O PT segundo Florestan Fernandes e Maurício
Tragtenberg
A metamorfose do Partido dos Trabalhadores
sob a perspectiva do “Dilema da estrela” (1988) e do “PT em movimento” (1991).
<><> Duas leituras do mesmo
partido
Maurício Tragtenberg (Jornal da Tarde, 1988)
e Florestan Fernandes (I Congresso do PT, 1991) analisam, de posições opostas,
a burocratização, o eleitoralismo e o apaziguamento da luta de classes na
formação da social-democracia petista.
Ambos reconhecem no PT uma novidade histórica
e ambos temem as pressões institucionais que tendem a domesticá-lo. As
conclusões divergem. Florestan Fernandes escreve de dentro, como militante e
intelectual orgânico, para orientar o I Congresso numa direção marxista
revolucionária. Seu texto é programático, denso, confiante na capacidade do
partido de se constituir como instrumento de transformação socialista.
Maurício Tragtenberg escreve de fora, como
observador heterodoxo e estudioso das burocracias. Seu artigo é breve,
cirúrgico, cético quanto à possibilidade de qualquer partido escapar à lógica
da institucionalização.
A divergência não se dá na constatação dos
riscos, mas no diagnóstico de sua incontornabilidade. Maurício Tragtenberg
percebe o PT já capturado pela gramática eleitoralista e pela reprodução dos
vícios da tradição varguista – o “aparelho” se sobrepondo à autonomia da
classe. Florestan Fernandes vê as fragilidades como contradições abertas,
passíveis de superação pela radicalização da práxis. O confronto entre a
crítica de Maurício Tragtenberg – formulada no rescaldo da vitória de Luiza
Erundina e do avanço das prefeituras petistas – e as advertências de Florestan
Fernandes três anos depois funciona como radiografia da passagem do PT de
“partido movimento” a “partido da ordem”.
<><> Florestan Fernandes – o PT
como necessidade histórica
O argumento de Florestan Fernandes articula
três planos. No internacional, enfrenta a conjuntura da “crise do Leste” e a
ofensiva neoliberal para sustentar que o marxismo permanece indispensável.
Recorrendo a Adam Przeworski, argumenta que a social-democracia é uma
capitulação estrutural dos trabalhadores diante do capital: “os
social-democratas não conduzirão as sociedades europeias ao socialismo”. Se
isso vale para a Europa, ganha ainda mais força nas formações de capitalismo
dependente, onde a burguesia nem cumpriu suas próprias tarefas históricas.
No plano histórico-nacional, retoma seu
diagnóstico clássico: um país onde “o colonialismo não foi destruído até o fim
e até o fundo”, onde a burguesia se constituiu como classe dominante sem romper
com as oligarquias agrárias nem com o imperialismo, e onde a democracia nunca
ultrapassou a condição de “biombo”. O PT surge como “necessidade histórica dos
trabalhadores”: o partido que deveria criar uma democracia real, abrir a ordem
a reformas sociais e formar as “premissas históricas de uma revolução socialista”.
No plano programático, formula uma estratégia
de acumulação de forças com quatro tipos de tarefas: as burguesas incumpridas
(reforma agrária, universalização da educação), as derivadas da pressão da luta
de classes sobre a burguesia, as específicas dos trabalhadores na conquista de
espaço democrático, e as de revolução contra a ordem. Esta última – a menos
desenvolvida na prática do partido – é o que distingue, para Florestan
Fernandes, o PT de um partido social-democrático: sem ela, o partido se converteria
em “partido da ordem, de centro-esquerda, uma fatalidade brasileira”.
O esquema expõe o drama percebido por
Florestan Fernandes. A “necessidade histórica” do PT não derivava de um
imperativo eleitoral, mas da impossibilidade de democratização real sob a
autocracia burguesa. Ao assumir simultaneamente tarefas burguesas inacabadas e
a preparação da ruptura socialista, o partido equilibrava-se sobre uma linha
tênue. Para Florestan Fernandes, a esquiva dessa responsabilidade não
conduziria a uma social-democracia clássica – inviável nas condições do
capitalismo dependente –, mas à própria degradação do PT, convertido em mero
gestor da ordem autocrático-burguesa.
<><> Maurício Tragtenberg – a
social-democracia como destino
Maurício Tragtenberg parte de premissa que
Florestan Fernandes compartilha, mas da qual extrai consequências opostas: o PT
nasceu do “movimento real de classe” das greves de 1978, como expressão de um
operariado formado pela experiência vivida nos embates político-sociais. Para
Maurício Tragtenberg, é precisamente essa origem que está em risco. O artigo de
1988 é um diagnóstico precoce da social-democratização – processo que Florestan
Fernandes, três anos depois, teme como possibilidade futura, mas que Maurício
Tragtenberg já identifica como tendência dominante.
Três vetores de institucionalização são
dissecados. O primeiro é a burocratização sindical. Recorrendo a Michels e à
tradição libertária, Maurício Tragtenberg argumenta que o sindicalismo tende
estruturalmente ao corporativismo: “quanto mais forte se tornar o movimento
sindical, mais ele tem tendência ao corporativismo”. A CUT, “alavanca” do PT,
era uma alavanca carregada de perigos de burocratização. Maurício Tragtenberg
prevê que sua evolução a aproximaria da CGT – prognóstico que a história
confirmou.
O segundo vetor é o parlamentarismo
eleitoral. Maurício Tragtenberg observa que a ênfase na atuação eleitoral já
marcava a orientação da facção dominante. Recorre à experiência europeia: “a
tática eleitoral e parlamentar acabou, na Europa e nos Estados Unidos, com o
espírito revolucionário das massas e conduziu à abdicação do socialismo”. Sobre
os partidos da Segunda e Terceira Internacional nas administrações municipais
italianas: “são bons administradores, porém, talvez liberais, socialistas
jamais!”.
O terceiro vetor é a hegemonia da
“Articulação” – sindicalistas do ABC e intelectuais independentes que
controlavam a máquina do partido. Maurício Tragtenberg identifica a contradição
central: o grupo critica o vanguardismo das tendências minoritárias em nome da
democracia interna, mas marginaliza setores à esquerda e à direita,
reproduzindo a lógica oligárquica que denuncia na sociedade. A profissão de fé
do grupo – “um PT de massas, de luta e democrático” – é lida como profissão de
fé “tipo Labour Party“.
Ao amarrar os três vetores, Maurício
Tragtenberg responde ao seu próprio dilema: a estrela petista já não era
vermelha – cor da ruptura e da autogestão de classe –, mas branca – cor da
pacificação e da acomodação institucional. Se para Florestan Fernandes o
partido ainda era organismo em disputa, para Maurício Tragtenberg o PT já
ingressara no trilho de onde pouca margem restaria para o horizonte socialista.
O que se desenhava não era desvio temporário de uma “necessidade histórica”,
mas o cumprimento de um script sociológico: o do partido que, ao se tornar
gestor da máquina estatal, abdica de transformar a realidade para converter-se
em seu administrador.
<><> O nó da questão: reformismo
e revolução
A divergência fundamental concentra-se na
relação entre reforma e revolução. Florestan Fernandes sustenta posição
dialética: reformas dentro da ordem como etapa de acumulação de forças, sem
perder o horizonte da “revolução contra a ordem”. A reforma tem “significado
pedagógico-estratégico decisivo”: é na arena das reivindicações concretas que
os trabalhadores aprendem a auto-emancipação. O perigo não está em lutar por
reformas, mas em substituir a conquista do poder pela mera “ocupação do poder”.
Maurício Tragtenberg formula crítica mais
radical. Não se opõe às reformas – “deve-se lutar por reformas, aqui e agora,
sim” –, mas sustenta que “o reformismo torna impossíveis as reformas,
inclusive”. A lógica do parlamentarismo eleitoral, ao subordinar a ação
política ao cálculo de viabilidade institucional, castra as reivindicações que
pretende promover, submetendo-as aos limites do aceitável pela ordem. O
reformismo não é caminho lento para a transformação; é o mecanismo pelo qual a
transformação é indefinidamente adiada.
A divergência reflete posições de fundo.
Florestan Fernandes aposta na mediação partidária como instrumento de
centralização do poder das classes subalternas – o partido como “técnica social
dos de baixo”. Maurício Tragtenberg, tributário da tradição autogestionária de
Proudhon a Castoriadis, passando por Rosa Luxemburgo e pelos conselhos
operários, desconfia estruturalmente da forma-partido. A institucionalização
não é risco a ser contornado, mas tendência imanente a qualquer organização
burocrática – a “lei de ferro da oligarquia” de Michels.
Florestan Fernandes insiste na necessidade de
uma “educação para o socialismo” que confira à consciência operária “sólido
conteúdo socialista”. Parafraseando Vladímir Lênin: “sem consciência social
socialista nada conseguiremos”. A formação dessa consciência é tarefa do
partido, urgente porque a hegemonia cultural da burguesia penetra todos os
estratos sociais. O risco: a “retórica socialista” substituir a educação
efetiva, e o partido perder-se num “politicismo à esquerda” que compete com o
populismo.
Maurício Tragtenberg inverte a perspectiva. A
consciência de classe não se forma pela pedagogia partidária, mas pela
experiência direta da luta. Os trabalhadores que fundaram o PT vieram “não na
base de nenhum esquema marxista apriorístico, mas através da vida do ‘movimento
real de classe'”. Quando o partido assume a função de “educar” as bases,
inaugura-se a dissociação entre cúpula e militância. A advertência final do
artigo funciona como princípio metodológico: “o leitor arguto deverá considerar
a inevitável distância entre as afirmações abstratas em documentos partidários,
a manifestação verbal de líderes acatados em conferências ou comícios públicos
e a prática política real no cotidiano”.
Florestan Fernandes se inscreve na linhagem
Kautsky-Lenin-Gramsci: a consciência socialista precisa ser introduzida de
fora, porque a classe operária tende a desenvolver apenas consciência sindical,
incapaz de ultrapassar o horizonte da ordem. Maurício Tragtenberg filia-se à
tradição luxemburguista e conselhista: a consciência revolucionária brota da
ação direta; dirigi-la de fora reproduz, no interior do movimento operário, a
separação entre dirigentes e dirigidos.
<><> O veredicto da história
Florestan Fernandes morreu em 1995, Maurício
Tragtenberg em 1998. Nenhum dos dois viu a chegada do PT ao poder federal. A
trajetória posterior do partido – vitória de Lula em 2002, alianças com o
empresariado e a direita fisiológica, conciliação de classes, cooptação de
movimentos sociais, burocratização sindical no aparelho de governo, escândalos
de corrupção – confirmou, ponto por ponto, o prognóstico de Maurício
Tragtenberg: social-democratização como destino estrutural, não como desvio
conjuntural.
As advertências de Florestan Fernandes
adquiriram tonalidade profética. Temia a conversão em “partido da ordem, de
centro-esquerda”; temia a “acomodação social-democrática”; temia a retórica
socialista sem educação efetiva; temia a burocratização e as oligarquias
internas. Cada advertência encontra correspondência nos fatos. A ironia: o
próprio Florestan Fernandes contribuiu, com a sofisticação de seu argumento,
para legitimar a estratégia de acumulação de forças dentro da ordem que, levada
às últimas consequências por dirigentes menos rigorosos, produziu exatamente o
resultado que temia.
O diagnóstico de Maurício Tragtenberg
antecipou o percurso com precisão. A distância entre documentos partidários e
prática real tornou-se abismo. A convergência CUT-CGT materializou-se na
acomodação do sindicalismo cutista ao aparato estatal. A hegemonia da
“Articulação” consolidou-se e profissionalizou-se. O “estilo
social-democrático” identificado na palestra de Lula na FGV em 1988 tornou-se,
sob o nome de “lulismo”, o programa efetivo de governo.
A “estrela branca” de Maurício Tragtenberg
prevaleceu sobre a “revolução contra a ordem” de Fernandes. A metamorfose do PT
em “partido da ordem, de centro-esquerda” — que Fernandes apontava como
fatalidade a ser evitada — consolidou-se como modelo hegemônico da
social-democracia periférica brasileira.
A conversão do PT em “partido da ordem”
encontra expressão material nos números do financiamento público. Quando
Maurício Tragtenberg redigiu seu diagnóstico, em 1988, e Florestan Fernandes
formulou seu programa, em 1991, o PT operava sob severa escassez orçamentária.
Suas campanhas dependiam da militância voluntária, da contribuição de filiados,
da venda de camisetas, folhetos, broches e festas de arrecadação.
A restrição de recursos não era apenas uma
limitação: era uma condição de criatividade política. O partido inventava
formas de mobilização porque não podia comprá-las. A agitação de base, os
mutirões, os núcleos de bairro, a imprensa alternativa – tudo isso nascia da
penúria financeira convertida em energia organizativa. A limitação material
obrigava à imaginação.
O cenário atual é o inverso. Com a criação do
Fundo Especial de Financiamento de Campanha (FEFC) em 2017 e sua expansão
vertiginosa – de R$ 1,7 bilhão em 2018 para R$ 4,96 bilhões em 2024 –, o PT
passou a receber volumes de recursos públicos que tornam dispensável qualquer
vínculo orgânico com a base. Em 2024, o partido foi o segundo maior
beneficiário do fundo eleitoral, com aproximadamente R$ 620 milhões, atrás
apenas do PL. Somando-se o Fundo Partidário, o PT recebeu cerca de R$ 757
milhões apenas naquele ano. O acumulado entre 2018 e 2024 ultrapassa R$ 2,2
bilhões.
Os números traduzem em cifras o que Maurício
Tragtenberg diagnosticara em categorias sociológicas. O partido que nasceu das
greves do ABC, custeado por contribuições operárias e pela venda de boletins
mimeografados, converteu-se numa máquina eleitoral alimentada pelo erário. A
infraestrutura financeira estatal substituiu a infraestrutura militante. A
profissionalização das campanhas dispensou o trabalho de base; o marketing
eleitoral substituiu a agitação dos locais de trabalho; o cabo eleitoral
remunerado tomou o lugar do militante voluntário. A criatividade política que
emergia da restrição material foi substituída pela padronização derivada da
abundância orçamentária.
Não se trata de um argumento moralizante
contra o financiamento público – destinado, em tese, a assegurar a base
material dos partidos políticos. O ponto é de caráter estrutural: o FEFC opera
como mecanismo de retroalimentação do processo de institucionalização. Quanto
mais recursos o partido absorve do Estado, mais dependente se torna do aparato
que os distribui, e menos incentivos preserva para manter os vínculos orgânicos
com a classe e os movimentos sociais que lhe deram origem. O fundo eleitoral figura,
nesse sentido, como a materialização fiscal da “estrela branca” de Maurício
Tragtenberg: o partido não precisa mais da classe para sobreviver – precisa do
Estado.
O PT conta com 1,65 milhão de filiados – o
segundo maior cadastro partidário do país, atrás do MDB. Em 2024, recebeu cerca
de R$ 458 em recursos públicos por filiado: mais do que qualquer militante
jamais aportou com contribuições voluntárias. O fluxo financeiro entre partido
e base inverteu-se: quem sustenta a máquina não é mais a classe, é o Estado.
A distância entre o discurso e a prática
encontra expressão emblemática na própria voz da liderança partidária. Em
agosto de 2026, ao oficializar sua candidatura à reeleição, Lula criticou
publicamente o volume das emendas parlamentares e do fundo eleitoral,
classificando-os como excessivos e prometendo “briga” com o Congresso caso
reeleito.
O mesmo presidente cujo partido é o segundo
maior beneficiário do FEFC – e que governou durante toda a expansão do fundo,
de R$ 1,7 bilhão em 2018 para quase R$ 5 bilhões em 2024 – denuncia, no
palanque, o mecanismo de que se serve na prática. Maurício Tragtenberg não
poderia desejar ilustração mais precisa de seu princípio metodológico: a
discrepância abissal entre o formalismo dos textos partidários, o espetáculo
dos discursos públicos e a prática política concreta.
Florestan Fernandes oferece o argumento mais
sofisticado a favor da mediação partidária: sem o partido, os trabalhadores
permanecem fragmentados, desprovidos de “técnica social” para enfrentar o poder
concentrado da burguesia. Maurício Tragtenberg oferece o contraargumento mais
incômodo: o partido tende a reproduzir as formas de dominação que pretende
combater, substituindo a auto-emancipação pela gestão burocrática das
aspirações dos trabalhadores.
Nenhum dos dois fornece saída. Florestan
Fernandes aposta na vontade revolucionária dos militantes para contrariar a
tendência estrutural à institucionalização – a história desmentiu a aposta.
Maurício Tragtenberg diagnostica a doença, mas não oferece remédio operacional:
se todo partido tende à burocratização e todo sindicalismo ao corporativismo,
por quais mediações os trabalhadores construiriam o socialismo? A resposta –
conselhos, autogestão, democracia direta – permanece mais como horizonte
normativo do que como estratégia concreta.
O PT foi, simultaneamente, a maior conquista
e o maior impasse da esquerda brasileira contemporânea. Conquista: pela
primeira vez, os trabalhadores se organizaram autonomamente num partido de
massas com vocação socialista. Impasse: ao se institucionalizar para disputar o
poder dentro da ordem, reproduziu o padrão que Maurício Tragtenberg previra e
Florestan Fernandes temia – transformou-se em instrumento de administração do
capitalismo, não de sua superação. A história continua a ser implacável e os
trabalhadores continuam a ser derrotados provisórios.
Fonte: Por Marcelo Phintener, em A Terra é
Redonda
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