Memórias do Jornalismo: Revista ousada em
tempo obscuro
O regime militar de 1964 procurou disfarçar
seu caráter ditatorial. Arquitetou aparências de um Estado Legal mantendo a
Constituição (amputada), um Congresso com dois partidos, um deles porta-voz do
governo (Arena) e o outro, (MDB), de oposição consentida. Mas a população em
geral estava alienada de participação. A política real era exclusividade dos
quartéis protagonizada por generais. Havia correntes, como a dos generais
Castelo Branco e Ernesto Geisel e a de Costa e Silva e Médici que disputavam os
rumos do governo e geravam lutas internas ignoradas pela sociedade.
Governava-se por meio de atos institucionais que iam em sequência amordaçando a
Justiça, silenciando a sociedade.
A primeira onda repressiva da ditadura
avançara pelo país. Além das intervenções nos sindicatos de trabalhadores, a
matança de líderes camponeses e as perseguições aos políticos de oposição,
eliminara todo tipo de imprensa de esquerda, jornais comunistas, socialistas,
nacionalistas. A vítima mais destacada foi a rede de jornais Última Hora, de
Samuel Wainer, que teve suas edições de Pernambuco e Rio Grande do Sul fechadas
(a de Porto Alegre foi apropriada por um grupo de direita que se intitulou Zero
Hora). A UH do Rio acabaria também fechada e a de São Paulo, emasculada, passou
ao controle do aventureiro dinheirista Otavio Frias de Oliveira.
O grande empresariado, que havia financiado o
golpe com os militares à frente, estava nas nuvens, animado e investindo. A
Editora Abril, cujo dono era o ítalo americano Victor Civita, embarcou nessa
euforia. Sua editora vinha fazendo sucesso, primeiro com revistas infantis
importadas, como Pato Donaldo, Mickey etc. Depois lançara
revistas femininas como Contigo e Claudia. E marcara um
golaço. Ele interpretou corretamente que a nascente indústria automobilística
precisava de propaganda para divulgar seus produtos e criou Quatro
Rodas, imitação de uma revista italiana.
Faltava sair do gueto e se tornar importante.
Já em 1964 a Abril passou a trabalhar num projeto de uma revista que lhe desse
prestígio. O jornalista Paulo Patarra, diretor da revista Quatro Rodas,
sabia disso. Desenvolveu um hábil trabalho de articulação para viabilizar sua
candidatura e a de sua equipe para fazer a nova revista. Reunia-se
sistematicamente com a direção da Abril para defender sua proposta.
Ao mesmo tempo, Paulo vinha reunindo
profissionais que considerava capazes. Já contava com José Hamilton Ribeiro,
que era seu segundo em Quatro Rodas. Em junho de 1964 contratou
Sérgio de Souza para ser editor. No mesmo mês, me convidou para ser repórter. E
fomos aproximando outros. Em 1965, a redação de Quatro Rodas havia
se transformado num ponto de aglutinação de profissionais que iriam formar a
futura equipe de Realidade. Luís Fernando Mercadante e Narciso
Kalili, que estavam na revista Intervalo, da própria Editora Abril,
e que haviam se indisposto com seu diretor, Alessandro Porro, tinham sido
“encostados” em Quatro Rodas.
Victor Civita não aceitara a denúncia de que
Patarra chefiava uma célula comunista na empresa, mas não se sentia seguro em
entregar a direção de redação a ele. Além disso, na Abril havia diretores que
nos viam com desconfiança.
Civita pediu a opinião de Mino Carta. Mino
teria dito que “não dá para fazer bom jornalismo sem jornalista de esquerda”.
Para tentar contornar o impasse, vários de
nós apresentamos uma alternativa que Paulo Patarra incorporou e levou à empresa
como proposta sua: a contratação de Murilo Felisberto, de perfil mais
conservador, mas também nosso amigo, para ser o diretor de redação. Patarra
ficaria como redator-chefe. A empresa aceitou, e contratou Murilo. A equipe
começou a ser montada.
De início, foram transferidos para a redação
da nova revista, Patarra, Sérgio de Souza, Mercadante e Narciso Kalili. E o
diretor de arte, George Duque Estrada, que logo desistiu e preferiu voltar
para Quatro Rodas. Foi substituído por Eduardo Barreto, que também
já era da Abril. José Carlos Marão deixou a Edição de Esportes,
semanário de O Estado de S. Paulo, e foi integrado à equipe.
Em seguida, fui transferido. Minha
transferência demorou uns dias porque era preciso encontrar substitutos para os
lugares deixados vagos na Quatro Rodas. Para o meu lugar foi
contratado Eurico Andrade, pernambucano, que vinha de Última Hora e
posteriormente também iria para a Realidade. Começaram a chegar os
fotógrafos: Geraldo Mori, Luigi Mamprin, Walter Firmo.
Pelo que me lembro, o nome “Realidade” teria
sido uma sugestão de Luís Carta, irmão de Mino e diretor da editora. Iniciamos
então o “projeto Realidade”. Mas, após dois meses de trabalho e a realização do
primeiro número zero, ficou claro que seria Murilo ou Patarra. Os dois se
respeitavam, mas eram duas cabeças diferentes, não somavam, contradiziam-se. Em
consequência, o número zero não ficou bom. A Abril fez uma pesquisa de opinião
e os resultados foram insatisfatórios.
Havia constrangimento, ninguém estava
satisfeito com o resultado. Eu estava entre os que haviam indicado Murilo, e
ele veio me procurar. Disse que a situação era ou ele ou Patarra, e queria
saber qual era minha posição. Embora tivesse respeito por seu trabalho e
carinho pessoal, fui claro em dizer que para aquele projeto o Paulo Patarra era
a melhor escolha. Murilo ouviu outros membros da equipe e, pouco depois, pediu
demissão.
Com a saída de Murilo, a empresa estava de
novo diante do problema de entregar a direção a Paulo Patarra. E é claro que o
patrão é que tinha o poder de decisão.
Para criar um contrapeso àquele “bando de
loucos”, que se recusava a bater o ponto, mas trabalhava pela noite afora, que
no fim de expediente jogava futebol com bola de papel na redação, a Abril
resolveu contratar um intelectual, um escritor, para ser nosso diretor, Hernani
Donato. Ele não era jornalista, não tinha vivência de redação. Foi um equívoco
da empresa. Estava completamente desafinado. Houve uma queda de braço (a
primeira de uma série) entre equipe e diretor. E ele perdeu, acabou afastado da
revista. Outras tentativas falharam. A equipe rejeitava todos.
Estabeleceu-se uma disputa sobre quem seria o
diretor, Luís Carta, irmão de Mino, ou Paulo Patarra. Robert Civita, o filho de
Victor, foi encarregado de resolver a disputa num almoço. Vendo que a escolha
pendia para Carta, Patarra deu uma cartada: o diretor deve ser o Robert! disse.
Este ficou surpreso e envaidecido. E Luís Carta teve que concordar. O velho
Civita gostou da ideia. E Robert se tornou diretor provisório da nova revista.
Viu-se que a fórmula de o patrão tratar
diretamente com a equipe deu mais certo que o esperado. Eram dias inteiros de
reunião, de discussão, que, por influência do Robert Civita, chamávamos de
“brain storm”, tempestade cerebral. E era uma tempestade mesmo. Nasciam e
morriam pautas aos montes ao longo de sucessivas reuniões. Nós, os repórteres,
saíamos para fazer matérias experimentais.
Houve ainda um zero 2 e um zero 3, que nem
chegaram a ser impressos. Nossa insatisfação era grande com os resultados, mas
aos poucos íamos chegando ao ponto. A equipe tinha uma liberdade de propor e
realizar jamais vista por mim.
Nessa altura, outros companheiros, como Woile
Guimarães e Mylton Severiano da Silva, o Miltainho, vinham reforçar a equipe.
José Hamilton Ribeiro, que participava da proposta da revista desde o ínicio,
foi transferido um pouco mais tarde, porque teve de esperar que fosse
encontrado substituto para a direção de Quatro Rodas.
O médico, teatrólogo e escritor Roberto
Freire viria a seguir. Começou como mais uma tentativa da empresa de colocar
pessoas “diferentes” de nós (“bando de loucos”) dentro da equipe. Mais velho e
de ar compenetrado, Freire diz que foi recebido com desconfiança por nós. Mas
logo iria integrar-se ao espírito da turma.
Pedro Paulo Poppovic, dirigente da Abril
Cultural, foi responsável pela indicação de Duarte Pacheco Pereira, “o baiano”,
que iria encarregar-se do departamento de pesquisas. Poucos sabiam, mas ele
havia sido vice-presidente da UNE, como contei anteriormente. Nessa época ele
continuava como dirigente da organização política Ação Popular, forçada à
clandestinidade após o golpe militar. Ele seria peça chave na equipe e
responsável pelo futuro de alguns de nós.
Pelos meses seguintes iriam chegando ainda
Hamilton de Almeida, o Hamiltinho, (Haf), Eurico Andrade, Otoniel Pereira, João
Antônio, Paulo Henrique Amorim, Afonso de Souza, o Afonsinho, que viria a ser o
nosso correspondente em Brasília. E cinco mulheres naquele território
masculino: Micheline Gaggio Frank, Norma Freire, Svetlana Novikov, Junko
Iamanaka e Octavia Yamashita.
A reunião de pauta era uma batalha. Na
véspera nos reuníamos na casa de algum de nós e decidíamos o que propor. Quando
imaginávamos que Robert iria resistir a uma ideia, combinávamos previamente um
modo de introdução da sugestão na reunião do dia seguinte. Um lançava, outro
defendia. Se Patarra se guardava, Mercadante se punha a esgrimir
diplomaticamente. Marão opinava com cuidado: “será boa mesmo?” Narciso se
entusiasmava, descrevia a matéria com riqueza, tornando a ideia mais atraente.
Sérgio, com poucas palavras, sentenciava: “A ideia é boa”. Patarra, como se
fosse neutro, meio que blefando, procurava dar o ponto final: “Então, vamos
fazer!”.
Robert muitas vezes iniciava resistindo, mas
acabava concordando, porque sentia que a ideia era boa mesmo. Ou, na dúvida,
concordava, porque afinal todos estavam achando bom. Ou ainda, ficava sem
condições de se opor, prensado por nossa argumentação e nossa maioria ruidosa.
Era uma esgrima cheia de adrenalina. Havia ocasiões em que dava para ler nos
seus olhos: “Meu pai vai me comer”. Mas é preciso que se diga, pelos menos
aparentemente, ele segurava a barra.
Ele havia estudado jornalismo nos EUA. Também
dava sugestões, em geral de matérias sobre empresas e empresários
bem-sucedidos. Jogava suas ideias na mesa, como todos. Dava para ver que Robert
também se entusiasmava com a criatividade, a ousadia do grupo. Afinal, era
jovem, tinha 29 anos na época, e estava se divertindo muito, como nós.
Só quem viveu aquele momento pôde
experimentar aquela efervescência que nos mantinha no mais alto grau de
entusiasmo e alegria. Estávamos criando algo novo, a quente, abrindo caminho
para o jornalismo. Quem viveu, viveu; quem não viveu nunca viverá!
Desse debate saía uma pauta ousada, mas, no
limite, equilibrada. O eixo central da revista eram matérias sobre costumes: a
mulher na sociedade, feminismo, pesquisas sobre a juventude etc. A série de
perfis feitos pelo Mercadante – de Castelo a Brizola, de Costa e Silva a
Niemeyer, de Carlos Lacerda a Sobral Pinto – é exemplo dessa busca dos temas
relevantes dentro de um espectro político e intelectual amplo.
Mas havia espaço para outras matérias
como Esse Petróleo é Meu, sobre um grupo de petroleiros
encontrando e extraindo petróleo, que fiz para a primeira edição.Desde aquela
reportagem sobre os índios que fiz para Quatro Rodas também
fiquei focado nos povos indígenas. Fiz várias matérias sobre o tema viajando
longamente pela Amazônia, como Resgate de uma tribo, que
demorou mais de dois meses, arriscando uma crise conjugal.
Sabíamos que para ser bem-sucedidos tínhamos
de estar unidos e resistir. Algumas vezes, porém, quando a corda ficava muito
tensa, recuávamos. Foi assim com a entrada de Hideo Onaga na equipe. Hideo era
um jornalista veterano, e de bom nome, fizera grandes matérias, fora diretor da
revista Visão por muitos anos. E participara da greve dos
jornalistas em 1961. Mas nós achávamos que ele não iria afinar com o estilo que
estávamos criando. Robert sugeriu seu nome, nós resistimos.
A reunião ficou tensa. Tínhamos decidido
previamente que não íamos aceitar, de forma nenhuma. Mas acabamos num silêncio
pesado. De repente, me escapou a frase: “Está bem, por que não?”, ou algo
assim. Robert pegou a frase no ar, e disse que então ia contratar o Hideo. Eu
fiquei roxo, pensei: “pus tudo a perder”. A reunião acabou, fui saindo da sala,
desenxabido. Sérgio chegou perto, com aquele sorriso manso, dizendo: “Foi
melhor assim. Não ia dar pra segurar essa”. Patarra, no seu jeito elétrico, foi
dizendo: “Tá bom! tá bom!”. E aí vi que os outros também estavam aliviados com
a solução dada. E me tranquilizei.
Em tempo: Hideo não deu mesmo certo na Realidade.
Foi ser chefe de redação da Quatro Rodas, e assim pudemos trazer
José Hamilton, que já se impacientava com a espera. Ele chegou logo fazendo
aquela soberba matéria sobre os coronéis nordestinos.
Infelizmente, Zé Hamilton viria a sofrer o
infortúnio de ser ferido no Vietnã, ficou longo tempo em tratamento nos Estados
Unidos. Esse episódio tornou mais triste o convívio da equipe. Mas, tão logo
teve condições físicas e psicológicas mínimas, Zé voltou ao trabalho, cheio de
energia como sempre, encarando qualquer desafio, de tal forma que por vezes a
gente até esquecia seu sofrimento.
O fato é que, pelo período de três anos, uma
equipe de profissionais teve poder de decisão na produção de uma revista de uma
grande empresa. Ousava temas polêmicos incomodando a direita e os e censores da
ditadura. Algo difícil de explicar até hoje, mas aconteceu. Nossos argumentos
eram o trabalho intenso, criativo, e, a seguir, o esmagador sucesso alcançado
pela revista, que logo chegou aos 500 mil exemplares!
Depois que a revista chegou com grande
impacto às bancas a empresa teve mais dificuldade em controlar nosso ímpeto,
por causa do sucesso de vendas e do respaldo do público. Adotou a linha de não
partir para o confronto, de não usar o seu poder. Também sabia que nós tínhamos
disposição para “pegar o paletó” coletivamente, o que poderia ser tornar um mau
negócio em termos financeiros e de repercussão negativa.
Por isso, combinava pressão com negociação e
ainda com um movimento permanente de tentar dividir a equipe e introduzir nela
profissionais que fossem mais cordatos. Fracassou algumas vezes porque nós
sabíamos que nossa arma mais forte era a união da equipe. Por muito tempo – por
mais tempo do que era esperado – aquele núcleo inicial resistiu a essas
tentativas de divisão engendradas pela empresa, que buscava ter mais controle
da linha editorial. Mas a empresa também sofria pressão do sistema, como a apreensão
da edição especial sobre a Mulher. Toda essa pressão ia nos deixando cansados
daquela queda de braço diária.
Além disso, as pressões se concentravam, e
cada vez mais insuportáveis, sobre Paulo Patarra, o arquiteto e estrategista da
nossa “aventura”. Ele reclamava que estava cansado de duelar todo dia com o
patrão e ainda acalmar os mais impacientes dentro da equipe, como eu. A médio
prazo a situação era insustentável e sabíamos disso.
Que turma era essa? Eram muito diferentes,
vinham de lugares, situações, condições culturais e políticas diversas, mas na
grande maioria originários da mesma classe média do Sudeste. Isso merece um
estudo, que não vou fazer aqui. Apenas referir que partilhavam de uma mesma
herança de ideias desenvolvidas no país a partir da década de 30, período de
brilho da nossa literatura, da música popular e erudita, das artes plásticas,
cujas raízes tinham a ver com a urbanização, a industrialização.
Depois da ditadura do Estado Novo, houve um
tempo de ampliação das liberdades democráticas, de crescimento da classe
operária, do movimento sindical e de manifestações populares, tendo como
referência a expansão do movimento socialista e do nacionalismo. E a
cristalização da consciência de uma sociedade dividida em classes, explicação
para a desigualdade e a injustiça social.
Faziam parte do nosso universo os grandes
acontecimentos mundiais das últimas décadas, como a revolução
operário-camponesa na Rússia, a União Soviética, a 2ª. Guerra Mundial, a luta
contra o nazi-fascismo, a imigração de intelectuais europeus para o Brasil
durante a guerra. As revoluções nacional-populares na Ásia e na África, a
revolução cubana, a revolução cultural na China e a guerra do Vietnã estavam
acontecendo.
Era um momento raro de ebulição, em que
antigos modelos e preconceitos explodiam e se desmanchavam à nossa volta, em
que as feministas anunciavam um novo protagonismo da mulher.
Vietnã, o maio de 1968 na França, as grandes
manifestações de massa no Brasil, como a Marcha dos Cem Mil e a Sexta Feira
Sangrenta, no Rio de Janeiro, vinham de cambulhada com a discussão sobre Mao
Tse Tung, Fidel, Guevara, Freud, Erich Fromm, Herbert Marcuse. E havia uma
ditadura militar instalada, que já silenciara o movimento sindical e camponês,
o movimento estudantil, mas ainda estava na véspera de cometer seus piores
crimes.
No fim de 1968 vieram o Ato 5 e tempos mais
ásperos. Um editor patronal, Alessandro Porro, foi imposto à equipe. O tempo
de Realidade se esgotou para a liberdade de criação. Sergio de
Souza lhe disse na cara que era um canalha. Em seguida, quase toda a equipe,
algo como uma dúzia de jornalistas, pediu demissão.
Eu havia me demitido antes, em agosto, para
mergulhar na produção de imprensa clandestina.
Fonte: Por Carlos Azevedo, em Outras Palavras

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