terça-feira, 8 de setembro de 2026

Guerras culturais

Há quase dez anos atrás, em uma pequena universidade pública do estado de Washington chamada Evergreen State College, um professor de biologia ganhou notoriedade nacional por contestar os rumos de uma política de equidade e inclusão no campus. Bret Weinstein tinha, à época, credenciais progressistas pouco contestáveis, e suas críticas eram dirigidas menos aos objetivos declarados da iniciativa do que aos métodos e mecanismos de coerção que começavam a acompanhá-la. Nada disso, porém, o protegeria do que viria a seguir.

Quando suas posições chegaram ao conhecimento de um grupo de estudantes, cerca de cinquenta deles interromperam sua aula, acusaram-no de racismo e exigiram sua demissão. Nos dias seguintes, os protestos se espalharam por prédios administrativos, entradas foram barricadas e dirigentes passaram horas sob forte intimidação. A demanda era para que a universidade reagisse a uma suposta ameaça supremacista no campus – ameaça que, segundo os manifestantes, Bret Weinstein personificava.

No dia seguinte, ativistas passaram a fiscalizar entradas da universidade à procura de Bret Weinstein. Há também registros de estudantes patrulhando o campus à noite com tacos de beisebol, sob a justificativa de procurar supremacistas brancos. No terceiro dia, em meio à histeria, o departamento de segurança entra em contato com Bret Weinstein e o aconselha a não retornar ao campus: já não podiam mais garantir sua segurança. Pouco depois, Weinstein e sua esposa, também professora em Evergreen, deixam seus cargos. Nenhum dos dois voltaria a lecionar em uma universidade.

É preciso ver para crer o estado de caos e anarquia que tomou conta de Evergreen ao longo da crise. Quase tudo, felizmente, aconteceu diante de celulares ligados, fornecendo material suficiente para que o cineasta Mike Nayna produzisse um extraordinário documentário em três partes, disponível no YouTube – sem falar nos inúmeros artigos, ensaios e estudos que o episódio posteriormente inspirou.

Embora esse material esteja disponível há quase uma década, poucos no Brasil se debruçaram sobre ele para perguntar o que, afinal, o caso Evergreen tem a nos ensinar. Talvez agora, em meio à evidente escalada de intolerância e radicalismo no campus universitário brasileiro, seja hora de fazer essa pergunta.

A história que emerge dos registros de Evergreen não ressalta apenas a arruaça de alguns alunos radicais. Muito mais interessante é o que se vê ao redor da arruaça em si: uma ampla rede de apoio e permissividade cultivada há anos pela própria universidade. Um ambiente intelectual disfuncional em que o dissenso era recebido como heresia. Uma militância extremista capaz de mobilizar – ou manipular – as simpatias progressistas da universidade para acobertar sua truculência.

Uma administração que irresponsavelmente incorporava ideias identitárias às suas práticas institucionais, tratando qualquer contestação como evidência de racismo. Uma universidade que, ao fim de tudo, foi incapaz de oferecer qualquer resistência ao radicalismo ou qualquer amparo institucional àqueles que se tornaram seus alvos.

Escorraçado da universidade onde lecionou por mais de quinze anos e sem ter a quem recorrer, Bret Weinstein encontrou o único microfone disposto a ouvir sua história nas mãos de Tucker Carlson, na Fox News, e aceitou conceder uma entrevista. O relutante professor progressista mais tarde relataria o desconforto de ter encontrado justamente no ecossistema conservador o espaço que não conseguira obter dentro do próprio campo político. Independentemente disso, a partir dali Evergreen se tornaria uma peça de acusação paradigmática para quem quisesse argumentar que a educação superior americana havia se tornado um antro de radicalismo progressista.

É difícil medir o efeito que Evergreen teve, por si só, sobre o desenrolar das guerras culturais americanas nos anos seguintes. O episódio foi, na verdade, apenas uma manifestação entre várias de um fenômeno meticulosamente registrado no livro de Greg Lukianoff e Rikki Schlott, The Canceling of the American Mind. Ao longo da última década, centenas – talvez milhares – de professores e alunos em diversos campi universitários experimentaram, com intensidade crescente, casos de ostracismo, intolerância e perseguição ideológica.

A crise não passou despercebida: iniciativas como a FIRE, a Heterodox Academy e a BridgeUSA surgiram e ganharam força tentando ampliar a liberdade de expressão, o pluralismo e o diálogo no campus. Também se multiplicaram livros, artigos e debates promovidos por acadêmicos respeitados – muitos deles à esquerda – alertando para os efeitos do extremismo político da própria esquerda sobre a vida universitária. Ainda assim, a reação institucional foi, no geral, tímida. Universidades reconheciam com facilidade que promover diálogo no campus era desejável, mas muito raramente admitiam, de forma clara, que havia também um problema de radicalismo progressista-identitário a ser enfrentado.

Uma resposta mais enfática a esse radicalismo viria, no entanto, com o segundo mandato de Donald Trump. A partir daí a universidade americana se tornaria alvo de uma campanha federal de pressão em escala inédita na história recente do país: verbas bilionárias de pesquisa foram congeladas ou canceladas, projetos interrompidos, pesquisadores demitidos e instituições pressionadas a rever políticas de admissão, diversidade, disciplina e governança. O discurso por trás dessa ofensiva é conhecido: as universidades teriam sido capturadas pelo identitarismo “woke” e precisam, por isso, ser submetidas a maior controle político.

No repertório de justificativas para a ofensiva, Evergreen e episódios semelhantes aparecem frequentemente como exemplos do problema que o governo republicano precisa corrigir. Ainda não sabemos onde ou quando terminará a ofensiva em curso contra as universidades americanas – apenas que, depois de anos de escalada, os custos já são dramáticos e provavelmente ainda aumentarão.

O que isso tudo significa para o Brasil?

Já virou lugar comum dizer que ideias americanas costumam atravessar o equador com algum atraso. Pois bem. Em agosto de 2026, já é possível dizer que vivemos o nosso próprio momento Evergreen. Na terça-feira 25, Diego Costa Araújo, 27 anos, estudante de história da UFRJ, foi acusado de apologia ao nazismo, retirado de sua sala de aula, empurrado escada abaixo e brutalmente espancado por uma dezena de colegas no Instituto de Filosofia e Ciências Sociais, no Largo de São Francisco.

Nas horas seguintes, vídeos da agressão viralizaram nas redes sociais. A apuração posterior revela que Diego Costa Araújo, na verdade, se considera membro da esquerda marxista e ainda usava um broche antinazista no momento do espancamento. Nenhuma evidência substantiva que sustente as acusações feitas pelos agressores foi apresentada até agora.

Assim como em Evergreen, o mais perturbador no caso de Diego Costa Araújo não é o surto isolado de radicalismo estudantil, mas o que se revela ao redor dele. Manifestos de diversas organizações acadêmicas assinados por centenas de alunos, docentes e funcionários já circulam em solidariedade aos supostos “estudantes agredidos” (leia-se: os linchadores) e em repúdio a Diego. Tanto essas declarações quanto inúmeros influenciadores digitais tratam como fato consumado a alegação de que ele seria um neonazista.

Movimentos estudantis agora convocaram vigílias e atos contra o nazismo, como se pairasse sobre o campus uma ameaça de tal ordem que autorizasse o linchamento de suspeitos. Até mesmo parte da cobertura jornalística continua caracterizando Diego Costa Araújo como nazista ou – menos grave, mas ainda assim irresponsável – deslocando para o espancado o ônus de demonstrar que não é nazista. Enquanto isso, Diego já se vê às voltas com acusações formais de injúria racial e lesão corporal, além da imputação pública de apologia ao nazismo, amplificada por uma rede de desinformação online que reproduz as acusações em larga escala. “Apanhou foi pouco” continua sendo o mote em boa parte desses fóruns.

Até agora, salvo tímidas exceções, há poucos sinais de que as universidades brasileiras estejam preparadas para responder com firmeza aos extremistas que agrediram Diego, muito menos às redes de apoio que estimulam esse tipo de agressão e intimidam alunos e professores ao redor do país. Isso não significa, porém, que nenhuma resposta virá.

Como mostra a experiência americana, a percepção de que a universidade produz e legitima esse tipo de comportamento pode alimentar uma reação político-cultural de enorme alcance. Cada caso de perseguição, cada nota que transforma o agredido em réu e cada silêncio institucional diante da coerção contribui para consolidar a imagem da universidade como um ambiente radical, intolerante e hostil a qualquer dissenso – uma imagem que pode ser facilmente instrumentalizada por quem deseja submetê-la a formas cada vez mais agressivas de controle político.

E o que acontecerá a partir de agora? É difícil saber o efeito que o caso de Diego Costa Araújo terá, por si só, sobre os rumos das nossas guerras culturais. Mas se Evergreen pode nos ensinar algo é que a universidade brasileira pode estar diante de uma encruzilhada. Será que ela seguirá fingindo que não há nada de errado, jogando seus alunos e professores à mercê do radicalismo interno e, de quebra, pendurando nas próprias costas um alvo para o primeiro governo de direita disposto a atirar? Ou será que ela criará um pouco de coragem e mostrará alguma capacidade de enfrentar de forma honesta e responsável os mecanismos que permitem a esse radicalismo se enraizar cada vez mais na nossa educação superior?

O caminho que a comunidade acadêmica escolher, nesse momento, pode definir não apenas sua capacidade interna de defender o pluralismo e a liberdade de pensamento no campus, mas também a legitimidade pública da qual ela tanto depende.

 

Fonte: Por Pedro Damazio Franco, em A Terra é Redonda

 

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