Quem cabe nas estatísticas da população de
rua?
“Evite o primeiro gole.”
A placa permanecia presa à parede de uma sala
nos fundos da Igreja São Pedro Pescador, na zona norte de Aracaju. Não era
grande, nem chamava a atenção à primeira vista. Ainda assim, meus olhos
voltavam sempre para ela. Durante meses, entrei e saí daquela sala sem me
perguntar por que estava ali. A frase parecia apenas fazer parte do ambiente,
como o ventilador preso ao teto, que tentava inutilmente amenizar o calor da
tarde.
Naquele espaço reuniam-se, semana após
semana, pessoas que dificilmente dividiriam a mesma mesa em outro lugar da
cidade: representantes de movimentos sociais, trabalhadores do SUS e do SUAS,
gestores públicos, estudantes, professores, pesquisadores e pessoas em situação
de rua. Em alguns encontros, uma verdadeira polifonia — nem sempre consonante —
tomava conta do ambiente. Enquanto uma geógrafa espalhava mapas pelo chão e
tentava desenhar a cidade a partir dos percursos dos interlocutores, redutores
de danos discutiam horários, territórios e formas de circulação. Ao fundo,
estudantes registravam as reuniões em ata, muitas vezes com os olhos
arregalados diante de discussões que escapavam ao roteiro da universidade.
Foi em um desses momentos que a sala, até
então tomada por tantas vozes, mergulhou em um silêncio inesperado. Elvis, que
já havia vivido nas ruas e participava das reuniões do grupo, interrompeu a
discussão. Olhou para todos à sua volta e perguntou:
— Afinal, por que vocês querem contar as
pessoas que vivem nas ruas?
Permanecemos sem resposta por alguns
instantes. Não porque nos faltassem argumentos, mas porque qualquer retorno
imediato parecia insuficiente. Poderíamos dizer que estávamos ali para produzir
informações capazes de orientar políticas públicas, qualificar serviços ou
conhecer melhor uma população historicamente ausente das estatísticas oficiais.
Todas essas respostas eram verdadeiras. Nenhuma, porém, respondia inteiramente
à questão.
A pergunta voltaria muitas vezes durante a
elaboração do Censo Municipal da População em Situação de Rua de Aracaju. Em
2024, depois de muitos meses de planejamento, contamos 623 pessoas. No mesmo
período, o Cadastro Único registrava aproximadamente o dobro. Mais do que uma
divergência estatística, a distância entre as cifras fazia a pergunta de Elvis
reaparecer sob outra forma: que dimensão da vida nas ruas cada número conseguia
tornar visível — e o que permanecia fora de seu alcance?
Contar pessoas nunca foi apenas uma operação
estatística. É também um gesto político. Pressupõe decidir quem será
reconhecido, sob quais categorias e por quais instituições. A rua não começa
nem termina do mesmo modo para todos. Há quem durma todas as noites na calçada,
quem alterne entre a rua e a casa, quem passe meses em abrigos, quem desapareça
por semanas e depois volte aos mesmos lugares. Antes de produzir um “dígito”,
qualquer censo precisa produzir uma maneira de enxergar o mundo.
Esse trabalho de definição costuma
desaparecer quando a cifra começa a circular. Hoje, produzir informações sobre
a população em situação de rua tornou-se quase um imperativo político. Conhecer
passou a ser entendido como condição para formular políticas, distribuir
recursos e garantir direitos. Poucos contestariam essa premissa. A experiência
em Aracaju, contudo, me fez desconfiar de uma convicção mais confortável: a de
que tornar visível, por si só, conduz à transformação. Para compreender essa
distância, é preciso recuar. Antes de perguntar como calculamos, convém
observar como experiências tão distintas passaram a ser reunidas sob um mesmo
nome e constituídas como uma população que julgamos necessário contar.
<><> O nascimento de uma
população
“Pessoa em situação de rua” é uma expressão
relativamente recente. Embora tenha se consolidado com a Política Nacional para
a População em Situação de Rua, instituída em 2009, ela resulta de um processo
histórico mais longo. Uso aqui a ideia de produção em sentido foucaultiano: não
se trata de afirmar que o Estado inventou essas pessoas, mas de observar como
trajetórias heterogêneas foram reunidas sob uma categoria e como essa nova
“população” se tornou objeto de conhecimento, campo de intervenção e alvo de
governo.
Essa transformação atravessou mudanças
urbanas, disputas políticas, experiências religiosas e novas formas de
administrar a pobreza. Aos poucos, sem deixar de ser cercada por julgamentos
morais, a experiência de habitar a rua passou também a ser tratada como questão
pública e motivo de mobilização. Nesse processo, contar ganhou importância
singular. As estatísticas podiam sustentar reivindicações por direitos e
orientar políticas; ao mesmo tempo, exigiam categorias, critérios de
pertencimento e formas de classificação. Uma dimensão nunca existiu sem a
outra.
Nem sempre foi assim. Durante boa parte do
período colonial e do Império, a mendicância esteve inserida numa economia
moral marcada pela caridade cristã. Dar esmolas era também exercer a piedade e
cumprir um dever religioso. Em Mendigos, moleques e vadios na Bahia do século
XIX, o historiador Walter Fraga mostra como essa lógica foi lentamente
deslocada. Com a expansão das cidades, a crise da ordem escravista, a
consolidação do trabalho livre e a influência dos chamados “homens de ciência”,
a pobreza passou a ser interpretada cada vez mais pelas chaves da ordem urbana,
da higiene, do trabalho e da segurança.
Não foram apenas as cidades que mudaram.
Mudaram também as perguntas dirigidas a quem vivia nelas. A figura do mendigo
cedeu lugar a outras classificações, novas instituições passaram a produzir
saberes sobre essas presenças e diferentes formas de intervenção buscaram
administrá-las. Tomo o mendigo não como sinônimo daquilo que hoje chamamos de
população em situação de rua, mas como uma de suas genealogias possíveis. Nem
ontem nem hoje houve uma única maneira de viver nas ruas. Sob a mesma
designação convivem trajetórias que resistem a uma definição única.
Na passagem do século XIX para o XX,
escritores, médicos e juristas disputaram interpretações sobre os corpos que
ocupavam as ruas. Enquanto Lima Barreto expunha, em Os Bruzundangas, a
distância entre as promessas republicanas e a vida social do país, projetos
influenciados pelo racismo científico e pela eugenia buscavam classificar,
hierarquizar e corrigir aquelas presenças. O Código Penal de 1890 transformava
a vadiagem e a capoeiragem em crimes. Não era apenas uma disputa de ideias:
cada explicação para a pobreza autorizava também uma forma de agir sobre ela.
Essa moralidade tinha raízes anteriores. Em O
negro na rua: a nova face da escravidão, Marilene Rosa Nogueira da Silva mostra
como a circulação de pessoas negras pelo espaço urbano já era atravessada por
coerção, vigilância e controle na sociedade escravista. Depois da abolição,
antigas hierarquias encontraram novas linguagens. O trabalho foi elevado à
principal medida do valor social, e figuras como o vadio, o boêmio e o errante
passaram a ocupar o centro das preocupações com a ordem. A pobreza deixava de ser
apenas objeto de compaixão para se tornar sinônimo de improdutividade, desvio e
fracasso moral.
Talvez por isso a pergunta de Elvis permaneça
tão atual. Quando alguém afirma que dar esmolas “estimula a permanência na rua”
ou que oferecer comida “alimenta o problema”, ainda é possível ouvir os ecos
daquela gramática. As palavras mudaram. Muitas políticas também. Parte da
imaginação social sobre a vida nas ruas, no entanto, continua herdeira daquele
momento.
No entanto, essa moralidade passou por
diversas contestações. Ao longo do século XX, organizações religiosas,
movimentos populares, pesquisadores, trabalhadores das políticas públicas e,
sobretudo, pessoas que viviam nas ruas passaram a disputar outras interpretações.
Em vez de explicar a rua como consequência da preguiça ou da recusa ao
trabalho, relacionaram-na às desigualdades produzidas pela sociedade
brasileira. Em São Paulo, a Organização de Auxílio Fraterno, criada em 1955, o
trabalho das Irmãs Oblatas de São Bento e a Pastoral do Povo da Rua, articulada
a partir da segunda metade dos anos 1970, ajudaram a deslocar a linguagem da
caridade para a dos direitos. Mais tarde, o Movimento Nacional da População de
Rua daria escala política a essa disputa.
A decisão de contar é fruto desse processo.
Ao transformar experiências urbanas heterogêneas em uma população reconhecível,
as estatísticas produzem um efeito de visibilidade. Isso foi decisivo para
reivindicar moradia, saúde, assistência social, proteção contra a violência e
participação nas decisões públicas. Mas tornar visível nunca é um gesto neutro.
Toda contagem estabelece fronteiras: inclui certas trajetórias, exclui outras e
oferece ao Estado uma base para reconhecer direitos e administrar condutas.
Reconhecimento e governo são dimensões inseparáveis da mesma operação.
<><> Uma história de contagens
Décadas antes de a militante Maria Lúcia
Santos Pereira falar em “matemática da invisibilidade”, diferentes cidades
brasileiras já ensaiavam responder à pergunta que Elvis faria em Aracaju. A
expressão sintetiza um paradoxo político: aquilo que não é contado dificilmente
se torna prioridade. Para reivindicar políticas públicas, era preciso disputar
também o direito de existir nas estatísticas.
A história desses censos não começou nos
gabinetes. Nos anos 1980, organizações religiosas, movimentos populares e
pessoas com trajetória de rua afirmaram a existência de um “povo da rua”. A
mudança parecia semântica, mas deslocava o problema da caridade para o campo
dos direitos e recusava a rua como simples fracasso individual. Em 1991, o
primeiro Dia de Luta da População de Rua levou à Câmara Municipal de São Paulo
reivindicações por moradia, saúde, proteção contra a violência e reconhecimento
público.
Na gestão de Luiza Erundina, a prefeitura
paulistana encomendou uma pesquisa quantitativa e sistemática sobre essa
população. O relatório, publicado em 1992 com o título População de rua: quem
é, como vive, como é vista, revelava que a disputa não se limitava ao número.
Pela primeira vez, uma administração municipal assumia que era preciso conhecer
empiricamente aquelas trajetórias. Contar significava desmontar estereótipos e
subsidiar políticas públicas, mas também definir critérios e inaugurar novas formas
de intervenção. A ambiguidade contida na pergunta de Elvis já estava ali.
A experiência de São Paulo incentivou
iniciativas municipais ligadas tanto às reivindicações dos movimentos quanto à
crescente institucionalização da assistência social. Entre agosto de 2007 e
março de 2008, o governo federal realizou a Pesquisa Nacional sobre a População
em Situação de Rua, posteriormente publicada como Rua: aprendendo a contar. O
levantamento alcançou 71 municípios e ofereceu o primeiro diagnóstico de maior
abrangência territorial, embora não tenha sido um censo simultâneo de todo o país.
Seus resultados ajudaram a sustentar a formulação da política nacional.
O Decreto nº 7.053, de 2009, estabeleceu
entre os objetivos da Política Nacional instituir a contagem oficial dessa
população e produzir, sistematizar e difundir dados e indicadores sobre a
cobertura dos serviços públicos. A reivindicação passava a integrar formalmente
a agenda do Estado brasileiro. Entre a norma e sua efetivação, contudo,
abriu-se um longo intervalo de disputas institucionais, decisões judiciais,
avanços e adiamentos.
Por isso, quando o IBGE anunciou em abril de
2026 o primeiro Censo Nacional da População em Situação de Rua, não inaugurou
propriamente uma história. Entrou numa trajetória construída ao longo de mais
de três décadas por municípios, universidades, organizações, movimentos e
pessoas em situação de rua. No estudo Rua: ainda não aprenderam a contar —
população em situação de rua e a produção censitária no Brasil, Erick Matheus
dos Santos Araújo reuniu 67 experiências realizadas entre 1998 e 2024 em 30
municípios, além de um censo estadual no Rio Grande do Norte que alcançou
outros 48. O conjunto forma um patrimônio metodológico tão fragmentado quanto
valioso.
Nessas experiências, tecnologias de
georreferenciamento e coleta digital se combinaram com cartografia social,
reconhecimento territorial e participação direta da população pesquisada. O
conhecimento necessário para encontrar pessoas não estava apenas em mapas ou
bancos de dados. Estava também em saber que uma praça movimentada durante o dia
podia se esvaziar à noite, que um viaduto servia como abrigo apenas quando
chovia ou que certas pessoas evitavam equipamentos públicos por medo, violência
ou experiências anteriores de humilhação.
Foi esse itinerário que tornou possível a
experiência de Aracaju. Aquelas reuniões na Igreja São Pedro Pescador não eram
acontecimentos isolados. Condensavam décadas de disputa sobre as palavras, os
métodos e o direito de ser contado. Herdávamos uma aposta política — a de que
produzir conhecimento poderia ampliar reconhecimento e direitos —, mas também
um problema sem solução simples: toda forma de visibilidade nasce de escolhas
que precisam ser expostas ao debate.
<><> A arena dos números
Em maio de 2026, o Cadastro Único reunia
388.855 pessoas com marcação de situação de rua no Brasil. A cifra circulou
rapidamente em reportagens, documentos oficiais e redes sociais, quase sempre
acompanhada da afirmação de que esse contingente não parava de crescer. Em meio
à força adquirida pelo número, uma pergunta elementar ficou em segundo plano: o
que, exatamente, ele estava contando?
O total de 388.855 pessoas não resulta de uma
operação realizada simultaneamente nas ruas do país. Representa quem estava
presente na base do CadÚnico numa determinada data de referência — não a soma
de todos os indivíduos atendidos ao longo dos anos. Ainda assim, o cadastro é
autodeclaratório, tem finalidade administrativa e pode conservar informações
por até dois anos entre as atualizações obrigatórias. Sua fotografia reúne
vínculos produzidos em momentos diferentes e depende da capacidade dos serviços
de alcançar, cadastrar e manter atualizada uma população de grande mobilidade.
Hoje convivem, no debate que nos interessa,
duas formas principais de produzir informação quantitativa. De um lado, o
CadÚnico transforma cadastros e vínculos com a rede de proteção social em
informação. De outro, censos locais são desenhados para localizar e entrevistar
pessoas em territórios e períodos definidos. Embora seus resultados sejam
mobilizados como se respondessem à mesma pergunta, as bases observam universos
diferentes.
Os registros administrativos ocupam lugar
privilegiado na arena pública. São atualizados com frequência e circulam
rapidamente. Quando as cifras divergem, o número maior tende a comunicar com
mais força a gravidade do problema, sustentar reivindicações e exigir respostas
do poder público. Essa potência política é compreensível: invisibilidade
estatística também produz abandono. O risco começa quando a urgência substitui
a pergunta sobre como o dado foi construído.
Em 2024, participei da construção do censo de
Aracaju, iniciativa articulada por organizações da sociedade civil,
universidade, movimentos sociais e poder público. As discussões não se
limitaram às formas de contar. Antes de chegar ao número, precisávamos decidir
em que momento alguém estava, de fato, vivendo na rua.
Foi nesse ponto que as pessoas com trajetória
de rua deslocaram o debate. Uma contagem diurna, diziam, corria o risco de
confundir trabalhadores informais, usuários dos serviços do centro e pessoas em
circulação com quem fazia da rua seu lugar de viver. A cidade mudava de
significado conforme a hora. Era à noite que ela revelava com maior nitidez
quem permanecia ali. Uma das falas encerrou a dúvida: “Se vocês querem mesmo
saber quem dorme no papelão, têm que ir à noite.”
A decisão coletiva foi transformar a noite em
critério metodológico. Mais do que uma escolha logística, tratava-se de
reconhecer que o tempo e espaço também produz diferenças sociais. Entre 3 e 5
de setembro de 2024, percorremos a cidade das dez da noite às duas da manhã. Ao
fim do trabalho, identificamos 623 pessoas vivendo — ou seria dormindo? — nas
ruas da capital sergipana. O CadÚnico registrava aproximadamente o dobro.
A divulgação não encerrou o debate. “Tem mais
gente do que isso”, ouvíamos em entrevistas, conversas e reuniões. Por mais que
explicássemos os critérios, as noites de campo e os limites de qualquer
operação, a diferença entre os números parecia falar mais alto. O levantamento
censitário, por produzir uma cifra menor, corria o risco de despertar menos
interesse político.
Aracaju não era uma exceção. Em Fortaleza, o
censo municipal de 2021 encontrou 2.653 pessoas, enquanto o CadÚnico registrava
4.182 no mesmo ano. Em Belo Horizonte, o censo de 2022 contou 5.344 pessoas,
mas cerca de 30% delas disseram não estar cadastradas. As datas e os critérios
não coincidem perfeitamente — e esse é justamente o ponto. Não há um padrão
simples em que uma base sempre conte mais ou melhor do que a outra.
A divergência não prova, por si só, que um
dos números esteja errado. Os registros administrativos tornam visíveis pessoas
que estabeleceram algum vínculo com a rede de proteção, inclusive aquelas que
alternam a rua com abrigos, casas de parentes, ocupações, pensões ou quartos
alugados por poucos dias. Um censo noturno pode localizar quem dorme em
logradouros e instituições no período definido, mas não necessariamente quem
estava fora da cidade, evitou a abordagem ou passou aquela noite sob um teto
precário. Cada fonte combina uma pergunta, um recorte temporal e uma definição
operacional.
Quem acompanha o cotidiano de um Centro de
Referência Especializado para População em Situação de Rua — o Centro POP —
aprende rapidamente que definir talvez seja a parte mais difícil. Algumas
pessoas permanecem anos na mesma calçada; outras transitam continuamente entre
formas de morar. A vida escapa às categorias — ainda bem. Reduzir essa
multiplicidade a uma única classificação sempre implicará alguma simplificação.
O problema não está em simplificar: nenhuma
estatística existe sem fazê-lo. Está em esquecer a operação quando o número
começa a circular. Uma cifra não é um espelho transparente da realidade. É um
retrato produzido por critérios de inclusão, territórios de busca, horários,
instrumentos e relações de confiança. Conhecer essas escolhas não enfraquece o
dado; permite compreender o que ele pode sustentar e aquilo que deixa na
penumbra.
<><> Os desafios do IBGE
Além da dimensão continental da operação, o
IBGE terá de lidar com uma particularidade delicada: entrar num campo que já
possui história. O Instituto não chega a um terreno vazio. Municípios,
universidades, organizações, movimentos e pessoas em situação de rua acumularam
metodologias e aprendizados durante a prolongada ausência de uma estatística
oficial de alcance nacional. Administrar as expectativas produzidas por essa
trajetória e dialogar com seus atores faz parte do próprio desafio censitário.
Os primeiros movimentos indicam que o
problema foi reconhecido. No workshop realizado no Rio de Janeiro, entre 13 e
15 de abril de 2026, experiências anteriores foram colocadas em diálogo com a
proposta nacional. O cronograma prevê uma primeira prova-piloto em cinco
capitais — Salvador, Belo Horizonte, Manaus, Goiânia e Florianópolis —, uma
segunda etapa de testes em 2027 e, em 2028, o Censo Experimental, o Teste de
Homologação e a operação nacional. A coleta está programada para ocorrer
simultaneamente entre 3 e 7 de julho de 2028.
O Instituto já tornou pública uma definição
operacional inicial. Deverão ser consideradas pessoas em situação de rua
aquelas que tiverem dormido em logradouros, instituições de acolhimento ou
ocupações não residenciais por pelo menos uma noite nos sete dias anteriores à
data de referência. A unidade de pesquisa será o grupo familiar — muitas vezes
composto por uma única pessoa —, e o desenho prevê quatro dias de coleta, em
turnos diurnos e noturnos. A questão, portanto, já não é formular uma definição
a partir do zero, mas testá-la, calibrá-la e sustentá-la em realidades locais
muito diferentes.
Cada escolha terá consequências concretas. O
intervalo de dias pode alcançar trajetórias que uma fotografia de uma única
noite perderia, mas aumenta a dependência da memória e da declaração dos
entrevistados. A inclusão de instituições e ocupações amplia o universo para
além da calçada, ao mesmo tempo que exige critérios consistentes para espaços
muito distintos. Os turnos de coleta podem reduzir lacunas, mas também elevar o
risco de duplicidade.
É aí que conhecimentos produzidos por
pesquisas qualitativas ganham importância. Estudos etnográficos e investigações
sobre circulação, permanência e apropriação dos territórios podem oferecer
pistas decisivas. Saber onde as pessoas dormem não significa saber onde
permanecem durante o dia; conhecer os serviços que frequentam não significa
conhecer todos os seus circuitos; identificar um ponto de concentração não
garante encontrar ali as mesmas pessoas em horários distintos. O que
antropólogos e sociólogos observam em pequena escala passa a ter consequências
para uma operação nacional.
Outro desafio surgirá quando o IBGE anunciar
seu resultado. A cifra não entrará num espaço vazio, mas numa arena pública
atravessada por um histórico de números que, ao longo dos anos, ajudou a formar
opiniões, orientar decisões administrativas e sustentar reivindicações
políticas.
Dados do CadÚnico, estimativas e censos
locais já produziram expectativas sobre a dimensão dessa população. Nesse
cenário, a transparência do método será uma condição de legitimidade pública. O
Instituto precisará tornar compreensíveis as escolhas que sustentam o resultado
— quem foi incluído, onde e quando ocorreu a busca e quais limites cercam a
contagem —, além de explicar por que números diferentes podem ser válidos para
perguntas distintas. Se a cifra for inferior às que hoje circulam, terá de enfrentar
a suspeita de subcontagem; se for superior, deverá evitar apresentá-la como
prova automática de que todas as fontes anteriores estavam erradas. Mais do que
divulgar um número, o IBGE terá de tornar público o caminho que o produziu.
Em Aracaju, o número esperado parecia existir
antes que a pesquisa terminasse. A experiência ensinou que produzir uma cifra
metodologicamente defensável é apenas metade do trabalho. A outra metade
consiste em sustentar publicamente o que ela significa, inclusive quando
contraria expectativas. Para isso, transparência não pode ser um apêndice do
censo: precisa acompanhar o número desde o momento em que ele nasce.
Penso novamente na placa da Igreja São Pedro
Pescador. Durante meses, “Evite o primeiro gole” não passou, para mim, de uma
frase informativa numa sala abafada onde discutíamos mapas, ruas e pessoas. Foi
preciso descobrir que ali também se reunia um grupo de Alcoólicos Anônimos para
que aquelas quatro palavras adquirissem outro sentido. A frase era a mesma; o
que mudara era meu conhecimento sobre o contexto que a produzia.
Talvez aconteça algo semelhante com os
números. Uma cifra isolada parece responder de forma simples a uma pergunta
simples: quantas pessoas vivem nas ruas? Seu significado, porém, depende das
escolhas que vieram antes — quem procuramos, onde, quando, segundo quais
critérios e com qual definição de viver na rua.
O primeiro Censo Nacional da População em
Situação de Rua poderá finalmente oferecer ao país um número produzido por seu
instituto oficial de estatística. Ainda assim, a pergunta de Elvis continuará
conosco: afinal, quando contamos as pessoas que vivem nas ruas, quem exatamente
estamos contando?
Fonte: Por Matheus de Oliveira Barros, em
Outras Palavras

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