quarta-feira, 9 de setembro de 2026

Joelho estala ou range ao levantar-se da cadeira: devo me preocupar?

Você se levanta da cadeira e escuta um “tec”. Agacha para pegar um objeto e o joelho faz um estalo. Ao subir escadas, surge uma sensação de rangido e areia. A primeira reação costuma ser a mesma: “Será que meu joelho está desgastando?”

Essa é uma das dúvidas mais frequentes no consultório de ortopedia. A boa notícia é que, na maioria das vezes, barulho no joelho, sozinho, não significa necessariamente que exista uma lesão ou desgaste.

O joelho é uma articulação formada por ossos, cartilagens, ligamentos, tendões e um líquido chamado líquido sinovial, responsável por lubrificar os movimentos.

Durante a flexão e a extensão, diferentes estruturas deslizam umas sobre as outras. É normal que a patela, conhecida popularmente como “rótula”, altere discretamente seu posicionamento quando o joelho se movimenta, pelo encaixe com o fêmur. Pequenas alterações de pressão dentro da articulação e o deslocamento do líquido sinovial também podem produzir estalos.

Esses sons costumam fazer parte do funcionamento normal do joelho. Quando não estão acompanhados de dor, inchaço ou limitação dos movimentos, normalmente não provocam lesão nem aumentam o risco de desgaste da articulação.

Em outras palavras, um joelho que estala não está, necessariamente, “gastando”.

<><> Quando o barulho merece atenção

A situação muda quando a crepitação aparece acompanhado de outros sintomas.

Dor anterior persistente, aumento de volume do joelho, sensação de travamento, dificuldade para dobrar ou esticar completamente a perna, instabilidade ou a impressão de que o joelho “falha” pode indicar alterações que precisam ser avaliadas.

Entre as possíveis causas estão desde a falta de fortalecimento da musculatura que controla os movimentos do joelho, até lesões da cartilagem, problemas nos meniscos, alterações de alinhamento da patela, lesões ligamentares e, em algumas pessoas, os primeiros sinais de desgaste articular. Nesses casos, o estalo deixa de ser apenas um ruído da articulação e passa a ser um sintoma associado a outra alteração.

Por isso, mais importante do que o barulho é entender o contexto em que ele aparece.

<><> O joelho não “desgasta” porque estala

Existe um mito bastante difundido de que estalar o joelho faz mal ou acelera o desgaste da articulação. Não há evidências científicas de que o estalo isolado provoque danos às cartilagens.

O que realmente merece atenção é quando a pessoa evita caminhar, subir escadas ou praticar atividade física por medo do barulho. A redução dos movimentos pode levar à perda de força muscular e diminuir a estabilidade do joelho, favorecendo as dificuldades funcionais e piorando a dor.

Manter a musculatura fortalecida, controlar o peso corporal e praticar exercícios orientados continuam sendo algumas das medidas mais importantes para preservar a saúde da articulação.

<><> O diagnóstico depende da história e do exame físico

Nem todo paciente que apresenta estalos precisa realizar exames de imagem.

Na maioria das vezes, a avaliação começa com uma boa conversa e um exame físico detalhado. Quando existem sinais de lesão ou dúvidas sobre a causa dos sintomas, o ortopedista pode solicitar radiografias, ultrassonografia ou ressonância magnética, conforme cada situação.

O objetivo não é investigar o barulho em si, mas identificar se existe alguma alteração estrutural que justifique os sintomas.

O joelho é uma articulação que trabalha milhares de vezes por dia. Pequenos estalos fazem parte dessa mecânica e, isoladamente, costumam ser apenas uma característica do movimento.

Se, porém, eles vierem acompanhados de dor, inchaço, travamentos ou perda de função, vale a pena procurar avaliação especializada. Nesses casos, o tratamento precoce pode evitar a progressão de lesões e permitir um retorno mais rápido às atividades do dia a dia.

•        Como proteger os joelhos do desgaste e evitar dores

Ao sentir o primeiro desconforto nos joelhos ao caminhar ou subir escadas, o instinto imediato da maioria das pessoas é suspender qualquer tipo de atividade física, acreditando que o repouso absoluto protegerá a perna contra novos danos. Para a medicina, no entanto, essa decisão de imobilidade é o ponto de partida para a destruição acelerada da estrutura do corpo: o joelho é uma engrenagem desenhada exclusivamente para o movimento, a partir do exercício físico.

Para desmistificar os fatores que realmente condenam a saúde da articulação e entender a mecânica de proteção do nosso corpo, a reportagem ouviu Pedro Ribeiro, médico ortopedista especialista em joelho e medicina regenerativa da clínica Orion. O diagnóstico do especialista subverte o senso comum: o desgaste precoce não é culpa do impacto em si, mas do enfraquecimento de quem está recebendo esse impacto.

"Costumo dizer que o sedentarismo e o sobrepeso são os principais hábitos que prejudicam o nosso joelho no dia a dia", afirma. Ele detalha que muitos pacientes evitam o exercício por medo, ignorando que a atividade física é o único estímulo capaz de criar uma barreira de proteção.

"Às vezes as pessoas pensam em não praticar nenhum tipo de esporte ou exercício porque há risco maior de dano para o joelho. Porém, o esporte sempre nos estimula a manter o peso e o fortalecimento muscular", alerta o médico. Quando uma pessoa perde massa magra e ganha peso, cada passo dado transfere uma carga esmagadora direto para os ossos, sem nenhum amortecedor ativo para dissipar a energia.

<><> O "cadeado" muscular e a preservação da cartilagem

A anatomia do joelho é composta por uma rede complexa de ligamentos, mas a estrutura central que garante a fluidez da passada e impede que os ossos "raspem" uns nos outros é a cartilagem. Diferente de outros tecidos do corpo humano, ela possui uma capacidade de regeneração quase nula. "A cartilagem é o nosso maior item de raridade, de preciosidade dentro do joelho. Então, tudo o que a gente faz ao redor dele visa, justamente, proteger essa cartilagem", explica.

A estratégia biológica para blindar essa área é a construção de uma barreira ao redor dos ossos. "O envelope muscular, como eu gosto de chamar, é um dos principais responsáveis pela estabilidade articular. E essa estabilidade é uma das principais responsáveis pelo menor desgaste da cartilagem", explica o especialista. "Uma coxa volumosa e forte não é um padrão estético, mas um escudo físico".

Para que o corpo suporte o peso de uma corrida ou de um simples agachamento sem esmagar o centro do joelho, ele depende do quadríceps (a parte da frente da coxa), da musculatura interna que estabiliza a patela (o vasto medial oblíquo), dos músculos da parte de trás da perna e das panturrilhas.

O médico ilustra a união dessas forças como um sistema de segurança fechado: "Costumo dizer que isso é como se fosse um cadeado. A gente tem que fortalecer muito bem a parte da coxa, tanto na anterior como na posterior, e a panturrilha para que esse joelho possa ter uma estabilidade maior".

<><> O excesso de carga e o uso de calçados específicos

Se a inatividade destrói o joelho por causa da fraqueza, o esporte executado sem orientação o prejudica pelo excesso de carga descontrolada. O treinamento físico precisa ser dosado, pois o exagero esmaga os tecidos articulares antes que eles tenham tempo de se recuperar do esforço anterior.

"O excesso de exercício também pode sobrecarregar o joelho. Então é óbvio que o treino tem que ser prescrito por um profissional da área, por alguém que tenha qualificação, e executado da maneira correta para que não haja prejuízo."

O impacto da pisada repetitiva no asfalto ou na esteira também é moldado pela base de apoio que o praticante escolhe usar. A absorção inicial da força recai diretamente sobre os pés e, imediatamente, sobe para os joelhos.

O uso de calçados incorretos força a pisada torta e joga todo o impacto para as laterais da perna. "Hoje temos calçados específicos para cada modalidade. O uso do tênis adequado é essencial, principalmente nas atividades de impacto, assim como a atenção rigorosa à postura", destaca o especialista.

<><> O peso do encurtamento muscular na locomoção

Nos esportes que exigem contato e mudanças bruscas de direção, como o futebol, a exigência do corpo atinge seu nível máximo. O futebol lidera os índices de cirurgias ortopédicas no país devido às paradas rápidas e giros em alta velocidade. "Esses esportes necessitam de uma maturidade muscular melhor, porque existe uma rotação muito rápida", aponta. Sem músculos fortes para "frear" o corpo, a força do giro estoura os ligamentos internos em uma fração de segundo.

Outra falha crônica, tanto nos esportes de alto impacto quanto na musculação, é o abandono da flexibilidade. Músculos curtos, rígidos e sem elasticidade repuxam o joelho para fora do seu eixo original. "O alongamento e a mobilidade são muito importantes, porque o encurtamento causa dificuldade e diferença na forma de locomoção e na amplitude do movimento", explica o ortopedista. A orientação é que a rotina física nunca seja focada apenas em levantar peso. "É fundamental reservar um tempo antes da atividade principal para focar no alongamento e no fortalecimento, uma prática preventiva que tem ganhado cada vez mais destaque", completa.

A identificação de que a estrutura do joelho entrou em colapso acontece por meio de duas categorias clínicas exatas de dor. As lesões agudas ocorrem imediatamente após traumas diretos ou entorses súbitos, gerando inchaço rápido e o chamado bloqueio articular, um travamento físico que impede o paciente de esticar ou dobrar completamente a perna.

Por outro lado, as lesões crônicas de acúmulo apresentam quadros inflamatórios persistentes, documentados clinicamente como tendinite patelar, tendinite do tendão quadricipital e tendinite da pata de ganso. Nesses cenários de desgaste contínuo, a dor torna-se arrastada e progressiva, piorando gradativamente a cada novo esforço físico repetitivo, e vem frequentemente acompanhada por episódios de instabilidade articular, em que a perna apresenta falseios visíveis durante a caminhada.

•        Infiltração no joelho: entenda quando tratamento é realmente indicado?

A dor crônica ou o desgaste na articulação do joelho podem limitar drasticamente a rotina. Quando os tratamentos convencionais não trazem o alívio esperado, a infiltração costuma surgir como uma excelente alternativa, mas o procedimento ainda gera muitas dúvidas nos consultórios.

Neste vídeo, a ortopedista Camila Cohen esclarece de forma objetiva como funciona essa intervenção. Ela explica para quais quadros clínicos a infiltração é realmente indicada e qual é o perfil de paciente que mais se beneficia desse tratamento.

Além disso, detalha os diferentes tipos de infiltração disponíveis hoje e os efeitos específicos que cada um promove na articulação, desde o alívio da dor até a lubrificação do local. Assista à explicação completa e entenda como essa técnica pode ser uma aliada para a recuperação da sua qualidade de vida.

 

Fonte: CNN Brasil

 

Nenhum comentário: