Elisabeth Lopes: “Se a Rede Globo for a
favor, somos contra. Se for contra, somos a favor”
Nesta semana, seguindo o pernicioso estilo
lavajatista, o ministro André Mendonça, indicado ao STF por Jair Bolsonaro após
atuar como seu devoto ministro da Justiça, resolveu operar com uma presteza
calculada ao levantar o sigilo das investigações da PF que contém mensagens do
ex-banqueiro Daniel Vorcaro com o ministro Alexandre de Moraes, alvo predileto
da ira bolsonarista por ter sido relator da Ação Penal 2668, que culminou na
condenação do ex-presidente. As investidas de Mendonça passam longe de ser um repentino
e desinteressado surto de transparência, atitude que não teve em relação a si
mesmo. Vale destacar que Mendonça também esteve com Vorcaro, compartilhando um
diálogo privado por cerca de duas horas em março de 2025, no seu Instituto
Iter, conforme apuração exclusiva da newsletter Noites Húngaras, do jornalista
investigativo Paulo Motoryn. Os movimentos indevidos de Mendonça ao longo dessa
semana indicam mais de 50 tons de conveniência político-eleitoral para
tumultuar a corrida presidencial, além de não restar dúvida sobre a gravidade
de sua postura como julgador e investigador ao mesmo tempo. Curiosamente, a
mesma mão vigorosa do ministro que expõe de forma cirúrgica os bastidores de
alguns personagens e autoriza buscas e apreensões contra outros alvos
envolvidos no Caso Master não levanta o sigilo do Caso Dark Horse, capítulo
obscuro da mesma trama que ameaça desvelar o destino da soma cada vez mais
vultosa fornecida a Flávio Bolsonaro pelo ex-banqueiro Daniel Vorcaro.
Nesse horizonte, o impacto da referida
suspensão de sigilo tomou conta tanto da mídia corporativa quanto da mídia
independente. É inquestionável a diferença abissal na cobertura e nos
comentários realizados pelos jornalistas das duas. A mídia patrocinada chega a
ditar peremptoriamente o que o Presidente do Supremo Tribunal Federal deve
fazer diante da grave crise instalada por Mendonça no STF, enquanto os veículos
da mídia independente, sobretudo os consagrados pela seriedade, confiabilidade
e responsabilidade social, estão analisando os fatos com ética, isenção e
postura analítica, levando em conta todas as variáveis dos fatos, sem impor
direcionamentos à instituição sob os holofotes.
Considerando essas posturas tão distintas e
diante do limiar complexo que definirá os destinos do país, torna-se essencial
compreender o movimento das peças desse jogo, distribuídas por interesses de
toda ordem, tanto no plano interno quanto no externo, movimento que se
intensifica quando falta pouco para os brasileiros irem às urnas decidir quem
representará suas expectativas na Presidência da República, no Congresso
Nacional e nos poderes Executivo e Legislativo de cada unidade da Federação. Em
uma democracia, essa escolha deveria resultar do confronto mais amplo e honesto
possível entre projetos de país. A democracia não se resume ao momento em que o
eleitor deposita o voto. Antes disso, trava-se uma batalha decisiva pelo
direito de informar, de interpretar os acontecimentos e, sobretudo, de definir
o que será visto, o que será escondido e a maneira como cada fato chegará ao
cidadão.
Em um polo, milhares de brasileiros de
diferentes realidades socioeconômicas, entre estes, a maioria que acorda cedo,
que pega mais de um transporte lotado, que cumpre jornadas exaustivas e, ao
retornar para casa, assume outra jornada de trabalho doméstico e de cuidado com
a família, decidirão quem ocupará a Presidência da República, o Congresso, os
governos e os legislativos estaduais. São milhões cuja vida é diretamente
afetada pelas decisões tomadas nesses poderes. Em outro polo, persistem os
interesses de uma minoria minúscula de 1% que, desde a colonização, concentra
riqueza, privilégios e capacidade de interferir nos rumos do Estado. A
desigualdade de poder não se manifesta apenas na distribuição da renda,
manifesta-se também na capacidade de produzir e difundir ideias. É nesse
terreno que a mídia corporativa ocupa lugar estratégico. Concentrada nas mãos
de poucos grupos empresariais, ela detém um farto monopólio sobre a formação da
opinião pública. Não se trata apenas de noticiar. Trata-se de selecionar temas,
definir quais personagens ocuparão o centro do debate, escolher o tom, insinuar
com falta de imparcialidade, decidir o que será tratado como escândalo, o que
será relativizado e, não raramente, o que sequer chegará ao conhecimento do
público, ao defender os políticos que vão ao encontro de seus interesses, que
estão longe de ser os da maioria do povo que acorda cedo para o árduo trabalho
diário. O seu poder concreto de influenciar a agenda, estimular percepções e
estabelecer os limites dentro dos quais o debate político será travado tem sido
a prática sistemática dessa imprensa não isenta.
Essa influência se torna particularmente
corrosiva quando os interesses econômicos dos grandes conglomerados coincidem
com determinadas concepções ideológicas de Estado e de sociedade. A prática é
antiga e previsível. Governos e projetos progressistas são submetidos a uma
cobertura marcada pela suspeição permanente. Qualquer dado positivo vem
acompanhado de um “mas”; avanços sociais concretizados são rotulados de
populismo. Qualquer crítica à desigualdade é tratada como discurso
interesseiro. Já os representantes da direita e até da extrema-direita
frequentemente recebem tratamento diferenciado, na medida em que falhas são
relativizadas, escândalos minimizados, declarações absurdas normalizadas. A
escolha das palavras, das imagens, das manchetes e do tempo destinado a cada
assunto também é uma forma de fazer política, ainda que apresentada sob a
aparência de neutralidade jornalística. Há inúmeros exemplos eloquentes sobre
as práticas da grande mídia. Em 2018, o Estadão chegou a sustentar
editorialmente que a escolha entre Fernando Haddad, professor universitário,
ex-ministro da Educação e ex-prefeito de São Paulo, e Jair Bolsonaro seria uma
“decisão difícil”. De um lado, um político de trajetória pública conhecida; de
outro, um candidato já marcado por declarações fascistas, ataques às
instituições democráticas e manifestações em defesa da ditadura e da tortura. A
falsa equivalência, repetida à exaustão por boa parte da grande imprensa,
ajudou a pavimentar o caminho para um governo que deixou rastro de destruição
institucional.
É sistemática a insistência em galvanizar
determinados candidatos da direita cujos projetos respondam aos interesses
liberais que defendem, assinalando-os como a terceira via necessária para
governar o país, enquanto os candidatos progressistas de esquerda são
submetidos a uma permanente operação de desqualificação. O candidato desta vez,
já que perderam aquele que consideravam ideal para os interesses do mercado, o
bolsonarista Tarcísio de Freitas, é o lunático de ideias surreais, escritor de
autoajuda barata Augusto Cury (Avante), que, segundo a pesquisa Quaest de 2 de
setembro, já alcança 10% das intenções de voto. O outro possível integrante
dessa categoria, Ronaldo Caiado (PSD), caiu ladeira abaixo. Mas o dado que
melhor revela o sentido político desse crescimento de Cury aparece quando a
pesquisa projeta o comportamento de seus eleitores no segundo turno. Segundo o
diretor do instituto, Felipe Nunes, 57% dos votos atribuídos a Augusto Cury
migrariam para o senador Flávio Bolsonaro (PL), enquanto apenas 15% iriam para
o presidente Lula (PT). Ou seja, por trás da suposta “terceira via”,
apresenta-se um eleitorado majoritariamente alinhado à direita e, no segundo
turno, muito mais próximo do bolsonarismo. Apesar dessa movimentação, Lula
continua liderando nos cenários de primeiro e segundo turnos.
É nesse ambiente que se evidencia o papel
político da mídia corporativa. A gravidade aumenta porque esse poder se exerce
também pelo silêncio, pela relativização e pela transformação de vazamentos
ilícitos e insinuações precipitadas, revestidas de jornalismo investigativo.
Alguns profissionais bem remunerados e bem posicionados encarnam o papel de
investigadores enquanto funcionam, na prática, como prepostos privilegiados de
seus patrões. Transformam fofoca em denúncia, informação obtida de maneira obscura
em furo e a defesa de interesses privados em interesse público. O problema não
é investigar o poder, o que seria uma das funções mais nobres da imprensa. O
problema começa quando a investigação deixa de buscar a verdade e passa a
servir a interesses políticos ou econômicos previamente definidos.
Nessa perspectiva deletéria para a
democracia, foi Leonel Brizola quem, ainda no século passado, denunciou com
veemência o poder político da Rede Globo e sua insidiosa interferência no
debate público. A trajetória do governador sintetiza o conflito entre um
projeto que desafiava elites econômicas e um poderoso conglomerado com enorme
capacidade de influência. Décadas depois, o método não mudou. Apenas se
sofisticou. Não é preciso imaginar uma conspiração permanente, nem atribuir a
todos os jornalistas a mesma conduta. Há profissionais sérios, independentes e
comprometidos com o interesse público. A questão é estrutural, empresas
privadas de comunicação possuem proprietários, interesses econômicos, relações
empresariais e determinadas visões de mundo. Quando esses interesses se cruzam
com a disputa pelo poder político, a suposta neutralidade se transforma em
conveniências úteis. Às vésperas de mais uma eleição, discutir o papel da mídia
não é atacar a liberdade de imprensa. É defender o direito da sociedade a uma
imprensa efetivamente livre, plural e responsável. Liberdade de imprensa não
pode ser confundida com liberdade empresarial para monopolizar a informação,
selecionar versões da realidade e influenciar escolhas políticas sem jamais
prestar contas sobre seus próprios interesses. A democracia exige ética e
transparência da mídia. Ninguém escolhe livremente aquilo que conhece apenas
parcialmente.
A trajetória da Rede Globo não é a de uma
emissora imparcial que, de vez em quando, erra. É a biografia de um império
midiático construído sobre a espinha dorsal do poder oligárquico brasileiro,
sempre disposto a trocar apoio político por vantagens regulatórias, concessões
e silêncio seletivo. Desde 1964, quando Roberto Marinho colocou seus veículos a
serviço do golpe que derrubou João Goulart sob o pretexto da ameaça comunista,
a Globo nunca foi espectadora, foi cúmplice ativa. A ditadura recompensou o favor
com o ambiente de expansão que transformou um canal do Rio na maior máquina de
fabricação de consenso do país. Só em 2013, pressionado pelas ruas, o jornal O
Globo admitiu que aquele apoio foi um erro. O reconhecimento tardio não apaga o
lucro acumulado nem o padrão que se repetiria nas décadas seguintes. Sua imparcialidade sempre foi uma farsa. Em
1982, no Caso Proconsult, enquanto a apuração oficial e a da própria Globo
apontavam vantagem do candidato governista Moreira Franco, a contagem paralela
do Jornal do Brasil e da Rádio JB revelava a vitória de Leonel Brizola. A
empresa de informática ligada a militares da reserva desviava votos nulos e em
branco. A emissora nega ter contratado a Proconsult, mas o episódio ficou
registrado como tentativa de fraude desbaratada por concorrentes. Sete anos
depois, na primeira eleição direta para presidente, a edição do debate
Collor-Lula exibida no Jornal Nacional na véspera do segundo turno, favorecendo
Collor representou mais um golpe. A própria Globo, décadas depois, reconheceu o
desequilíbrio. O dano, porém, já estava feito.
Entre 2002 e 2018, o método se sofisticou. Em
2002, o “risco Lula” e a disparada do dólar ocuparam o noticiário com tom de
apocalipse econômico. Em 2006, às vésperas do primeiro turno, a dramatização
das pilhas de dinheiro do “escândalo dos aloprados”, fotos vazadas e exploradas
com intensidade cinematográfica, ajudou a impedir a vitória de Lula já no
primeiro turno. Durante a Lava Jato, a emissora transformou denúncias em
espetáculo visual por meio dos dutos de propina apresentados no JN e do
descalabro do PowerPoint de Deltan Dallagnol que colocava Lula no centro de uma
teia criminosa (peça que a própria Justiça e a opinião pública depois
desmontaram) além dos vazamentos seletivos contra a esquerda. Em 2018, enquanto
a facada em Bolsonaro gerava cobertura humanizadora e emotiva, trechos da
delação mentirosa de Palocci eram liberados e amplificados na véspera da
votação para a presidência. Nas sabatinas deste ano no Jornal Nacional, a
bancada tradicional deu lugar a um cenário de interrogatório ao estilo de inquirição
policial em relação a Lula, seguindo o velho padrão. Com Flávio Bolsonaro,
entretanto, a disposição para apertar o cerco desapareceu. O contraste político
não poderia ser mais nítido. Contudo, Lula entrou na sabatina para ser cobrado
como governante e saiu dela falando como estadista, apresentou resultados,
defendeu seu legado e expôs um projeto de continuidade de transformação social,
enquanto Flávio Bolsonaro entrou como candidato e terminou a entrevista
afirmando seu caráter mitômano.
Acerca da grave crise no STF, o Jornal
Nacional dedicou vários minutos às denúncias contra Alexandre de Moraes. Vale lembrar, que a Globo e a extrema direita
o associam a Lula pelo fato dos dois fazerem frente ao bolsonarismo. Já o
encontro secreto de Mendonça com Vorcaro recebeu uma cobertura infinitamente
menor. Estadão e Folha de S. Paulo foram enfáticos ao sugerir que Moraes não
reúne condições para permanecer na Corte. O Globo, por sua vez, afirmou que o
STF deve cobrar dele explicações urgentes. Todavia, não há manchetes pedindo o
afastamento de Mendonça com base em sua relação com Vorcaro, nem sobre suas
incongruências jurídicas apontadas por Moraes na petição que encaminhou ao
presidente da Corte, solicitando que André Mendonça seja investigado. Também
não enfatizaram em seus editoriais, o escândalo revelado pela Revista Fórum,
tradicional revista da mídia independente, envolvendo o Instituto Iter fundado
por Mendonça, que descobriu a fórmula mágica do mercado público ao abocanhar R$
10,8 milhões em 55 contratos com a máquina estatal, sendo 54 sem licitação.
Os dois pesos e duas medidas ficam evidentes
no contraste. Enquanto a imprensa corporativa transforma suspeitas contra uns
em vereditos de afastamento de acordo com os interesses que representam, trata
o atalho dos R$ 10,8 milhões sem licitação do instituto de Mendonça sem o
devido destaque. É a covardia editorial em estado puro. A mesma mídia que exige
a cabeça de Moraes, não realça os fatos comprometedores, denunciados pelo
jornalismo independente, acerca de André Mendonça. O que a história da Globo e
dos demais veículos da grande mídia demonstram não é parcialidade ocasional. É
a coerência de um projeto de poder, de alinhar-se, em cada conjuntura decisiva,
aos interesses das forças econômicas poderosas que garantem sua hegemonia.
Quando o vento muda, trocam o discurso, nunca o método. A diferença, em 2026, é
que boa parte do público já não engole a ficção da isenção com a mesma
facilidade de antes. Diante de tamanha seletividade, a velha máxima de Leonel
Brizola ecoa com indubitável precisão: “Se a Globo é a favor, somos contra; se
for contra, somos a favor”. Afinal, quando o viés corporativo escolhe quem
proteger e quem crucificar, a bússola da verdade passa, obrigatoriamente, bem
longe dos seus editoriais.
Fonte: Brasil 247
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