Bots, trolls e IA: Chile investigará se houve
manipulação nas eleições que levaram Kast ao poder
A Câmara dos Deputados
do Chile aprovou
no dia 2 de setembro, por 69 votos a favor, 43 contra e uma abstenção, a
criação de uma comissão para investigar se houve manipulação da opinião pública
nas eleições presidenciais de 2025 e nos plebiscitos constitucionais de 2022 e
2023, quando duas propostas submetidas à ratificação foram rejeitadas.
A
investigação é, aqui, um desdobramento da provável participação do agitador de
redes sociais Fernando Cerimedo, o extremista
argentino que se vangloria de ter vínculos com a direita radical chilena e de
intervir naqueles processos eleitorais, incluindo a campanha que levou José Antonio Kast à Presidência.
O
governante chileno admitiu nesta primeira semana de setembro que conheceu
Cerimedo, mas negou que este tenha participado de sua campanha ou que tivesse
vínculo com seus colaboradores mais próximos e atualmente membros de seu
governo.
Especificamente,
será buscado “reunir informações relativas a determinados atos do governo na
medida em que digam respeito ao conhecimento, à prevenção, à detecção, à
fiscalização diante do uso de bots, contas automatizadas, redes coordenadas de
amplificação, trolls, desinformação, manipulação algorítmica de plataformas
digitais e de redes sociais e ferramentas de inteligência artificial generativa
ou de outra natureza, desde o ano de 2020 em diante”.
Continua
após o anúncio
O
deputado socialista Daniel Manouchehri declarou: “Já dizemos ao presidente Kast
que se prepare, porque toda a sua equipe terá que vir a este Congresso prestar
contas pelos vínculos com essa rede nefasta que
pretendeu manipular nossa democracia.
Vamos
convocar todo o entorno do presidente que tenha se vinculado a essas redes e
vamos solicitar que seja enviado um questionário ao presidente com perguntas,
porque o que ele declarou é absolutamente insuficiente. O Chile merece toda a
verdade”.
Cerimedo
está preso na Bolívia e é investigado como suposto articulador de uma tentativa
de feminicídio contra sua ex-companheira, também por enriquecimento ilícito,
supostos vínculos com o narcotráfico e, em uma operação de busca e apreensão,
foi descoberta uma “minifazenda de bots” em sua posse.
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Procuradoria do Chile aprova investigação sobre
influência de Cerimedo em eleições recentes
A
Procuradoria Metropolitana de Santiago do Chile anunciou nesta quinta-feira (03/09)
que iniciará uma investigação sobre possíveis crimes relativos às atividades
do empresário e consultor argentino
Fernando Cerimedo durante
processos eleitorais no país realizados entre os anos de 2021 e 2025.
O
inquérito foi aberto a partir de uma representação do Partido Socialista,
impulsionada pelo deputado Juan Santana, e deverá apurar as eleições
presidenciais de 2021 (vencida pelo progressista Gabriel Boric, ex-presidente
que governou entre 2022 e 2026) e de 2025 (vencida pelo extremista de direita
José António Kast, atual presidente).
Também
serão investigados pleitos relativos aos dois processos constitucionais
chilenos, entre 2022 e 2023 – ambos terminaram sem a aprovação da cidadania às
propostas de nova constituição para o país.
A
suspeita apontada pela representação do Partido Socialista diz respeito à
possibilidade da utilização das chamadas “fazendas de bots” e outras
estratégias de tecnologia da informação para manipulação da opinião pública
durante tais processos eleitorais.
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Como surgiu o caso
Vale
recordar que Cerimedo se encontra preso na Bolívia
desde 18 de agosto,
quando a polícia local impediu sua tentativa de fuga do país horas depois de um
ataque frustrado contra sua ex-namorada, a advogada Nadia Beller da qual ele é
acusado de ser o mandante.
Após
sobreviver à tentativa de homicídio, Beller fez depoimentos à Justiça boliviana
e a diversos meios de imprensa, nos quais revelou a existência de fazendas de
bots com as quais o empresário teria atuado – segundo a advogada – para
interferir em eleições na Argentina, na Bolívia, no Chile e em Honduras.
O
depoimento de Beller é um dos elementos entregues na representação feita à
Procuradoria chilena. No vídeo, ela diz que Cerimedo se jactava de ter “eleito
o presidente do Chile” em 2025. Oficialmente, porém, sua empresa, a Numen, não
prestou serviços à campanha de Kast naquela eleição – na mesma época, estava
trabalhando, oficialmente, na campanha do atual presidente da Bolívia, Rodrigo
Paz.
A
abertura da investigação acontece no mesmo dia em que Kast se encontrou com o
presidente da Argentina, Javier Milei, em um encontro realizado em Santiago.
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“Ditadura constitucional”: Kast quer poder decretar até 8
meses de estado de exceção sem Congresso
Estudantes
do ensino médio e universitários marcharam em 03 de setembro por Santiago e
entraram em confronto com a polícia quando foram reprimidos para impedir seu
avanço, protestando contra a agenda de segurança impulsionada
pelo governo de José Antonio Kast, que criminaliza e
penaliza o descontentamento cidadão.
A convocação, impulsionada pela
Assembleia Coordenadora de Estudantes Secundaristas (ACES) e pela Rede de
Solidariedade, denuncia que, ao mesmo tempo em que são impulsionadas leis que
favorecem grandes empresas, por exemplo, com uma redução substancial de
impostos, continuam pendentes problemas que afetam as comunidades educacionais.
A
polícia militarizada dos Carabineros atacou os manifestantes com canhões de
água e gases lacrimogêneos quando eles queriam caminhar pela Avenida Alameda,
da Plaza Italia em direção ao Palácio de La Moneda.
“¡Igual
que (Augusto) Pinochet!” (“Igual a (Augusto) Pinochet!”), gritavam os
manifestantes contra Kast, comparando-o ao ex-ditador (1973-1990).
O plano de Kast considera oito
modificações na Constituição para enfrentar o crime organizado, mas a mais
contestada é a tentativa de estabelecer outro estado de exceção que o
presidente poderia decretar por sua própria vontade e sem consulta ao
Congresso, por até oito meses, em caso de grave ameaça à segurança pública.
Advogados
constitucionalistas rejeitaram a reforma, advertindo que ela enfraquece os
controles democráticos e restringe as liberdades civis.
O
advogado Javier Couso afirmou que a Constituição atual não impede o combate ao
crime organizado e, portanto, a reforma não é necessária para alcançar os
objetivos da agenda de segurança.
Criticada
por ser “iliberal” — e não liberal — devido à concentração de poder no
Executivo, a reforma, segundo os críticos, abre a porta para um “autoritarismo
legal” ou uma “ditadura constitucional”.
A
rejeição gerada torna improvável que essa reforma seja aprovada, porque não
reúne os votos da maioria qualificada no Parlamento.
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Alinhados aos EUA, Chile, Argentina, Bolívia e Peru criam
bloco para exportar minerais críticos
Chile, Argentina,
Bolívia e Peru assinaram, em Santiago, uma declaração conjunta para coordenar a
exploração de minerais estratégicos. Pelo documento, formalizado no último dia
28 de agosto, os países se colocam na posição de fornecer cobre, lítio e outros
minerais de terras raras. O documento foi fruto do primeiro encontro
ministerial dos países do Cone Sul sobre o tema.
A
declaração prevê a integração de cadeias de fornecedores, abarcando minerais de
máxima importância para a fabricação de baterias, veículos elétricos e
infraestrutura de Inteligência Artificial. Assinaram o texto o ministro de
Economia e Mineração do Chile, Daniel Mas; o secretário de Mineração da
Argentina, Luis Lucero; o vice-ministro de Política Mineira, Regulação e
Fiscalização da Bolívia, Walter Landívar; e o ministro de Energia e Minas do
Peru, Guillermo Shinno.
“A
declaração conjunta que assinamos hoje é o primeiro passo firme rumo a uma
aliança permanente. Posicionamos o Cone Sul como fornecedor de minerais
estratégicos mais confiável, sustentável e competitivo”, disse Mas.
O anfitrião chileno projetou que a
transição energética e a expansão da infraestrutura para Inteligência
Artificial podem elevar entre 400% e 600% a demanda mundial por minerais
críticos na próxima década. O salto, segundo Mas, obrigaria a região a reforçar
a estabilidade dos fornecedores globais.
O
acordo ainda cria mesas de trabalho para troca de informação geológica,
coordenação dos critérios de fiscalização e das políticas do setor e formação
de mão de obra especializada. Os governos se comprometeram a buscar apoio
técnico e financeiro para iniciativas conjuntas de pesquisa, desenvolvimento e
inovação.
O pacto
reúne quatro governos alinhados diretamente com a gestão Donald Trump. No marco
da afinidade ideológica, os Estados Unidos vêm costurando acordos bilaterais
com alguns dos principais países latino-americanos para garantir o fornecimento
de minerais críticos e reduzir a dependência da China, que controla a
maior parte do processamento global desses recursos. Um exemplo de acordo é o
firmado no último mês de fevereiro entre EUA e Argentina, no qual Buenos Aires
se comprometeu a priorizar o país norte-americano no suprimento de lítio, cobre
e outros minerais.
Apesar
do discurso no final do mês passado, os países ainda não criaram uma estrutura
comum de produção nem de política comercial única. Trata-se, ainda, de uma
declaração de intenção de posicionamento coordenado.
“Os
minerais estratégicos devem se transformar em instrumentos dinâmicos para gerar
mais valor agregado, garantindo o desenvolvimento de cadeias de fornecimento
confiáveis que se traduzam no fechamento de lacunas sociais e econômicas”,
avaliou o ministro peruano, Guillermo Shinno.
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Venezuela mostra que a soberania energética é uma tarefa
continental
O
anúncio de que a Venezuela abriu suas reservas de petróleo à participação de
empresas estadunidenses, no marco do acordo recentemente firmado com
Washington, reacendeu de imediato o coro que há meses fala em capitulação. A
leitura que se impôs foi a mais simples, e também a mais confortável para quem
a formula: a de que o governo conduzido por Delcy Rodríguez teria entregado ao
Império aquilo que Chávez e Maduro haviam defendido ao longo de duas décadas.
Convém resistir à comodidade desse julgamento, porque ele substitui a análise
da conjuntura pela denúncia moral e, ao fazê-lo, nos priva das ferramentas de
que precisaríamos para compreender a pressão que produziu o acordo e para
revertê-la.
A
primeira imprecisão que sustenta o discurso da traição está em tratar a
abertura ao capital estrangeiro como uma novidade introduzida pela atual
vice-presidenta. A necessidade de desenvolver capacidade extrativa e de refino
não nasceu em janeiro deste ano, tampouco foi concebida por Delcy Rodríguez;
ela acompanha a Revolução Bolivariana desde que o colapso dos preços do
petróleo e o aperto das sanções estadunidenses expuseram os limites de uma
economia rentista dependente de tecnologia e de investimento que o país, sob
cerco, não conseguia gerar por conta própria. Já sob Maduro, o esgotamento da
PDVSA e a deterioração do parque de refino haviam tornado inescapável a busca
por sócios capazes de reativar a produção.
O que é
ainda mais decisivo: a própria Lei Antibloqueio, aprovada em 2020,
institucionalizou a abertura ao investimento estrangeiro como recurso defensivo
diante do assédio imperialista, autorizando o Executivo a flexibilizar marcos
regulatórios e a resguardar a identidade dos investidores para driblar as
sanções. O que hoje se apresenta como ruptura é, na verdade, a continuidade de
uma linha traçada há anos, quando o chavismo, longe de qualquer entusiasmo com
o capital transnacional, reconheceu que preservar o núcleo material de sua
soberania exigiria concessões táticas na periferia desse núcleo. Ler o acordo
atual fora dessa trajetória é confundir um movimento defensivo prolongado com
uma conversão súbita.
A
pergunta que de fato importa não é por que a Venezuela cedeu, e sim por que lhe
foram fechadas as vias mais soberanas de desenvolvimento de sua indústria
petroleira. A resposta está na própria arquitetura da dominação estadunidense:
o bloqueio que asfixia o comércio venezuelano, o papel predominante que os
Estados Unidos exercem sobre as trocas globais e seu controle do sistema
financeiro internacional, que converte qualquer transação em dólares num ponto
de vulnerabilidade. A esses fatores soma-se um elemento de conjuntura decisivo:
a derrota de um projeto de integração regional que poderia ter oferecido
alternativas. Cada caminho mais autônomo — o financiamento fora do circuito do
dólar, a associação com parceiros latino-americanos, a construção de uma
infraestrutura energética compartilhada — dependia de uma correlação de forças
continental que a vitória da direita nas sucessivas eleições da região
desmantelou. Arranjos como a PetroCaribe já encarnaram, ainda que de forma
limitada, a promessa de uma cooperação energética capaz de escapar à tutela de
Washington, mas o refluxo progressista e o avanço conservador dissolveram esse
tecido e devolveram cada país à sua solidão diante do mercado. Sem essa
retaguarda regional, restou à Venezuela negociar isolada com o próprio Estado
que a asfixia.
É a
partir desse reconhecimento que a condenação apressada se revela pelo que é;
uma reação emocional que descarrega sobre o governo venezuelano uma indignação
que seria mais bem dirigida às condições que o encurralaram. O momento não pede
indignação, e sim a elaboração de uma estratégia capaz de construir soberania
energética em escala regional, e não meramente nacional, porque nenhum país
submetido isoladamente ao peso do bloqueio conseguirá sustentar, sozinho,
aquilo que só a articulação continental torna viável.
É aqui
que o Brasil ocupa um lugar insubstituível. Com sua enorme envergadura
regional, seu peso econômico e a capacidade instalada da Petrobras, o país
reúne condições para desempenhar um papel bem mais assertivo na coordenação de
uma resposta energética latino-americana. Articulado a uma relação mais
profunda com o México — que, no marco da Quarta Transformação, recuperou o
controle da Comissão Federal de Eletricidade e nacionalizou o lítio —, o Brasil
poderia ancorar um eixo em que a soberania energética deixasse de ser aspiração
retórica para tornar-se princípio político e horizonte compartilhado. Ambos os
países sustentam essa soberania como visão de Estado, e é essa convergência que
confere realismo à ideia de uma coordenação continental. Nesse sentido, a
vitória da esquerda no Brasil é fundamental, pois sem um governo comprometido
com a integração e com a autodeterminação dos povos da região, nenhuma dessas
possibilidades sequer se colocaria.
Em vez
de condenar as concessões que a Venezuela fez ao Império, portanto, a tarefa
que nos cabe é trabalhar incansavelmente para transformar a correlação de
forças em escala continental, a mesma correlação que produziu a pressão sob a
qual a Venezuela hoje se dobra sem se render. Julgar Caracas pela distância
entre suas concessões e um ideal de soberania sem máculas nada custa a quem o
pratica e em nada altera o cerco; reconstruir as condições materiais e
políticas que permitiriam a toda a região resistir é a obra que a conjuntura
nos impõe, e é a ela que devemos nos dedicar.
Fonte: Por Aldo Anfossi, em La Jornada - Tradução:
Isabelle Paiva, para Diálogos do Sul Global/Opera Mundi

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