Por que a natureza te faz sentir mais calmo?
Com que frequência você sai ao ar livre e
mergulha na natureza?
Pesquisas mostram que conectar-se com
ambientes naturais pode trazer diversos benefícios, desde a redução da
ansiedade e da depressão até a diminuição da pressão arterial.
Muitos de nós podemos confirmar que nos
sentimos melhor depois de um passeio em meio à natureza. Mas de onde vem essa
afinidade com a natureza? E será que todos podem colher os mesmos benefícios?
<><> A natureza como medicina
Há algum tempo, vêm sendo apontados os
benefícios da natureza em ambientes de saúde.
Na década de 1980, um estudo constatou que
pacientes submetidos a cirurgia de vesícula tinham condições de receber alta,
em média, quase um dia antes caso pudessem ver árvores através de uma janela.
Pacientes que tinham vista para uma parede de
tijolos não apenas precisavam de analgésicos mais fortes durante a recuperação,
como também recebiam mais observações negativas por parte da equipe de
enfermagem — como "abalado e choroso" ou "precisa de muito
incentivo".
Hoje, alguns hospitais e centros médicos
estão ampliando essa ideia.
A organização beneficente de apoio a
pacientes com câncer Maggie's mantém centros voltados ao bem-estar em todo o
Reino Unido e em locais como Hong Kong e Japão. Robin Muir é psicólogo clínico
e dirige a unidade de Manchester, na Inglaterra.
Ele contou ao podcast da BBC Why Do We Do
That que o prédio é cercado por um jardim de 360 graus, com janelas do chão ao
teto que trazem a natureza para dentro. Isso ajuda os visitantes a se sentirem
tranquilos e conectados ao mundo exterior.
"Infelizmente, as cidades podem, por
vezes, carecer de ambientes naturais, vida selvagem e áreas verdes", diz
ele. Portanto, para alguém que passa por um tratamento contra o câncer, "o
que aquele jardim e a natureza proporcionam é algo realmente terapêutico".
E os benefícios da natureza não parecem se
limitar à área da saúde.
Um estudo realizado na Snake River
Correctional Institution, no Oregon (EUA), constatou que detentos que assistiam
a vídeos da natureza de três a quatro vezes por semana cometiam 26% menos
infrações violentas — o equivalente a 13 incidentes violentos ao longo de um
ano.
<><> Como a natureza muda o corpo
humano
Uma ideia conhecida como hipótese da biofilia
defende que os seres humanos têm um impulso inato de estar próximos à natureza,
uma vez que nossos ancestrais evoluíram em ambientes selvagens. Na década de
1980, o biólogo Edward O. Wilson sugeriu que esse impulso está codificado em
nossos genes.
Embora existam evidências provenientes de
estudos com gêmeos que sugerem um componente genético, até o momento não foi
identificado nenhum gene — ou família de genes — que leve diretamente ao amor
pela natureza.
No entanto, os cientistas têm algumas
hipóteses sobre como passar tempo na natureza pode nos fazer sentir melhor,
tanto em nível fisiológico quanto cognitivo.
Gregory Bratman, professor associado e
diretor do laboratório de meio ambiente e bem-estar da Universidade de
Washington (EUA), aponta a existência de duas teorias principais.
Uma delas é a hipótese da redução do
estresse, segundo a qual ambientes naturais desencadeiam alterações
fisiológicas em nosso organismo que diminuem os níveis de estresse.
Isso se manifesta por meio da ativação do
sistema nervoso parassimpático — o chamado modo de "repouso e
digestão", associado a respostas como a redução da frequência cardíaca.
Assim, segundo Bratman, o contato com a
natureza poderia nos ajudar a nos preparar para eventos estressantes,
neutralizar nossas reações ao estresse no momento em que ele ocorre e também
auxiliar na recuperação posterior.
A outra ideia principal é a teoria da
restauração da atenção, que defende que a natureza ajuda a fortalecer nossa
capacidade de ignorar distrações e nos concentrar em algo — o que é chamado de
atenção direcionada.
"Ambientes urbanos tendem a apresentar
mais distrações, como desviar de carros e do trânsito, além de ruídos",
diz Bratman. "Isso sobrecarrega nossa atenção direcionada. Ela acaba se
esgotando."
Por outro lado, muitos ambientes naturais
estimulam nossa atenção indireta.
"Aquela sensação de estar em outro
lugar, a sensação de sintonia com o ambiente. Quando esse aspecto da nossa
atenção é acionado, cria-se uma oportunidade para que a atenção direcionada se
recupere", explica ele.
Pesquisas do próprio Bratman constataram
melhorias na memória de trabalho de pessoas que fizeram uma caminhada na
natureza, em comparação com aquelas que caminharam em ambiente urbano, durante
50 minutos.
Além de apresentarem redução em indicadores
como a ansiedade, os participantes que caminharam na natureza tiveram um
desempenho melhor em um teste que exigia memorizar uma sequência de letras
aleatórias enquanto resolviam equações matemáticas simultaneamente.
Eles "lembraram, em média, cerca de nove
ou dez letras a mais, mesmo levando em conta o desempenho na matemática",
recorda Bratman. "Já o desempenho de quem caminhou na área urbana
permaneceu praticamente inalterado."
É possível que a natureza nos afete tanto
pela redução do estresse quanto pela restauração da atenção. "Não acho que
sejam mutuamente exclusivos", diz ele.
<><> Vegetação ou deserto?
No entanto, é importante notar que nem todas
as pessoas vivenciam a natureza da mesma maneira.
Em um estudo, pesquisadores japoneses
compararam jovens que passavam tempo em florestas ou em ambientes urbanos.
Cerca de 80% daqueles que ficaram na floresta
apresentaram um aumento em um indicador de atividade do sistema nervoso
parassimpático. Os outros 20% mostraram uma redução.
Bratman afirma que uma questão para a qual os
pesquisadores estão se voltando agora é como diferentes tipos de natureza podem
exercer impactos distintos sobre diferentes pessoas.
Ele destaca um trabalho realizado com colegas
dos EUA, em El Paso, no Texas, no qual submeteram os participantes a um desafio
estressante e, em seguida, os expuseram a um de três ambientes em realidade
virtual: uma paisagem verde, uma paisagem desértica e um ambiente de escritório
(como grupo de controle).
"Nossa hipótese era a de que o ambiente
verde traria mais benefícios às pessoas", diz ele, "com base na
teoria psicoevolutiva de redução do estresse, segundo a qual ambientes verdes
ativam nosso sistema de 'repouso e digestão', pois oferecem condições para
visualizar onde estão predadores, presas e fontes de água".
Para surpresa da equipe, o ambiente desértico
também pareceu promover a recuperação do estresse em um nível semelhante, diz
Bratman, "embora, de acordo com a teoria psicoevolutiva, não haja água nem
fontes de alimento ali".
Os pesquisadores não sabem ao certo, mas é
possível que isso tenha alguma relação com o fato de El Paso ser uma cidade
desértica e de os participantes talvez se sentirem "mais seguros e
familiarizados com o ambiente desértico".
Bratman suspeita que nossas experiências de
vida e preferências pessoais possam, de fato, moldar nossa resposta à natureza.
"Sinto que pertenço a este lugar? Quais
são as minhas lembranças deste local ou deste tipo de natureza? Tudo isso
desempenha um papel fundamental", sugere ele.
<><> 'Exposição repetida'
O que o crescente corpo de pesquisas sugere é
que alguma forma de contato com a natureza pode trazer benefícios à saúde para
muitos de nós.
Hoje, mais de 80% da população mundial vive
em vilas e cidades, segundo a ONU, e Bratman afirma que devemos considerar como
"proporcionar algum tipo de acesso à natureza para todos — e especialmente
para as crianças —, seja nos pátios das escolas, seja em seus bairros".
Talvez você nem sempre tenha vontade de sair
para caminhar, mas ele diz que, "mesmo que as mudanças de humor ou nos
padrões de pensamento sejam pequenas, esses efeitos provavelmente se acumulam
com o tempo".
"Assim, exposições repetidas ao longo de
dias, semanas, meses ou anos poderiam levar, potencialmente e em alguns casos,
a diferenças bastante profundas no humor."
Fonte: BBC News
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