Ex-assessor de Trump espalhou pela América
Latina máquina para induzir voto na ultradireita
No
governo Trump, as fábricas
automatizadas de robôs e modems destinadas a manipular algoritmos para intervir
em processos eleitorais, carteiras digitais e milhões de dólares descobertos
pela polícia com a detenção do estrategista digital Fernando Cerimedo na Bolívia,
depois da tentativa de feminicídio contra sua ex-companheira, permitiram
desenredar os fios da geopolítica que Trump pretende impor na região.
É
evidente que o governo estadunidense já se convenceu de que a Organização dos
Estados Americanos (OEA) e as Cúpulas das Américas – fórum trienal que
congregava todo o hemisfério desde que o presidente Clinton as instaurou em
Miami, em 1994, em razão do lançamento da Área de Livre Comércio das Américas
(Alca) – já não lhe servem.
O
cenário em que os Estados Unidos se erigiam triunfantes depois da implosão da
União Soviética e no qual os países da Europa se veem atualmente ensombrecidos
pela crescente presença econômica e diplomática da China em nível mundial já
não existe.
Por
isso, os Estados Unidos precisam cercar seu quintal e controlar seus recursos
naturais. A luta contra o narcotráfico no marco do Escudo das Américas é a
fachada moral perfeita para conseguir o objetivo real de excluir a presença
chinesa na região, forçando os países a vetar a tecnologia 5G da Huawei,
proibir os cabos submarinos de fibra óptica e cercar projetos estratégicos de
infraestrutura como o megaporto de Chancay, no Peru, para mencionar alguns.
Para
conseguir isso, está militarizando a região sob as ordens do Comando Sul e
incidindo nos processos eleitorais via trumpismo digital e, também, de forma
direta, tal como fez o próprio Trump nas eleições presidenciais de Honduras e
da Colômbia, assim como nas de meio de mandato na Argentina.
O
objetivo é recrutar mais países para seu projeto político, tal como indica
explicitamente na Estratégia de Segurança Nacional publicada em dezembro do ano
passado.
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Das mesas de votação da OEA aos quartéis do Comando Sul
O
ex-assessor de Segurança Nacional (2018-2019) John Bolton descreve, em A
sala em que aconteceu: uma memória da Casa Branca, o profundo desprezo de
Donald Trump pela OEA e por qualquer organismo multilateral. Bolton deixa claro
que Trump não só duvidava de sua utilidade, como considerava a OEA uma perda de
tempo, um sumidouro de recursos econômicos e uma plataforma inoperante.
Para
Trump, a ideia de sentar-se a uma mesa em que o voto dos Estados Unidos valia o
mesmo que o de qualquer pequena ilha do Caribe ou o de um país de esquerda na
América do Sul era inaceitável. John Bolton, ex-assessor de Segurança Nacional,
escreveu The Room Where It Happened, sobre sua passagem pela
administração de Donald Trump.
Na
mentalidade empresarial e transacional de Trump, a OEA requeria demasiada
negociação para lograr resoluções que, afinal, eram simples declarações
simbólicas sem “dentes” nem poder real de execução.
Esse
desdém pela OEA, cuja Secretaria Técnica organizava as Cúpulas das Américas, se
expressa no fato de que Trump se tornou o primeiro presidente estadunidense na
história a negar-se a participar da Cúpula das Américas de Lima, em 2018. E
ainda não tem data a que deveria ter se realizado na República Dominicana, em
novembro de 2025.
Bolton
narra que o único momento em que a administração Trump prestou atenção à OEA
foi quando tentaram utilizá-la para pressionar e isolar o regime de Nicolás
Maduro na Venezuela. No entanto, quando se deu conta de que não conseguiria
reunir os votos para aprovar medidas de força ou intervenções drásticas, Trump
se frustrou.
Nesse
contexto, cria-se, em 2017, o Grupo de Lima, fórum desde o qual se insta as
Forças Armadas da Venezuela a reconhecer Juan Guaidó, autonomeado presidente
interino em uma praça de Caracas, em sua qualidade de presidente da Assembleia
Nacional.
Isso
explica por que, durante seu segundo mandato, a Casa Branca tenha executado um
corte histórico em programas que financiavam Missões de Observação Eleitoral,
recursos para a Comissão Interamericana de Direitos Humanos e programas de
desenvolvimento comunitário na América Central.
Longe
ficaram os anos da Guerra Fria, em que a OEA operava como um fórum no qual as
ditaduras e democracias dóceis da região legitimavam com seu voto ou seu
silêncio cúmplice invasões, golpes de Estado, isolamentos diplomáticos e
embargos draconianos a nações soberanas que confrontavam o poder estadunidense:
Guatemala (1954), Cuba (1962), República Dominicana (1965). Mas os tempos mudam
e uma potência em declínio já não tem paciência para vestir o traje da
diplomacia.
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Narcotráfico e negócio armamentista
O
complexo militar-industrial dos Estados Unidos encontra na militarização da
região um mercado garantido e lucrativo. Enquanto o governo estadunidense exige
da região que blinde suas fronteiras, suas próprias leis internas facilitam o
armamento para os cartéis. Entre 70% e 80% das armas de fogo apreendidas do
crime organizado no México e no Caribe provêm diretamente de lojas de armas em
estados dos Estados Unidos, como Texas, Arizona e Flórida.
Ao
mesmo tempo que o armamento ilegal flui para o sul e empodera os cartéis, o
Pentágono pressiona os ministérios da Defesa da América Latina para que comprem
equipamento militar oficial (radares, sistemas de comunicação criptografados,
aeronaves e munições) com o argumento de “modernizar suas forças para combater
a ameaça do narcotráfico”.
Cabe
dizer que Washington utiliza a condicionalidade de sua inteligência militar
como uma ferramenta de dissuasão, advertindo que o intercâmbio de dados
estratégicos requer redes “limpas” de tecnologia chinesa.
É um
círculo de negócio perfeito: as armas estadunidenses alimentam a violência dos
cartéis, e esta mesma violência sustenta a exigência do ministro da Guerra,
Pete Hegseth, para que a região gaste milhões de dólares na compra de mais
armas oficiais dos Estados Unidos para combatê-la.
A farsa
ética de todo este arcabouço militarizado para lutar contra o narcotráfico se
evidencia com a escandalosa decisão da administração Trump de indultar e
libertar Juan Orlando Hernández. O ex-presidente hondurenho que transformou sua
nação em um narcoestado e que foi condenado por narcotráfico massivo em uma
corte de Nova York a 40 anos de prisão hoje caminha livre e é considerado pelo
aparato oficial como um perseguido político da esquerda hondurenha.
O
dinheiro em espécie gerado pela venda de drogas ingressa no circuito financeiro
legal por meio de bancos ocidentais, utilizando complexas redes de
empresas-fantasma (shell companies), fideicomissos e laranjas e setores
como o imobiliário, no qual os Estados Unidos ocupam de forma continuada o
primeiro lugar no ranking mundial do dinheiro sujo. Além disso, o fluxo massivo
de armas de fogo de alta potência compradas pelos cartéis é adquirido mediante
contrabando e compras simuladas de lojas de armas nos Estados Unidos.
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Cúmplices da operação Lança do Sul
É
insólito que os 19 países da Coalizão das Américas para a Luta contra o
Narcotráfico (ACCC), braço operativo do Escudo das Américas, reunidos no Panamá
em 12 de agosto, tenham formalizado sua cooperação com a operação Lança do Sul
dos Estados Unidos, no contexto da qual foram assassinadas extrajudicialmente
230 pessoas, várias delas inocentes, em 67 ataques a suas pequenas lanchas,
desde que o governo estadunidense começou seu bombardeio solitário, em setembro
do ano passado, na costa em frente à Venezuela.
Relatos
de imprensa e de organizações de direitos humanos denunciam execuções
extrajudiciais de civis e pescadores locais extorquidos. Apesar do custo
humanitário, informes da Administração de Controle de Drogas dos Estados Unidos
(DEA) admitem que a estratégia não reduziu o fluxo de cocaína para o mercado
norte-americano.
Salvo
Estados Unidos, Bahamas e Jamaica, que não estão sob a jurisdição da Corte
Penal Internacional (CPI), no resto dos países membros da ACCC os militares
estadunidenses que cometem crimes de guerra poderiam ser capturados e julgados
pela Corte. Por isso, o governo pediu a seus sócios que se retirem da CPI, já
que são previstas operações terrestres conjuntas.
De
fato, na sexta-feira, reuniram-se o chefe do Comando Sul dos Estados Unidos,
general Francis L. Donovan, o ministro da Defesa do Equador, Gian Carlo
Loffredo, e o ministro da Defesa da Colômbia, Jorge Eduardo Mora, na cidade
fronteiriça de San Lorenzo, para ativar o “Tridente da Segurança”, uma aliança
estratégica para bloquear as rotas fluviais, terrestres e marítimas que as
organizações do narcotráfico utilizam no Pacífico e na fronteira
colombo-equatoriana.
As
organizações de direitos humanos e das comunidades da fronteira
colombo-equatoriana consideram que uma maior pressão militar desencadeará
represálias dos cartéis nas comunidades locais. Historicamente, este tipo de
ação, com um enfoque estritamente militar, como as realizadas durante quinze
anos no marco do Plano Colômbia, afeta diretamente a população rural, assim
como os movimentos sociais, e não soluciona a produção nem o narcotráfico.
Além
disso, o principal método de entrada de drogas não são as lanchas no Caribe ou
os migrantes cruzando o deserto, e sim os portos de entrada legais (Ports of
Entry). Diariamente cruzam a fronteira milhares de caminhões de carga,
trens e contêineres marítimos que seria impossível inspecionar em sua
totalidade.
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O trumpismo digital na América Latina
Para
instrumentalizar este tipo de alianças exclusivamente entre aliados, em nível
continental, exige-se recrutar o maior número de países possível mediante o uso
de fazendas de robôs e técnicas digitais que realizem campanhas a partir do
perfil dos eleitores. Estas favoreceram os candidatos de direita e ultradireita
da região, desde o Chile até El Salvador e Honduras, passando por Equador,
Colômbia, Paraguai, Peru, Bolívia e Argentina, entre outros. Não há país que
tenha realizado eleições nos últimos cinco anos em que não tenham sido
utilizadas.
Estas
técnicas, herdadas da britânica Cambridge Analytica, dedicada à corretagem de
dados para processos eleitorais-chave, se tornaram famosas ao descobrir-se a
apropriação ilegal dos dados pessoais de milhões de usuários para perfilar
eleitores e influir em eleições-chave como a campanha presidencial de Donald
Trump e o referendo do Brexit em 2016.
Pouco
depois, a empresa quebrou e foi o estadunidense Brad Parscale – assessor
digital de Trump durante seu primeiro período, juntamente com Steve Bannon na
parte discursiva – quem expandiu estas técnicas. Parscale criou duas empresas,
Eyes Over e Campaign Nucleus, e deu a Fernando Cerimedo sua representação para
serem usadas em toda a região.
Estas
empresas incidem no eleitor ao realizar um perfil psicológico e emocional, que
as fazendas de robôs enviam com um conteúdo hiperpersonalizado para detonar uma
resposta emocional e induzir o voto no candidato da ultradireita. Entre suas
técnicas, aplicam também a destruição da reputação moral do candidato
progressista ou de esquerda e financiam ativamente sites que se apresentam como
imprensa livre e independente (La Derecha Diario).
Estes
sites agem como a origem das notícias falsas; uma vez publicadas ali, os
exércitos de robôs se encarregam de transformá-las em tendência no X para
obrigar os meios de comunicação tradicionais a falar disso.
E a
pergunta-chave: como são financiadas estas campanhas milionárias de demolição
digital dos candidatos de oposição que não utilizam esses serviços? O dinheiro
é canalizado por meio de vazios legais nos estados da Flórida e Delaware. Ali,
consultoras lobistas de Miami e Doral (Latin America Advisore Group, Clock
Tower X ou Madero Group, a de Cerimedo, menor no mundo
hispânico) utilizam Sociedades de Responsabilidade Limitada-fantasma que
ocultam a identidade de magnatas e de setores doadores nos países da região.
Em
troca de injetar estes milhões de dólares anônimos para desestabilizar governos
em seus próprios países ou candidatos rivais em eleições presidenciais, as
consultoras lhes conseguem o kit digital de desinformação e fotos oficiais com
Trump, além de reuniões com senadores em Washington, o que lhes dá uma aura de
projeção política internacional.
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Conclusão
O
Escudo das Américas marca o fim da etapa de um organismo hemisférico
multilateral com caráter representativo como a OEA e inicia uma nova, em que se
impõe a verticalidade sob a direção do Comando Sul dos Estados Unidos, de que
participam 19 países da região, alinhados com o trumpismo. Para conseguir
ampliar esta aliança hemisférica, vão intervir por todos os meios nas próximas
eleições do Brasil e do México.
O
Escudo das Américas não é uma proposta nova; basta ver o fracasso do Plano
Colômbia, em que os Estados Unidos sempre reprimiram a oferta no país, enquanto
evadiam a responsabilidade pelo consumo interno em suas ruas e pelo fluxo
massivo de armamento que suas próprias lojas de armas fornecem aos cartéis.
O
verdadeiro perigo para a região é que nos encontramos ante a engenharia
política de uma potência declinante que decidiu subcontratar a mentira,
promover o uso de perfis psicológicos roubados e financiamentos opacos que
fazem com que o sistema democrático seja só uma carapaça manejada por
estruturas com dinâmicas mafiosas.
¨
O ‘Escudo das Américas’
e a volta do quintal estratégico dos EUA. Por Agustina Flores
A história da América Latina é profundamente
marcada pelas doutrinas de segurança impostas pelo Norte, e a recente
apresentação do Escudo das Américas, em março de 2026, não foge à regra.
Impulsionada pelo governo de Donald Trump
durante a cúpula hemisférica no Trump National Doral, em Miami, essa iniciativa
se apresenta como uma reedição contemporânea da Doutrina Monroe, adaptada aos
desafios geopolíticos e à luta contra a criminalidade do século XXI. Sob a
premissa original de “a América para os americanos”, enunciada pela primeira
vez em 1823, Washington tem historicamente justificado sua intervenção nos
assuntos internos das nações do sul para repelir influências estrangeiras. No
cenário atual, a retórica anticomunista da Guerra Fria foi substituída por uma
dupla ameaça: a presença comercial e estratégica de potências como China e
Rússia e a proliferação de organizações criminosas transnacionais. O Escudo das
Américas formaliza essa abordagem não por meio de um tratado internacional
vinculativo, mas por meio de compromissos táticos ad hoc formalizados na
chamada Declaração de Doral, inaugurando uma fase de alinhamento ideológico e
militar que desperta profundas preocupações quanto à preservação da soberania e
da autonomia política na região.
Para compreender a magnitude do que essa nova
arquitetura de segurança implica, é necessário examinar os ecos do passado que
ressoam em sua estrutura. A comparação mais direta e inquietante é com o Plano
Condor, aquela rede transnacional de inteligência e repressão que operou de
forma coordenada na década de 1970. Durante os anos das ditaduras militares no
Cone Sul, o Plano Condor operou sob a tutela ideológica dos Estados Unidos para
perseguir, fazer desaparecer e eliminar, de forma coordenada, a dissidência
política sob a Doutrina da Segurança Nacional. O inimigo naquela época era o
comunismo; hoje, o Escudo das Américas utiliza a “guerra contra as drogas” e o
combate ao narcoterrorismo como pretextos para legitimar o uso da força letal e
o controle da informação em escala continental. Assim como ocorreu na década de
1970, essa iniciativa não abrange toda a região, mas fragmenta o mapa regional
ao reunir exclusivamente um bloco de governos ideologicamente alinhados à Casa
Branca, deixando de lado potências-chave como o Brasil e o México. Essa
exclusão deliberada reaviva as lógicas divisórias da Guerra Fria, em que a
segurança hemisférica não se constrói a partir do consenso multilateral, mas
por meio da subordinação de satélites políticos às determinações estratégicas
do Pentágono.
As declarações proferidas por Donald Trump
durante a cúpula de Doral deixam pouca margem para dúvidas quanto ao alcance
operacional da coalizão. O presidente dos Estados Unidos afirmou
categoricamente o compromisso de utilizar força militar letal para destruir os
cartéis e suas redes terroristas associadas, pressionando explicitamente os
exércitos latino-americanos a se envolverem diretamente em tarefas de segurança
interna. Esse apelo à militarização interna ignora as trágicas lições da
história latino-americana recente. No México, por exemplo, o envolvimento
direto das Forças Armadas na segurança pública a partir de 2006 desencadeou uma
espiral de violência sem precedentes, multiplicando as execuções extrajudiciais
e os desaparecimentos forçados, sem conseguir desmantelar efetivamente as
estruturas financeiras do crime organizado. Ao exigir que as instituições
militares assumam funções policiais sob a supervisão tecnológica e informativa
de Washington, o Escudo das Américas enfraquece os controles civis democráticos
e abre as portas para a repetição de abusos sistemáticos contra os direitos
humanos sob o pretexto de uma emergência nacional permanente.
O impacto prático sobre os países signatários
já começa a se desenhar como uma preocupante cessão de soberania territorial e
operacional. Os governos da Argentina, Bolívia, Chile, Costa Rica, Guiana,
Honduras, Panamá, República Dominicana, Trinidad e Tobago, El Salvador,
Paraguai e Equador já fazem parte dessa coalizão militar; mais recentemente,
Peru e Colômbia manifestaram intenção de aderir, sob a promessa de receber
assistência para combater crimes como a extorsão e o tráfico de drogas. No
entanto, os termos da Declaração de Doral estipulam mecanismos de intercâmbio
de inteligência tática e vigilância integrada de fronteiras que podem operar à
margem dos marcos constitucionais tradicionais de controle parlamentar. Na
prática, isso poderia se traduzir em situações semelhantes às ocorridas durante
a vigência do Plano Colômbia, no início dos anos 2000, quando a presença de
assessores militares norte-americanos e de contratados privados de segurança
gozava de imunidade jurídica de fato, limitando a capacidade dos tribunais
locais de julgar abusos em solo nacional.
A implantação de tecnologias de monitoramento
e plataformas de inteligência controladas por agências norte-americanas pode
conceder a Washington acesso privilegiado aos dados estratégicos das nações
aliadas, subordinando a soberania digital e de informação aos interesses da
segurança nacional dos Estados Unidos.
Além do âmbito estritamente militar e
policial, o Escudo das Américas estende suas ramificações ao controle econômico
e da infraestrutura crítica na região. A estratégia de segurança da Casa Branca
vincula explicitamente a defesa do hemisfério à necessidade de conter a
influência econômica da China. Sob essa perspectiva, projetos de infraestrutura
estratégica, como a construção de portos de águas profundas, redes de
telecomunicações 5G ou a exploração de recursos-chave como o lítio e o
petróleo, passam a ser avaliados sob a perspectiva da segurança militar. Os
países signatários correm o risco de ver suas opções de financiamento e
desenvolvimento soberano bloqueadas caso optem por investimentos provenientes
de Pequim, ficando presos em uma camisa de força econômica que restringe sua
autonomia comercial.
Um exemplo histórico desse tipo de
condicionamento pode ser encontrado nas intervenções do século XX por meio da
Diplomacia do Dólar e do Corolário de Roosevelt, em que os Estados Unidos
intervieram financeiramente em nações do Caribe e da América Central para
garantir o pagamento de dívidas e bloquear a presença de potências europeias,
privando os governos locais de sua capacidade de decisão macroeconômica.
A consolidação dessa nova doutrina representa
um grave retrocesso para os esforços de integração autônoma na América Latina.
Ao consolidar uma coalizão baseada na afinidade ideológica do momento, a
iniciativa também dinamita espaços multilaterais genuínos nos quais a segurança
era abordada sob uma perspectiva multidimensional, que incluía o
desenvolvimento social e a redução da pobreza como pilares para combater o
crime. O Escudo das Américas reduz a complexa realidade do continente a um
tabuleiro de xadrez geopolítico, em que o sucesso passa a ser medido pela
lealdade a Washington e pela eficácia do uso da força letal. Para a América
Latina, o preço desse escudo protetor parece ser a renúncia à sua própria
soberania, a militarização de suas sociedades e a subordinação de seu destino
histórico aos imperativos de uma potência estrangeira que, mais uma vez, volta
a encarar o sul não como um conjunto de nações soberanas, mas como seu quintal
estratégico.
Fonte: Por Ariela
Ruiz Caro,no CLAE/Diálogos do Sul Global/Opera Mundi
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