Guerras culturais
Há quase dez anos atrás, em uma pequena
universidade pública do estado de Washington chamada Evergreen State College,
um professor de biologia ganhou notoriedade nacional por contestar os rumos de
uma política de equidade e inclusão no campus. Bret Weinstein tinha, à época,
credenciais progressistas pouco contestáveis, e suas críticas eram dirigidas
menos aos objetivos declarados da iniciativa do que aos métodos e mecanismos de
coerção que começavam a acompanhá-la. Nada disso, porém, o protegeria do que
viria a seguir.
Quando suas posições chegaram ao conhecimento
de um grupo de estudantes, cerca de cinquenta deles interromperam sua aula,
acusaram-no de racismo e exigiram sua demissão. Nos dias seguintes, os
protestos se espalharam por prédios administrativos, entradas foram barricadas
e dirigentes passaram horas sob forte intimidação. A demanda era para que a
universidade reagisse a uma suposta ameaça supremacista no campus – ameaça que,
segundo os manifestantes, Bret Weinstein personificava.
No dia seguinte, ativistas passaram a
fiscalizar entradas da universidade à procura de Bret Weinstein. Há também
registros de estudantes patrulhando o campus à noite com tacos de beisebol, sob
a justificativa de procurar supremacistas brancos. No terceiro dia, em meio à
histeria, o departamento de segurança entra em contato com Bret Weinstein e o
aconselha a não retornar ao campus: já não podiam mais garantir sua segurança.
Pouco depois, Weinstein e sua esposa, também professora em Evergreen, deixam
seus cargos. Nenhum dos dois voltaria a lecionar em uma universidade.
É preciso ver para crer o estado de caos e
anarquia que tomou conta de Evergreen ao longo da crise. Quase tudo,
felizmente, aconteceu diante de celulares ligados, fornecendo material
suficiente para que o cineasta Mike Nayna produzisse um extraordinário documentário
em três partes, disponível no YouTube – sem falar nos inúmeros artigos, ensaios
e estudos que o episódio posteriormente inspirou.
Embora esse material esteja disponível há
quase uma década, poucos no Brasil se debruçaram sobre ele para perguntar o
que, afinal, o caso Evergreen tem a nos ensinar. Talvez agora, em meio à
evidente escalada de intolerância e radicalismo no campus universitário
brasileiro, seja hora de fazer essa pergunta.
A história que emerge dos registros de
Evergreen não ressalta apenas a arruaça de alguns alunos radicais. Muito mais
interessante é o que se vê ao redor da arruaça em si: uma ampla rede de apoio e
permissividade cultivada há anos pela própria universidade. Um ambiente
intelectual disfuncional em que o dissenso era recebido como heresia. Uma
militância extremista capaz de mobilizar – ou manipular – as simpatias
progressistas da universidade para acobertar sua truculência.
Uma administração que irresponsavelmente
incorporava ideias identitárias às suas práticas institucionais, tratando
qualquer contestação como evidência de racismo. Uma universidade que, ao fim de
tudo, foi incapaz de oferecer qualquer resistência ao radicalismo ou qualquer
amparo institucional àqueles que se tornaram seus alvos.
Escorraçado da universidade onde lecionou por
mais de quinze anos e sem ter a quem recorrer, Bret Weinstein encontrou o único
microfone disposto a ouvir sua história nas mãos de Tucker Carlson, na Fox
News, e aceitou conceder uma entrevista. O relutante professor progressista
mais tarde relataria o desconforto de ter encontrado justamente no ecossistema
conservador o espaço que não conseguira obter dentro do próprio campo político.
Independentemente disso, a partir dali Evergreen se tornaria uma peça de acusação
paradigmática para quem quisesse argumentar que a educação superior americana
havia se tornado um antro de radicalismo progressista.
É difícil medir o efeito que Evergreen teve,
por si só, sobre o desenrolar das guerras culturais americanas nos anos
seguintes. O episódio foi, na verdade, apenas uma manifestação entre várias de
um fenômeno meticulosamente registrado no livro de Greg Lukianoff e Rikki
Schlott, The Canceling of the American Mind. Ao longo da última década,
centenas – talvez milhares – de professores e alunos em diversos campi
universitários experimentaram, com intensidade crescente, casos de ostracismo,
intolerância e perseguição ideológica.
A crise não passou despercebida: iniciativas
como a FIRE, a Heterodox Academy e a BridgeUSA surgiram e ganharam força
tentando ampliar a liberdade de expressão, o pluralismo e o diálogo no campus.
Também se multiplicaram livros, artigos e debates promovidos por acadêmicos
respeitados – muitos deles à esquerda – alertando para os efeitos do extremismo
político da própria esquerda sobre a vida universitária. Ainda assim, a reação
institucional foi, no geral, tímida. Universidades reconheciam com facilidade
que promover diálogo no campus era desejável, mas muito raramente admitiam, de
forma clara, que havia também um problema de radicalismo
progressista-identitário a ser enfrentado.
Uma resposta mais enfática a esse radicalismo
viria, no entanto, com o segundo mandato de Donald Trump. A partir daí a
universidade americana se tornaria alvo de uma campanha federal de pressão em
escala inédita na história recente do país: verbas bilionárias de pesquisa
foram congeladas ou canceladas, projetos interrompidos, pesquisadores demitidos
e instituições pressionadas a rever políticas de admissão, diversidade,
disciplina e governança. O discurso por trás dessa ofensiva é conhecido: as
universidades teriam sido capturadas pelo identitarismo “woke” e precisam, por
isso, ser submetidas a maior controle político.
No repertório de justificativas para a
ofensiva, Evergreen e episódios semelhantes aparecem frequentemente como
exemplos do problema que o governo republicano precisa corrigir. Ainda não
sabemos onde ou quando terminará a ofensiva em curso contra as universidades
americanas – apenas que, depois de anos de escalada, os custos já são
dramáticos e provavelmente ainda aumentarão.
O que isso tudo significa para o Brasil?
Já virou lugar comum dizer que ideias
americanas costumam atravessar o equador com algum atraso. Pois bem. Em agosto
de 2026, já é possível dizer que vivemos o nosso próprio momento Evergreen. Na
terça-feira 25, Diego Costa Araújo, 27 anos, estudante de história da UFRJ, foi
acusado de apologia ao nazismo, retirado de sua sala de aula, empurrado escada
abaixo e brutalmente espancado por uma dezena de colegas no Instituto de
Filosofia e Ciências Sociais, no Largo de São Francisco.
Nas horas seguintes, vídeos da agressão
viralizaram nas redes sociais. A apuração posterior revela que Diego Costa
Araújo, na verdade, se considera membro da esquerda marxista e ainda usava um
broche antinazista no momento do espancamento. Nenhuma evidência substantiva
que sustente as acusações feitas pelos agressores foi apresentada até agora.
Assim como em Evergreen, o mais perturbador
no caso de Diego Costa Araújo não é o surto isolado de radicalismo estudantil,
mas o que se revela ao redor dele. Manifestos de diversas organizações
acadêmicas assinados por centenas de alunos, docentes e funcionários já
circulam em solidariedade aos supostos “estudantes agredidos” (leia-se: os
linchadores) e em repúdio a Diego. Tanto essas declarações quanto inúmeros
influenciadores digitais tratam como fato consumado a alegação de que ele seria
um neonazista.
Movimentos estudantis agora convocaram
vigílias e atos contra o nazismo, como se pairasse sobre o campus uma ameaça de
tal ordem que autorizasse o linchamento de suspeitos. Até mesmo parte da
cobertura jornalística continua caracterizando Diego Costa Araújo como nazista
ou – menos grave, mas ainda assim irresponsável – deslocando para o espancado o
ônus de demonstrar que não é nazista. Enquanto isso, Diego já se vê às voltas
com acusações formais de injúria racial e lesão corporal, além da imputação pública
de apologia ao nazismo, amplificada por uma rede de desinformação online que
reproduz as acusações em larga escala. “Apanhou foi pouco” continua sendo o
mote em boa parte desses fóruns.
Até agora, salvo tímidas exceções, há poucos
sinais de que as universidades brasileiras estejam preparadas para responder
com firmeza aos extremistas que agrediram Diego, muito menos às redes de apoio
que estimulam esse tipo de agressão e intimidam alunos e professores ao redor
do país. Isso não significa, porém, que nenhuma resposta virá.
Como mostra a experiência americana, a
percepção de que a universidade produz e legitima esse tipo de comportamento
pode alimentar uma reação político-cultural de enorme alcance. Cada caso de
perseguição, cada nota que transforma o agredido em réu e cada silêncio
institucional diante da coerção contribui para consolidar a imagem da
universidade como um ambiente radical, intolerante e hostil a qualquer dissenso
– uma imagem que pode ser facilmente instrumentalizada por quem deseja
submetê-la a formas cada vez mais agressivas de controle político.
E o que acontecerá a partir de agora? É
difícil saber o efeito que o caso de Diego Costa Araújo terá, por si só, sobre
os rumos das nossas guerras culturais. Mas se Evergreen pode nos ensinar algo é
que a universidade brasileira pode estar diante de uma encruzilhada. Será que
ela seguirá fingindo que não há nada de errado, jogando seus alunos e
professores à mercê do radicalismo interno e, de quebra, pendurando nas
próprias costas um alvo para o primeiro governo de direita disposto a atirar?
Ou será que ela criará um pouco de coragem e mostrará alguma capacidade de
enfrentar de forma honesta e responsável os mecanismos que permitem a esse
radicalismo se enraizar cada vez mais na nossa educação superior?
O caminho que a comunidade acadêmica
escolher, nesse momento, pode definir não apenas sua capacidade interna de
defender o pluralismo e a liberdade de pensamento no campus, mas também a
legitimidade pública da qual ela tanto depende.
Fonte: Por Pedro Damazio Franco, em A Terra é
Redonda

Nenhum comentário:
Postar um comentário