terça-feira, 8 de setembro de 2026

Quem cabe nas estatísticas da população de rua?

“Evite o primeiro gole.”

A placa permanecia presa à parede de uma sala nos fundos da Igreja São Pedro Pescador, na zona norte de Aracaju. Não era grande, nem chamava a atenção à primeira vista. Ainda assim, meus olhos voltavam sempre para ela. Durante meses, entrei e saí daquela sala sem me perguntar por que estava ali. A frase parecia apenas fazer parte do ambiente, como o ventilador preso ao teto, que tentava inutilmente amenizar o calor da tarde.

Naquele espaço reuniam-se, semana após semana, pessoas que dificilmente dividiriam a mesma mesa em outro lugar da cidade: representantes de movimentos sociais, trabalhadores do SUS e do SUAS, gestores públicos, estudantes, professores, pesquisadores e pessoas em situação de rua. Em alguns encontros, uma verdadeira polifonia — nem sempre consonante — tomava conta do ambiente. Enquanto uma geógrafa espalhava mapas pelo chão e tentava desenhar a cidade a partir dos percursos dos interlocutores, redutores de danos discutiam horários, territórios e formas de circulação. Ao fundo, estudantes registravam as reuniões em ata, muitas vezes com os olhos arregalados diante de discussões que escapavam ao roteiro da universidade.

Foi em um desses momentos que a sala, até então tomada por tantas vozes, mergulhou em um silêncio inesperado. Elvis, que já havia vivido nas ruas e participava das reuniões do grupo, interrompeu a discussão. Olhou para todos à sua volta e perguntou:

— Afinal, por que vocês querem contar as pessoas que vivem nas ruas?

Permanecemos sem resposta por alguns instantes. Não porque nos faltassem argumentos, mas porque qualquer retorno imediato parecia insuficiente. Poderíamos dizer que estávamos ali para produzir informações capazes de orientar políticas públicas, qualificar serviços ou conhecer melhor uma população historicamente ausente das estatísticas oficiais. Todas essas respostas eram verdadeiras. Nenhuma, porém, respondia inteiramente à questão.

A pergunta voltaria muitas vezes durante a elaboração do Censo Municipal da População em Situação de Rua de Aracaju. Em 2024, depois de muitos meses de planejamento, contamos 623 pessoas. No mesmo período, o Cadastro Único registrava aproximadamente o dobro. Mais do que uma divergência estatística, a distância entre as cifras fazia a pergunta de Elvis reaparecer sob outra forma: que dimensão da vida nas ruas cada número conseguia tornar visível — e o que permanecia fora de seu alcance?

Contar pessoas nunca foi apenas uma operação estatística. É também um gesto político. Pressupõe decidir quem será reconhecido, sob quais categorias e por quais instituições. A rua não começa nem termina do mesmo modo para todos. Há quem durma todas as noites na calçada, quem alterne entre a rua e a casa, quem passe meses em abrigos, quem desapareça por semanas e depois volte aos mesmos lugares. Antes de produzir um “dígito”, qualquer censo precisa produzir uma maneira de enxergar o mundo.

Esse trabalho de definição costuma desaparecer quando a cifra começa a circular. Hoje, produzir informações sobre a população em situação de rua tornou-se quase um imperativo político. Conhecer passou a ser entendido como condição para formular políticas, distribuir recursos e garantir direitos. Poucos contestariam essa premissa. A experiência em Aracaju, contudo, me fez desconfiar de uma convicção mais confortável: a de que tornar visível, por si só, conduz à transformação. Para compreender essa distância, é preciso recuar. Antes de perguntar como calculamos, convém observar como experiências tão distintas passaram a ser reunidas sob um mesmo nome e constituídas como uma população que julgamos necessário contar.

<><> O nascimento de uma população

“Pessoa em situação de rua” é uma expressão relativamente recente. Embora tenha se consolidado com a Política Nacional para a População em Situação de Rua, instituída em 2009, ela resulta de um processo histórico mais longo. Uso aqui a ideia de produção em sentido foucaultiano: não se trata de afirmar que o Estado inventou essas pessoas, mas de observar como trajetórias heterogêneas foram reunidas sob uma categoria e como essa nova “população” se tornou objeto de conhecimento, campo de intervenção e alvo de governo.

Essa transformação atravessou mudanças urbanas, disputas políticas, experiências religiosas e novas formas de administrar a pobreza. Aos poucos, sem deixar de ser cercada por julgamentos morais, a experiência de habitar a rua passou também a ser tratada como questão pública e motivo de mobilização. Nesse processo, contar ganhou importância singular. As estatísticas podiam sustentar reivindicações por direitos e orientar políticas; ao mesmo tempo, exigiam categorias, critérios de pertencimento e formas de classificação. Uma dimensão nunca existiu sem a outra.

Nem sempre foi assim. Durante boa parte do período colonial e do Império, a mendicância esteve inserida numa economia moral marcada pela caridade cristã. Dar esmolas era também exercer a piedade e cumprir um dever religioso. Em Mendigos, moleques e vadios na Bahia do século XIX, o historiador Walter Fraga mostra como essa lógica foi lentamente deslocada. Com a expansão das cidades, a crise da ordem escravista, a consolidação do trabalho livre e a influência dos chamados “homens de ciência”, a pobreza passou a ser interpretada cada vez mais pelas chaves da ordem urbana, da higiene, do trabalho e da segurança.

Não foram apenas as cidades que mudaram. Mudaram também as perguntas dirigidas a quem vivia nelas. A figura do mendigo cedeu lugar a outras classificações, novas instituições passaram a produzir saberes sobre essas presenças e diferentes formas de intervenção buscaram administrá-las. Tomo o mendigo não como sinônimo daquilo que hoje chamamos de população em situação de rua, mas como uma de suas genealogias possíveis. Nem ontem nem hoje houve uma única maneira de viver nas ruas. Sob a mesma designação convivem trajetórias que resistem a uma definição única.

Na passagem do século XIX para o XX, escritores, médicos e juristas disputaram interpretações sobre os corpos que ocupavam as ruas. Enquanto Lima Barreto expunha, em Os Bruzundangas, a distância entre as promessas republicanas e a vida social do país, projetos influenciados pelo racismo científico e pela eugenia buscavam classificar, hierarquizar e corrigir aquelas presenças. O Código Penal de 1890 transformava a vadiagem e a capoeiragem em crimes. Não era apenas uma disputa de ideias: cada explicação para a pobreza autorizava também uma forma de agir sobre ela.

Essa moralidade tinha raízes anteriores. Em O negro na rua: a nova face da escravidão, Marilene Rosa Nogueira da Silva mostra como a circulação de pessoas negras pelo espaço urbano já era atravessada por coerção, vigilância e controle na sociedade escravista. Depois da abolição, antigas hierarquias encontraram novas linguagens. O trabalho foi elevado à principal medida do valor social, e figuras como o vadio, o boêmio e o errante passaram a ocupar o centro das preocupações com a ordem. A pobreza deixava de ser apenas objeto de compaixão para se tornar sinônimo de improdutividade, desvio e fracasso moral.

Talvez por isso a pergunta de Elvis permaneça tão atual. Quando alguém afirma que dar esmolas “estimula a permanência na rua” ou que oferecer comida “alimenta o problema”, ainda é possível ouvir os ecos daquela gramática. As palavras mudaram. Muitas políticas também. Parte da imaginação social sobre a vida nas ruas, no entanto, continua herdeira daquele momento.

No entanto, essa moralidade passou por diversas contestações. Ao longo do século XX, organizações religiosas, movimentos populares, pesquisadores, trabalhadores das políticas públicas e, sobretudo, pessoas que viviam nas ruas passaram a disputar outras interpretações. Em vez de explicar a rua como consequência da preguiça ou da recusa ao trabalho, relacionaram-na às desigualdades produzidas pela sociedade brasileira. Em São Paulo, a Organização de Auxílio Fraterno, criada em 1955, o trabalho das Irmãs Oblatas de São Bento e a Pastoral do Povo da Rua, articulada a partir da segunda metade dos anos 1970, ajudaram a deslocar a linguagem da caridade para a dos direitos. Mais tarde, o Movimento Nacional da População de Rua daria escala política a essa disputa.

A decisão de contar é fruto desse processo. Ao transformar experiências urbanas heterogêneas em uma população reconhecível, as estatísticas produzem um efeito de visibilidade. Isso foi decisivo para reivindicar moradia, saúde, assistência social, proteção contra a violência e participação nas decisões públicas. Mas tornar visível nunca é um gesto neutro. Toda contagem estabelece fronteiras: inclui certas trajetórias, exclui outras e oferece ao Estado uma base para reconhecer direitos e administrar condutas. Reconhecimento e governo são dimensões inseparáveis da mesma operação.

<><> Uma história de contagens

Décadas antes de a militante Maria Lúcia Santos Pereira falar em “matemática da invisibilidade”, diferentes cidades brasileiras já ensaiavam responder à pergunta que Elvis faria em Aracaju. A expressão sintetiza um paradoxo político: aquilo que não é contado dificilmente se torna prioridade. Para reivindicar políticas públicas, era preciso disputar também o direito de existir nas estatísticas.

A história desses censos não começou nos gabinetes. Nos anos 1980, organizações religiosas, movimentos populares e pessoas com trajetória de rua afirmaram a existência de um “povo da rua”. A mudança parecia semântica, mas deslocava o problema da caridade para o campo dos direitos e recusava a rua como simples fracasso individual. Em 1991, o primeiro Dia de Luta da População de Rua levou à Câmara Municipal de São Paulo reivindicações por moradia, saúde, proteção contra a violência e reconhecimento público.

Na gestão de Luiza Erundina, a prefeitura paulistana encomendou uma pesquisa quantitativa e sistemática sobre essa população. O relatório, publicado em 1992 com o título População de rua: quem é, como vive, como é vista, revelava que a disputa não se limitava ao número. Pela primeira vez, uma administração municipal assumia que era preciso conhecer empiricamente aquelas trajetórias. Contar significava desmontar estereótipos e subsidiar políticas públicas, mas também definir critérios e inaugurar novas formas de intervenção. A ambiguidade contida na pergunta de Elvis já estava ali.

A experiência de São Paulo incentivou iniciativas municipais ligadas tanto às reivindicações dos movimentos quanto à crescente institucionalização da assistência social. Entre agosto de 2007 e março de 2008, o governo federal realizou a Pesquisa Nacional sobre a População em Situação de Rua, posteriormente publicada como Rua: aprendendo a contar. O levantamento alcançou 71 municípios e ofereceu o primeiro diagnóstico de maior abrangência territorial, embora não tenha sido um censo simultâneo de todo o país. Seus resultados ajudaram a sustentar a formulação da política nacional.

O Decreto nº 7.053, de 2009, estabeleceu entre os objetivos da Política Nacional instituir a contagem oficial dessa população e produzir, sistematizar e difundir dados e indicadores sobre a cobertura dos serviços públicos. A reivindicação passava a integrar formalmente a agenda do Estado brasileiro. Entre a norma e sua efetivação, contudo, abriu-se um longo intervalo de disputas institucionais, decisões judiciais, avanços e adiamentos.

Por isso, quando o IBGE anunciou em abril de 2026 o primeiro Censo Nacional da População em Situação de Rua, não inaugurou propriamente uma história. Entrou numa trajetória construída ao longo de mais de três décadas por municípios, universidades, organizações, movimentos e pessoas em situação de rua. No estudo Rua: ainda não aprenderam a contar — população em situação de rua e a produção censitária no Brasil, Erick Matheus dos Santos Araújo reuniu 67 experiências realizadas entre 1998 e 2024 em 30 municípios, além de um censo estadual no Rio Grande do Norte que alcançou outros 48. O conjunto forma um patrimônio metodológico tão fragmentado quanto valioso.

Nessas experiências, tecnologias de georreferenciamento e coleta digital se combinaram com cartografia social, reconhecimento territorial e participação direta da população pesquisada. O conhecimento necessário para encontrar pessoas não estava apenas em mapas ou bancos de dados. Estava também em saber que uma praça movimentada durante o dia podia se esvaziar à noite, que um viaduto servia como abrigo apenas quando chovia ou que certas pessoas evitavam equipamentos públicos por medo, violência ou experiências anteriores de humilhação.

Foi esse itinerário que tornou possível a experiência de Aracaju. Aquelas reuniões na Igreja São Pedro Pescador não eram acontecimentos isolados. Condensavam décadas de disputa sobre as palavras, os métodos e o direito de ser contado. Herdávamos uma aposta política — a de que produzir conhecimento poderia ampliar reconhecimento e direitos —, mas também um problema sem solução simples: toda forma de visibilidade nasce de escolhas que precisam ser expostas ao debate.

<><> A arena dos números

Em maio de 2026, o Cadastro Único reunia 388.855 pessoas com marcação de situação de rua no Brasil. A cifra circulou rapidamente em reportagens, documentos oficiais e redes sociais, quase sempre acompanhada da afirmação de que esse contingente não parava de crescer. Em meio à força adquirida pelo número, uma pergunta elementar ficou em segundo plano: o que, exatamente, ele estava contando?

O total de 388.855 pessoas não resulta de uma operação realizada simultaneamente nas ruas do país. Representa quem estava presente na base do CadÚnico numa determinada data de referência — não a soma de todos os indivíduos atendidos ao longo dos anos. Ainda assim, o cadastro é autodeclaratório, tem finalidade administrativa e pode conservar informações por até dois anos entre as atualizações obrigatórias. Sua fotografia reúne vínculos produzidos em momentos diferentes e depende da capacidade dos serviços de alcançar, cadastrar e manter atualizada uma população de grande mobilidade.

Hoje convivem, no debate que nos interessa, duas formas principais de produzir informação quantitativa. De um lado, o CadÚnico transforma cadastros e vínculos com a rede de proteção social em informação. De outro, censos locais são desenhados para localizar e entrevistar pessoas em territórios e períodos definidos. Embora seus resultados sejam mobilizados como se respondessem à mesma pergunta, as bases observam universos diferentes.

Os registros administrativos ocupam lugar privilegiado na arena pública. São atualizados com frequência e circulam rapidamente. Quando as cifras divergem, o número maior tende a comunicar com mais força a gravidade do problema, sustentar reivindicações e exigir respostas do poder público. Essa potência política é compreensível: invisibilidade estatística também produz abandono. O risco começa quando a urgência substitui a pergunta sobre como o dado foi construído.

Em 2024, participei da construção do censo de Aracaju, iniciativa articulada por organizações da sociedade civil, universidade, movimentos sociais e poder público. As discussões não se limitaram às formas de contar. Antes de chegar ao número, precisávamos decidir em que momento alguém estava, de fato, vivendo na rua.

Foi nesse ponto que as pessoas com trajetória de rua deslocaram o debate. Uma contagem diurna, diziam, corria o risco de confundir trabalhadores informais, usuários dos serviços do centro e pessoas em circulação com quem fazia da rua seu lugar de viver. A cidade mudava de significado conforme a hora. Era à noite que ela revelava com maior nitidez quem permanecia ali. Uma das falas encerrou a dúvida: “Se vocês querem mesmo saber quem dorme no papelão, têm que ir à noite.”

A decisão coletiva foi transformar a noite em critério metodológico. Mais do que uma escolha logística, tratava-se de reconhecer que o tempo e espaço também produz diferenças sociais. Entre 3 e 5 de setembro de 2024, percorremos a cidade das dez da noite às duas da manhã. Ao fim do trabalho, identificamos 623 pessoas vivendo — ou seria dormindo? — nas ruas da capital sergipana. O CadÚnico registrava aproximadamente o dobro.

A divulgação não encerrou o debate. “Tem mais gente do que isso”, ouvíamos em entrevistas, conversas e reuniões. Por mais que explicássemos os critérios, as noites de campo e os limites de qualquer operação, a diferença entre os números parecia falar mais alto. O levantamento censitário, por produzir uma cifra menor, corria o risco de despertar menos interesse político.

Aracaju não era uma exceção. Em Fortaleza, o censo municipal de 2021 encontrou 2.653 pessoas, enquanto o CadÚnico registrava 4.182 no mesmo ano. Em Belo Horizonte, o censo de 2022 contou 5.344 pessoas, mas cerca de 30% delas disseram não estar cadastradas. As datas e os critérios não coincidem perfeitamente — e esse é justamente o ponto. Não há um padrão simples em que uma base sempre conte mais ou melhor do que a outra.

A divergência não prova, por si só, que um dos números esteja errado. Os registros administrativos tornam visíveis pessoas que estabeleceram algum vínculo com a rede de proteção, inclusive aquelas que alternam a rua com abrigos, casas de parentes, ocupações, pensões ou quartos alugados por poucos dias. Um censo noturno pode localizar quem dorme em logradouros e instituições no período definido, mas não necessariamente quem estava fora da cidade, evitou a abordagem ou passou aquela noite sob um teto precário. Cada fonte combina uma pergunta, um recorte temporal e uma definição operacional.

Quem acompanha o cotidiano de um Centro de Referência Especializado para População em Situação de Rua — o Centro POP — aprende rapidamente que definir talvez seja a parte mais difícil. Algumas pessoas permanecem anos na mesma calçada; outras transitam continuamente entre formas de morar. A vida escapa às categorias — ainda bem. Reduzir essa multiplicidade a uma única classificação sempre implicará alguma simplificação.

O problema não está em simplificar: nenhuma estatística existe sem fazê-lo. Está em esquecer a operação quando o número começa a circular. Uma cifra não é um espelho transparente da realidade. É um retrato produzido por critérios de inclusão, territórios de busca, horários, instrumentos e relações de confiança. Conhecer essas escolhas não enfraquece o dado; permite compreender o que ele pode sustentar e aquilo que deixa na penumbra.

<><> Os desafios do IBGE

Além da dimensão continental da operação, o IBGE terá de lidar com uma particularidade delicada: entrar num campo que já possui história. O Instituto não chega a um terreno vazio. Municípios, universidades, organizações, movimentos e pessoas em situação de rua acumularam metodologias e aprendizados durante a prolongada ausência de uma estatística oficial de alcance nacional. Administrar as expectativas produzidas por essa trajetória e dialogar com seus atores faz parte do próprio desafio censitário.

Os primeiros movimentos indicam que o problema foi reconhecido. No workshop realizado no Rio de Janeiro, entre 13 e 15 de abril de 2026, experiências anteriores foram colocadas em diálogo com a proposta nacional. O cronograma prevê uma primeira prova-piloto em cinco capitais — Salvador, Belo Horizonte, Manaus, Goiânia e Florianópolis —, uma segunda etapa de testes em 2027 e, em 2028, o Censo Experimental, o Teste de Homologação e a operação nacional. A coleta está programada para ocorrer simultaneamente entre 3 e 7 de julho de 2028.

O Instituto já tornou pública uma definição operacional inicial. Deverão ser consideradas pessoas em situação de rua aquelas que tiverem dormido em logradouros, instituições de acolhimento ou ocupações não residenciais por pelo menos uma noite nos sete dias anteriores à data de referência. A unidade de pesquisa será o grupo familiar — muitas vezes composto por uma única pessoa —, e o desenho prevê quatro dias de coleta, em turnos diurnos e noturnos. A questão, portanto, já não é formular uma definição a partir do zero, mas testá-la, calibrá-la e sustentá-la em realidades locais muito diferentes.

Cada escolha terá consequências concretas. O intervalo de dias pode alcançar trajetórias que uma fotografia de uma única noite perderia, mas aumenta a dependência da memória e da declaração dos entrevistados. A inclusão de instituições e ocupações amplia o universo para além da calçada, ao mesmo tempo que exige critérios consistentes para espaços muito distintos. Os turnos de coleta podem reduzir lacunas, mas também elevar o risco de duplicidade.

É aí que conhecimentos produzidos por pesquisas qualitativas ganham importância. Estudos etnográficos e investigações sobre circulação, permanência e apropriação dos territórios podem oferecer pistas decisivas. Saber onde as pessoas dormem não significa saber onde permanecem durante o dia; conhecer os serviços que frequentam não significa conhecer todos os seus circuitos; identificar um ponto de concentração não garante encontrar ali as mesmas pessoas em horários distintos. O que antropólogos e sociólogos observam em pequena escala passa a ter consequências para uma operação nacional.

Outro desafio surgirá quando o IBGE anunciar seu resultado. A cifra não entrará num espaço vazio, mas numa arena pública atravessada por um histórico de números que, ao longo dos anos, ajudou a formar opiniões, orientar decisões administrativas e sustentar reivindicações políticas.

Dados do CadÚnico, estimativas e censos locais já produziram expectativas sobre a dimensão dessa população. Nesse cenário, a transparência do método será uma condição de legitimidade pública. O Instituto precisará tornar compreensíveis as escolhas que sustentam o resultado — quem foi incluído, onde e quando ocorreu a busca e quais limites cercam a contagem —, além de explicar por que números diferentes podem ser válidos para perguntas distintas. Se a cifra for inferior às que hoje circulam, terá de enfrentar a suspeita de subcontagem; se for superior, deverá evitar apresentá-la como prova automática de que todas as fontes anteriores estavam erradas. Mais do que divulgar um número, o IBGE terá de tornar público o caminho que o produziu.

Em Aracaju, o número esperado parecia existir antes que a pesquisa terminasse. A experiência ensinou que produzir uma cifra metodologicamente defensável é apenas metade do trabalho. A outra metade consiste em sustentar publicamente o que ela significa, inclusive quando contraria expectativas. Para isso, transparência não pode ser um apêndice do censo: precisa acompanhar o número desde o momento em que ele nasce.

Penso novamente na placa da Igreja São Pedro Pescador. Durante meses, “Evite o primeiro gole” não passou, para mim, de uma frase informativa numa sala abafada onde discutíamos mapas, ruas e pessoas. Foi preciso descobrir que ali também se reunia um grupo de Alcoólicos Anônimos para que aquelas quatro palavras adquirissem outro sentido. A frase era a mesma; o que mudara era meu conhecimento sobre o contexto que a produzia.

Talvez aconteça algo semelhante com os números. Uma cifra isolada parece responder de forma simples a uma pergunta simples: quantas pessoas vivem nas ruas? Seu significado, porém, depende das escolhas que vieram antes — quem procuramos, onde, quando, segundo quais critérios e com qual definição de viver na rua.

O primeiro Censo Nacional da População em Situação de Rua poderá finalmente oferecer ao país um número produzido por seu instituto oficial de estatística. Ainda assim, a pergunta de Elvis continuará conosco: afinal, quando contamos as pessoas que vivem nas ruas, quem exatamente estamos contando?

 

Fonte: Por Matheus de Oliveira Barros, em Outras Palavras

 

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