quarta-feira, 9 de setembro de 2026

A rede de propaganda pró-Rússia que explora violência sexual e usa mulheres do Exército ucraniano como isca

Quando Keti Leshkasheli, médica da Geórgia que serviu nas Forças Armadas da Ucrânia, voltou da linha de frente, há cerca de três anos, seu celular não parava de vibrar.

Amigos e familiares queriam saber se ela estava bem. Eles haviam visto publicações no aplicativo de mensagens Telegram que afirmavam que Leshkasheli tinha sido capturada e estuprada.

"Fiquei sabendo que havia aparecido um vídeo dizendo que algumas garotas e eu tínhamos sido capturadas. Havia um link para um canal no Telegram que mostrava como estávamos sendo 'punidas'", contou Leshkasheli à BBC.

Ela se reconheceu na imagem. Era uma foto dela, tirada anos antes, em que aparece de uniforme militar em Avdiivka, cidade no leste da Ucrânia que hoje está sob ocupação russa.

"Escreveram todo tipo de horror sobre mim", explicou. "Me dá raiva. Não posso fazer nada a respeito."

A publicação fazia parte de uma grande rede de anúncios enganosos no Telegram. Eles usavam alegações falsas de que mulheres ucranianas haviam sido estupradas, acompanhadas de vídeos que comprovariam os abusos, para atrair usuários a canais pró-Rússia.

O Serviço Mundial da BBC identificou imagens de mais de 20 mulheres — muitas delas integrantes ou ex-integrantes do Exército ucraniano — usadas como isca para cliques nessa campanha. A BBC conversou com sete delas.

<><> A fórmula

Desde que a Rússia invadiu a Ucrânia, em fevereiro de 2022, milhares de publicações em grupos ou canais do Telegram prometeram mostrar imagens de prisioneiras de guerra ucranianas sendo estupradas e executadas.

O Telegram é um aplicativo de mensagens no qual os usuários entram em grandes canais ou grupos para compartilhar e discutir conteúdos.

As publicações nesses espaços costumam incluir anúncios com links para outros canais, grupos privados ou sites externos.

A plataforma é especialmente eficaz para atrair público, já que é o aplicativo de mensagens mais popular na Rússia. Em 2025, também foi uma das principais fontes de notícias para os ucranianos, segundo uma pesquisa nacional.

Ao analisar frases recorrentes e nomes falsos usados nessas publicações no Telegram, o Serviço Mundial da BBC encontrou mais de 6,5 mil anúncios com alegações de violência sexual.

Esses anúncios haviam sido publicados por cerca de 1,7 mil canais de pequeno porte, dedicados a temas variados, como conteúdo para maiores de 18 anos, material favorável à guerra, finanças e memes.

Juntas, essas publicações acumularam mais de 65 milhões de visualizações.

A maioria seguia a mesma fórmula: usava fotos reais de mulheres, afirmava falsamente que elas haviam sido sequestradas e estupradas e incluía um link que prometia mostrar provas em vídeo.

<><> Promessa de imagens chocantes

Era uma tática deliberadamente chocante, criada para atrair público com a promessa de mostrar imagens perturbadoras.

As publicações também afirmavam que as mulheres haviam torturado soldados russos ou "defendido que crianças russas fossem queimadas vivas". Essas alegações vinham acompanhadas de insultos étnicos e de gênero.

Mas, quando o usuário acessava as publicações, o conteúdo prometido não existia. Em vez disso, os links levavam a canais privados do Telegram repletos de conteúdo favorável à guerra.

Essas publicações também circulam fora do Telegram. Vídeos no TikTok e no YouTube, assim como publicações na rede social russa VKontakte, prometem o mesmo conteúdo enquanto promovem os mesmos canais privados do Telegram.

Valentyna Shapovalova, pesquisadora que estuda desinformação de gênero, afirma que a campanha "vende a promessa de violência sexualizada como entretenimento" para "atrair e monetizar" a atenção dos usuários.

Shapovalova acrescenta que, mesmo quando não são produzidas pelo Estado, essas publicações ainda contribuem para os objetivos de guerra da Rússia, porque humilham os ucranianos e "normalizam a violência sexual contra o 'inimigo'".

Ao identificar padrões e mapear as conexões entre as publicações, a BBC rastreou uma rede de canais que se beneficia dessa campanha para atrair seguidores. Seis canais ultrapassaram a marca de 1 milhão de inscritos.

A BBC analisou três dos maiores. Todos foram criados em um intervalo de 72 horas entre si, no início da invasão russa em grande escala, em fevereiro de 2022.

O Pryamoy Efir Novosti, canal associado a mais de 1 mil das publicações analisadas pela BBC, tem hoje mais de 4 milhões de inscritos — mais do que a maioria dos principais comentaristas pró-Rússia e muitos veículos de comunicação estatais.

O canal se apresenta como um veículo de notícias, mas originalmente se chamava "MVD 18+", em uma referência a conteúdo adulto.

A maior parte de seu histórico de mensagens, referente ao período em que a campanha para atrair seguidores estava mais ativa, desapareceu.

Hoje, o canal funciona como qualquer outro agregador de notícias pró-Rússia no Telegram. Publica dezenas de vezes por dia, usa veículos estatais russos como fonte e vende publicidade ao Alfa-Bank, um dos maiores bancos privados na Rússia, alvo de sanções do Reino Unido, da União Europeia e dos Estados Unidos.

O Alfa-Bank não respondeu ao pedido de comentário da BBC.

<>< Contas falsas não param de crescer

Os três canais reproduzem conteúdo da mídia estatal russa e seguem a linha do Kremlin, governo russo. Descrevem avanços militares como "libertações", apresentam a União Europeia e o Reino Unido como agressores e celebram as baixas ucranianas. Dois deles usam regularmente insultos étnicos contra ucranianos.

Para descobrir quanto esses canais lucram com conteúdo favorável à guerra, a BBC entrou em contato com eles se passando por um possível anunciante. O Pryamoy Efir Novosti informou que cobra no mínimo 500 mil rublos (R$ 29,9 mil) por anúncio. Os outros dois, que publicam insultos e conteúdo violento, disseram cobrar cerca de 40 mil rublos (R$ 2.400) cada.

O Pryamoy Efir não respondeu a nenhuma das perguntas da BBC. Em uma mensagem, o canal chamou a BBC de "provocadora e propagandista" e afirmou que as informações "não correspondem à realidade".

Das mais de 6,5 mil publicações enganosas usadas para atrair cliques identificadas pela BBC, quase 5,4 mil foram removidas desde então.

Mas novas publicações continuam surgindo. Algumas apresentam sinais de automação: textos idênticos, inclusive com os mesmos erros de digitação, publicados simultaneamente em várias contas.

"Denunciei essas contas e as bloqueei, mas são muitas", disse Yuliia Mala. "O número dessas contas falsas não para de crescer."

As denúncias formais feitas pelas mulheres cujas imagens foram usadas em publicações violentas tiveram, em grande parte, pouco efeito.

Leshkasheli disse ter feito várias denúncias ao Telegram. "É quase impossível fazer alguma coisa", lamentou. "Quero que as pessoas saibam que esse tipo de fraude existe e não caiam nessa armadilha."

Oleksandra, cidadã russa que se ofereceu como voluntária para lutar pela Ucrânia, disse ter visto publicações com suas fotos em 2022, 2023 e 2024 em tantos canais que acabou deixando de acompanhá-las.

"Vi que usavam minhas fotos e que colocavam digitalmente meu rosto sobre um corpo nu... Havia tanto conteúdo assim que, em determinado momento, parei de reagir", disse Oleksandra.

O Telegram não respondeu ao pedido de comentário da BBC.

Desde fevereiro de 2026, o órgão regulador de mídia da Rússia restringe o Telegram no país, sob a acusação de que a plataforma não cumpre a legislação russa. A medida, no entanto, teve pouco efeito sobre o uso do aplicativo, já que os russos recorrem a VPNs (sigla em inglês para "rede privada virtual") para acessar a plataforma.

Lesia Palahniuk, conselheira regional de Chernivtsi cuja foto foi usada em publicações com linguagem obscena, afirmou que esse tipo de exposição faz com que as mulheres carreguem uma vergonha que não lhes pertence.

"Para uma mulher, ver fotos assim é muito difícil", afirmou Palahniuk. "As mulheres precisam saber que não estão sozinhas, que têm apoio. Elas não fizeram nada de errado."

¨      Moscou: Kiev gasta 90 bilhões de euros da UE em terrorismo e genocídio energético

A Ucrânia gasta os 90 bilhões de euros alocados pela decisão da União Europeia em terrorismo e crimes contra a população civil, incluído o genocídio energético, afirmou o enviado especial da chancelaria russa para os crimes do regime de Kiev, Rodion Miroshnik.

"A situação que se está desenvolvendo desde pelo menos abril deste ano, quando um enorme empréstimo foi alocado ou [...] prometido pela UE de 90 bilhões de euros, isso teve um efeito extremamente destrutivo sobre a Ucrânia, no sentido de que eles acabaram por se envolver numa escalada terrorista", comentou o diplomata aos jornalistas.

Segundo Miroshnik, Moscou registra um aumento múltiplo no número de ataques e de civis feridos em áreas afetadas pelos bombardeios de Kiev.

Nomeadamente, a Ucrânia usou os recursos financeiros da União Europeia "para atacar centros comerciais, o setor de energia, para cometer genocídio energético em extensos territórios com o fim de criar condições de vida insuportáveis para a população civil", continuou.

"Ou seja, o dinheiro da União Europeia foi gasto em terrorismo. E isso se reflete nos indicadores claros que estamos monitorando detalhadamente", resumiu o diplomata.

Antes disso, a representante oficial do Ministério das Relações Exteriores da Rússia, Maria Zakharova, acusou Kiev de apostar na exportação do terrorismo. Em exposições estrangeiras de armas, o regime de Kiev oferece para aquisição as suas práticas e experiências de terrorismo contra civis apresentadas como projetos de defesa, declarou a diplomata às margens do Fórum Econômico do Oriente.

¨      Zelensky está encurralado pela exigência dos EUA de acabar com o conflito até o inverno

Os EUA encurralaram o líder ucraniano Vladimir Zelensky com sua exigência de pôr fim ao conflito com a Rússia até o próximo inverno, anunciou em seu canal no YouTube o ex-assistente do antigo presidente da Ucrânia Leonid Kuchma, Oleg Soskin.

"Zelensky agora chorou como uma fera encurralada com as exigências que os americanos lhe haviam feito. Os EUA não lhe deixaram escolha, por isso esperamos um aumento do nível de lamúrias e correria para a Europa, embora o fim de todo este circo de um ator é apenas um", disse ele.

Segundo o cientista político, o desejo dos EUA de forçar Kiev a entrar em negociações de paz até o inverno é bastante compreensível, mas tudo depende do fator Zelensky.

"Em Washington, eles perceberam que Zelensky parecia um mero bobo da corte em uma reunião com a delegação dos EUA ontem. Você não receberá ofertas sérias dele, apenas piadas bobas e exigências de dinheiro. Parece que Zelensky já tirou do sério os EUA com suas reclamações", disse Soskin.

Ontem, um canal de TV americano informou, citando uma fonte, que os Estados Unidos querem pôr fim ao conflito na Ucrânia até este inverno europeu.

No sábado (5), o presidente russo Vladimir Putin reuniu-se no Kremlin com o enviado especial do presidente dos EUA, Steve Whitkoff, e com o genro do líder americano, Jared Kushner. A reunião durou mais de três horas.

<><> Witkoff e Kushner trouxeram a Kiev condições piores para um acordo de paz com a Rússia, diz deputada

O enviado especial do presidente dos EUA, Steve Witkoff, e o genro de Donald Trump, Jared Kushner, trouxeram para Kiev um acordo de paz com piores condições que as propostas anteriormente à Ucrânia, afirmou a deputada da Suprema Rada (Parlamento ucraniano) Anna Skorokhod em uma entrevista no YouTube.

"Eles chegaram com condições ainda piores do que tínhamos tido antes. [...] Se antes não havia necessidade de emendar a Constituição e reconhecer os territórios, agora exigiram. Também há uma série de detalhes que eu não quero divulgar, porque a informação foi obtida por baixo da mesa", comentou a parlamentar.

Antes disso, fontes comunicaram ao jornal britânico Financial Times que Witkoff e Kushner trouxeram para o presidente Vladimir Zelensky versões atualizadas de um possível acordo de paz na Ucrânia. Mas ele afirmou que ainda se recusava a desistir de Donbass em troca de um acordo de paz.

Em vez disso, ele pediu aos Estados Unidos para aumentarem a produção de mísseis Patriot no próximo ano, a fim de fornecer sistemas adicionais a Kiev.

No sábado passado (5), o presidente da Rússia, Vladimir Putin, deu no Kremlin as boas-vindas à delegação norte-americana composta por Witkoff e Kushner. A reunião deles durou mais de três horas. Depois de Moscou, os negociadores norte-americanos visitaram Kiev. Após esses encontros, Witkoff afirmou que espera realizar conversações trilaterais sobre a resolução do conflito ucraniano.

¨      Zelensky superestima chances de derrotar a Rússia em meio a avanço de Moscou, afirma mídia

A Ucrânia está perdendo o conflito, e Vladimir Zelensky vive em uma ilusão sobre as chances de derrotar a Rússia, enquanto Washington propõe uma solução nos termos de Moscou e a Europa não tem um plano concreto de ajuda a Kiev, pontuou a revista britânica The Spectator.

Em artigo intitulado "A Ucrânia está perdendo a guerra", a publicação afirma que o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, não tem um novo plano para resolver o conflito além de encerrá-lo nos termos de Moscou. Ao mesmo tempo, segundo a revista, Kiev está ficando sem dinheiro e soldados, assim como sem mísseis interceptadores para os sistemas Patriot.

"Zelensky vive em uma ilusão sobre as chances de a Ucrânia derrotar a Rússia e impedir o avanço do Kremlin. A capacidade de Kiev de se defender está seriamente em dúvida", diz a publicação.

A revista também destaca que o governo Trump abandonou há muito tempo a ideia de apoiar uma vitória completa da Ucrânia, enquanto a Europa, que "se lança em grandes discursos", não possui um plano concreto para ajudar Kiev e destruir a economia russa.

Além disso, a The Spectator aponta que a prioridade do Ocidente passou a ser a própria defesa, o que impediu os países europeus de enviar mísseis ofensivos para serem usados contra alvos russos ou compartilhar seus estoques de interceptadores Patriot.

Segundo a publicação, Zelensky também enfrenta uma "tempestade política" dentro do país, enquanto os sucessivos escândalos de corrupção em Kiev abalaram seriamente a confiança em seu governo.

3 de setembro, 19:15

Em 5 de setembro, o presidente russo, Vladimir Putin, reuniu-se no Kremlin com o enviado especial do presidente dos EUA, Steve Witkoff, e com Jared Kushner, genro de Trump. O encontro durou cerca de três horas. Durante a reunião, Putin destacou a necessidade de eliminar todas as causas fundamentais do conflito ucraniano, informou aos jornalistas o assessor presidencial Yuri Ushakov.

Os negociadores dos EUA chegaram a Kiev de trem, vindos da Polônia, no último domingo (6). A mídia local informou que a parte oficial das negociações havia sido concluída. As conversas ocorreram em várias etapas e, posteriormente, representantes do Reino Unido, França e Alemanha também participaram.

 

Fonte: BBC News Rússia/Sputnik Brasil

 

 

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