Estudo traz novas pistas genéticas sobre a
ansiedade
Um estudo em larga escala, baseado em dados
genéticos de quase 700 mil pessoas de ascendência europeia, identificou o maior
número de associações genéticas relacionadas à ansiedade já encontrado até
hoje, lançando luz sobre os mecanismos biológicos subjacentes a esse
transtorno.
Os resultados desse estudo internacional,
codirigido por pesquisadores do King's College de Londres e do instituto de
pesquisa médica QIMR Berghofer, foram publicados na revista Nature Human
Behaviour nesta terça-feira (09/06).
Normalmente, a pesquisa clínica classifica os
pacientes de acordo com o diagnóstico — aqueles que têm o transtorno e aqueles
que não têm. No entanto, este estudo apresenta a ansiedade não como um estado
fixo, e sim como um espectro que vai desde a resposta natural do organismo ao
estresse diário até transtornos crônicos e debilitantes.
Os autores explicam que, embora os
transtornos de ansiedade estejam aumentando drasticamente em nível global e
sejam uma das condições de saúde mental mais prevalentes do mundo, o estudo das
bases genéticas da ansiedade historicamente ficou atrás de outros transtornos
psiquiátricos, como a esquizofrenia e o transtorno bipolar.
<><> Um estudo genético
A pesquisa foi desenhada como um estudo de
associação genômica ampla (GWAS, na sigla em inglês), uma técnica que analisa o
DNA de muitas pessoas — neste caso, 693.869 — para identificar quais diferenças
genéticas aparecem com mais frequência naquelas que apresentam sintomas
intensos de ansiedade.
Assim, foram identificadas 74 regiões do
genoma onde diferenças genéticas estavam ligadas aos sintomas de ansiedade.
Cerca da metade já havia sido reportada em estudos anteriores, mas o restante
(39) era inédito.
Além disso, o estudo fornece evidências
consistentes do papel de genes específicos associados à ansiedade, como PCLO e
SORCS3. As análises mostraram que muitos dos genes envolvidos são
particularmente ativos no tecido cerebral e participam na forma como as células
nervosas se comunicam entre si.
Apesar da relevância desses achados, os
pesquisadores estimam que as variantes genéticas comuns analisadas explicam
apenas cerca de 6% das diferenças na gravidade da ansiedade entre as pessoas.
Os autores destacam que esse percentual
indica que uma grande parte depende de fatores externos, como influências
ambientais, interações entre genes e ambiente, e outros efeitos genéticos ainda
não detectados de forma estatística.
<><> Predisposição genética não é
destino
O estudo afirma que uma alta predisposição
genética não determina inevitavelmente o destino de uma pessoa; o risco
individual depende de uma complexa interação entre biologia, experiências de
vida, contextos sociais e fatores psicológicos.
Assim, uma pessoa com alto risco genético
pode nunca desenvolver um transtorno de ansiedade se viver em um ambiente
favorável, enquanto alguém com baixo risco pode desenvolvê-lo diante de
situações de estresse intenso ou traumas.
Além disso, o fato de as taxas de ansiedade
estarem aumentando rapidamente nas gerações mais recentes indica que fatores
sociais e ambientais desempenham um papel decisivo. Isso sugere que estratégias
de saúde pública devem focar na modificação desses fatores para reduzir a
incidência da ansiedade.
No entanto, compreender o risco genético
individual é essencial para identificar pessoas mais sensíveis a pressões
externas e para desenvolver tratamentos personalizados e abordagens preventivas
mais eficazes.
<><> Saúde física
O estudo encontrou ainda uma ampla gama de
correlações genéticas significativas entre a ansiedade e condições tanto de
saúde mental quanto física, incluindo depressão, síndrome do intestino
irritável, dor crônica, doença arterial coronária, endometriose e enxaqueca.
"Essas correlações destacam a
interconexão entre a saúde mental e a física. É importante notar que, embora
algumas variantes genéticas compartilhadas possam aumentar o risco tanto de
doenças físicas quanto de sintomas mais graves de ansiedade, viver com dor ou
doenças crônicas também pode contribuir para os sintomas de ansiedade”, explica
Brittany Mitchell, do QIMR Berghofer e coautora do estudo.
"Nossos achados não demonstram
causalidade nem a direção do efeito, mas levantam questões importantes para
pesquisas futuras”, conclui a pesquisadora.
Fonte: DW Brasil

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