quarta-feira, 9 de setembro de 2026

Intervencionismo: o que é e como essa estratégia influencia as relações entre os países

Intervenções militares, sanções econômicas, embargos, tarifas, bloqueios financeiros e pressões diplomáticas aparecem com frequência nas disputas entre países. Esses instrumentos funcionam de maneiras diferentes, mas podem ser utilizados para influenciar decisões políticas, econômicas ou militares tomadas por outro Estado.

É nesse campo que aparece o intervencionismo. Ao longo da história, governos recorreram a diferentes formas de interferência alegando razões de segurança, interesses econômicos e estratégicos, combate ao terrorismo ou proteção de populações. O debate envolve uma questão que atravessa as relações internacionais: quais são os limites para um país interferir nos assuntos de outro?

A criação da Organização das Nações Unidas, em 1945, estabeleceu regras para o uso da força e reforçou o princípio da soberania. Nas décadas seguintes, porém, a Guerra Fria, as intervenções humanitárias e o crescimento das sanções econômicas mostraram que a interferência internacional pode assumir diversas formas.

<><> O que é intervencionismo e como o conceito se desenvolveu?

O intervencionismo pode ser entendido como o uso de instrumentos políticos, econômicos, diplomáticos ou militares para interferir nas decisões de outro Estado ou tentar alterar seu comportamento.

A prática antecede a criação da ONU. No século XIX e início do XX, potências recorreram a intervenções sob justificativas como proteção nacional e propriedades no exterior, interesses econômicos e razões humanitárias.

Depois da Segunda Guerra Mundial, esse cenário ganhou novas regras. A Carta das Nações Unidas estabeleceu a igualdade soberana dos Estados, a solução pacífica das controvérsias e a proibição da ameaça ou do uso da força contra a integridade territorial ou independência política de outro país.

Em 1965, a Resolução 2131 da Assembleia Geral reforçou a proibição de intervenções diretas ou indiretas nos assuntos internos e externos dos Estados. Cinco anos depois, a Resolução 2625 consolidou princípios relacionados à soberania, não intervenção e relações entre países com diferentes sistemas políticos e econômicos.

No Brasil, a não intervenção também aparece no artigo 4º da Constituição de 1988, ao lado da independência nacional, autodeterminação dos povos, igualdade entre os Estados, defesa da paz e solução pacífica dos conflitos.

<><> Da guerra às sanções: quais são as formas de intervenção?

A intervenção militar ocorre quando um Estado ou uma coalizão emprega forças armadas em território estrangeiro para atingir objetivos políticos, estratégicos ou de segurança. Ela pode envolver ataques aéreos, envio de tropas, invasões, bloqueios militares e operações que resultem no controle de áreas de outro país. Por envolver o uso da força, essa modalidade está submetida às regras da Carta da ONU, que restringe seu emprego e prevê situações específicas, como legítima defesa ou ações autorizadas pelo Conselho de Segurança.

O Conselho de Segurança da ONU classifica as sanções previstas no artigo 41 da Carta como medidas que não envolvem força armada. Elas podem incluir restrições econômicas e comerciais, embargos de armas, congelamento de ativos, proibição de viagens e limitações financeiras.

As sanções internacionais são medidas coercitivas destinadas a pressionar ou isolar governos, empresas, organizações ou indivíduos. Elas podem impedir transações bancárias, restringir comércio e circulação de pessoas ou suspender relações diplomáticas.

Embargos atuam sobre fluxos comerciais. Bloqueios financeiros atingem recursos, transações e acesso a ativos. Tarifas têm outra natureza: a Organização Mundial do Comércio as define como impostos cobrados sobre mercadorias importadas. Elas podem integrar uma estratégia de pressão externa quando são utilizadas para tentar influenciar o comportamento de outro governo ou de seus parceiros comerciais.

A pressão diplomática também faz parte desse repertório. O rompimento das relações entre Estados Unidos e Cuba em 1961, por exemplo, antecedeu décadas de isolamento econômico da ilha.

<><> A Guerra Fria ampliou as intervenções indiretas

A disputa entre Estados Unidos e União Soviética ampliou o uso de operações clandestinas, financiamento de grupos locais, fornecimento de armas, treinamento militar e assistência econômica como instrumentos de influência.

Um dos casos chegou à Corte Internacional de Justiça. Durante os anos 1980, os Estados Unidos apoiaram os Contras, grupos armados que combatiam o governo sandinista na Nicarágua. Em 1986, no caso Nicarágua contra Estados Unidos, a Corte concluiu que Washington havia violado obrigações relacionadas à não intervenção, ao não uso da força e à soberania nicaraguense.

O Brasil também disputou influência regional durante o período. Em 1983, o governo João Figueiredo ampliou a cooperação econômica, política e militar com o Suriname. Um dos objetivos era evitar a aproximação do governo de Desiré Bouterse com Cuba e União Soviética.

Os dois episódios mostram como a disputa geopolítica podia ocorrer por meio de apoio militar, recursos econômicos e influência política sem uma guerra formal entre as potências envolvidas.

A relação entre Cuba e Estados Unidos reúne diferentes formas de intervenção e pressão externa. Depois da Revolução Cubana de 1959, o governo de Fidel Castro nacionalizou empresas e propriedades norte-americanas. Washington impôs sanções comerciais, rompeu relações diplomáticas em 1961 e apoiou a invasão da Baía dos Porcos no mesmo ano.

O embargo foi formalizado em 1962. Décadas depois, as leis Torricelli, de 1992, e Helms-Burton, de 1996, ampliaram restrições relacionadas a empresas estrangeiras e subsidiárias norte-americanas fora dos Estados Unidos.

A estratégia continuou produzindo novos instrumentos. Em 2026, sanções norte-americanas atingiram autoridades e entidades cubanas e incluíram alertas a instituições financeiras e empresas estrangeiras que mantivessem determinadas relações com os sancionados.

Outra medida criou a possibilidade de aplicar tarifas a produtos de países que fornecessem petróleo a Cuba. A decisão ampliou a pressão para parceiros comerciais da ilha. As consequências chegam à população, com restrições de crédito, petróleo e importação de peças, às dificuldades do sistema energético cubano.

<><> Quando uma intervenção é considerada legal pelo direito internacional?

A Carta da ONU estabelece como regra a proibição da ameaça ou do uso da força contra outros Estados. Existem hipóteses previstas no próprio documento. O artigo 51 reconhece o direito de legítima defesa individual ou coletiva diante de ataque armado. O Capítulo VII permite ao Conselho de Segurança agir diante de ameaças à paz, ruptura da paz ou ato de agressão.

O Conselho pode primeiro aplicar medidas sem força armada, previstas no artigo 41. Se elas forem consideradas insuficientes, o artigo 42 permite autorizar ações militares. A legalidade depende, assim, da natureza da medida, das circunstâncias e da base jurídica utilizada. O caso da Nicarágua mostrou uma intervenção considerada contrária ao direito internacional.

Sanções unilaterais também provocam controvérsias próprias, principalmente quando alcançam empresas e cidadãos de terceiros países. O caso cubano mostra como medidas adotadas por Washington podem atingir relações comerciais mantidas fora do território norte-americano.

<><> Direitos humanos colocaram novos limites em debate

Nos anos 1990, uma série de conflitos armados ampliou o debate sobre os limites da soberania. Genocídios e crimes contra populações civis colocaram a ONU diante de um impasse: como reagir a violações graves de direitos humanos sem transformar a proteção humanitária em justificativa para intervenções sem limites?

A discussão ganhou força após o genocídio em Ruanda, em 1994, e a Guerra Civil Iugoslava, entre 1991 e 2001. Em 1999, a OTAN realizou uma operação militar no Kosovo sem autorização explícita do Conselho de Segurança da ONU. A ação foi apresentada como uma resposta à violência contra a população kosovar, mas provocou questionamentos sobre sua compatibilidade com as regras internacionais para o uso da força.

A própria ONU relacionou esses episódios ao debate que posteriormente levou à formulação da Responsabilidade de Proteger, um compromisso assumido pelos Estados-membros em 2005. O princípio estabelece que cada Estado tem a responsabilidade de proteger sua população contra genocídio, crimes de guerra, limpeza étnica e crimes contra a humanidade. Quando essa proteção falha, a comunidade internacional pode recorrer a medidas diplomáticas, políticas e econômicas e, nas condições previstas pela Carta da ONU, discutir ações coletivas por meio do Conselho de Segurança.

A proposta não encerrou a controvérsia. Por que algumas crises provocam intervenções internacionais e outras não? A decisão sobre medidas que envolvem o uso da força passa pelo Conselho de Segurança, onde Estados Unidos, China, Rússia, França e Reino Unido possuem poder de veto. O debate sobre intervenção humanitária passou, assim, a envolver também quem possui poder para autorizar essas ações e quais critérios determinam onde elas serão empregadas.

<><> O intervencionismo continua em disputa nas relações internacionais

As regras construídas desde 1945 estabeleceram limites ao uso da força e consolidaram soberania e não intervenção como princípios internacionais. As formas de exercer pressão sobre outros países, porém, incluem instrumentos militares, econômicos, financeiros, políticos e diplomáticos.

Nicarágua, Suriname, Cuba e Kosovo mostram como interesses estratégicos, disputas geopolíticas, segurança e direitos humanos produziram justificativas e métodos diferentes de intervenção.

Compreender o intervencionismo exige observar o instrumento utilizado, a finalidade da medida, os interesses envolvidos, seus efeitos sobre a população e a base jurídica apresentada. Essas diferenças ajudam a entender por que uma sanção financeira, uma tarifa usada como pressão externa, o apoio a grupos armados e uma operação militar produzem consequências distintas e recebem tratamentos diferentes no direito internacional.

Conhecer esses mecanismos também amplia a capacidade de interpretar as disputas internacionais para além das justificativas apresentadas pelos governos. Em um sistema formado por países com capacidades econômicas, políticas e militares desiguais, acompanhar quem exerce a pressão, quais interesses estão em jogo e quem suporta seus efeitos ajuda a compreender como o poder circula entre os Estados e quais limites as regras internacionais conseguem impor ao seu exercício.

•        Ala radical nos EUA usa STF e manobra ‘ação decisiva’ contra eleição no Brasil. Por Jami Chade

A ala mais radical do governo de Donald Trump costura uma ação para desestabilizar a eleição brasileira. A manobra do grupo formado principalmente por deputados republicanos, aliados do segundo escalão do governo e membros do Departamento de Estado é a de convencer o presidente americano a retomar sanções contra o Brasil e, principalmente, contra o ministro do STF, Alexandre de Moraes.

Nos últimos dias, bolsonaristas encaminharam às autoridades americanas os documentos que citam as conversas entre Moraes e o banqueiro Daniel Vorcaro.

O ICL Notícias apurou que o caso já estava no radar de diplomatas americanos, que vinham acompanhando o juiz e tentando encontrar brechas para recolocar Moraes no centro de uma ação contra o Brasil.

Em 2025, o ministro já foi alvo de sanções por parte do governo Trump. Naquele momento, a alegação eram as supostas violações do brasileiro em relação à liberdade de expressão e o que foi chamado de “caça às bruxas” contra bolsonaristas. A Lei Magnitsky foi aplicada, com sanções financeira contra o ministro.

Mas o gesto acabou se transformando numa plataforma política para o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que denunciou o gesto dos EUA como uma ingerência na soberania brasileira.

Em dezembro do ano passado, depois de uma negociação entre os dois países, as sanções foram suspensas, deixando a ala mais radical frustrada em relação a seus objetivos.

Nos últimos meses, as decisões de Moraes sobre diversos temas deram esperanças a esse grupo nos EUA de que o ministro poderia voltar a ser foco de uma operação, principalmente por conta de suas atitudes contra plataformas digitais. Mas, ainda assim, havia resistência na cúpula do governo Trump.

Agora, a nova situação envolvendo Moraes foi recebida nos EUA como a “peça que faltava” para convencer a Casa Branca a agir.

Não existe, porém, um consenso final no governo sobre como agir. O próprio presidente Donald Trump afirmou, na quarta-feira, que mantinha uma “boa relação” com o Brasil, sem citar Lula.

Em 2025, Trump partiu para o ataque contra Moraes e, ao impôr sanções contra Moraes, descobriu que seu gesto fez a popularidade de Lula subir a taxas inéditas. O governo transformou a ação em um ataque contra as instituições da democracia e a versão vingou.

Parte do governo norte-americano, porém, considera que o cenário é outro agora. As revelações das ligações entre Moraes e Daniel Vorcaro teriam abalado, segundo eles, a imagem do ministro do STF como defensor da democracia.

A chance de uma sanção, agora, seria acompanhada por um sentido de “legitimidade” e casaria com a narrativa de Trump de acusar juízes de “corruptos”.

Um levantamento foi encomendado nesta semana com 2 mil brasileiro para tentar entender qual seria a reação popular no Brasil, caso novas sanções fossem impostas. O cálculo é de que, faltando cinco semanas para a eleição no país, um abalo na opinião pública poderia ser definitivo. Ou seja, se os EUA errarem na aplicação da sanção, não haveria tempo suficiente para desfazer o impacto.

Mas as sinalizações apontam que o resultado do levantamento reforçou a ideia de que, hoje, sanções contra Moraes não gerariam a mesma indignação popular. Ao mesmo tempo, criariam um cenário de desestabilização institucional e política no Brasil. Para uma das fontes ouvidas pelo ICL Notícias, seria uma “ação decisiva”.

Outro aspecto sendo considerado é o eventual encontro entre Lula e Trump, às margens da Assembleia Geral da ONU. O encontro ocorre no final de setembro e, pela ordem dos discursos em Nova York, uma vez mais os dois presidentes estarão juntos nas salas que dão acesso ao palco central da ONU:

No mês passado, o jornal britânico Financial Times revelou que o governo Donald Trump estaria considerando aplicar novas sanções contra Moraes.

Se aplicadas, as sanções representariam mais um teste para a já tensa relação entre os dois governos, Ainda que seja contra um ministro do STF, o governo Lula passou a adotar a postura de que uma sanção seria contra as instituições do país.

O gesto é ainda visto como um sinal de que, em um momento chave da eleição, Trump avalia escalar a ingerência no processo de escolha do próximo presidente.

Tanto o Palácio do Planalto quanto o Itamaraty consideram que a intromissão da Casa Branca para favorecer Flávio Bolsonaro já é uma realidade. O governo estima que, nas próximas semanas, as ações por parte de Washington vão ser multiplicadas.

De acordo com o FT, antes das revelações com Vorcaro, um dos motivos para repensar a sanção seria a decisão de Moraes de agir contra um jornalista no Maranhão. O ministro autorizou a quebra de sigilo das comunicações do jornalista Luís Pablo Conceição Almeida, de 40 anos. O caso seria usado na Casa Branca como “prova” de que o ministro seria um “inimigo” da liberdade de expressão.

Citando pessoas próximas ao poder nos EUA, o jornal destacou que a figura de Moraes é alvo de duras críticas em Washington.

“Ele está perseguindo os apoiadores do presidente. Não apenas Elon Musk, mas também os apoiadores do MAGA no Brasil”, acrescentou uma pessoa familiarizada com o pensamento do governo americano.

“Mesmo que queiramos um bom relacionamento com o Brasil, obviamente esse cara é um inimigo.” A reimposição das medidas Magnitsky estava “sob consideração”, disse outra pessoa.

Mas o caso do Maranhão não é o único. “Havia muitos fatores [e] um padrão consistente de abuso. Este é apenas o mais recente”, acrescentou, referindo-se ao caso do jornalista. “As preocupações nunca desapareceram.”

 

Fonte: ICL Notícias

 

Nenhum comentário: