Carlos Fidelis: Democracia sitiada —
autoritarismo, crime organizado e a disputa pelo Brasil
O Brasil chega às eleições de 2026 diante de
uma escolha que ultrapassa governos e candidaturas: está em disputa a
capacidade da sociedade de decidir seu destino.
Depois de uma tentativa concreta de ruptura
democrática, convivemos com forças que relativizam sua gravidade, enquanto o
crime organizado avança sobre territórios, plataformas digitais concentram
poder sobre a informação e pressões externas alcançam a política brasileira.
São fenômenos distintos, mas seus efeitos
podem convergir: enfraquecer instituições e retirar da sociedade o poder de
decidir seu futuro.
Ainda procuramos golpes esperando tanques nas
ruas. O autoritarismo aprendeu com a história: democracias também podem ser
corroídas por dentro, pela desinformação, pelo ataque às instituições e pela
exploração do medo.
Não precisamos imaginar uma conspiração
ligando tudo desde 2013 para reconhecer continuidades e consequências. Depois
de ataques às urnas e à transferência do poder, o país enfrentou uma tentativa
de ruptura democrática, pela qual o STF condenou, em 2025, integrantes do
núcleo central da trama, incluindo Jair Bolsonaro.
<><> A eleição começa muito antes
da urna
Uma eleição democrática não começa quando o
cidadão entra na cabine de votação. Começa nas condições em que vive, recebe
informações, confronta alternativas e decide em quem confiar. Urnas seguras são
indispensáveis, mas precisamos perguntar também quem controla a informação e
quem dispõe de dinheiro e tecnologia para fabricar popularidade, indignação ou
consenso.
O Brasil conhece as consequências da
desinformação como instrumento de governo. Na pandemia de Covid-19, evidências
científicas foram contestadas e tratamentos sem respaldo promovidos. A CPI da
Pandemia apontou atraso na aquisição de imunizantes e promoção do chamado
tratamento precoce.
Suas conclusões não equivalem a sentenças
judiciais, mas deixaram uma advertência: quando autoridades desacreditam a
ciência, as consequências chegam aos hospitais, às famílias e aos cemitérios.
A inteligência artificial e as plataformas
digitais elevaram o problema a outra escala. Algoritmos selecionam o que
milhões veem e redes coordenadas podem fazer parecer espontâneo o que foi
fabricado. Uma mentira já não precisa convencer toda a sociedade: basta
encontrar quem a multiplique.
Anomalias digitais precisam ser investigadas
com rigor, sem responsabilizar candidaturas sem provas. Uma popularidade
fabricada pode produzir notícias e converter aparência em adesão verdadeira.
Tecnologia não pode fabricar vontade popular e apresentá-la como espontânea.
<><> O Brasil não pode se
transformar em um grande Rio de Janeiro
O Brasil não pode repetir, em escala
nacional, a trágica experiência pela qual passou e ainda passa o Rio de
Janeiro. Desigualdade, corrupção, violência e abandono de territórios
permitiram a expansão de organizações criminosas que controlam atividades econômicas,
impõem regras e disputam autoridade com o Estado. Facções e milícias têm
origens distintas, mas ambas revelam o que acontece quando grupos armados
acumulam poder sobre a vida cotidiana e as instituições.
O problema ultrapassa a criminalidade. Não
existe cidadania plena onde o Estado não garante liberdade, segurança e
direitos, nem liberdade política completa quando pessoas calculam o que podem
dizer, por onde circular e as consequências de suas escolhas. Uma eleição pode
ser formalmente livre e ocorrer numa sociedade em que parte dos cidadãos vive
submetida a poderes que jamais escolheu e que não pode destituir.
Os assassinatos de Marielle Franco e Anderson
Gomes, em 2018, tornaram-se a expressão mais conhecida dessa tragédia. Em
fevereiro de 2026, o STF condenou Domingos e Chiquinho Brazão como mandantes do
ataque.
Mas há milhares de vítimas anônimas:
moradores assassinados, famílias expulsas, comerciantes extorquidos, jovens
mortos. A barbárie possui vítimas conhecidas que simbolizam sua violência, mas
sua verdadeira dimensão aparece na multidão anônima que aprende a conviver
diariamente com o medo.
Recuperar esses territórios exige
inteligência, investigação financeira, combate à corrupção e responsabilização
de agentes públicos. Exige também um Estado presente quando não há operação
policial: na escola, na saúde, no transporte, na moradia e no trabalho.
Segurança e direitos não são conceitos
contraditórios entre si. O Rio mostra o custo de deixar a degradação consolidar
estruturas paralelas de poder, muitas vezes apresentadas demagogicamente como
solução para problemas que o próprio Estado não foi capaz de enfrentar.
<><> Quem decide os destinos do
Brasil?
Autoritarismo, crime organizado e manipulação
informacional são problemas diferentes, mas conduzem à mesma pergunta: quem
exerce poder real sobre a sociedade?
Soberania é a capacidade coletiva de decidir
o próprio destino. Para exercê-la, um país precisa de instituições, ciência,
tecnologia e capacidade produtiva para relacionar-se com o mundo sem ser
reduzido a fornecedor subordinado de recursos e trabalho barato.
Em julho de 2025, Donald Trump anunciou
tarifa de 50% sobre produtos brasileiros e vinculou a medida, entre outros
argumentos, ao processo envolvendo Jair Bolsonaro e a decisões do STF. A
configuração tarifária mudou depois, mas ficou a vinculação explícita entre
pressão econômica e a vida política brasileira.
Depois do tarifaço, bandeiras
norte-americanas apareceram em manifestações bolsonaristas acompanhadas de
demonstrações de apoio a Trump. Naquele contexto, a bandeira também fazia parte
da mensagem: setores que reivindicavam patriotismo brasileiro exibiam o símbolo
de uma potência estrangeira justamente quando seu governo exercia pressão
econômica sobre o Brasil em defesa de interesses ligados à disputa política
interna do país.
Há algo de profundamente contraditório — e,
sim, vergonhoso — em reivindicar patriotismo enquanto se deposita numa potência
estrangeira a esperança de impor ao próprio país, por pressão externa,
resultados políticos que deveriam ser decididos pelos brasileiros.
Não existe patriotismo coerente quando a
soberania vale apenas se produzir o resultado político que desejamos. O Brasil
precisa relacionar-se com todos, cooperar com todos e subordinar-se a nenhum.
Nossas divergências devem ser resolvidas
segundo nossa Constituição, nossas leis e nossas instituições.
Defender a democracia não significa suspender
a crítica aos governos. Juros, política fiscal, desigualdade, segurança e
direitos sociais precisam permanecer submetidos ao debate público. Criticar um
governo democrático é parte da democracia; perder a capacidade de distinguir
seus limites daqueles que pretendem restringir ou destruir o próprio espaço
democrático é um erro de outra natureza.
O mesmo vale para as instituições. O STF pode
e deve ser criticado, como qualquer instituição da República, mas não pode ser
desestabilizado justamente quando sua independência é decisiva para assegurar a
Constituição, o Estado de Direito e as regras da disputa democrática.
É preciso perceber que estamos diante de
estratégias que exploram deliberadamente a desinformação, o medo e a
desconfiança para desorientar a população, desacreditar instituições e corroer
as bases de nossa ainda frágil democracia.
Podemos pressionar e criticar governos e
substituí-los pelo voto; podemos discordar das instituições e exigir seu
aperfeiçoamento. O que não podemos é destruir o terreno democrático no qual
essas divergências podem existir. Essa defesa se torna ainda mais decisiva
quando a erosão da democracia se associa à perda de soberania e ao
recrudescimento de uma herança colonial fundada na subordinação externa, na
superexploração do trabalho e na exploração predatória da natureza.
Também precisamos abandonar a fantasia do
“quanto pior, melhor”.
O sofrimento não produz automaticamente
consciência. A escravidão deveria bastar para nos ensinar isso: por muito
tempo, gerações viveram sob uma ordem indigna que transformava seres humanos em
propriedade. Houve resistências permanentes, mas foram necessários mais de três
séculos para que a escravidão fosse abolida. E, mesmo então, a liberdade chegou
sem terra, reparação ou condições que assegurassem à população liberta uma
integração social em bases de igualdade.
Não sabemos quanto tempo dura uma barbárie
nem quantas gerações pagarão por ela. A história não promete que depois da
destruição virá uma sociedade melhor — nem mesmo que o fim de uma barbárie
elimine a herança que ela deixa.
A democracia brasileira está longe daquela
que queremos. Não é plenamente democrática uma sociedade marcada por
desigualdade extrema, racismo, violência e territórios submetidos ao crime.
Precisamos defender a democracia precisamente
para transformá-la: ampliar direitos, distribuir poder e recuperar a capacidade
do Estado de promover desenvolvimento. Democracia, soberania e justiça social
pertencem à mesma disputa.
<><> O Brasil não pode esperar
O maior perigo talvez seja esperar um aviso
inequívoco de que a democracia está terminando. Uma mentira se normaliza. Uma
violência é aceita porque atingiu um adversário. Uma eleição é contestada sem
provas. Uma organização criminosa assume mais um território.
Uma pressão estrangeira é celebrada porque
prejudica quem está do outro lado. Exceções viram precedentes e o intolerável
passa a fazer parte da paisagem. Podemos descobrir tarde demais que continuamos
realizando eleições sobre um terreno profundamente alterado — e que, enquanto
aceitávamos cada retrocesso como episódico ou suportável, comprometíamos o
presente e cavávamos a sepultura do nosso próprio futuro.
Não queremos uma democracia que apenas
sobreviva, mas um país no qual nenhuma organização criminosa governe
territórios, nenhuma força política destrua as regras porque perdeu uma eleição
e nenhuma potência estrangeira decida pelo povo brasileiro. Não queremos a paz
dos cemitérios nem a estabilidade do medo, mas paz fundada em direitos,
soberania e justiça social. E nenhuma democracia se sustenta apenas por suas
leis se a sociedade deixa de defendê-la.
É por isso que o próximo 7 de Setembro pode
ultrapassar a celebração ritual da Independência. Mais de dois séculos depois,
permanece a pergunta: quem decide os destinos do Brasil?
Independência, hoje, é assegurar ao povo o
direito de responder e recusar a submissão ao autoritarismo, ao poder das
armas, ao crime organizado ou a pressões externas.
Que o 7 de Setembro seja o ponto de partida
de uma nova etapa de mobilização nacional em defesa da democracia, da justiça
social e da soberania. Uma mobilização ampla, pacífica e plural, capaz de
reunir quem diverge sobre governos e projetos, mas reconhece a necessidade de
preservar o espaço democrático. Que as ruas não se esvaziem naquele dia nem a
defesa da democracia termine nas eleições.
A exemplo do 2 de Julho na Bahia, que mantém
viva a memória da participação popular nas lutas pela Independência, é preciso
devolver à celebração da soberania sua dimensão popular: a Independência
pertence ao povo e se realiza quando o povo participa da construção de seu
próprio destino.
Como disse o poeta, a praça é do povo. E as
ruas pertencem à democracia: não podem ser abandonadas ao autoritarismo, ao
medo ou à violência. Ocupá-las pacificamente é recuperar o sentido da
Independência: um povo disposto a decidir seu próprio destino.
O Brasil conhece o preço da ditadura, da
escravidão, da desigualdade e da violência como método de poder. Conhece também
sua capacidade de resistir e conquistar direitos. É essa capacidade que precisa
ser mobilizada para construir o que ainda não existe.
Defender a democracia é defender o direito de
continuar transformando o Brasil. Defender a soberania é assegurar que essa
transformação seja decidida por seu povo. Defender a verdade é impedir que a
mentira se transforme novamente em instrumento de poder. Defender a paz é
recusar a política do medo e das armas. Defender a justiça é não aceitar como
destino a desigualdade, a violência e a superexploração.
É essa disputa que está diante de nós. E é
agora que ela precisa ser enfrentada.
Fonte: Viomundo

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