terça-feira, 8 de setembro de 2026

Um romance sobre a eleição de 2018 mas que poderia ser sobre hoje

nicho das editoras independentes está cada vez mais interessante, e a Jabuticaba é um exemplo de pequena casa editorial com catálogo de dar inveja às grandes. Essa editora saborosa oferece ao leitor textos clássicos e contemporâneos de prosa e poesia da melhor qualidade, em edições bonitas e funcionais. No caso dos originais escritos em outras línguas, as traduções são primorosas. 

Parque Modelo, de Peu Araújo, é um achado dos editores da Jabuticaba, lançado em junho de 2024. O romance ganha uma camada extra de interesse neste ano de 2026, por se passar no mês que separa o primeiro e o segundo turno da fatídica eleição de 2018, que para a parcela progressista da sociedade brasileira tornou-se um trauma, ainda que democrático, difícil de ser superado.

À localização temporal do romance soma-se o ótimo trabalho de linguagem literária contido nas suas poucas mais de cem páginas, o que transforma Parque Modelo em um livro sugestivo para o momento atual.

Narrado em primeira pessoa, Parque Modelo se inicia no dia da votação do primeiro turno, quando o narrador-personagem retorna ao bairro da infância para votar no colégio eleitoral onde estudou. Esse personagem é alguém que conseguiu deixar o bairro e que, no presente da narrativa, mora em um apartamento localizado em um CEP chique, mas que, como nota a prima do amigo de infância morto em circunstâncias nebulosas, é “um apartamentozinho pequeno e todo velho igual era a sua casa lá na Pataji. Que merda”.

O personagem que vive “entre”, que ascende socialmente, mas não o suficiente para ser completamente aceito pelo estrato social dominante e que, por sua vez, não se sente mais parte do local de origem é um tipo muito recorrente na literatura contemporânea, principalmente a que envereda pelo gênero da autoficção. Exemplos de autores e autoras que escrevem sobre essa sensação não faltam, e nomeá-los aqui seria um desperdício de caracteres, já que o público leitor brasileiro conhece e aprecia muitos deles. 

Parque modelo fugiu das rotas autoficcionais em voga e optou por trabalhar o tema na chave ficcional, e tal escolha resultou em uma leitura bastante fluída, já que aos autoquestionamentos do personagem/narrador se fundiu uma trama bem amarrada, com personagens bem construídos e um excelente clímax no capítulo final.

A oralidade explorada nos muitos diálogos e o senso de humor também se destacam como escolhas acertadas de Araújo. Assim, é impossível não se afeiçoar ao narrador “vacilão”, ao Soneca e ao Gordão, seus amigos de infância, que ao contrário dele não saíram da “quebrada”. Gordão nos é apresentado logo nas primeiras páginas:

“Disseram também que ele é bom com os números. Quem comentou isso comigo foi um cara que mora na minha rua e frequentou o Paul Hugon na mesma época que ele. Ele nem estudava, causava o tempo todo, mas ia bem nas provas. Isso tudo antes de se aposentar da vida de estudante. Talvez por isso ele fume o seu cigarro apertando o rosto todo. Devem ser as equações. O que será que ele calcula enquanto isso? O que será que ele quer da vida às três da tarde fumando um Eight com uma imagem de um feto na parte detrás do maço? Ele tem grana pro Marlboro, pô. Dizem que é dono dessa boca há alguns anos e esse ponto sempre foi movimentado.”

Jairo, ou Soneca, surge algumas páginas depois:

“Passo pela cozinha, vou até o quintal, no fundo, e subo os degraus irregulares que levam até a laje em eterna construção. O Soneca empina pipa ali desde que éramos moleques, pique 10, 11 anos. Ele era o melhor da rua nisso, um Zidane do cerol.”

O humor ácido e nada condescendente é um recurso muito bem utilizado em Parque Modelo, e por causa dele rimos e nos afeiçoamos aos personagens principais e acompanhamos com simpatia os seus “corres”. Por meio de reflexões espirituosas ele indica ao leitor que os muros que separam o “não lugar” Parque Modelo dos bairros centrais da cidade, e por conseguinte os moradores de uns e de outros, são erguidos também sobre sutilezas:

“Por alguns instantes, durante a nossa conversa, viajei sobre o universo da Julia e do Leozinho. Ele é tão distante, mas tão distante que às vezes eu nem alcanço, nem consigo visualizar. A casa da Riviera, a casa de Campos do Jordão, as rehabs dele que se tornam cursos no exterior, a mesada que os pais dela suspenderam por ela ter se casado com um fodido, essa festa. Tudo isso é muito surreal. Os amigos dela se conhecem pelos sobrenomes chiques e por pequenas abreviações do nome. É a Fe Salles, o Tom Fraga, a Sá Mendes, a Ju Safra e no meio tem sempre um descendente da monarquia. Esse mundo fica ainda mais distante quando começo a enumerar os vulgos dos meus parceiros.

Soneca, Gordão, Mané, Gordo, Lagarto, Meu, Bisteca, Pirulito, Minão, Marrom, Negão, Alemão, Ferrugem, Titi, Vampeta, Cacoon, Dunha, Merdinha, Locha, Tuxo, Zé Peido, Cabelo, Caspa, Dentinho, Tetão, Cabeção, Zóio, Zazá, Cachorro, Javali, Napa, Parrudo, Mongo, Shepa, Boi…”

A construção da tensão do enredo se dá justamente nos momentos em que esses dois mundos se unem: na festa de celebração do resultado do primeiro turno em um hotel chique de uma área central da cidade, e na festa de lamentação do resultado do segundo turno em um apartamento localizado na Avenida Paulista, não por acaso o palco da comemoração dos eleitores do candidato vencedor.

As duas festas são oferecidas por um amigo do narrador dos tempos da faculdade que trabalha na campanha do candidato “meio de esquerda”. A presença dos amigos de infância, que destoam completamente do público da festa é tolerada porque eles trazem a cocaína na qual os eleitores de vermelho afogam suas mágoas (e narizes).

O choque entre os mundos nessas duas festas se dá, na primeira, de forma cômica, e, na segunda, trágica. E é essa tragédia que encerra o romance. Há passagens excelentes e engraçadas que representam o abismo social e a alta tensão que se instala quando os dois extremos coexistem, como ilustra muito bem o seguinte trecho:

“O valet, que tinha acabado de estacionar um Porsche Panamera 2018 preto, olha para o Santana branco e pergunta:

– Os senhores estão no lugar certo?

Gordão – que colocou uma calça da Cyclone, porque era uma festa elegante – está esparramado no banco do passageiro. Ele olha bem no meio da bolinha do olho do trabalhador e fala baixo:

– Algum problema? Não entendi, irmão. O carro te incomoda? O preço é diferente?

– Não senhor, não foi isso que eu disse.

– Foi exatamente isso que você disse.

Ele desce do carro e já penso no pior. Ele vai puxar essa merda dessa arma e matar o cara aqui na frente de todo mundo. Tô fodido.

Ele puxa uma nota de 50 reais e coloca no bolso da camisa branca encardida do manobrista. Dá um tapinha no seu ombro e completa:

– Bom trabalho, guerreiro. Trampar no domingão é embaçado”.

Porém, em outros momentos a sutileza se perde e o narrador explica o que não precisa ser explicado, como no excerto:

“Eu e o Soneca estávamos ali de canto, sem ninguém, a não ser o segurança, nos notar. Bebemos o champanhe caro do partido popular num lugar em que o povo não tinha acesso”.

Para a sorte do leitor, o didatismo é algo que aparece esporadicamente e não chega a atrapalhar o bom desenvolvimento do romance. Além disso, Araújo consegue através da opção dialógica mostrar a visão de mundo e as razões por trás das escolhas dos personagens centrais sem apelar para a heroicização ou a vitimização dos moradores do Parque Modelo. Há momentos sublimes nos quais toda a contradição dos personagens e os sentimentos conflitantes da difícil relação de amizade que ainda perdura deixam o leitor comovido. Por exemplo no trecho:

“ – Cê tá com dó, cuzão? Tá com dó desse filho da puta? Leva ele pra sua casa. Esse craqueiro do caralho tava roubando aqui no bar, roubando as tiazinhas aqui na ladeira, roubando no ponto de ônibus. O Soneca quebrou a mão dele e foi pouco. Eu queria ter matado e jogado lá naquele córrego atrás da pistinha de skate. Então, se aquele bosta tá vivo, você agradece ao Soneca.

O Jairo levanta a cabeça, me olha nos olhos e revejo meu amigo. Envergonhado, ele se levanta e vai buscar outra cerveja. Ali fico viajando nas ideias e pensando na quantidade de camadas que tem tudo isso.”

Aqui novamente nota-se um trecho bonito arrematado por uma explicação sobressalente, e se é tocante o narrador reconhecer o amigo Jairo no profissional do crime Soneca, a frase “quantidade de camadas que tem tudo isso” leva o parágrafo para um didatismo desnecessário. Outro exemplo é no nome Messias escolhido para o policial envolvido na ação que leva o romance ao seu desfecho.

De qualquer maneira, ainda que recorra às explicações em demasia em um momento ou outro, Parque Modelo é um romance bem encadeado, com excelentes personagens, ritmo e duração e que trabalha com destreza a oralidade e os diálogos. É um ótimo modelo de romance brutalista, muito oportuno para reelaborarmos o trauma daquele outubro de 2018, ainda que voltar para aquele dia não seja um passeio no parque.

 

Fonte: Por Giuliana Almeida, em Jacobin Brasil

 

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