'Império esquecido': a época em que a Rússia
colonizou a Califórnia
É uma
bela viagem de duas horas rumo ao norte, partindo de São Francisco, no Estado
americano da Califórnia, até o Крѣпость Россъ.
Depois
de atravessar a neblina na Golden Gate, passo pelos vinhedos queimados pelo
sol até o distante litoral de Sonoma, onde abro as janelas do carro.
À minha
esquerda, a Califórnia mergulha no oceano Pacífico e as focas fazem barulho nas
rochas que se erguem das águas cobertas pela espuma. E, à minha direita, os
penhascos quase atingem o céu e imensas sequoias brotam à beira das curvas da
estrada.
De
repente, uma capela isolada com duas cúpulas e cruzes ortodoxas surge contra o
oceano azul.
Saio do
carro e sigo uma trilha a pé, até encontrar uma placa em alfabeto cirílico, em
frente a uma estrutura com a aparência de um forte de madeira, construída a 46
metros de altura, em uma falésia em frente ao mar.
"Bem-vindo
ao Forte Ross (Крѣпость Россъ),
o extremo sul do império russo", saúda o
arqueólogo Chris Kimsey, da California State Parks, o Departamento de Parques e
Recreação do Estado.
Todos
os anos, milhões de turistas viajam pelas curvas da Pacific Coast Highway, uma
das mais deslumbrantes rodovias dos Estados Unidos, que percorre todo o litoral
da Califórnia.
Mas
poucos destes visitantes provavelmente percebem que, escondido nesta região, um
pedaço de terra isolado a 145 km ao norte de São Francisco abriga uma relíquia
do tempo em que a Califórnia era administrada pela Rússia czarista.
Eu
mesmo não sabia e, a julgar pela misteriosa ausência de pessoas em Fort Ross,
parece que não sou o único.
"A
maioria dos californianos não sabe que a Rússia, um dia, teve uma colônia na
Califórnia", conta o antropólogo Kent Lightfoot, da Universidade da
Califórnia em Berkeley.
"Todos
eles conhecem sobre os espanhóis e os mexicanos, mas quase ninguém
sabe nada sobre os russos que estiveram aqui. É uma espécie de império
esquecido."
Alguns
americanos talvez se lembrem de que o maior Estado americano, o Alasca, fez parte da Rússia por cerca de 70
anos. Mas a única colônia permanente do império russo no exterior, conhecida
como América Russa, se estendeu pela Califórnia entre 1812 e 1842.
Na
verdade, os russos se estabeleceram em território californiano décadas antes
dos americanos que conquistaram sua independência em 1776.
Inovador
e surpreendentemente cosmopolita, o Forte Ross (abreviação de
"Rossiya", que significa "Rússia") pretendia ser um celeiro
dos assentamentos russos no Alasca, que vinham enfrentando dificuldades. Mas
ele acabou dando origem a ambiciosos projetos e ardentes debates sobre a
expansão russa pela América do Norte.
<><>
Os primórdios da América Russa
Enquanto
as potências europeias se expandiam para o oeste, nos séculos 16 e 17, a Rússia
se expandia para o leste.
Na
década de 1640, mercenários e comerciantes de peles da Rússia haviam
atravessado a Sibéria até chegarem ao litoral do Pacífico. Esta corrida gerou
assentamentos russos permanentes nas ilhas e no litoral do Alasca.
Em
1799, o czar Paulo 1° (1754-1801) formalizou a reivindicação do Alasca pelo
império russo, fundando a Companhia Russo-Americana.
Criada
seguindo os moldes da Companhia Britânica das Índias Orientais, a nova empresa
tinha fins lucrativos e controlava não apenas o comércio de peles. Agora, ela
administrava todo o Alasca, como colônia incorporada pela Rússia.
Mas
havia um problema. Enquanto a companhia ganhava dinheiro com a pele de lontra,
seus colonos passavam fome porque não conseguiam cultivar em grande parte do
terreno gelado do Alasca.
Por
isso, os colonizadores russos saíram rumo ao sul, em busca de um clima mais
quente e de parceiros comerciais espanhóis.
<><>
O sonho da Califórnia
Em
abril de 1806, com sua colônia ameaçada pela fome e sua tripulação dizimada
pelo escorbuto, o diretor da Companhia Russo-Americana, Nikolai Rezanov
(1764-1807), entrou com seu navio Juno na baía de São Francisco.
Enquanto
a embarcação navegava hesitante rumo ao assentamento espanhol localizado mais
ao norte da Califórnia, um soldado da Espanha pegou um megafone e exigiu que o
estranho navio se identificasse.
"Rússia",
respondeu uma vez. Os espanhóis esperavam esta resposta há cerca de 40 anos.
A
Espanha começou a reivindicar toda a Califórnia em 1542, mas só começou a
ocupar o território em 1769, quando tomou conhecimento de que comerciantes de
pele russos estavam se movendo rapidamente para leste, pelas ilhas do Alasca.
Para
evitar os avanços russos e britânicos, a Espanha criou ao longo do litoral
californiano uma rede de postos militares avançados, conhecidos em espanhol
como presidios, a partir de San Diego.
"A
expansão de toda a Alta Califórnia, de certa forma, foi estimulada pelos
russos", explica Lightfoot.
"Os
espanhóis estavam preocupados com os russos, que avançavam para o sul. Por
isso, a fundação de San Diego, Santa Bárbara, Monterrey e São Francisco foi uma
resposta à presença dos russos no Alasca."
Durante
as seis semanas de estada de Rezanov em São Francisco, o estadista, então com
42 anos, garantiu alimentos suficientes dos espanhóis para salvar os colonos do
Alasca da fome. Para isso, ele ficou noivo da filha do comandante espanhol de
São Francisco, que tinha 15 anos de idade.
O
rápido romance entre Rezanov e a adolescente espanhola em São Francisco
inspirou uma das mais famosas óperas-rock da era soviética, chamada Juno
e Avos.
Enquanto
zarpava pelo estreito rumo ao oceano, Rezanov percebeu que todo o litoral norte
da Califórnia estava indefeso — e era muito mais ensolarado que a Sibéria e o
Alasca. Por isso, ele elaborou um plano para estender a América Russa para a
Califórnia.
Em
1812, após anos de investigações secretas no litoral, 25 russos e 80 caçadores
nativos do Alasca se estabeleceram em um platô com vista para o Pacífico, onde
hoje fica a acidentada costa do condado de Sonoma, na Califórnia.
Aqui,
perto do mar rico em lontras da região, mas suficientemente longe da fronteira
norte do Império Espanhol, escassamente vigiada, eles viveram em um
assentamento projetado em estilo siberiano, construído com sequoias
californianas, sob o brasão com a águia de duas cabeças do czar.
<><>
Explorando a Califórnia russa
Atualmente,
a colônia russa distante na Califórnia permanece um lugar solitário e surreal.
Localizados
a 19 km da cidade ou serviço de telefone celular mais próximo, os restos de
madeira do assentamento, desgastados pelo tempo, se abrem em uma visão do mar
em 180 graus.
O
Parque Histórico Estadual do Forte Ross tem quase 1,4 mil hectares. No passado,
aquele local fervilhava de atividade. Mas, nos dois dias que passei ali, contei
apenas 14 visitantes além de mim.
Exceto
pelo som ocasional do carrilhão da capela de são Nicolau, o único ruído que
quebrava o silêncio era o das ondas que atingiam a falésia.
"Existe
uma sensação mágica em Fort Ross", segundo Robin Joy Wellman. Ela
trabalhou como intérprete na California State Parks por cerca de 30 anos.
"É
um local misterioso, mas, quando as pessoas o descobrem, elas contam que é um
dos lugares mais bonitos que já visitaram."
O
cenário espetacular da região se estende pela falha de San Andreas. E o mesmo terremoto
que arrasou São Francisco em 1906 também derrubou grande parte do forte
original.
Mas o
posto avançado parcialmente reconstruído em detalhes mostra um quadro nítido de
como era a vida na fronteira russa no Oeste selvagem.
O
centro da colônia era a cerca feita de estacas, que oferecia a aparência de um
forte. Nele, soldados russos de alto escalão, autoridades e funcionários da
companhia viviam em casernas cercadas por
uma paliçada de 3,6 metros de altura.
Subi
com Kimsey os degraus de duas casas de troncos armadas com canhões suficientes
para proteger a costa.
Ele
explicou que os russos escolheram este mirante natural para se defender dos
ataques espanhóis. Mas, na verdade, os dois impérios nunca chegaram a se
enfrentar e até dependiam um do outro para sobreviver.
"Os
russos e os espanhóis estavam no limite extremo dos seus extensos
impérios", destaca Kimsey. "Ambos precisavam de produtos que o outro
lado poderia fornecer e, por isso, surgiu o comércio ilícito."
No armazém do forte, peles de lontras valendo US$
100 cada (o salário de um ano de um fazendeiro da Pensilvânia, na época) teriam
ficado penduradas nas vigas para secar. Seus destinos eram a China, a Europa e
a Califórnia espanhola.
Sob a
cúpula de uma das igrejas ortodoxas mais antigas do Hemisfério Ocidental, o
pequeno assentamento cresceu até se tornar uma colônia cosmopolita completa,
com padarias, banyas (saunas típicas da Rússia) e cerca de 60
construções.
"Era
uma aldeia mercantil pluralista e vibrante, onde se falava muitos idiomas e com
pessoas de diferentes nações vivendo juntas", conta Lightfoot.
"A
paliçada era apenas a ponta do iceberg. A ação real acontecia no lado de
fora."
<><>
Além do forte
Enquanto
Kimsey e eu saímos do forte, ele explica que a colônia se expandiu e chegou a
congregar cerca de 400 pessoas nos anos 1830.
Ela se
tornou um dos locais mais diversificados da Califórnia. E praticamente todos os
seus moradores trabalhavam para a Companhia Russo-Americana.
Aqui,
quando a sloboda (aldeia) era
ativa à beira do cabo, caçadores remunerados das Aleútas e de Kodiak, no
Alasca, moravam com mulheres nativas da Califórnia.
Russos
e crioulos europeus misturados se casavam com trabalhadores nativos locais dos
povos Kashaya Pomo e Miwok e as pessoas eram sepultadas umas ao lado das
outras, no antigo cemitério russo na colina.
Em
comparação com outras colônias europeias, o Forte Moss também era bastante
tolerante.
"Os
russos não vieram para cá para 'civilizar' o local, como os espanhóis",
afirma Kimsey. Ele atua como elo tribal para as comunidades nativas da região.
Seguimos
por uma descida íngreme até uma praia em forma de lua crescente. Ali,
trabalharam um dia lado a lado toneleiros, carpinteiros e ferreiros, trazidos
pela Companhia Russo-Americana de locais distantes como a Finlândia e o Havaí.
"É
aqui que foram construídos os primeiros navios da Califórnia que navegaram pelo
oceano", explica ele. E também é aqui que foram fabricados os primeiros
tijolos, vidros e moinhos de vento da Califórnia.
Com os
trabalhadores construindo grandes navios, forjando ferro, moldando latão e
produzindo metais, o Forte Ross passou a ser o principal centro industrial da
Califórnia.
Os
russos comercializavam estas mercadorias tão cobiçadas com seus vizinhos
espanhóis e, posteriormente, mexicanos, em troca de provisões para seus
assentamentos no Alasca. Com isso, eles inadvertidamente ajudaram seus rivais a
colonizar a Califórnia.
Foi
também da enseada de águas rasas que saíram os navios cargueiros e caiaques com
caçadores rumo ao principal porto de águas profundas da colônia, a 35 km ao sul
em Rumyantsev (atualmente, baía de Bodega) e à sua estação de impermeabilização
nas ilhas Farallon, perto do litoral de São Francisco.
À
medida que o Forte Ross crescia em importância, também aumentavam na Companhia
Russo-Americana os apelos pelo cumprimento da recomendação de Rezanov, de
anexar a costa oeste da América do Norte ao território russo.
Em
1821, o czar Alexandre 1° (1777-1825) publicou um decreto imperial,
reivindicando o controle russo sobre a área que vai do atual Estado americano
de Oregon até o Alasca.
John
Quincy Adams (1767-1848), que viria a se tornar o sexto presidente dos Estados
Unidos, questionou rapidamente a decisão e alertou à Rússia que as Américas
"não são mais objeto de nenhum estabelecimento colonial europeu".
Com
isso, ele definiu um dos princípios fundamentais da política externa americana:
a Doutrina Monroe, que se opõe à
interferência estrangeira no Hemisfério Ocidental.
Da
praia, Kimsey e eu escalamos um morro íngreme após a fortaleza, até o pomar que foi criado pelos russos a partir de um único
pessegueiro, em 1814.
Abrimos
o portão para observar o local. Das centenas de árvores produtoras de cítricos
e outras plantadas pelos russos, sobrevive único ramo de cerejeira capulin com
200 anos de idade.
Mas os
russos, na verdade, deixaram um legado agrícola maior do que imagina a maioria
das pessoas.
"Foram
os russos que plantaram as primeiras uvas no atual condado de Sonoma, em
1817", conta a bibliotecária oficial do vinho local, Megan Jones.
Ela
explica que, embora Sonoma seja atualmente considerada "o berço do
movimento moderno do vinho americano", comerciantes
russos introduziram a agora rara uva Mission em Sonoma e produziram pequenos
lotes de vinho tinto leve.
Das
mais de 425 vinícolas de Sonoma, apenas uma ainda produz vinho exclusivamente
com uvas Mission, como faziam os russos no Forte Ross: a Scribe
Winery.
Mas,
mesmo com todas as suas inovações, o Forte Ross nunca atingiu seus dois
objetivos principais: gerar lucros e matar a fome dos colonos do Alasca.
No
início dos anos 1820, os caçadores nativos do Alasca da Companhia
Russo-Americana haviam caçado tantas lontras que chegaram a exterminar a
população local dos animais. E uma combinação de forte nevoeiro no litoral e
excesso de roedores levou à produção de apenas 13 toneladas de trigo por ano,
entre 1826 e 1833.
O
começo do fim da Califórnia czarista veio em 1839, quando a Companhia da Baía
de Hudson, administrada pelos britânicos, concordou a fornecer provisões dos
seus assentamentos do noroeste do Pacífico para o Alasca russo.
Dois
anos depois, um imigrante suíço chamado John Sutter (1803-1880) comprou dos
russos por US$ 30 mil os bens e as construções do Forte Ross. Ele canibalizou
partes das estruturas para criar seu próprio assentamento em Sacramento.
Sete
anos depois da saída dos russos para o Alasca, uma descoberta casual no terreno
de Sutter levou à Corrida do Ouro da Califórnia.
<><O
legado da Rússia na Califórnia
Atualmente,
os restos do passado czarista permanecem espalhados pela Califórnia, ao norte
de São Francisco.
Um dos
bairros mais famosos da cidade chama-se Russian Hill ("Morro Russo",
em inglês).
Seu
nome vem dos túmulos de marinheiros da Companhia Russo-Americana que foram
descobertos no local durante a Corrida do Ouro. Quando for visitá-lo, procure
uma placa perto de 1120 Vallejo Street.
Um
marco histórico na baía de Bodega mostra o local de onde os russos saíam para
sua capital no Alasca, Novo-Arkhangelsk (atual Sitka). E mais de um milhão de
pessoas visitam o vale do rio Russo todos os anos para nadar, caminhar e provar
alguns dos melhores vinhos dos Estados Unidos.
"Os
russos chamavam este rio de Slavyanka, uma das principais artérias que eles
usavam para explorar a região", explica Suki Waters, descendente do povo
Kashaya Pomo e proprietária da empresa WaterTreks, que promove
passeios ecológicos ao longo do rio Russo.
Passamos
de caiaque por focas e pelicanos migrantes, enquanto ela conta histórias da sua
trisavó, que viveu na época em que os russos chegaram à região.
"O
Forte Ross foi uma aldeia de pesca sazonal chamada Metini por milhares de
anos", segundo ela.
"Quando
os russos chegaram, os anciãos os chamaram de 'Povo Submarino' porque, vistos
do alto da falésia, a impressão era que eles haviam saído do oceano."
Ainda
na mesma tarde, passei novamente pelas placas em cirílico, pela paliçada e
pela sloboda do Forte Ross, em direção a uma praia isolada à
beira daquela falésia.
Observando
do alto o oceano Pacífico, imaginei quantos dias seriam necessários para chegar
até a Rússia. Até que o carrilhão distante da capela ecoou no ar e me fez
lembrar uma observação de Robin Joy Wellman.
"O
fato de que uma pequena parte da Rússia ficava aqui na Califórnia é fabuloso.
Por que iríamos querer esquecer isso?"
<><>
Programe sua visita
Existem visitas guiadas ao Forte Ross. O local promove
um festival anual em julho e a
igreja ainda celebra missas em russo no Memorial Day e no 4 de Julho.
Fonte: BBC Travel

Nenhum comentário:
Postar um comentário