Sonia Fleury: É hora da soberania popular
Lula mostrou posição firme diante de ameaças
internacionais. Mas autodeterminação é um atributo que deve partir do povo, e
por isso é hora de os brasileiros assumirem seu compromisso na construção do
bom viver e do Comum. Eis algumas propostas...
1. A volta do debate e da disputa sobre
soberania
Décadas de prevalência do neoliberalismo
privilegiando a dinâmica de um mercado cada vez mais oligopolizado e
desregulado levaram ao enfraquecimento das organizações multilaterais,
incapazes de incluir as economias emergentes em suas estruturas e
de acomodar interesses divergentes, em um contexto geopolítico
multipolar.
Estados nacionais endividados e enredados em
uma economia financeirizada mostraram-se incapazes de fazer frente às demandas
sociais e regular as corporações, o que tem levado ao aumento das desigualdades
e à concentração abissal da riqueza. As consequências desse processo têm sido a
polarização política diante das expectativas frustradas, levando a ciclos de
alternância entre governos progressistas, incapazes de cumprir suas promessas,
e governos de direita que vendem a ilusão de serem antissistemas, mas acentuam
as desigualdades e a repressão às populações mais vulneráveis.
O fato de o debate sobre soberania ter se
tornado o grande tema político, mesmo em um contexto tão adverso, é fundamental
para resgatar a importância dos Estados nacionais como condutores de um projeto
próprio de desenvolvimento, inserção na economia internacional, inclusão social
e redistribuição.
Além de colocar na agenda as capacidades
estatais para realização dessas missões, importa assinalar que a soberania
repõe a importância da vontade política nos processos de transformação, tão
depreciados na visão neoliberal que atribuía exclusivamente ao mercado a sua
condução.
Porém, a noção de soberania se apresenta em
disputa. Por um lado, vemos um projeto imperialista dos EUA cujo domínio tem
sido ameaçado cada vez mais pela economia e desenvolvimento tecnológico da
China. O governo neoestatista autoritário, em conjunção com a indústria bélica,
tem acarretado inúmeras guerras no Oriente e na Europa. Em disputa com a
crescente influência chinesa, o projeto colonial retoma a doutrina
Monroe, afirmando a predominância norte americana no Hemisfério Ocidental. Tal
projeto se concretiza por meio de medidas como o tarifaço e a guerra comercial,
a intervenção nas eleições na América Latina, o apoio aos governos de direita
na região, o sufocamento da economia cubana, o sequestro do presidente
venezuelano, dentre outras. Para além das intervenções de caráter
político-ideológico, o governo dos EUA usa seu poder para garantir os
interesses que o sustentam, ao pressionar os governos e impedir a regulação das
Big Techs e buscar ter domínio sobre a extração dos recursos naturais estratégicos
como petróleo, as terras e minerais raros.
Um contraponto ao projeto imperialista e
colonial tem sido encontrado na postura autônoma e democrática
apresentada pelo governo brasileiro
2. Por uma soberania democrática
Diante desse contexto adverso, a posição do
governo Lula tem sido um contraponto fundamental, a nível internacional, de um
projeto de soberania que preserve os interesses nacionais estratégicos para o
desenvolvimento, reindustrialização e incorporação de tecnologia aos produtos a
serem exportados, valorize o multilateralismo em um mundo multipolar, busque
reformar os fóruns internacionais incorporando os países emergentes e construir
alternativas como os BRICS, para fortalecer os países participantes dessa coalizão,
nas negociações internacionais.
Os desafios se multiplicam em um contexto de
interconectividade no qual as crises ambiental, sanitária e de sociabilidade
são multideterminadas por fatores políticos, econômicos, comerciais e
tecnológicos que se situam para além do âmbito nacional.
A soberania como capacidade suprema de
decidir, em última instância sobre as normas que regulam as relações dentro de
um território, fica cada vez mais ameaçada dentro do contexto atual, e deve ser
conquistada, internamente, pela legitimidade alcançada pelo governo e
externamente pela redução da dependência e aumento da autonomia.
A soberania não é um conceito estático, tendo
sido concebida por Hobbes no Leviatã como o exercício do poder absoluto,
indivisível e irrevogável do Estado, enquanto Locke desloca a soberania desde o
Estado Absoluto para a sociedade civil de proprietários, lhe outorga
consentimento ou lhe opõe resistência. Tal visão liberal da democracia,
que foi chamada por Macpherson de liberalismo possessivo, mostra-se inadequada
para a fase atual do capitalismo, em que assistimos a uma verdadeira simbiose
entre o poder político e as grandes corporações, em especial as chamadas Big
Techs, inviabilizando as possibilidades de resistência e dissidência de um
poder que se entende como absoluto.
Diante desse quadro, importa retomar a visão
de Rousseau na qual a soberania pertence exclusivamente ao povo,
expressando o exercício da vontade geral, ou autodeterminação dos povos. Em
termos históricos, a soberania deixa de ser um atributo do soberano nos Estados
Absolutistas para se tornar um atributo do povo, desde a Revolução Francesa.
Nesse sentido, a ênfase deve ser dada à legitimidade atribuída pelo povo
ao exercício do poder pelo governante, ou seja à governabilidade, ao invés de
atribuí-la à governança, como gestão administrativa e política dos diferentes
atores envolvidos na arena política.
A soberania compreende uma dimensão jurídica,
uma dimensão econômica e uma dimensão simbólica, que se expressam na
ordenamento das normas e instituições, no funcionamento do mercado e na
construção simbólica da nação. Essas dimensões estão presentes no nosso
ordenamento jurídico que é a Constituição Federal de 1988, de forma extremamente
avançada, porque não apenas trata da soberania democrática mas avança em
relação à afirmação da soberania popular.
No entanto, a persistência de iniquidades
mina as possibilidades de uma justiça que trate a todos de forma igualitária,
de um sistema político que elimine o patrimonialismo e corrupção, e impede a
construção de um processo civilizatório baseado em princípio igualitário, que
nos identifique como uma nação democrática.
A questão política central para nós continua
sendo a imensa desigualdade que corrói a democracia, deslegitima as tentativas
de soberania, impede a coesão social e a construção simbólica da nação,
mediação necessária entre os indivíduos como cidadãos e o Estado, evitando seu
esvaziamento como conceito de pertencimento politico a uma comunidade de
cidadãos para transformá-lo em símbolos como camisas de seleções de futebol.
A Constituição Federal de 1988 reza que a
soberania, a cidadania e a dignidade da pessoa humana são alguns
dos fundamentos do Estado democrático de direito (Art. 1º, I, II e
III), e no parágrafo único estabelece que todo poder emana do povo, que o
exerce por meio de representantes eleitos ou diretamente.
A soberania nacional é um dos princípios a
serem observados na ordem econômica (Art.170, I).
Essa visão de uma democracia participativa
que complementa a democracia representativa se configura como soberania
popular, nos termos do Art. 14 que estabelece que será exercida pelo sufrágio
universal e mediante I-Plebiscito, II-Referendo, III-Iniciativa Popular
Legislativa (Art. 61, 2º). Infelizmente, a Assembleia Nacional Constituinte
rejeitou o instituto do recall, pelo que a
cidadania, através de regras definidas, pode retirar seu voto de um
representante que seja considerado como traidor da confiança nele
depositada.
Mesmo assim, é enorme a potência do debate
político pedagógico embutido nos processos comunicacionais diretamente entre o
governante e a cidadania, como tem sido praticado no México, ou nos referendos
exaustivamente usado nas eleições uruguaias, nas decisões que afetam
diretamente aos moradores, como nas políticas de proteção social.
Nesse momento de retorno do debate sobre
Soberania, é imprescindível retomar a perspectiva da Soberania Popular,
utilizando os instrumentos constitucionais de participação cidadã, além
daqueles criados para dar vida à vontade popular, como o Orçamento Participativo,
as Conferências e Conselhos Setoriais. Desta forma, poderemos criar um
Estado Pedagógico, em permanente relação dialógica entre governantes e
governados, onde a escuta das demandas populares seja a fonte das políticas
públicas e da legitimidade da ação governamental para avançar na construção da
democracia para todos. A noção de Estado Pedagógico vai além das instituições
governamentais, trata-se do Estado Ampliado gramsciano, cuja construção de
hegemonia envolve instituições públicas e privadas em um mesmo compromisso.
3. A soberania popular democrática exige
compromissos
O movimento sanitário tem origem na luta pela
democracia, com o lema SAÚDE É DEMOCRACIA, DEMOCRACIA É SAÙDE, uma democracia
social e participativa, como ficou plasmado no direito à saúde e na arquitetura
institucional do SUS. A Frente Pela Vida demonstrou que o Movimento Sanitário
foi capaz de se reorganizar no momento mais crítico de nossa conjuntura
política e sanitária, ao enfrentarmos uma pandemia com um governo negacionista,
que militarizou o Ministério da Saúde e esvaziou sua função primordial de coordenação,
imprescindível para uma ação efetiva diante de uma conjuntura sanitária
crítica. O SUS mostrou sua resiliência porque institucionalizou a
descentralização e participação social, mantendo o caráter de movimento social
em prol da democracia, que foi sua origem.
A Frente pela Vida promoveu uma inovação
institucional fundamental que foi a criação das Conferências Livres,
Democráticas e Populares, onde a vontade popular pode se manifestar fora das
amarras institucionais, impondo novos desafios no enfrentamento à fragmentação
das demandas e sua capacidade de incidência política.
Na primeira Conferência Nacional, Livre,
Democrática e Popular, o então candidato Lula assumiu compromisso com as
demandas que lhe foram apresentadas. Esse processo se renova em 2026, porque
sabemos que, apesar de todas as contingências enfrentadas, o governo cumpriu os
compromissos assumidos em relação à manutenção das vinculações orçamentárias
destinadas às políticas sociais, e aumentos do gasto público em saúde, além das
políticas de recuperação do salário-mínimo e do emprego, fortalecimento
da atenção primária e do acesso à atenção especializada.
Por
isso, renovamos nossas esperanças e apresentamos uma nova carta de compromissos que corresponde
às nossa expectativas ao governo democrático na fase atual. Como afirmamos, a
desigualdade é hoje a maior ameaça à democracia, restando sentido à construção
de uma nação, que simbólica e materialmente, assegure a coesão por meio do reconhecimento,
distribuição e regulação dos agentes sociais. É o momento, neste quarto
governo, de reverter todas as políticas públicas que, de forma direta ou
indireta, ou pela ausência, são responsáveis pela manutenção do nível
abissal de desigualdade entre nós.
Mas, se
a soberania é um atributo do povo que legitima um governo, creio que devemos
inverter a proposta e, simultaneamente, apresentar nossos compromissos,
que são:
A – A
soberania, em todas suas dimensões, dependerá, hoje, da legitimidade
conferida pela população ao governo democrático que atenda suas expectativas em
relação aos direitos e políticas que podem ser incluídos na categoria do bom
viver e do comum. Assim, podemos romper a polarização e o desencanto, e apontar
para um futuro desejado. O bom viver é relativo à qualidade dos serviços que
atendem às necessidades da população e que se vinculam à noção do comum porque
não são mercantilizados, são de todos e qualquer um. Desde um espaço público
como uma praça com árvores ao posto de saúde que vacina qualquer um. Estaremos
junto, em apoio ao governo que tenha como prioridade a construção do comum, a
desmercantilização da vida e das políticas sociais;
B
– Romper desigualdades estruturais requer tornar as populações e
territórios das favelas e periferias como o centro do investimento público e da
construção da democracia social, com medidas efetivas de promoção social e
aumento da segurança pública, uma política construída com a população, para
redução da violência para estatal e estatal. Medidas de saneamento,
habitação e transporte livre são parte do cuidado que assegura a saúde da
população. A juventude que, através de políticas educacionais, chegou à
Universidade e à pós-graduação precisa de ter um futuro assegurado por meio da
criação de empregos em seus territórios, para atuar na melhoria da qualidade
dos serviços e romper com o desencanto de batalhar tanto para se formar e
terminar plataformizado, explorado e sem direitos sociais e trabalhistas;
C – Apoiaremos o debate nacional e um
referendo ou plesbicito que vise assegurar a integridade do orçamento público
com a revisão da atual distribuição de emendas parlamentares que desvirtuam o
planejamento, transparência e controle dos recursos públicos. Adicionalmente,
estaremos na frente do debate para que o Orçamento Participativo seja
implantado pelo governo federal;
D – Estaremos juntos na defesa de fortalecer
o setor público de saúde por meio de investimento na infraestrutura preenchendo
os vazios sanitários, na incorporação de profissionais em carreiras de saúde,
no estabelecimento recursos e de metas para que o setor público possa reduzir a
dependência dos serviços privados na provisão da atenção à saúde. A canalização
de recursos para serviços privados de saúde ou de Big Techs, justificada pelo
fato de já estarem disponíveis, é um argumento liberal que corrói as bases da
nossa soberania e impede o investimento nos serviços públicos;
E – Enfrentaremos juntos os desafios atuais
em relação à soberania sanitária, que dizem respeito à proteção dos dados de
saúde e impedimento de sua mercantilização, entendendo que é imprescindível a
existência de uma infraestrutura nacional para assegurar a cidadania digital.
Cuidaremos para que a cidadania digital e todas as políticas públicas sejam
voltadas para a preservação ambiental e da vida;
F – Lutaremos para aumentar o investimento em
ciência e tecnologia nas universidades e institutos públicos e apoiaremos o
desenvolvimento da soberania sanitária por meio do fortalecimento do Complexo
Econômico Industrial da Saúde e da Nova Política Industrial que reverta o
quadro de dependência e reprimarização da produção industrial, desde que sob
controle social e voltado para o bem comum;
G – Finalmente, estaremos na frente da
articulação necessária e de um grande esforço de apoio nacional para romper as
amarras atuais que nos prendem aos altos juros, ao endividamento público e à
produção de superavit primário, que canalizam toda nossa riqueza para o
enriquecimento daqueles que apostam na pobreza, na desigualdade e na
dependência estrangeira como forma de enriquecimento;
Conte conosco, Presidente Lula! A Saúde já
demonstrou sua capacidade de luta e também de criação e defesa das instituições
democráticas. Tamo junto!
Fonte: Outra Saúde

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