A estratégia oculta dos EUA para usar o STF e
encurralar o Brasil
Por trás do confronto que atravessa o STF
existe uma arquitetura muito mais ampla do que a disputa entre ministros. Redes
transnacionais de influência, formação de elites, lobby político, operadores
jurídicos, plataformas digitais, processos em tribunais americanos, pesquisas
eleitorais, sanções e instrumentos comerciais começam a tocar os mesmos pontos
de vulnerabilidade do Estado brasileiro. Este artigo reconstrói essas
engrenagens, separa evidências de hipóteses e mostra onde pode estar o próximo
movimento: não necessariamente controlar uma instituição brasileira, mas criar
incentivos, proteção e custos externos capazes de alterar o comportamento de
quem exerce poder dentro dela. Às vésperas da eleição de 2026, compreender esse
mecanismo deixou de ser uma questão sobre o STF. Tornou-se uma questão de
soberania.
<><> A guerra começa onde parece
haver apenas uma crise
O Supremo enfrenta algo maior do que uma
crise de imagem. As mensagens extraídas do celular de Daniel Vorcaro, os
questionamentos que atingem Alexandre de Moraes e Paulo Gonet, a ofensiva
institucional de André Mendonça, as acusações dirigidas contra o próprio
Mendonça e a entrada de Edson Fachin como árbitro expuseram uma fratura rara: a
estrutura encarregada de controlar o Estado passou a disputar, internamente,
quem controla quem.
O erro seria reduzir esse quadro a uma
sucessão de escândalos ou rivalidades pessoais. Uma crise institucional se
torna estratégica quando passa a produzir vulnerabilidades que outros atores
podem converter em poder. É nesse ponto que a guerra híbrida começa a operar.
Ela explora conflitos reais, disputas de competência, interesses, redes de
influência, processos, dinheiro, informação e perda de confiança. Quanto mais
profunda a fratura interna, maior o valor que ela pode adquirir para quem tem
capacidade de reorganizá-la de fora.
A estratégia aqui chamada de “oculta” não
pressupõe a existência de um plano secreto comprovado, mas uma arquitetura de
influência e coerção cuja força está justamente em operar por conexões,
incentivos e instrumentos que raramente aparecem reunidos como parte de um
mesmo sistema.
A pergunta decisiva, portanto, não é apenas
quem agiu corretamente dentro do STF. É quem ganha capacidade de ação quando
essas instituições entram em colisão. Quem consegue transformar documentos
produzidos no Brasil em argumentos para pressão diplomática, sanção, tarifa,
processo judicial ou disputa eleitoral? O problema deixa de ser apenas a crise.
Passa a ser quem consegue convertê-la em alavanca sobre as decisões do Estado
brasileiro.
<><> Capturar sem controlar: como
funciona a guerra híbrida por dentro
A forma mais sofisticada de influência
estrangeira não depende de agentes pagos nem de ordens secretas. Ela opera
sobre redes, acessos, afinidades, incentivos e proteção. O objetivo não é
necessariamente controlar quem decide, mas alterar o ambiente em que a decisão
é tomada.
É por isso que a captura de elites aparece
entre os instrumentos estudados em estratégias de interferência. Formação de
quadros, organizações estrangeiras, think tanks, fundações, redes
religiosas, associações profissionais e espaços jurídicos podem funcionar como
canais legítimos de relacionamento e, em determinadas condições, como vetores
de influência. O problema começa quando opacidade, dependência, conflito de interesses
ou expectativa de proteção passam a afetar a autonomia de quem exerce poder
público.
A distinção é fundamental: relação não é
influência; influência não é cooptação; cooptação não é comando. Entre esses
pontos existe um continuum de acesso, legitimação, incentivo,
proteção e dependência. Coordenação só pode ser afirmada quando houver
evidência concreta de instruções, financiamento, mensagens ou ação
sincronizada.
Um ator pode agir por convicção própria e
ainda assim produzir resultados úteis a interesses externos. Se encontra fora
do país redes capazes de amplificar sua posição ou elevar o custo de seus
adversários, a correlação de forças interna pode mudar sem qualquer ordem
direta.
A guerra híbrida não precisa produzir
obediência. Basta produzir funcionalidade.
<><> O ponto de acoplamento: por
que André Mendonça importa
André Mendonça interessa à análise
estratégica menos como indivíduo do que como posição dentro de uma rede. Sua
trajetória combina autoridade institucional, identidade religiosa pública e
circulação documentada por ambientes jurídicos conservadores com conexões
internacionais.
Uma dessas conexões passa pela ANAJURE. A
entidade apoiou publicamente a indicação de Mendonça ao STF, e pesquisas
acadêmicas documentam sua parceria institucional com a Alliance
Defending Freedom, organização jurídica religiosa sediada nos Estados
Unidos e com atuação internacional. Por meio dessa parceria, foram custeadas
bolsas para juristas brasileiros participarem do Blackstone Legal
Fellowship nos EUA, experiência que impulsionou a criação da Academia
ANAJURE. Em 2020, a programação da academia incluiu André Mendonça e Jeffery
Ventrella, então diretor do Blackstone. O conjunto não prova
submissão ou coordenação. Documenta, porém, um circuito transnacional de
formação jurídica, relacionamento e circulação de ideias.
Há também interlocuções documentadas com
organizações de atuação pró-Israel. Em 2024, Mendonça participou de uma viagem
privada de magistrados custeada pela Confederação Israelita do Brasil e
pela StandWithUs Brasil. O episódio mostra circulação e acesso
a organizações com atuação pública e capacidade de articulação internacional.
A relevância disso cresce quando se observa a
crise atual. Mendonça ocupa posição decisiva em desdobramentos do caso Master
sob sua relatoria, enfrentou Moraes dentro do STF e passou ele próprio a ser
questionado por procedimentos adotados na investigação. Edson Fachin determinou
esclarecimentos formais de Mendonça, Moraes, Paulo Gonet e Andrei Rodrigues. O
quadro continua juridicamente aberto.
A relevância estratégica está justamente
nessa posição. Não há evidência pública de comando estrangeiro, cooptação ou
coordenação envolvendo Mendonça. O que existe é algo que merece atenção por si
só: um ministro situado no centro de uma fratura institucional, inserido em
redes transnacionais e capaz de produzir decisões cujos efeitos ultrapassam
imediatamente as fronteiras do STF.
É essa capacidade de conectar sistemas
distintos, sem que seja necessário demonstrar comando entre eles, que
transforma Mendonça em um possível ponto de acoplamento da crise.
<><> A ponte: como uma disputa
brasileira chega a Washington
Uma crise interna só ganha valor estratégico
para uma potência estrangeira quando existe quem consiga transportá-la entre
sistemas. É essa função que os intermediários cumprem. Eles transformam um fato
produzido no Brasil em linguagem política utilizável no exterior e o conectam a
redes capazes de pressionar o Estado brasileiro.
Eduardo Bolsonaro ocupa hoje uma posição
objetiva nessa ponte. Atuando a partir dos Estados Unidos, apresentou André
Mendonça como contraponto institucional a Alexandre de Moraes e confirmou que
ele e seus aliados pressionaram o governo americano pela retomada das
sanções Magnitsky contra Moraes. Também afirmou que oferecem
sua avaliação quando são consultados por interlocutores em Washington. O dado
central é simples: enquanto uma disputa ocorre dentro do STF, um ator
brasileiro instalado nos EUA trabalha para conferir legitimidade a um dos polos
e aumentar o custo externo do outro.
O caso Master acrescenta uma conexão
material. A Entre Investimentos, de Antônio Carlos Freixo Júnior, o Mineiro,
fez repasses a pedido de Daniel Vorcaro ao Havengate Development Fund,
sediado no Texas e administrado por Paulo Calixto, advogado ligado a Eduardo
Bolsonaro.O fundo foi utilizado no financiamento de Dark Horse,
filme sobre Jair Bolsonaro.Freixo firmou acordo de colaboração premiada com a
PGR, hoje sob análise de André Mendonça no STF. A Polícia Federal
investiga a destinação dos recursos enviados aos Estados Unidos, inclusive a
hipótese de que parte deles tenha servido a finalidades diferentes do
financiamento do filme, o que é negado pelos envolvidos. O ponto estratégico é
que uma colaboração submetida à análise de Mendonça alcança uma estrutura
financeira nos Estados Unidos ligada ao entorno de um dos principais
articuladores da pressão americana contra Moraes.
É assim que a crise muda de escala.
Informações produzidas no Brasil atravessam políticos, advogados, fundos,
plataformas e redes de influência, chegam a Washington com novo enquadramento e
podem retornar vinculadas a instrumentos de coerção. O intermediário é a peça
que transforma conflito doméstico em capacidade externa de pressão.
<><> A máquina: quando Washington
transforma narrativa em coerção
A ponte só importa porque existe uma máquina
estatal capaz de agir do outro lado. Washington já dispõe de instrumentos
jurídicos, econômicos, financeiros e diplomáticos capazes de transformar
disputas brasileiras em custo material.
A Seção 301 (Section 301) mostrou essa
capacidade. Em junho de 2026, o USTR considerou acionáveis práticas brasileiras
envolvendo comércio digital e serviços de pagamento, aplicação anticorrupção (enforcement),
propriedade intelectual e outros setores. Entre os fundamentos, citou ordens de
tribunais brasileiros contra plataformas americanas. Em julho, o procedimento
resultou em tarifa adicional de 25% sobre determinados produtos do Brasil. Uma
controvérsia jurídica e digital atravessou a burocracia americana e reapareceu
como coerção econômica.
No campo financeiro, o precedente também está
documentado. A OFAC sancionou Alexandre de Moraes sob a Lei Global
Magnitsky em 30 de julho de 2025 e, em setembro, incluiu sua esposa,
Viviane Barci de Moraes, e o Lex Instituto de Estudos Jurídicos. As designações
foram retiradas em 12 de dezembro daquele ano. O episódio demonstrou que o
sistema financeiro americano pode ser acionado diretamente contra integrantes
da cúpula institucional brasileira e estruturas associadas a eles.
O vetor jurídico completa a
arquitetura. Rumble e Trump Media levaram aos
tribunais da Flórida uma disputa originada em decisões de Moraes. Em junho de
2026, o Brasil interveio formalmente no processo alegando ser a parte real
interessada e sustentando que as ordens questionadas eram atos soberanos do
Estado brasileiro. A Justiça americana admitiu a intervenção.
Há ainda uma estrutura explícita de
acompanhamento político. A Ordem Executiva 14323, de julho de 2025, determina
que o secretário de Estado monitore a situação brasileira e, em consulta com o
Tesouro, Comércio, Segurança Interna (Homeland Security), USTR e
assessores de segurança nacional e política econômica da Presidência, recomende
ações adicionais quando considerar necessário.
A engrenagem decisiva é esta: mudar o domínio
do conflito. Direito vira comércio. Informação vira sanção. Disputa
institucional vira pressão diplomática. Quando isso acontece, a crise já não
pertence apenas ao país em que nasceu. Passa a operar dentro de uma relação
internacional de força.
<><> O laboratório eleitoral:
medir antes de agir
A pressão externa ganha outra dimensão quando
seu efeito político passa a ser medido dentro do país-alvo. Em agosto de 2026,
aliados de Donald Trump encomendaram à McLaughlin & Associates uma
pesquisa nacional no Brasil que avaliou, entre outros pontos, como possíveis
sanções americanas contra autoridades brasileiras poderiam repercutir sobre o
voto. Segundo a Folha de S.Paulo, o levantamento foi produzido para fornecer
informações a interlocutores na Casa Branca e no Departamento de Estado.
A pesquisa ouviu 1.991 eleitores e perguntou
diretamente se uma nova sanção financeira dos Estados Unidos contra Alexandre
de Moraes alteraria sua decisão eleitoral. Para 53,3%, não alteraria; 24,7%
afirmaram que ficariam mais propensos a votar em Flávio Bolsonaro e 18,2% em
Lula. Isso não demonstra que o governo americano tenha encomendado a pesquisa
nem que pretenda utilizar sanções para interferir na eleição. Demonstra que
atores ligados ao trumpismo estão mensurando o efeito eleitoral, no Brasil, de
um instrumento de coerção sob controle do Estado americano.
Esse tipo de mensuração reduz incertezas.
Permite observar reações, identificar públicos sensíveis e calcular custos
antes de ampliar uma pressão. Em estratégia, a sequência é conhecida: testar,
medir, recalibrar. Numa eleição equilibrada, não é necessário alterar o
comportamento de milhões de pessoas. Pequenas mudanças de percepção, confiança
ou mobilização podem adquirir peso político desproporcional.
Por isso, o aspecto mais revelador da
pesquisa não está nos percentuais. Está na pergunta formulada. Quando atores
próximos à potência que dispõe da sanção começam a medir como essa sanção afeta
o voto em outro país, política externa e ambiente eleitoral passam a ocupar o
mesmo campo de cálculo estratégico.
<><> O próximo movimento
A questão agora é identificar qual combinação
de instrumentos pode produzir maior efeito político com menor custo para
Washington.
O primeiro movimento provável é narrativo. A
ofensiva contra Moraes esteve concentrada em censura e perseguição política. O
caso Master permite ampliar o enquadramento para integridade institucional,
conflito de interesses e abuso de poder, alcançando públicos que não aderem ao
discurso bolsonarista, mas podem reagir à percepção de deterioração das
instituições.
O segundo movimento tende a ser
jurídico. Rumble e Trump Media já questionam
decisões de Moraes nos Estados Unidos, enquanto a Advocacia-Geral da União
(AGU) sustenta que elas constituem atos soberanos brasileiros. Fatos novos
podem ser utilizados para tensionar essa fronteira e tentar caracterizar
determinadas condutas como pessoais ou praticadas além da autoridade do cargo.
O terceiro movimento pode ser seletivo.
Sanções, vistos, audiências, processos e legitimação política permitem elevar o
custo de determinados atores e reduzir o de outros, alterando a correlação de
forças dentro da própria crise.
Por fim, a pressão tende a ser calibrada pela
reação brasileira. O sinal decisivo será observar se os mesmos fatos passam a
aparecer simultaneamente no discurso político americano, em procedimentos
jurídicos ou administrativos e na disputa eleitoral brasileira.
Quando isso acontecer, a possível reação de
Washington já terá entrado no cálculo interno das autoridades brasileiras antes
mesmo de qualquer nova medida ser executada.
<><> Como quebrar o circuito sem
blindar ninguém
A pior resposta brasileira seria confundir
soberania com proteção corporativa. Se existem suspeitas contra Moraes,
Mendonça, Gonet, integrantes da Polícia Federal ou qualquer outro agente
público, elas precisam ser investigadas com rapidez, transparência,
contraditório e independência. Um Estado que esconde suas próprias fraturas
entrega ao exterior o argumento de que precisa ser tutelado.
A primeira defesa é reduzir a opacidade.
Relações financeiras, conflitos de interesses, viagens custeadas por
organizações privadas, contatos com entidades estrangeiras e vínculos de
familiares de autoridades precisam estar submetidos a regras claras de transparência.
Isso deve valer para todos os campos políticos. Soberania seletiva é apenas
facção.
A segunda defesa é abandonar a obsessão
exclusiva pela desinformação e mapear redes de influência, intermediários,
fluxos financeiros, estruturas jurídicas e canais de transmissão. A guerra
híbrida não opera apenas por conteúdo falso. Opera também por fatos verdadeiros
selecionados estrategicamente, por lobby, litígios, organizações transnacionais
e pela capacidade de fazer a informação chegar ao lugar onde ela pode ser
convertida em poder.
A terceira defesa é antecipar a coerção.
Itamaraty, AGU, órgãos econômicos e estruturas de inteligência precisam
trabalhar com cenários prévios para sanções, tarifas, processos e medidas
extraterritoriais. A contestação brasileira à Seção 301 na Organização Mundial
do Comércio (OMC) mostra uma direção possível: deslocar a pressão unilateral
para arenas jurídicas e multilaterais que aumentem o custo da ação externa.
A quarta defesa é eleitoral. Proteger a
eleição não pode significar proteger governos nem criminalizar a crítica
legítima. A resistência mais sólida é uma sociedade capaz de conhecer
rapidamente os fatos, identificar quem tenta instrumentalizá-los e decidir sem
tutela de Brasília nem de Washington.
No fundo, a defesa brasileira exige reduzir a
distância entre a soberania formal e a soberania real. Quanto maior a
dependência de plataformas, tribunais, sistemas financeiros, mercados e
governos estrangeiros, maior o número de alavancas disponíveis para pressionar
o país.
A melhor defesa contra a exploração externa
de uma crise brasileira não é negar a crise. É investigá-la de forma tão
legítima e soberana que nenhum outro Estado consiga reivindicar para si o
direito de defini-la, julgá-la ou utilizá-la para condicionar o futuro do
Brasil.
<><> O verdadeiro alvo
É tentador reduzir tudo a personagens: Moraes
contra Mendonça, Bolsonaro contra Lula, Trump contra o governo brasileiro. Essa
leitura transforma uma disputa estrutural numa briga entre nomes.
O verdadeiro alvo é outro: a capacidade
soberana de decisão.
Se houver crimes, abusos ou conflitos de
interesses, que sejam investigados e punidos no Brasil. Mas quando fraturas
internas passam a ser convertidas em proteção, punição ou incentivo por uma
potência estrangeira, o problema deixa de ser apenas institucional e se torna
estratégico. A questão já não é quem controla o Supremo. É quem consegue
alterar seu comportamento sem precisar controlá-lo.
Na guerra híbrida, o cerco se completa quando
o adversário já não precisa entrar no Estado. Basta que o próprio Estado
produza, por dentro, as alavancas que serão acionadas de fora.
Fonte: Por Reynaldo José Aragon, em Brasil
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