Admiração
ou chacota
Após os
trágicos acontecimentos ligados à criminosa tentativa de golpe de Estado do dia
8 de janeiro de 2023, o Brasil se encontrava em uma encruzilhada. Podia seguir
o padrão histórico de passar panos quentes, anistiar ou tentar esquecer o que
houve. Ou podia ter a grandeza de enfrentar com coragem a gravidade dos fatos,
investigar e punir os envolvidos.
Felizmente,
graças a uma especial conjunção de fatores, em especial o decisivo papel do
Supremo Tribunal Federal e de lideranças democráticas em diversos setores
sociais, fomos capazes de seguir a única opção cabível a qualquer sociedade que
queira de fato avançar no amadurecimento da sua democracia.
E
assim, a despeito da oposição de forças civis e militares muito poderosas, após
inquéritos profundos e competentes, conseguimos fazer jus aos verdadeiros
anseios da maioria da população que reprovou então, e continua a reprovar, a
afronta brutal feita contra a institucionalidade democrática tão dolorosamente
construída ao longo de décadas em nosso país.
Nada
disso teria sido possível não fosse o trabalho das reais forças democráticas
que, pela primeira vez em nossa história, se uniram de maneira efetiva a fim de
punir os que aberta e violentamente buscavam nos levar de volta aos anos de
arbítrio. E quando as sentenças condenatórias foram proferidas há pouco mais de
8 meses, foi possível acreditar que estávamos talvez mesmo no limiar de um dito
novo normal, particularmente inovador para uma sociedade com a nossa história
de exclusão, desmando e opressão.
Após
uma conquista tão importante do e para o povo brasileiro em geral, passamos
também a angariar respeito e admiração ao redor do mundo. De maneira concreta,
não só atores progressistas, mas veículos da midia mais tradicional e
conservadora, como a reconhecida revista inglesa The Economist, ressaltaram
nossa experiência como oferecendo um modelo de como outros países, muitos
inclusive ditos como mais democráticos, deveriam tratar atores e forças
golpistas locais.
Mas
após e apesar de tudo isso, frente aos últimos acontecimentos do cenário
político nacional, e ‘a luz da destruição que a lógica salvacionista
autoritária da famigerada Operação Lava Jato nos deixou, parece cada dia mais
imprescindível termos um pouco mais de perspectiva histórica, longa e recente,
a fim de que não ser tragados novamente pelo redemoinho ou pela tempestade
perfeita, como nos idos de 2016, do golpismo, seja ele midiático, legalista, e
especialmente militar.
Investigações
enviesadamente conduzidas e pautadas por vazamentos ilegais e seletivos passam
a ser tornar novamente a regra. E fica cada dia mais claro que estamos
presenciando, de forma nítida e clara, uma rápida recomposição das forças que
resistiram, e ainda resistem, a passar a limpo a tragédia da frustrada mas
ainda viva busca por uma nova experiência autoritária. Cabe lembrar que todos
candidatos da oposição prometem anistiar os dirigentes da tentativa de golpe de
2023.
Tais
grupos se valem cada dia mais de artimanhas, sejam elas domésticas ou
estrangeiras, para distorcer os fatos e, novamente, manipular a opinião pública
a fim de fabricar uma nova suposta demanda pos soluções messiânicas do alto
que, como sempre, enfraquecem a cidadania e o espaço democrático. E,
preocupantemente, o retrospecto histórico nos mostra de forma cabal que no
lusco-fusco do requentado discurso anti-sistema, são sempre os fascistas, ou
neo-fascistas, e somente esses, que se beneficiam.
Além
disso, e de especial preocupação para o momento atual, ao longo dos últimos
meses, os golpistas de plantão tem conseguido se articular de forma muito mais
eficiente, seja interna ou externamente, e, a exemplo de atores a eles
alinhados ideologicamente em outros países, estão hoje muito mais preparados
para encaminhar uma agenda termidoriana, de fato, em um regime certamente cada
vez mais abertamente autoritário em seu eventual retorno ao poder.
Estamos,
pois, de frente a o que tem tudo para se provar como sendo provalvemente a
eleção mais importante do ano de 2026 em escala mundial – talvez mesmo de aqui
até o final da década. O mundo está cada dia mais fora de qualquer tipo de
ordem capaz de permtir projetos minimamente democraticos, muito menos
inclusivos. E o que está em jogo na eleião do Brasil é não só a democracia
brasileira, mas a possibilidade de que países não centrais possam buscar um
rumo de desenvolvimento não atrelado aos grandes centros de poder,
especialmente do hemisfério ocidental.
Em
2022, as forças democráticas somente conseguiram impedir – e por muito pouco –
o aprofundamento do autoritarismo graças a um amplo movimento social que chegou
mesmo a convencer até mesmo setores das elites, pelo menos provisoriamente, de
que os chefes de plantão do golpismo eram excessivamente ineptos e ideologicos
até mesmo para a defesa dos interesses do grande capital. Além disso, não havia
amparo internacional, especialmente nos Estados Unidos, para aventuras
golpistas escancaradas. Infelizmente, mais próximo do quadro de 1964 do que do
da última eleição, nada indica que hoje tais variáveis estejam presentes.
O
governo norte-americano está muito mais interessado em promover seus interesses
de curto prazo, preferindo, portanto, eventuais governos regionais prontos a se
alinharem de maneira direta aos desígnios de Wasghinton. E tanto a grande
mídia, quanto o grande capital parecem também estar cada dia mais miopicamente
presos a ganhos imediatos – como a manutenção da flexibilização das
obrigatoriedades e redução dos custos sociais e ambientais – do que a qualquer
projeto de sociedade de mais longo prazo que, por definição, requer maiores
níveis de inclusão social e política.
E nesse
sentido, dada a gravidade do que estamos vendo, caberia lembrar, por fim, da
famosa (e por vezes alterada) frase do grande dramaturgo Bertolt Brecht de que
“a cadela que pariu o fascismo está no cio novamente”. Se não tivermos, todos
que ainda acreditam na necessidade da defesa da democracia – com a exceção
óbvia dos que se arvoram da etiqueta de democrata e patriota somente para fins
e manipulações eleitoreiras – a responsabilidade, coragem e maturidade
necessárias para garantir a defesa da nossa democracia, corremos o risco não só
de regredir como sociedade, mas também de deixarmos de sermos alvo de admiração
para virarmos rapidamente motivo de preocupação e chacota internacional.
Fonte:
Por Rafael R. Ioris, em A Terra é Redonda

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