Moraes deve ser investigado; Mendonça,
afastado; e relatórios são ilegais, diz professor
A divulgação, permitida pelo ministro André
Mendonça, de um relatório da Polícia Federal (PF) contendo mensagens enviadas
ao ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes pelo
ex-banqueiro do Master, Daniel Vorcaro, agravou a crise de imagem pela qual o
Tribunal passa há bastante tempo. E na avaliação do professor de Direito
Constitucional e Teoria Geral do Direito na PUC de São Paulo, Pedro Estevam
Alves Pinto Serrano, ela nem deveria ter acontecido.
“A retirada do sigilo daquele relatório foi
uma decisão ilegal e inusual”, afirma. “Qualquer magistrado no Brasil, mesmo de
primeiro grau, é investigado sigilosamente”, explica.
Professor na PUC-SP, Pedro Serrano defende
que ações de ministros do STF tenham consequências
O professor também critica a atitude do ministro André Mendonça em relação à
falta de autorização do plenário do STF para iniciar a investigação. Ele lembra
que a troca de mensagens entre Vorcaro e Moraes já havia sido divulgada pela
imprensa. Portanto, Mendonça “tinha total condição de suspeitar que o ministro
Alexandre poderia estar envolvido e uma mera suspeita já enseja pedir
autorização pro plenário”.
Por outro lado, mesmo ressaltando que as
mensagens não provam nenhuma ilegalidade cometida pelo ministro Alexandre de
Moraes, para Serrano, elas trazem “indícios que merecem ser apurados” e, com
isso, “caberia uma investigação” da relação de Moraes com o ex-banqueiro.
Alexandre de Moraes também não escapa das
críticas do professor quanto ao pedido de investigação contra o colega
Mendonça, enviado ao presidente do STF, Edson Fachin, na última quinta-feira, 3
de setembro. “Acho exagerada a decisão de querer investigar o ministro André
[Mendonça]. Não acho que esteja caracterizado esse tipo de gravidade na conduta
dele. Acho que seria adequado retirá-lo da relatoria”, diz Serrano.
“O ministro André [Mendonça] teve um
comportamento inadequado, com relação à própria Corte. E teve também, como foi
revelado, uma certa relação com o Vorcaro”, pondera. A ação, no entanto, não
deveria, na visão do constitucionalista, gerar investigação, e sim o
afastamento do inquérito, por “fundada suspeita de que ele agiu de forma
partidária”.
Entre as medidas apontadas pelo jurista para
diminuir o desgaste que o STF já está sofrendo, seria evitar “ficar entrando na
lógica do espetáculo”. “Por isso que defendo como uma das medidas que a reunião
do plenário do Supremo, para decidir essas questões, só ocorra depois das
eleições”.
Dentro dessa lógica do espetáculo, Pedro
Serrano cita a proliferação de relatórios da PF nas decisões dos ministros e os
vazamentos. “É muito ruim, porque eles são feitos de forma seletiva, e esses
relatórios, na maioria das vezes, são ilegais”.
“O pior é o vazamento de informações; vazar
informação é crime. O jornalista que divulga está no exercício do seu direito
de informar, natural, inclusive tem direito ao sigilo de fonte. Mas o servidor
público, o agente policial, que vaza informação, comete crime. Então, o correto
seria a polícia cortar na carne, processar quem tem vazado informações”,
declara.
>>> Veja os principais trechos da
entrevista com o professor:
·
O STF tem enfrentado
crises institucionais, algumas vezes causadas por algum de seus membros, mas em
grande parcela geradas por uma campanha difamatória e repleta de desinformação.
Qual é o maior risco que a Corte pode sofrer após a retirada do sigilo, pelo
ministro André Mendonça, do relatório da Polícia Federal envolvendo o ministro
Alexandre de Moraes?
A retirada do sigilo daquele relatório foi
uma decisão ilegal e inusual. Qualquer magistrado no Brasil, mesmo magistrado
de primeiro grau, é investigado sigilosamente. Não existe nenhum tipo de
verificação, apuração que envolva um magistrado que não seja sigiloso.
Isso gera toda uma repercussão pública, a meu
ver, prematura e indevida, porque ainda não está claro que foi cometido algum
crime. Você tem indícios que ensejam investigar o ministro Alexandre, mas não
tem ainda a materialidade do delito. O ministro André Mendonça cometeu um
equívoco quando divulgou indevidamente o relatório. E, obviamente, esse
equívoco contribui para que haja problemas na imagem do Supremo.
Por outro lado, embora possam querer anular o
relatório por conta de investigar um ministro do Supremo, outro equívoco dele
foi não ter solicitado autorização do plenário [do STF]. Por mais que ele fale
que não tinha como adivinhar que a pessoa [com quem Daniel Vorcaro] estava
conversando era o ministro Alexandre [de Moraes].
Na realidade, foi divulgado até pela
imprensa, já há bastante tempo, esse diálogo entre o Vorcaro e o ministro
Alexandre. Ele tinha total condição de suspeitar que o ministro Alexandre
poderia estar envolvido e, portanto, uma mera suspeita já enseja pedir
autorização pro plenário. Ele deveria ter pedido autorização. Mas isso, a meu
ver, não torna nulas as provas de base, que são os celulares apreendidos por
ordem judicial de forma totalmente lícita. O que está contido dentro deles é
prova legítima, a meu ver.
E ali não tem crime comprovado do ministro
Alexandre, de modo nenhum, é precipitado falar isso. Mas existem indícios que
merecem ser apurados. Acho que caberia uma investigação.
·
Na sua avaliação, a
despeito da crise institucional que poderia causar, o ministro André Mendonça
agiu corretamente ao expor as informações contidas no relatório?
O ministro André teve um comportamento
inadequado, com relação à própria Corte. E teve também, como foi revelado, uma
certa relação com o Vorcaro, inclusive tendo a suspeita de que ele recebeu um
terno caro do advogado do Vorcaro. Seria também de bom tom ele ser afastado da
relatoria do caso. Tem fundada suspeita de que ele agiu de forma partidária,
por razões de disputa de poder, não por razões de Direito. Tudo isso implica, a
meu ver, que seria bom para a corte afastá-lo da relatoria ou que ele pedisse o
afastamento.
·
O Plenário do STF,
segundo a imprensa, está dividido em relação aos próximos passos. Um grupo deve
seguir a PGR e anular as provas, mas outro pode defender uma investigação ao
ministro Moraes. Essa situação pode ser prejudicial ao bom andamento da Corte?
A divisão que a Corte está tendo é sempre
ruim. Um colegiado, quando unificado, sempre é melhor, mas de qualquer forma,
decisões colegiadas muitas vezes implicam em divergência, então isso não é novo
no Tribunal, é comum. Não acho que isso prejudique a Corte.
·
Na sua opinião, o PGR
Paulo Gonet deveria ter se declarado suspeito para apresentar um parecer sobre
o caso?
Embora não haja nenhum ilícito demonstrado em
relação ao ministro e ao procurador [Paulo] Gonet, só conversas, — e também não
vi ali nenhuma amizade íntima com Vorcaro, nada do gênero, foi só um contato
social mesmo — eu creio que com tudo que está ali, [incluindo a história do
filho [de Paulo Gonet] seria mais adequado ele próprio escolher um
subprocurador-geral e botar outra pessoa para subscrever.
Não acho que ele seja necessariamente
suspeito. Para mim, não está caracterizada a suspeição, mas de qualquer forma,
seria adequado, de bom alvitre, de bom procedimento, ele escolher outra pessoa
para subscrever.
·
O senhor avalia que
seria necessário investigar o ministro Alexandre de Moraes, o procurador-Geral
da República, Paulo Gonet e o diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues? Todos
foram citados no relatório da PF divulgado por André Mendonça.
As mensagens divulgadas com relação ao
ministro Alexandre de Moraes não caracterizam ainda crime. Tem suspeita,
indícios que ensejam uma apuração e, no final dessa apuração, se verifica se
obtiveram provas ou não de alguma ilicitude.
O mesmo não acredito que ocorra com o PGR
[Paulo] Gonet e com Andrei Rodrigues, diretor da PF. Não existe ali nenhum
indício que leve a uma investigação deles, não há ilicitude. Foram citados os
nomes, mas não vejo nada que comprometa a conduta deles. Acho que o correto
seria investigar o ministro Alexandre, a conduta dele, mas não a do delegado
Andrei e não a do PGR.
·
Quais os caminhos podem
ser percorridos pelo STF diante dessa crise? Quais as oportunidades de mudança
o senhor enxerga para o STF nesse momento?
Grosso modo, eu acho que o caminho a ser
seguido é, de um lado, autorizar a investigação do ministro Alexandre e, do
outro, afastar o ministro André Mendonça da relatoria [do inquérito do banco
Master]. Porque o ministro André Mendonça também não foi bem na forma como se
conduziu.
Vai ter um desgaste inevitável para o
Supremo. O desgaste já está ocorrendo. Eu acho que você reduz o desgaste
quando adota posturas jurídicas, técnicas, em vez de ficar entrando na
lógica do espetáculo. Por isso é que defendo como uma das medidas que a reunião
do plenário do Supremo, para decidir essas questões, só ocorra depois das
eleições. A eleição está logo aí. Se houver algum ilícito, algum crime, ele não
prescreve rapidamente.
Então, não há motivo para tomarem uma medida
açodada e, se a decisão ocorrer antes da eleição, a meu ver, vai servir ao
espetáculo e não ao Direito, porque vai ser um ‘fuzuê’ em plena eleição.
·
A atitude do ministro
Alexandre de Moraes ao solicitar ao presidente do STF que investigue o ministro
André Mendonça, no Inquérito das Fake News, gera mais instabilidades
institucionais ou, pelo contrário, pode dar fim à crise?
Eu acho exagerada a decisão de querer
investigar o ministro André. Não acho que esteja caracterizado esse tipo de
gravidade na conduta dele. Acho que seria adequado retirá-lo da relatoria. Mas
não creio que tenha sentido incluí-lo nesse inquérito das fake news. Acho que
foi uma conduta um pouco exagerada.
·
Quanto ao papel da
Polícia Federal, é comum e está de acordo com o devido processo legal essa
proliferação de relatórios, inclusive investigando autoridades com
prerrogativas, como ministro do STF e o procurador-Geral da República, ou
criticando procedimentos adotados por outros ministros do STF? Isso pode virar
uma “guerra entre instituições”?
Não apenas a proliferação de relatórios é
muito ruim, porque eles são feitos de forma seletiva, como esses relatórios,
essas investigações, na maioria das vezes, são ilegais. E por que esses atos de
investigação são ilegais? Porque há autoridades com foro, tem que haver
autorização do Supremo para poder investigar, inclusive ministro, em especial
ministro do STF.
O pior é o vazamento de informações; vazar
informação é crime. O jornalista que divulga está no exercício do seu direito
de informar, natural, inclusive tem direito ao sigilo de fonte. Mas, o servidor
público, o agente policial, que vaza informação, comete crime. Então, o correto
seria a polícia cortar na carne, processar quem tem vazado informações.
É importante haver esse tipo de sanção,
porque é isso que cria o espetáculo; e o vazamento de informação é sempre
seletivo. Ninguém vaza o inquérito todo. Então, essa seletividade não é à toa,
é feita porque pode haver um desejo de agir político do policial que vaza. Ou
seja, querer que repercuta nas eleições. Isso é muito grave, atinge até a
democracia. Realmente, eu creio que deveria punir os agentes que vazam
informações.
·
O senhor vê a
possibilidade de punição para os ministros Alexandre de Moraes e André Mendonça
diante das últimas divulgações, até mesmo por meio de um possível processo de
impeachment por parte do Senado?
Eu não acho que, nem no caso do ministro
Alexandre, nem no caso do ministro André, esteja caracterizado o crime de
responsabilidade que enseja impeachment. Nós não estamos no parlamentarismo. Já
escrevi muito sobre isso. O parlamento não pode ficar decidindo aplicar
impeachment sem que haja crime de responsabilidade caracterizado. Nesses dois
casos, não há.
Por enquanto, no [caso do] ministro
Alexandre, o que há são indícios. Ainda não existem fatos que estejam
materialmente caracterizados como crime de responsabilidade. O ministro André
Mendonça, a mesma coisa. Pode ter praticado uma irregularidade ou outra, agiu
de forma, talvez, política, mas isso não enseja, a meu ver, impeachment.
Não é qualquer ilegalidade ou qualquer
inconstitucionalidade que pode gerar impeachment. Tem que ser um atentado
contra a Constituição, é o que a própria Constituição determina. Então eu acho
que, por enquanto, não está caracterizada conduta que gere impeachment para
nenhum dos dois.
·
Essa individualização do
uso da máquina pública abre a possibilidade de nulidades nos processos
envolvidos, como o Inquérito das Fake News e na própria Compliance Zero?
Eu acho que é prematuro ainda se falar em
nulidade. Nulidades por conta dessas divulgações e dessa crise toda, mas pode
ser que venha a gerar no futuro. Por hora, eu acho prematuro falar nisso.
Fonte: Por Gabriel Barros, na Pública

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