Anti-imperialismo sem iranianos
Oponho-me à guerra dos EUA e de Israel contra
o Irã, ao regime de sanções que a precedeu e a qualquer projeto de mudança de
regime arquitetada externamente. Também me oponho à República Islâmica, um
Estado que governa há quarenta e sete anos por meio de prisões políticas,
execuções, coerção de gênero e a destruição metódica de organizações
independentes. Sou uma pesquisadora feminista iraniana e passei tempo
suficiente em espaços de esquerda na Europa e na América do Norte para saber
que sustentar ambas as posições simultaneamente ainda é visto, em certos meios,
como uma incoerência que precisa ser corrigida.
A polêmica em torno da carta aberta publicada
no jornal Guardian sobre os presos políticos do Irã tornou
essa exigência de correção incomumente visível. O conteúdo do documento não
está em discussão. Ele é endereçado a ativistas, estudantes, acadêmicos,
trabalhadores e artistas mantidos em prisões iranianas. O texto aponta o uso
sistemático de tortura, os julgamentos injustos e as execuções estatais
perpetradas pela República Islâmica, exigindo o fim imediato das execuções e a
libertação de todos os presos políticos. Também condena a política dos EUA e de
Israel em relação ao Irã, cita o ataque israelense à prisão de Evin em junho de
2025 e encerra pedindo o fim imediato da guerra e das sanções impostas pelos
EUA e por Israel. Entre os signatários estão Angela Davis, Ruth Wilson Gilmore,
Judith Butler e Yassin al-Haj Saleh. Por isso, a carta foi acusada de criar uma
falsa simetria, de enfraquecer o Irã em tempo de guerra e de fornecer munição
ao inimigo. Isso não significa que a carta esteja imune a críticas – há
questões legítimas sobre quais vozes ela privilegia. No entanto, esses são
argumentos para levar mais a sério o pensamento político dos próprios
prisioneiros, e não para adiar a solidariedade a eles.
Vijay Prashad formulou a objeção com a maior
clareza. Escrevendo dias após a publicação da carta, ele argumentou que “há um
momento para fazer exigências e um momento para agir em solidariedade”, que
“não existem neutralidade ou um ‘terceiro espaço’ em meio a uma guerra de
agressão” e que a imagem da tesoura – duas lâminas, um só corpo – central na
carta é “evocativa, porém equivocada”, uma vez que faz com que o agressor e a
parte atacada pareçam fontes paralelas de um mesmo perigo.
Vijay Prashad não está defendendo a prisão de
Evin, e vale a pena reconstruir o que ele defende de uma maneira mais
contundente do que a que ele próprio apresenta. Lida dessa forma, a
argumentação diz respeito à economia política do discurso: críticas expressas
na metrópole durante uma guerra de agressão não circulam como críticas, mas
como material de guerra; e os iranianos que dizem essas coisas em inglês
contribuem – independentemente de suas intenções – para uma infraestrutura
discursiva que culmina em mísseis de cruzeiro. Essa formulação é minha, não
dele. É também a versão que merece resposta; e qualquer pessoa que tenha visto
o sofrimento das mulheres iranianas ser transformado em pretexto para
bombardeios sabe que tal visão não é paranoica.
O argumento desmorona ao entrar em contato
com as pessoas que ele alega proteger.
<><> O calendário do prisioneiro
Comecemos pela pergunta que o argumento do
sequenciamento jamais responde: solidariedade com quem?
A prisioneira política iraniana não vive no
tempo geopolítico. Bombas americanas não abrem a porta de sua cela. Sanções não
suspendem uma ordem de execução. A assimetria avassaladora entre o poder
militar dos EUA e o do Irã não faz com que seu interrogador, seu carcereiro ou
o juiz do Tribunal Revolucionário desapareçam enquanto durar o conflito. Seja o
que for verdade no nível dos Estados, no nível do corpo dela duas formas de
poder operam simultaneamente, e nenhuma delas concordou em esperar pela outra.
Note-se, também, que o argumento não prevê
uma condição de saída. Quem anuncia que a guerra acabou e que as críticas podem
ser retomadas? Não a prisioneira iraniana. A República Islâmica já deixou clara
a sua posição: declarou que as condições de guerra são precisamente o momento
em que a repressão deve se intensificar. A Anistia Internacional documentou
instruções do Judiciário aos funcionários, em abril, para acelerar processos
com “extrema rapidez”; o alerta do chefe do Judiciário, em março, de que qualquer
pessoa que agisse em consonância com “os desejos do inimigo agressor” seria
tratada de forma “decisiva e severa”; além de mais de seis mil prisões
arbitrárias, trinta e nove execuções políticas e um bloqueio da internet por
oitenta e oito dias desde o início do ataque, em 28 de fevereiro. No final de
julho, a Anistia Internacional alertou que pelo menos mais sessenta pessoas
enfrentavam execução iminente.
O Estado iraniano e alguns de seus críticos
anti-imperialistas no exterior chegam, por razões muito diferentes, à mesma
sequência política: não agora. Um diz: não agora, há uma guerra em curso. O
outro diz: não agora, há uma guerra em curso. A prisioneira é a única parte
envolvida na discussão para quem o adiamento não é retórico.
<><> As lâminas compartilham um
mesmo eixo
O problema mais profundo na acusação de
“falsa simetria” é que ela trata a metáfora como se fosse uma afirmação de
equivalência moral entre dois estados. No entanto, a metáfora é mais bem
compreendida quando descreve uma posição: a posição de pessoas sobre as quais
diferentes formas de poder atuam simultaneamente. Como apontou Farah
Mokhtareizadeh, a imagem das “duas lâminas” já vinha sendo utilizada pelo
ex-preso político e ativista trabalhista Keyvan Mohtadi após Israel bombardear
a prisão de Evin, enquanto sua esposa, Anisha Asadollahi, permanecia detida no
local. O ponto central não era que os dois poderes fossem iguais, mas sim que
ambos incidiam sobre a realidade vivida pelas mesmas pessoas. E, ao observarmos
como a coerção externa e a repressão interna remodelam mutuamente os efeitos
uma da outra, percebemos que essas duas pressões não podem ser tratadas como se
operassem em compartimentos selados.
É aqui que o debate exige uma análise de
classe, e não de cartografia. Considere o impacto de quatro décadas de sanções
no equilíbrio interno de forças do Irã. Uma economia sob sanções não distribui
o ônus de forma equitativa. As sanções não criaram o poder econômico dos
setores paraestatais e ligados à segurança do Irã; décadas de contratos
estatais e de pseudo-privatizações contribuíram para isso. Contudo, as sanções
alteram o terreno em que os agentes econômicos competem. Empresas de pequeno
porte e que operam formalmente perdem acesso a financiamento, tecnologia e
mercados, ao passo que organizações já inseridas em contratos estatais e em
redes transfronteiriças informais estão mais bem posicionadas para se adaptar.
O resultado não é que as sanções deixem a elite governante incólume – longe
disso. O que ocorre é que a coerção econômica externa pode, simultaneamente,
empobrecer a sociedade e reforçar o poder de influência relativo das
instituições mais próximas do poder estatal.
O rial fechou cotado a 2,02 milhões por dólar
em 24 de agosto, um recorde. O preço do arroz subiu cerca de 60% desde
fevereiro; o da carne bovina, mais de 150%. As projeções do FMI de abril
indicaram uma queda de 6,1% na produção iraniana neste ano, com a inflação
próxima de 69%. Esses números descrevem uma classe trabalhadora sendo esmagada.
Eles não descrevem um Estado sendo enfraquecido de qualquer maneira que
beneficie essa classe – e o iraniano comum, incapaz de comprar carne, sabe bem
a diferença.
Enquanto isso, outra frente de ação atua
sobre essas mesmas pessoas. Entre meados de julho e o início de agosto, as
autoridades lacraram pelo menos quarenta e dois cafés, restaurantes e lojas,
bloquearam ou apreenderam setenta e duas páginas e contas em redes sociais e
obrigaram os responsáveis por outras vinte e uma a publicar compromissos de
conformidade – a maioria relacionada à obrigatoriedade do hijab. Lacrar um café
não é apenas um ato de imposição de normas de gênero; é uma redução salarial.
Os funcionários são demitidos, o aluguel continua vencendo e os juros de
empréstimos continuam a correr em uma economia onde a moeda perde valor
semanalmente. Uma pesquisadora que conheço em Teerã foi recentemente impedida
de frequentar uma importante biblioteca e arquivo após duas advertências sobre
o hijab, ficando privada do material de que seu trabalho depende; a Biblioteca
Nacional do Irã adotou a mesma medida contra mulheres usuárias em 2023.
Uma mesma trabalhadora pode ser empobrecida
pelo bloqueio, aterrorizada pelos bombardeios e, em seguida, perder o emprego
porque o Estado fecha seu local de trabalho por causa de um lenço na cabeça.
Não há contradição no relato que ela faz de sua vida. A contradição reside em
uma política que exige que as pessoas tenham apenas um opressor de cada vez.
<><> De quem é o testemunho que
conta?
O que está realmente em jogo neste debate não
é o momento oportuno, mas a credibilidade – de quem é o relato sobre a
realidade iraniana que detém autoridade política.
Para os iranianos, a credibilidade junto a
setores da esquerda metropolitana tornou-se condicional, de uma forma fácil de
demonstrar. Fale sobre o golpe de 1953, sobre as sanções, sobre os bombardeios
israelenses, e o iraniano é visto como uma testemunha valiosa. Fale para o
mesmo público sobre execuções, o uso obrigatório do hijab, a repressão aos
trabalhadores da cana-de-açúcar de Haft Tappeh ou aos sindicatos de
professores, e surge uma nova série de questionamentos. Por que agora? Quem se
beneficia com o que você está dizendo? Você está reproduzindo narrativas
ocidentais? Você já provou suas credenciais anti-imperialistas? O testemunho é
aceito quando confirma o esquema geopolítico e questionado quando o complica. O
conceito de injustiça testemunhal, de Miranda Fricker, ajuda a nomear esse
déficit de credibilidade: o falante sofre uma injustiça especificamente em sua
capacidade como sujeito de conhecimento.
Não existe uma voz iraniana única à espera de
ser ouvida. Prisioneiros, trabalhadores, feministas, curdos, balúchis e
organizações da diáspora iranianas discordam profundamente entre si – sobre
sanções, sobre federalismo, sobre o que deveria substituir a República
Islâmica. Essas divergências constituem pensamento político, e é isso que a
configuração atual apaga: os iranianos fornecem o testemunho, e outra pessoa
fornece o seu significado. Designar um intérprete diferente não resolveria
isso.
Yassin al-Haj Saleh, que assinou a carta
do Guardian e passou dezesseis anos nas prisões de Assad,
descreveu essa mesma experiência há uma década. Ele a chamou de negação da
agência epistemológica. Aos sírios era permitido fornecer o sofrimento, as
histórias pessoais e as citações; o direito de definir o significado da Síria
permanecia com outros. Ele recebia lições de esquerdistas europeus sobre o
caráter imperialista de uma revolta que ele vivenciava na própria pele. Sua
formulação continua contundente: um anti-imperialismo que só consegue
reconhecer o poder imperial quando este está sediado em Washington acaba
reproduzindo uma relação imperial no próprio domínio do conhecimento.
Essa tendência tem um nome. O “campismo”
decide de antemão quais estados compõem o campo anti-imperialista e, então,
interpreta toda luta social à luz desse alinhamento. No entanto, não se trata
de uma política de equidistância ao estilo da Guerra Fria, e a posição iraniana
não constitui um “terceiro campo” situado entre dois governos. Como argumenta
Mokhtareizadeh, rejeitar tanto a guerra imperialista quanto a repressão interna
é uma afirmação de autonomia política, e não de neutralidade. Trabalhadores, feministas
e militantes de esquerda iranianos não estão posicionados a meio caminho entre
Washington e Teerã; eles ocupam um lugar que o mapa do campismo não mostra.
<><> O Irã já realizou esse
experimento
Os iranianos não precisam de um experimento
mental para saber o que acontece quando o anti-imperialismo é declarado a
contradição primordial, à qual todas as outras lutas devem se subordinar. Nós
temos a história.
As mulheres depararam-se com essa realidade
em questão de semanas. No início de março de 1979, a Lei de Proteção à Família
já havia sido revogada, Khomeini anunciara que mulheres não poderiam atuar como
juízas e a imposição do uso do véu começava a chegar aos locais de trabalho.
Dezenas de milhares de pessoas foram às ruas. Elas debatiam a quem a revolução
se destinava. Um de seus slogans era: “”A liberdade não é nem oriental nem
ocidental — ela é universal”.
Mulheres de esquerda estavam entre as
organizadoras dessas marchas, e algumas correntes da esquerda as apoiavam.
Contudo, grande parte da esquerda organizada subordinou a autonomia das
mulheres à unidade anti-imperialista. Quando o governo provisório pareceu
recuar em relação à obrigatoriedade do véu, alguns grupos socialistas e
democráticos deixaram de apoiar a manifestação convocada para 11 de março,
argumentando que uma mobilização maior dividiria a revolução e beneficiaria o
imperialismo. O ataque às mulheres podia ser reconhecido, mas ainda assim
classificado como uma contradição cujo momento de enfrentamento não havia
chegado.
A contradição manifestou-se no próprio seio
da esquerda. Homa Nateq – historiadora, atuante nos meios dos Fedayeen e
cofundadora da União Nacional das Mulheres – fez, mais tarde, uma avaliação
severa de sua própria conduta. Em uma entrevista de história oral realizada em
1984, ela recordou ter ajudado a encerrar as manifestações em nome da unidade
anti-imperialista e descreveu sua atuação como uma traição às mulheres
iranianas.
Nada disso torna a esquerda responsável pela
repressão que se seguiu. Essa responsabilidade cabe ao Estado que a executou.
Em fevereiro de 1983, o Partido Tudeh – que mais longe havia ido na
interpretação da República Islâmica como uma força anti-imperialista – foi
declarado ilegal; sua liderança foi presa e seu secretário-geral,
posteriormente, submetido a uma confissão televisionada. Cinco anos depois, o
Estado executou milhares de presos políticos, incluindo centenas de militantes
de esquerda em uma onda repressiva posterior, na qual muitos foram interrogados
sobre suas crenças e práticas religiosas.
O adiamento não protegeu ninguém. O Estado
aproveitou aqueles anos para, em seguida, construir suas prisões e seu aparato
de extermínio contra muitos daqueles que haviam aceitado tal adiamento.
<><> Desafio não é emancipação
Parte do que impulsiona essa disputa tem
pouco a ver com o Irã. Para setores da esquerda metropolitana, o Irã torna-se
politicamente compreensível principalmente quando a República Islâmica
confronta Washington ou Tel Aviv. Os mísseis, os discursos e a política de
levar a tensão ao limite oferecem a prova de que alguém, em algum lugar, está
recusando uma ordem sobre a qual ativistas no Ocidente se sentem impotentes
para exercer influência. É um anseio compreensível. Trata-se, também, de
substituir o movimento de um povo pelo Estado de outro.
O histórico regional demonstra por que é
preciso distinguir os dois. O apoio iraniano à resistência palestina tem sido
real e de consequências materiais concretas. Esse apoio também foi conduzido
como parte de uma política regional estruturada em torno da dissuasão, da
profundidade estratégica e da segurança do regime, coexistindo com a repressão
interna a árabes, curdos e balúchis iranianos. A libertação palestina e as
exigências estratégicas do Estado iraniano não constituem o mesmo projeto.
Os iranianos conhecem essa história por
dentro. Marxistas iranianos treinavam e se organizavam junto a movimentos
palestinos antes mesmo da existência da República Islâmica – e muitos deles
acabaram sendo executados por ela. O antiautoritarismo e o anti-imperialismo
não são tradições rivais na história política iraniana; eles têm coexistido,
repetidamente, nos mesmos movimentos e nas mesmas trajetórias políticas.
<><> O que a solidariedade
realmente exigiria
Assim, quando iranianos que rejeitam tanto a
dominação estrangeira quanto o autoritarismo interno entram na conversa,
tornamo-nos inconvenientes. Interrompemos o espetáculo. Somos as feministas que
estragam a festa da certeza anti-imperialista.
Mas um internacionalismo que exige que o povo
de um país desapareça por trás de seu Estado não é internacionalismo; é uma
posição de política externa com uma bandeira vermelha. A alternativa não é a
neutralidade, nem um “terceiro campo” abstraído da correlação de forças. É uma
orientação voltada para as pessoas, e não para os Estados: acabar com a guerra
e suspender as sanções, pois elas estão destruindo a classe que poderia mudar o
Irã; opor-se às execuções e às prisões políticas, já que trabalhadores, professores,
feministas e organizadores que compõem essa classe são aqueles que lotam as
prisões de Evin, Qarchak e Ghezel Hesar; apoiar os sindicatos independentes, os
conselhos de professores, as redes de mulheres e as organizações curdas e
balúchis que permanecerão lá quando esta guerra terminar, qualquer que seja o
desfecho. E construir relações com eles, em vez de emitir declarações em seu
nome – com cautela, pois, dentro do Irã, uma conexão com o exterior é tratada
como prova, e a solidariedade praticada descuidadamente a partir do exterior é
paga por outra pessoa. Rejeitar, enfim, a presunção de que um Estado conquista
imunidade ao aprender a falar o vocabulário da resistência.
Uma esquerda digna desse nome deve ser capaz
de dizer tudo isso de uma só vez. Não à guerra EUA-Israel. Não às sanções. Não
às execuções. Não à tortura. Não aos presos políticos. Não ao hijab
obrigatório. Não à dominação imperial, e nenhuma isenção para qualquer Estado
que a invoque.
Os iranianos não devem a ninguém uma escolha
entre seus algozes. Tampouco os palestinos, sírios, curdos, afegãos ou
ucranianos. Se a emancipação é universal, nossa solidariedade precisa ser capaz
de abarcar mais de uma verdade ao mesmo tempo.
Fonte:
Por Mina Fakhravar, no portal New Politics.-Tradução: Sean
Purdy, para A Terra é Redonda

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