quinta-feira, 10 de setembro de 2026

 

Ex-assessor de Trump espalhou pela América Latina máquina para induzir voto na ultradireita

No governo Trump, as fábricas automatizadas de robôs e modems destinadas a manipular algoritmos para intervir em processos eleitorais, carteiras digitais e milhões de dólares descobertos pela polícia com a detenção do estrategista digital Fernando Cerimedo na Bolívia, depois da tentativa de feminicídio contra sua ex-companheira, permitiram desenredar os fios da geopolítica que Trump pretende impor na região.

É evidente que o governo estadunidense já se convenceu de que a Organização dos Estados Americanos (OEA) e as Cúpulas das Américas – fórum trienal que congregava todo o hemisfério desde que o presidente Clinton as instaurou em Miami, em 1994, em razão do lançamento da Área de Livre Comércio das Américas (Alca) – já não lhe servem.

O cenário em que os Estados Unidos se erigiam triunfantes depois da implosão da União Soviética e no qual os países da Europa se veem atualmente ensombrecidos pela crescente presença econômica e diplomática da China em nível mundial já não existe.

Por isso, os Estados Unidos precisam cercar seu quintal e controlar seus recursos naturais. A luta contra o narcotráfico no marco do Escudo das Américas é a fachada moral perfeita para conseguir o objetivo real de excluir a presença chinesa na região, forçando os países a vetar a tecnologia 5G da Huawei, proibir os cabos submarinos de fibra óptica e cercar projetos estratégicos de infraestrutura como o megaporto de Chancay, no Peru, para mencionar alguns.

Para conseguir isso, está militarizando a região sob as ordens do Comando Sul e incidindo nos processos eleitorais via trumpismo digital e, também, de forma direta, tal como fez o próprio Trump nas eleições presidenciais de Honduras e da Colômbia, assim como nas de meio de mandato na Argentina.

O objetivo é recrutar mais países para seu projeto político, tal como indica explicitamente na Estratégia de Segurança Nacional publicada em dezembro do ano passado.

<><> Das mesas de votação da OEA aos quartéis do Comando Sul

O ex-assessor de Segurança Nacional (2018-2019) John Bolton descreve, em A sala em que aconteceu: uma memória da Casa Branca, o profundo desprezo de Donald Trump pela OEA e por qualquer organismo multilateral. Bolton deixa claro que Trump não só duvidava de sua utilidade, como considerava a OEA uma perda de tempo, um sumidouro de recursos econômicos e uma plataforma inoperante.

Para Trump, a ideia de sentar-se a uma mesa em que o voto dos Estados Unidos valia o mesmo que o de qualquer pequena ilha do Caribe ou o de um país de esquerda na América do Sul era inaceitável. John Bolton, ex-assessor de Segurança Nacional, escreveu The Room Where It Happened, sobre sua passagem pela administração de Donald Trump.

Na mentalidade empresarial e transacional de Trump, a OEA requeria demasiada negociação para lograr resoluções que, afinal, eram simples declarações simbólicas sem “dentes” nem poder real de execução.

Esse desdém pela OEA, cuja Secretaria Técnica organizava as Cúpulas das Américas, se expressa no fato de que Trump se tornou o primeiro presidente estadunidense na história a negar-se a participar da Cúpula das Américas de Lima, em 2018. E ainda não tem data a que deveria ter se realizado na República Dominicana, em novembro de 2025.

Bolton narra que o único momento em que a administração Trump prestou atenção à OEA foi quando tentaram utilizá-la para pressionar e isolar o regime de Nicolás Maduro na Venezuela. No entanto, quando se deu conta de que não conseguiria reunir os votos para aprovar medidas de força ou intervenções drásticas, Trump se frustrou.

Nesse contexto, cria-se, em 2017, o Grupo de Lima, fórum desde o qual se insta as Forças Armadas da Venezuela a reconhecer Juan Guaidó, autonomeado presidente interino em uma praça de Caracas, em sua qualidade de presidente da Assembleia Nacional.

Isso explica por que, durante seu segundo mandato, a Casa Branca tenha executado um corte histórico em programas que financiavam Missões de Observação Eleitoral, recursos para a Comissão Interamericana de Direitos Humanos e programas de desenvolvimento comunitário na América Central.

Longe ficaram os anos da Guerra Fria, em que a OEA operava como um fórum no qual as ditaduras e democracias dóceis da região legitimavam com seu voto ou seu silêncio cúmplice invasões, golpes de Estado, isolamentos diplomáticos e embargos draconianos a nações soberanas que confrontavam o poder estadunidense: Guatemala (1954), Cuba (1962), República Dominicana (1965). Mas os tempos mudam e uma potência em declínio já não tem paciência para vestir o traje da diplomacia.

<><> Narcotráfico e negócio armamentista

O complexo militar-industrial dos Estados Unidos encontra na militarização da região um mercado garantido e lucrativo. Enquanto o governo estadunidense exige da região que blinde suas fronteiras, suas próprias leis internas facilitam o armamento para os cartéis. Entre 70% e 80% das armas de fogo apreendidas do crime organizado no México e no Caribe provêm diretamente de lojas de armas em estados dos Estados Unidos, como Texas, Arizona e Flórida.

Ao mesmo tempo que o armamento ilegal flui para o sul e empodera os cartéis, o Pentágono pressiona os ministérios da Defesa da América Latina para que comprem equipamento militar oficial (radares, sistemas de comunicação criptografados, aeronaves e munições) com o argumento de “modernizar suas forças para combater a ameaça do narcotráfico”.

Cabe dizer que Washington utiliza a condicionalidade de sua inteligência militar como uma ferramenta de dissuasão, advertindo que o intercâmbio de dados estratégicos requer redes “limpas” de tecnologia chinesa.

É um círculo de negócio perfeito: as armas estadunidenses alimentam a violência dos cartéis, e esta mesma violência sustenta a exigência do ministro da Guerra, Pete Hegseth, para que a região gaste milhões de dólares na compra de mais armas oficiais dos Estados Unidos para combatê-la.

A farsa ética de todo este arcabouço militarizado para lutar contra o narcotráfico se evidencia com a escandalosa decisão da administração Trump de indultar e libertar Juan Orlando Hernández. O ex-presidente hondurenho que transformou sua nação em um narcoestado e que foi condenado por narcotráfico massivo em uma corte de Nova York a 40 anos de prisão hoje caminha livre e é considerado pelo aparato oficial como um perseguido político da esquerda hondurenha.

O dinheiro em espécie gerado pela venda de drogas ingressa no circuito financeiro legal por meio de bancos ocidentais, utilizando complexas redes de empresas-fantasma (shell companies), fideicomissos e laranjas e setores como o imobiliário, no qual os Estados Unidos ocupam de forma continuada o primeiro lugar no ranking mundial do dinheiro sujo. Além disso, o fluxo massivo de armas de fogo de alta potência compradas pelos cartéis é adquirido mediante contrabando e compras simuladas de lojas de armas nos Estados Unidos.

<><> Cúmplices da operação Lança do Sul

É insólito que os 19 países da Coalizão das Américas para a Luta contra o Narcotráfico (ACCC), braço operativo do Escudo das Américas, reunidos no Panamá em 12 de agosto, tenham formalizado sua cooperação com a operação Lança do Sul dos Estados Unidos, no contexto da qual foram assassinadas extrajudicialmente 230 pessoas, várias delas inocentes, em 67 ataques a suas pequenas lanchas, desde que o governo estadunidense começou seu bombardeio solitário, em setembro do ano passado, na costa em frente à Venezuela.

Relatos de imprensa e de organizações de direitos humanos denunciam execuções extrajudiciais de civis e pescadores locais extorquidos. Apesar do custo humanitário, informes da Administração de Controle de Drogas dos Estados Unidos (DEA) admitem que a estratégia não reduziu o fluxo de cocaína para o mercado norte-americano.

Salvo Estados Unidos, Bahamas e Jamaica, que não estão sob a jurisdição da Corte Penal Internacional (CPI), no resto dos países membros da ACCC os militares estadunidenses que cometem crimes de guerra poderiam ser capturados e julgados pela Corte. Por isso, o governo pediu a seus sócios que se retirem da CPI, já que são previstas operações terrestres conjuntas.

De fato, na sexta-feira, reuniram-se o chefe do Comando Sul dos Estados Unidos, general Francis L. Donovan, o ministro da Defesa do Equador, Gian Carlo Loffredo, e o ministro da Defesa da Colômbia, Jorge Eduardo Mora, na cidade fronteiriça de San Lorenzo, para ativar o “Tridente da Segurança”, uma aliança estratégica para bloquear as rotas fluviais, terrestres e marítimas que as organizações do narcotráfico utilizam no Pacífico e na fronteira colombo-equatoriana.

As organizações de direitos humanos e das comunidades da fronteira colombo-equatoriana consideram que uma maior pressão militar desencadeará represálias dos cartéis nas comunidades locais. Historicamente, este tipo de ação, com um enfoque estritamente militar, como as realizadas durante quinze anos no marco do Plano Colômbia, afeta diretamente a população rural, assim como os movimentos sociais, e não soluciona a produção nem o narcotráfico.

Além disso, o principal método de entrada de drogas não são as lanchas no Caribe ou os migrantes cruzando o deserto, e sim os portos de entrada legais (Ports of Entry). Diariamente cruzam a fronteira milhares de caminhões de carga, trens e contêineres marítimos que seria impossível inspecionar em sua totalidade.

<><> O trumpismo digital na América Latina

Para instrumentalizar este tipo de alianças exclusivamente entre aliados, em nível continental, exige-se recrutar o maior número de países possível mediante o uso de fazendas de robôs e técnicas digitais que realizem campanhas a partir do perfil dos eleitores. Estas favoreceram os candidatos de direita e ultradireita da região, desde o Chile até El Salvador e Honduras, passando por Equador, Colômbia, Paraguai, Peru, Bolívia e Argentina, entre outros. Não há país que tenha realizado eleições nos últimos cinco anos em que não tenham sido utilizadas.

Estas técnicas, herdadas da britânica Cambridge Analytica, dedicada à corretagem de dados para processos eleitorais-chave, se tornaram famosas ao descobrir-se a apropriação ilegal dos dados pessoais de milhões de usuários para perfilar eleitores e influir em eleições-chave como a campanha presidencial de Donald Trump e o referendo do Brexit em 2016.

Pouco depois, a empresa quebrou e foi o estadunidense Brad Parscale – assessor digital de Trump durante seu primeiro período, juntamente com Steve Bannon na parte discursiva – quem expandiu estas técnicas. Parscale criou duas empresas, Eyes Over e Campaign Nucleus, e deu a Fernando Cerimedo sua representação para serem usadas em toda a região.

Estas empresas incidem no eleitor ao realizar um perfil psicológico e emocional, que as fazendas de robôs enviam com um conteúdo hiperpersonalizado para detonar uma resposta emocional e induzir o voto no candidato da ultradireita. Entre suas técnicas, aplicam também a destruição da reputação moral do candidato progressista ou de esquerda e financiam ativamente sites que se apresentam como imprensa livre e independente (La Derecha Diario).

Estes sites agem como a origem das notícias falsas; uma vez publicadas ali, os exércitos de robôs se encarregam de transformá-las em tendência no X para obrigar os meios de comunicação tradicionais a falar disso.

E a pergunta-chave: como são financiadas estas campanhas milionárias de demolição digital dos candidatos de oposição que não utilizam esses serviços? O dinheiro é canalizado por meio de vazios legais nos estados da Flórida e Delaware. Ali, consultoras lobistas de Miami e Doral (Latin America Advisore GroupClock Tower X ou Madero Group, a de Cerimedo, menor no mundo hispânico) utilizam Sociedades de Responsabilidade Limitada-fantasma que ocultam a identidade de magnatas e de setores doadores nos países da região.

Em troca de injetar estes milhões de dólares anônimos para desestabilizar governos em seus próprios países ou candidatos rivais em eleições presidenciais, as consultoras lhes conseguem o kit digital de desinformação e fotos oficiais com Trump, além de reuniões com senadores em Washington, o que lhes dá uma aura de projeção política internacional.

<><> Conclusão

O Escudo das Américas marca o fim da etapa de um organismo hemisférico multilateral com caráter representativo como a OEA e inicia uma nova, em que se impõe a verticalidade sob a direção do Comando Sul dos Estados Unidos, de que participam 19 países da região, alinhados com o trumpismo. Para conseguir ampliar esta aliança hemisférica, vão intervir por todos os meios nas próximas eleições do Brasil e do México.

O Escudo das Américas não é uma proposta nova; basta ver o fracasso do Plano Colômbia, em que os Estados Unidos sempre reprimiram a oferta no país, enquanto evadiam a responsabilidade pelo consumo interno em suas ruas e pelo fluxo massivo de armamento que suas próprias lojas de armas fornecem aos cartéis.

O verdadeiro perigo para a região é que nos encontramos ante a engenharia política de uma potência declinante que decidiu subcontratar a mentira, promover o uso de perfis psicológicos roubados e financiamentos opacos que fazem com que o sistema democrático seja só uma carapaça manejada por estruturas com dinâmicas mafiosas.

¨      O ‘Escudo das Américas’ e a volta do quintal estratégico dos EUA. Por Agustina Flores

A história da América Latina é profundamente marcada pelas doutrinas de segurança impostas pelo Norte, e a recente apresentação do Escudo das Américas, em março de 2026, não foge à regra.

Impulsionada pelo governo de Donald Trump durante a cúpula hemisférica no Trump National Doral, em Miami, essa iniciativa se apresenta como uma reedição contemporânea da Doutrina Monroe, adaptada aos desafios geopolíticos e à luta contra a criminalidade do século XXI. Sob a premissa original de “a América para os americanos”, enunciada pela primeira vez em 1823, Washington tem historicamente justificado sua intervenção nos assuntos internos das nações do sul para repelir influências estrangeiras. No cenário atual, a retórica anticomunista da Guerra Fria foi substituída por uma dupla ameaça: a presença comercial e estratégica de potências como China e Rússia e a proliferação de organizações criminosas transnacionais. O Escudo das Américas formaliza essa abordagem não por meio de um tratado internacional vinculativo, mas por meio de compromissos táticos ad hoc formalizados na chamada Declaração de Doral, inaugurando uma fase de alinhamento ideológico e militar que desperta profundas preocupações quanto à preservação da soberania e da autonomia política na região.

Para compreender a magnitude do que essa nova arquitetura de segurança implica, é necessário examinar os ecos do passado que ressoam em sua estrutura. A comparação mais direta e inquietante é com o Plano Condor, aquela rede transnacional de inteligência e repressão que operou de forma coordenada na década de 1970. Durante os anos das ditaduras militares no Cone Sul, o Plano Condor operou sob a tutela ideológica dos Estados Unidos para perseguir, fazer desaparecer e eliminar, de forma coordenada, a dissidência política sob a Doutrina da Segurança Nacional. O inimigo naquela época era o comunismo; hoje, o Escudo das Américas utiliza a “guerra contra as drogas” e o combate ao narcoterrorismo como pretextos para legitimar o uso da força letal e o controle da informação em escala continental. Assim como ocorreu na década de 1970, essa iniciativa não abrange toda a região, mas fragmenta o mapa regional ao reunir exclusivamente um bloco de governos ideologicamente alinhados à Casa Branca, deixando de lado potências-chave como o Brasil e o México. Essa exclusão deliberada reaviva as lógicas divisórias da Guerra Fria, em que a segurança hemisférica não se constrói a partir do consenso multilateral, mas por meio da subordinação de satélites políticos às determinações estratégicas do Pentágono.

As declarações proferidas por Donald Trump durante a cúpula de Doral deixam pouca margem para dúvidas quanto ao alcance operacional da coalizão. O presidente dos Estados Unidos afirmou categoricamente o compromisso de utilizar força militar letal para destruir os cartéis e suas redes terroristas associadas, pressionando explicitamente os exércitos latino-americanos a se envolverem diretamente em tarefas de segurança interna. Esse apelo à militarização interna ignora as trágicas lições da história latino-americana recente. No México, por exemplo, o envolvimento direto das Forças Armadas na segurança pública a partir de 2006 desencadeou uma espiral de violência sem precedentes, multiplicando as execuções extrajudiciais e os desaparecimentos forçados, sem conseguir desmantelar efetivamente as estruturas financeiras do crime organizado. Ao exigir que as instituições militares assumam funções policiais sob a supervisão tecnológica e informativa de Washington, o Escudo das Américas enfraquece os controles civis democráticos e abre as portas para a repetição de abusos sistemáticos contra os direitos humanos sob o pretexto de uma emergência nacional permanente.

O impacto prático sobre os países signatários já começa a se desenhar como uma preocupante cessão de soberania territorial e operacional. Os governos da Argentina, Bolívia, Chile, Costa Rica, Guiana, Honduras, Panamá, República Dominicana, Trinidad e Tobago, El Salvador, Paraguai e Equador já fazem parte dessa coalizão militar; mais recentemente, Peru e Colômbia manifestaram intenção de aderir, sob a promessa de receber assistência para combater crimes como a extorsão e o tráfico de drogas. No entanto, os termos da Declaração de Doral estipulam mecanismos de intercâmbio de inteligência tática e vigilância integrada de fronteiras que podem operar à margem dos marcos constitucionais tradicionais de controle parlamentar. Na prática, isso poderia se traduzir em situações semelhantes às ocorridas durante a vigência do Plano Colômbia, no início dos anos 2000, quando a presença de assessores militares norte-americanos e de contratados privados de segurança gozava de imunidade jurídica de fato, limitando a capacidade dos tribunais locais de julgar abusos em solo nacional.

A implantação de tecnologias de monitoramento e plataformas de inteligência controladas por agências norte-americanas pode conceder a Washington acesso privilegiado aos dados estratégicos das nações aliadas, subordinando a soberania digital e de informação aos interesses da segurança nacional dos Estados Unidos.

Além do âmbito estritamente militar e policial, o Escudo das Américas estende suas ramificações ao controle econômico e da infraestrutura crítica na região. A estratégia de segurança da Casa Branca vincula explicitamente a defesa do hemisfério à necessidade de conter a influência econômica da China. Sob essa perspectiva, projetos de infraestrutura estratégica, como a construção de portos de águas profundas, redes de telecomunicações 5G ou a exploração de recursos-chave como o lítio e o petróleo, passam a ser avaliados sob a perspectiva da segurança militar. Os países signatários correm o risco de ver suas opções de financiamento e desenvolvimento soberano bloqueadas caso optem por investimentos provenientes de Pequim, ficando presos em uma camisa de força econômica que restringe sua autonomia comercial.

Um exemplo histórico desse tipo de condicionamento pode ser encontrado nas intervenções do século XX por meio da Diplomacia do Dólar e do Corolário de Roosevelt, em que os Estados Unidos intervieram financeiramente em nações do Caribe e da América Central para garantir o pagamento de dívidas e bloquear a presença de potências europeias, privando os governos locais de sua capacidade de decisão macroeconômica.

A consolidação dessa nova doutrina representa um grave retrocesso para os esforços de integração autônoma na América Latina. Ao consolidar uma coalizão baseada na afinidade ideológica do momento, a iniciativa também dinamita espaços multilaterais genuínos nos quais a segurança era abordada sob uma perspectiva multidimensional, que incluía o desenvolvimento social e a redução da pobreza como pilares para combater o crime. O Escudo das Américas reduz a complexa realidade do continente a um tabuleiro de xadrez geopolítico, em que o sucesso passa a ser medido pela lealdade a Washington e pela eficácia do uso da força letal. Para a América Latina, o preço desse escudo protetor parece ser a renúncia à sua própria soberania, a militarização de suas sociedades e a subordinação de seu destino histórico aos imperativos de uma potência estrangeira que, mais uma vez, volta a encarar o sul não como um conjunto de nações soberanas, mas como seu quintal estratégico.

Fonte: Por Ariela Ruiz Caro,no CLAE/Diálogos do Sul Global/Opera Mundi

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