadores do
presidente. Não apenas Elon Musk, mas também os apoiadores do MAGA no Brasil”,
acrescentou uma pessoa familiarizada com o pensamento do governo americano.
“Mesmo que queiramos um bom relacionamento
com o Brasil, obviamente esse cara é um inimigo.” A reimposição das medidas
Magnitsky estava “sob consideração”, disse outra pessoa.
Mas o caso do Maranhão não é o único. “Havia
muitos fatores [e] um padrão consistente de abuso. Este é apenas o mais
recente”, acrescentou, referindo-se ao caso do jornalista. “As preocupações
nunca desapareceram.”
Fonte: ICL Notícias

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